quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O último narrador

Esta folha está em contagem decrescente. 
É a última folha do último caderno do último dia do ano. 
O narrador deste texto também é o último narrador do ano, por isso poupa no papel, encolhe as asas e as letras. Tem poucas linhas, poucas palavras, pouca terra, pouca terra. 
O narrador deste texto está num comboio. 
Vem sentado à janela, claro. É um narrador contemplativo e sensível. Observa os pinheiros que passam, as casas que passam e pensa precisamente nisso: que tudo passa, todas as coisas de todos os dias, incluindo aquele avião ao longe, estas duas galinhas ao perto, certas dores por dentro. As dores também passam, o corpo passa, a alma passa. Somos passageiros do tempo. Andamos sobre rodas sobre carris sobre terra. O narrador decide dedicar a última folha do último dia a esta sua reflexão medíocre, mas felizmente um homem interrompe-lhe o texto. Pergunta-lhe: Deseja tomar alguma coisa? O narrador abana a cabeça antes de perceber a pergunta. Não, não deseja tomar nada, deseja só narrar o seu texto, mas este seu desejo também passa. O narrador passageiro está sem palavras na ponta da língua nem na ponta dos dedos. Tudo passa, a literatura passa, as palavras passam. A última folha do último dia suspira. O narrador busca inspiração na sua garrafa de água mineral natural Luso e regressa à janela pendular. Uma família de oliveiras passa ao longe e ao perto. São oliveiras muito bem comportadas, parecem militares camuflados. De vez em quando, o sol lança raios e coriscos à cabeça do narrador. 
A ponta dos dedos aponta para a folha. 
Próxima estação: Coimbra B. As pessoas estão muito alinhadas na estação, muito quietas. Parecem bonecos disfarçados de pessoas. 
A nuvem de um cigarro passa, a nuvem do céu também passa. 
O narrador boceja e logo a seguir apressa-se para chegar ao fim da última folha do último dia. 
Apetece-lhe fazer outra coisa qualquer. 
Por exemplo, ler. 
Por exemplo, dormir. 
Ler e depois dormir. 
O narrador deste texto não é um narrador a sério. 
É um narrador a fingir. Está só de passagem por aqui.
A última folha do último caderno chegou ao fim.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

The summer without men

Para combater o inverno, ando a enfiar a carapuça e a ler o The summer without men (Verão sem homens) da Siri Hustvedt.
A páginas tantas, a narradora cobriu-me de beijos.
Gostei.

But before I get to that, I want to tell you, Gentle Person out there, that if you are here with me now, on the page, I mean, if you have come to this paragraph, if you have not given up and sent me, Mia, flying across the room or even if you have, but you got to wondering whether something might not happen soon and picked me up again and are reading still, then I want to reach out for you and take your face in both my hands and cover you with kisses, kisses on your cheeks and chin and all over your forehead and one on the bridge of your (variously shaped) nose, because I am yours, all yours.
I just wanted you to know.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Supergigante em Cascais

Notícias bombásticas:
No próximo sábado, 29 de novembro, pelas 16 horas, o Supergigante vai rebentar com a Biblioteca Casa da Horta em Cascais, uma casa cor de rosa como os meus sonhos.
Se quiserem ver o fogo de artifício, apareçam por lá. É que o Supergigante, além de gigante, é uma explosão contínua.

Mais informações sobre esta conversa explosiva aqui e aqui.

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Anonanimal

Em novembro o meu cabelo cai com as folhas das árvores e só me apetece ter o pássaro Andrew Bird enfiado nas orelhas. As mãos doem-me em tons de amarelo e vermelho. Os ouvidos também. Fico um bocado Anonanimal.
Vale a pena ler a letra da canção.
É outra queda outonal.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

10 anos

Saí de Portugal há 10 anos. Foi no dia 4 de novembro de 2004.
Tinha um bilhete de ida e volta, mas afinal não voltei. Emigrei para o inverno. Trazia comigo uma mala e uma cabeça cheia de coisas lá dentro.
Na Alemanha comecei a ler o que me apetecia e não o que me mandavam ler.
Comprei A Carta ao Pai numa livraria pequenina que vendia livros pequeninos.
Eu tropeçava na língua alemã e também na neve e no vinho quente. O meu primeiro gorro tinha trancinhas.
Os meus amigos alemães tinham convicções. Eu tinha cada vez mais dúvidas.
Eu vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina. A chuva fazia muito barulho contra a janela e eu escrevia longas cartas ao som da chuva. A minha escrivaninha abanava com a força da minha caneta. A minha caneta fazia barulho contra o mundo.
Quando vou a Portugal, regresso ao passado. O meu país é a casa dos meus pais.
Talvez por isso as minhas histórias morem na adolescência.
Em 10 anos, aprendi mais sobre mim do que sobre os outros. Sei cada vez mais sobre cada vez menos.
Uma década depois, continuo com saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Eu gosto de ter saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Gosto de ser um bicho estranho e sofredor.
Estou cada vez mais nostálgica. Cada vez mais portuguesa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

The Remains of the Day

The Remains of the Day é um livro para ampliar o tempo.
E a dignidade.

O mordomo de Kazuo Ishiguro é das personagens mais nobres que conheço.

But then as I continued to stand there, a curious thing began to take place; that is to say, a deep feeling of triumph started to well up within me. I cannot remember to what extent I analysed this feeling at the time, but today, looking back on it, it does not seem so difficult to account for. I had, after all, just come through an extremely trying evening, throughout which I had managed to preserve a "dignity in keeping with my position" – and had done so, moreover, in a manner even my father might have been proud of. And there across the hall, behind the very doors upon which my gaze was then resting, within the very room where I had just executed my duties, the most powerful gentlemen of Europe were conferring over the fate of our continent. Who would doubt at that moment that I had indeed come as close to the great hub of things as any butler could wish? I would suppose, then, that as I stood there pondering the events of the evening – those that had unfolded and those still in the process of doing so – they appeared to me a sort of summary of all that I had come to achieve thus far in my life. I can see few other explanations for that sense of triumph I came to be uplifted by that night.

The Remains of the Day, Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

E se o mundo inteiro lesse o mesmo livro?

No outro dia fui à livraria Passaporta ouvir o Bernardo Carvalho, o escritor brasileiro (e não o ilustrador português). O escritor tirou do bolso do casaco um chorrilho de perguntas que lançou ao público. Ficámos todos com ar de ponto de interrogação. "Não há nada mais desagradável que a dúvida."
Bernardo Carvalho fez uma leitura enérgica em português e o público seguiu a tradução em francês, neerlandês e inglês que ia sendo projetada num écrã gigante.
No Passaporta é sempre assim. "Todo mundo fala, por assim dizer, de forma figurada, a língua que todo mundo entende".

Segue-se uma citação livre do texto interrogativo "O óbvio ululante" que o autor leu na conferência:

Há alguns anos, lá na empresa, alguém teve uma ideia genial: E se o mundo inteiro lesse o mesmo livro?

E se o mundo inteiro fizesse exatamente a mesma coisa, achando que faz diferente, não seria mais fácil e natural supervisionar o mundo e, por conseguinte, encontrar o livro que todo mundo vai ler? E se, para isso acontecer, a gente criasse um dispositivo no qual quanto mais as pessoas lessem uma coisa, mais a mesma coisa seria lida e quanto mais as pessoas vissem uma coisa, mais ela seria vista? Não parece óbvio? E não seria mais fácil para todos, lá na empresa, delegar o trabalho de achar o livro que todo mundo quer ler a esse dispositivo redudante, natural e óbvio?

Se as outras empresas dão ao mundo o que o mundo quer, por que a nossa haveria de dar ao mundo o que nem todo mundo quer? É a lei da oferta e da procura. Não é lógico e natural? A lógica e a natureza são as mães de todas as coisas. A começar pela economia. E por que não pela cultura?

E se usássemos a língua que todo mundo fala, por assim dizer, de forma figurada, a língua que todo mundo entende, para fazer todo mundo ler o mesmo livro? Não seria lógico e natural? E se fizéssemos as pessoas das mais diferentes línguas escrever cada vez em menos línguas até chegar a uma só, a mesma língua para todos?

E qual melhor atrativo do que saber que se escreve na língua que todo mundo entende? E se, para persuadir os renitentes, que se recusassem a escrever nessa língua comum, a gente desse a impressão de que continuavam escrevendo em línguas diferentes?

E se a gente inventasse um nome para todos esses sotaques incorporados na mesma língua, numa única língua para todo mundo entender? Algo como multiculturalismo? Não seria incrível?

E se a gente criasse um mecanismo e uma lógica, com base matemática e científica, por meio dos quais quanto mais se visse uma coisa mais essa coisa seria vista e quanto mais uma pessoa lesse uma coisa, mais as outras seriam levadas a ler a mesma coisa, achando que chegavam a essa coisa por mérito e esforço próprio? Não seria incrível?

Para que contrariar as pessoas se podemos concordar com elas e com o que elas acham natural? Para que provocar o público? Para que forçá-lo a ver coisas que ele não vê a olho nu? Ou que não quer ver? Que presunção é essa, meu Deus?

Então, se perguntarem o que é bom, que é que eu digo? E quando eu já não estiver aqui para dizer? Ora, basta deixar as pessoas dizerem que bom é o que é natural, e o natural é o que elas acreditam. Que foi? Deus não é bom? Então?

No que é que vocês mais acreditam: numa história que é o relato de alguma coisa que realmente aconteceu ou numa loucura qualquer tirada da cabeça singular de uma pessoa? O que é que tem mais ressonância? O que de fato ocorreu e todo mundo pode comprovar ou os pensamentos antinaturais de um doido?

Ninguém quer ler livros que põem em dúvida o que estão contando. Percebem?
Tem que fazer acreditar para ser bom. Se começa a questionar, acabou.

Os terroristas da exceção acreditam nas singularidades, de verdade! E nos problemas. Eles dizem que a arte deve apresentar problemas, que a arte não tem de criar soluções. Eles querem criar problemas! Mas o público quer soluções. Ninguém precisa de mais problemas.

Onde na empresa funcionamos por pleunasmos, os terroristas da exceção funcionam por paradoxos. E aonde é que isso pode levar? A um mundo de dois ou três gênios, dizendo coisas que contrariam o que todos nós pensamos em consenso? É isso? Desde quando literatura é reflexão? E onde fica o  prazer da leitura? Quem é que quer ler o que não dá prazer?

E o que é que eles querem? Criar tantas visões de mundo quantos livros forem publicados? E como é que isso é possível com a quantidade de livros que precisamos publicar para que o mundo continue caminhando na mesma direção e nós sigamos recebendo nossos salários? Querem ofender o público e gosto do público às custas dos nossos bônus?

Não há nada mais desagradável que a dúvida. Quem quer duvidar? E para que serve a literatura se não for para confirmar e agradar? Eu pergunto: Para quê? Que contraexemplos eles têm para dar? Os impressionistas? A arte moderna? A ciência? É isso? É pra rir?

Curiosamente, nesta noite interrogativa, aconteceu um verdadeiro ato de "terrorismo de exceção": o Bernardo Carvalho venceu o Prêmio Jabuti pelo seu romance "Reprodução".
Se calhar é este livro que toda a gente vai ler (eu vou).
Não seria lógico e natural?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Folhas soltas

Não há nada mais solto do que escrever em folhas soltas.
A letra sai folgada e espaçosa, as palavras são desprendidas, não pertencem a ninguém.
As folhas soltas são livres e independentes, sabem a mar e a vento.
É possível fazer uma bola com uma folha solta. Um barco, um avião. Outra coisa qualquer.
Algumas folhas soltam-se e nunca mais regressam. São devassas e infiéis.
Tenho saudades de escrever em folhas soltas. No verso de papéis antigos, em folhas de rascunho.
Algumas folhas soltas dizem uma coisa de um lado e outra do outro. Por vezes, são feias porque vêm riscadas, emendadas, desalinhadas.
Alguns livros não deviam ser livros.
Deviam ser publicações abertas. Uma caixa de folhas soltas. Um envelope. Um dossiê.
Poemas e histórias desapertados. Sempre dava para atirar literatura pela janela.
Toma lá um conto da Alice Munro.
Um poema do Alexandre O'Neill.
Uma carta do Albert Camus.
Uma folha solta é espontânea e criativa. Desenlaça uma história sozinha. Foi assim com o Paperman. Era assim comigo.
Eu já não escrevo em folhas soltas, não sei porquê. Tenho cadernos previsíveis de folhas muito presas. Sou mais organizada, menos desenfreada, menos desunida. Tenho prisão de ventre.
O mais próximo que tenho de folhas soltas é um caderno de argolas. Pelo menos, dá para arrancar as folhas e libertá-las da ordem. E abaná-las. Amachucá-las. Deitá-las no lixo. Pô-las de castigo na gaveta.
Mas as folhas arrancadas não são folhas soltas.
São folhas tristes e abandonadas.
Não são rajadas de letras.
Não são desenfreadas.
Não sabem a vento.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Dia Internacional dos Tradutores

Parece-me muito bem que haja um dia internacional dos tradutores
Hoje bato palmas aos tradutores, porque, coitados, também merecem. A verdade é que ninguém aplaude a tradução de um discurso ou de um texto dramático ou de um poema. Se a peça é boa, felicita-se o encenador. Se o discurso cativa, elogia-se o autor. Uma boa tradução, aliás, passa despercebida.
Os tradutores passam despercebidos.
Quanto mais sei sobre outros idiomas, menos sei sobre a minha língua materna. O multilinguismo confunde-me. Quando aprendo uma língua nova, desaprendo outra. Quanto mais escrevo em português, mais dificuldade tenho em traduzir. Escrever é traduzir. Interpretar é traduzir o outro. 
Eu cá sou linguista e linguaruda, não tenho muitas papas na língua. Além disso, gosto de línguas-de-gato e de línguas-da-sogra, sou lambona.
Num mundo tão interligado e linguareiro como este, os conhecimentos linguísticos são cada vez mais importantes. E desenganem-se os que dizem que toda a gente fala inglês. Não é verdade.
Em 2012, segundo um inquérito do Eurobarómetro (que curiosamente só existe em inglês, francês e alemão), 46% dos europeus não conseguiam manter uma conversa numa língua estrangeira. E os portugueses que se abismem: 61% dos inquiridos não falavam nenhuma língua estrangeira. Estamos ao lado do Reino Unido. How very interesting indeed.
Traduzir nunca foi tão urgente. É preciso perceber o discurso do comissário europeu, a piada de um empresário japonês, os cartazes dos estudantes em Hong Kong. Não há tempo para linguiças nem linguados. A mensagem é mais importante do que a língua (como?), por isso qualquer gato traduz com as patas traseiras.
Agora até as máquinas traduzem. Ainda bem. É só carregar no botão. Maravilha! Eu cá não tenho nada contra. O Google Translate veio responder a uma necessidade de comunicação instantânea e os tradutores, precisamente, não são máquinas. Mesmo que apressem o passo, chegam sempre depois do texto (bruxo!). O mundo não pode esperar.
Hoje em dia, a tradução é feita, de preferência, às três pancadas e numa língua de trapos. Não há tempo para mais. Nem sequer para redigir, quanto mais para traduzir. A informação é rápida e fugaz. Agarrem-na, que ela foge.
Os tradutores, coitados, ficam na sombra de tudo isto. São conhecedores da língua e, na era do linguajar global, isso não interessa para nada. O conhecimento não tem nada a ver com informação. Se não sabes, pergunta ao Google.
Temos todos cabeças de galinha e falamos cada vez pior.
Não sei para onde vamos a correr (e a teclar) desta maneira.
Já se sabe que, no princípio, era o verbo. No fim, não sei.
A propósito disto, convém lembrar que foi São Jerónimo que traduziu a Bíblia para Latim. O Dia Internacional dos Tradutores celebra-se no dia da sua morte.
Ora, sem os tradutores, não havia verbo para ninguém.
Essa é a verdade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Annie Ernaux

No outro dia descobri Annie Ernaux. Li o pequeno livro Passion Simple numa tarde. 
A páginas tantas:

Ici encore, devant les feuilles couvertes de mon écriture raturée, illisible sauf pour moi, je peux croire qu'il s'agit de quelque chose de privé, de presque enfantin, ne portant pas à conséquence – comme les déclarations d’amour et les phrases obscènes que j’inscrivais en classe à l’intérieur de mes protège-cahiers et tout ce qu’on peut écrire tranquillement, impunément, tant qu’on est sûr que personne ne le verra. Quand je commencerai à taper ce texte à la machine, qu'il m'apparaîtra dans les caractères publics, mon innocence sera finie.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Amor ortográfico: Le Typographe

Uma amiga ofereceu-me um bloco de notas. É um bloco sofisticado. Traz uma abelha elegante no cume de todas as folhas.
Infelizmente ainda não me atrevi a tirá-lo da embalagem.
Tenho medo de abelhas e não sei usar notas que não sejam peganhentas.
O bloco-abelha é o meu animal de companhia. Bebe o néctar da minha gaveta e poliniza os dias.
O meu bloco-abelha diz atrás handmade in Brussels e eu gosto disso. De ser proprietária de um bloco feito à mão. De pensar em artesãos do papel a fazer este bloco de mel só para mim.
A loja Le Typographe fica a 500 metros de casa, mas eu nunca lá entrei. 
A sofisticação intimida-me.
Fico do lado de fora a ver os cadernos da montra e também o meu reflexo por cima dos cadernos da montra. O meu cabelo está sempre torto.
Ando a namorar os cadernos Le Typographe há semanas.
Gosto de adiar o encontro, acho. De evitar a escolha. De ficar a pensar naquele caderno (naquele caderno, naquele caderno).
A verdade é que tenho cadernos que chegue, não tenho?
Tenho.
Uma caixa apinhada de cadernos, muitos dos quais ainda por estrear. Cadernos para todos os gostos. Uns pequeninos de andar na mala, outros grandes de andar por casa, outros médios para ocasiões mais… medianas.
Azar.

Quero ter um caderno a dizer Le Typographe.

Só um.
Um chega.
Um é bastante.
 
Até porque não sou de repetir cadernos. (Nem perfumes nem cremes.) Gosto de variar. Farto-me da textura. Ou da capa cintilante ou então das argolas. Na maior parte das vezes, os cadernos acabam por me desiludir. Têm buracos de um lado ou bonequinhos do outro; afinal são largos ou magrinhos; não têm o peso correto; são chatos; são tacanhos; desinspiram-me.
Quando chego ao fim de um caderno, chego mesmo ao fim: ponho-o de lado, faço tabula rasa.
A folha perfeita, aliás, é uma tabula rasa e, por isso, os meus cadernos são lisos. Não têm margens nem linhas nem quadrados.
Não gosto de limites. Gosto de escrever torto, de desalinhar. 
Os meus cadernos têm capa dura para resistirem a quedas e empurrões. Sou desajeitada e também algo bronca, não sei cuidar. Apesar da minha indelicadeza, sempre fui picky com cadernos. Gosto de os ver por dentro e por fora, de ouvir o que dizem quando se abrem, de lhes sentir o cheiro e o toque.
Há semanas que ando a namorar os cadernos Le Typographe. Os que são assim e os que são assado.
Não posso adiar mais este encontro. (Aquele caderno, aquele caderno, aquele caderno.)
Vou entrar na loja e comprar o caderno cosido à mão, de folhas opacas e macias. Ou então o caderno quadrado, aberto ao mundo. Com uma capa de tecido ou de cartão e folhas removíveis, perfeitamente lisas ou às pintinhas. Nunca escrevi em folhas às pintinhas.

Amanhã fecham às 18h.
Tenho tempo.
A loja Le Typographe vai ser a minha ruína.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um monstro sem pés nem cabeça

Era uma vez um monstro sem pés nem cabeça. Tinha um tronco, dois braços e duas pernas e andava pela rua com uma mão à frente e outra atrás. Como não via por onde ia, dava sempre com o nariz na porta. Diziam que andava com a cabeça nas nuvens, mas isso não era verdade. O monstro não tinha cabeça. Como também não tinha boca, nunca dava com a língua nos dentes, por isso todos lhe contavam os seus segredos. Quando lhe faziam uma pergunta, metia os pés pelas mãos, embora não tivesse pés. Perguntavam-lhe: "Um gato comeu-te a língua?", mas ele fazia ouvidos moucos porque, de facto, não ouvia. O monstro também metia o rabo entre as pernas e estava sempre de mãos a abanar. E não sentia apetite, porque não tinha água na boca. Crescia como as plantas, mas não estava agarrado à terra. Era um animal vegetal. Fazia tudo de olhos fechados e nunca dava o braço a torcer. Uma mão lava a outra, dizia ele sem falar. E sempre havia quem lhe desse uma mãozinha. A verdade é que ninguém lhe pisava os calcanhares nem lhe arrancava cabelos. Todos tinham medo dele, embora o monstro estivesse de mãos atadas. Tinha um aperto no coração e dor de cotovelo. Felizmente, não tinha dor de corno, já que não tinha cabeça nem namorada. Estava sempre com o pé atrás da porta e com a pulga atrás da orelha, embora não tivesse pés nem orelhas. O monstro tinha um segredo muito bem guardado e não ia abrir mão dele. Se os homens descobrissem que não tinha pés nem cabeça, perdiam-lhe logo o medo e o respeito. O monstro tinha a corda ao pescoço. Mas, graças ao medo dos outros, tinha a faca e o queijo na mão.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Lord of the flies

Acabo de saber que o livro Lord of the flies faz hoje 60 anos.

Levantei-me de um pulo e gritei: "Piggy! Piggy!"
Sou extremamente infantil.
E cruel.

"I don't care what they call me," he said confidentially, "so long as they don't call me what they used to call me in school."
Ralph was faintly interested.
"What was that?"
The fat boy glanced over his shoulder, then leaned toward Ralph.
He whispered.
"They used to call me Piggy!"
Ralph shrieked with laughter. He jumped up.
"Piggy! Piggy!"
"Ralph—please!"
Piggy clasped his hands in apprehension.
"I said I didn’t want—"
"Piggy! Piggy!"

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Supergigante na LER

A convite de Carla Maia de Almeida, participei no Scrapbook da LER.
Gosto do nome Scrapbook, de fazer scrapbooks, de cortar e colar fotografias, de ilustrar com desenhos e frases, de decorar as folhas com autocolantes e carimbos. Mas por acaso este Scrapbook não tem nada a ver com isso. São três perguntas e respostas. E uma fotografia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Supergigante na Time Out

PAM!
Isto foi o som do Supergigante a explodir na Time Out de 18 de agosto. Só agora é que chegou a Bruxelas! A crítica irrequieta é assinada por Ana Dias Ferreira.
O Edgar até viu estrelas.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Novo look

Este blogue foi ao gabinete de estética. Fez uma drenagem linfática, esticou o cabelo e a barriga, fez uma extensão de pestanas, pôs unhas de gel.
Depois deu-lhe na maquilhagem e talvez tenha exagerado no blush. As bochechas parecem dois pêssegos!
Este blogue está igual, mas diferente.

Sei lá.
Deu-lhe para aí.

Gajas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A ficção e a realidade

Uma personagem passa por mim e eu pergunto-me que idade terá, de onde vem, para onde vai.
Se gosta de caramelo, se usa desodorizante, se bebe café com açúcar ou com leite ou então com cheirinho, se tem animais domésticos, se já roubou a alguém, se já foi amada. E depois pergunto-me por que carga de água fico a pensar numa personagem que nem sequer existe, quando a Europa pondera novas sanções contra a Rússia e o Iraque pede ajuda à NATO.
É como se eu preferisse a ficção à realidade.
Eu prefiro a ficção à realidade.
Mil vezes a ficção.

Eu e a ficção, de mãos dadas pela rua.

Os meus livros são meus.

Os meus livros são meus. Às vezes deixam de ser meus porque os ofereço a alguém, mas depois tenho pena. Fazem-me falta. Quero-os de volta.
Também não sou de requisitar livros. Não gosto do protocolo das bibliotecas, dos números esquisitos nas lombadas, das bibliotecárias mandonas, dos prazos. E, no entanto, fui muito feliz nas bibliotecas, gostava de apreciar as lombadas, de decifrar o que traziam lá dentro, de ouvir o cochichar das páginas, de cheirar o papel. Mas não levava os livros para casa. Despedia-me deles para sempre. (Ficas aqui e eu vou para ali. Xau.) Sou uma leitora fria e também bastante preguiçosa. Se levasse os livros para casa, teria de os devolver e eu não gosto de ter um prazo para ler, não gosto de ir e voltar, não me apetece.
Além disso, os livros que levo para casa são quase meus. Sabem onde vivo, estiveram na minha cama. E eu conheço-os na intimidade. Folheei todas as páginas, li todas as palavras e dei-lhes qualquer coisa minha. Um postal, um marcador, uma dobra no canto da folha.
Os meus livros são meus. Não são de mais ninguém.
Acresce a isto que não gosto de ler livros emprestados. E acho que o desgosto é mútuo. Eles olham para mim muito direitinhos e olho-os de soslaio.  É preciso tratá-los com cuidado e memorizar que aquilo não é nosso. É chato. Fico com sentimentos de culpa sempre que caem ao chão. Estraga-me logo o prazer da leitura.
Prefiro que me ofereçam livros ou que mos recomendem. Olha, gostei disto. Lê também. Tomo nota na cabeça ou então numa lista muito antiga que anda sempre comigo. Por acaso já não anda, coitada… Perdi-a.
Não, por acaso não perdi. Roubaram-ma. Estava dentro do telemóvel.
É por isso que não gosto que me emprestem livros. Posso perdê-los. Ou então estragá-los. Ou pior: roubá-los. Um livro meu é só meu. Enrolo os cantos, dobro as folhas, anoto as gralhas. Depois passo para outro e sou capaz de o oferecer a alguém. Mas nunca me esqueço do meu exemplar.
Os meus livros são meus.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Domingo em pantufas

Uma espreguiçadela prolongada no espaço e no tempo. Onze e meia da manhã. O sol através das cortinas. Vários livros à cabeceira.  Um, dois, três. Muito longe das mãos. Lá fora tudo fechado. As lojas, os bancos, os supermercados. Meia vontade de fome. Cozinha com sol nas pontas dos pés. Uma revista qualquer. Não sei quê do ego. A obsessão pelo sentido das coisas, pelo terceiro olho, bladiblá. Um bocejo. Pequeno-almoço na varanda. Ovos mexidos, torradas, café com leite. O eco das torradas nas traseiras. O eco das vozes. O nosso ego na varanda.
O prédio da frente, sem flores nos parapeitos. Um prédio feio quase bonito.
A máquina da roupa contra o silêncio. Cinco quilos de roupa interior. Cuecas e meias.
Meia vontade de caneta e papel. Um texto de domingo em pantufas.
Sem verbos sequer.
E um livro vazio no sofá.

Ego sum.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cores quentes

Não, não está sol, mas hoje é sexta-feira e estou rodeada de cores quentes. Por exemplo, o meu iPod é cor de laranja e os guindastes na rua também. Hoje não vi nenhum, mas sei que os elétricos são amarelos. E este autocarro tem uma risca cor de laranja em baixo. Aquelas barreiras de proteção são amarelas. As bananas da mercearia também. Aquele guarda-chuva ali à frente também. E os telhados desta rua são laranjas ou então vermelhos. O interior da minha carteira nova também é vermelho e o meu cartão multibanco é laranja. E hoje estou com uma bandolete cor de laranja que me aperta a cabeça e trago uma saia às bolinhas amarelas e o meu bálsamo para os lábios tem sabor a laranja, o meu creme das mãos cheira a limão e em casa tenho uma caneta fluorescente amarela, um lápis HB vermelho e um caderno cor de laranja. Por isso é verão na mesma. É verão quando eu quiser.
Chove praí que eu gosto.

É sexta-feira.

Um céu estrelado

Da esquina do corredor emerge um ser humano do sexo masculino que vem finalmente assentar a poeira cósmica dos dias. Leva as mãos atadas a uma pasta azul que ostenta as estrelinhas da União Europeia, mas os meus olhos miópes e imaginativos não veem nada disso. Os meus olhos veem um homem profundo que traz ao peito um céu estrelado. Um homem com um céu por dentro, que afinal não veio assentar poeira cósmica nenhuma. É um homem como outros, a resvalar nos corredores sem metafísica nem transcedência. Tem um metro e oitenta, mais coisa menos coisa, e o sexo masculino possivelmente entediado. Adivinho olhinhos igualmente míopes, sem grandes voos, já que passam os dias trancados num edifício aos quadradinhos com vista para outro edifício aos quadradinhos, ambos pertencentes à União Europeia.
Ora, isto permite-nos concluir que, a bloquear a vista dos eurocratas, está precisamente o céu estrelado da burocracia.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A escrita de A a Z

Ana Banana Cigana
Declaradamente Em Furor
Gatafunhava Histórias Improvisadas
Jocosamente Kafkianas
Logrando Manufaturar
Narigudas Orações Prosaicas
Quando Resolveu Soletrar
Terminantemente
Um Verdadeiramente Wonderful
Xixi (Yááá!)
Ziguezagueante

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sapatos, pés e calcanhares

As sapatarias irritam-me. É preciso falar com a senhora da loja, pedir aquela bota naquele número e ficar à espera da resposta e depois da caixa, que nunca mais chega, que se calhar nem vai chegar. Olhe, só tenho assim. Ou então: Há, mas são verdes. 
Cheira logo a esturro e não é dos sapatos, porque os da loja são novos.
E se quero comprar botas, compro sabrinas. Se quero em preto, só há em castanho. Se estão apertados, não há maior. Paciência.
Os meus pés transpiram de angústia.
E nunca é um bom momento para experimentar sapatos. Tenho a meia rota ou as unhas feias ou os sapatos gastos ou as pernas tortas. Se encontro o que procuro, não têm o meu número. Se têm o meu número, ficam largos. Se quero o número abaixo, não há. Se há, não me servem.
Às vezes compro na mesma. Que se lixe, pode ser que alarguem. Se alargam, nunca os uso. Se não alargam, ficam para lá. Se me servem, não gosto deles. Se gosto deles, fico indecisa.
Se são confortáveis, são feios. Se são bonitos, são caros. Caneco.
Às vezes compro na mesma. Tenho pés sofisticados.
Se compro em camurça, alguém me pisa. Se compro sandálias, começa a chover. Se estou satisfeita, parte-se o salto. That's it. Estou calejada.
Talvez valesse a pena andarmos para aí descalços. Ganharíamos mais calo para a vida. E desistíamos daquela ideia de ter pés macios e hidratados. Que parvoíce.
Os meus pés servem para andar e dar pontapés. Não servem para ser bonitos nem elegantes. São o nível mais baixinho de todos. São reles e malcheirosos.
Não me chegam aos calcanhares.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Dois quilos de literatura da pesada

A senhora disse que eu tinha peso a mais.
De início indignei-me (Granda patega!), mas depois dignei-me.
A senhora referia-se à mala de viagem, claro, claro, claro.
Tirei três livros da mala e enfiei-os no saco.
Foi suficiente: os três livros, juntinhos, pesavam dois quilos. (Ganhei!)
A senhora desejou-me boa viagem e eu encolhi a barriga.
Durante o voo, para passar o tempo e o espaço, pensei nos três livros.
Eram literatura da pesada.
E, no entanto, quem olhasse para eles, jamais diria.
Eram textos desocupados. Pareciam três pedaços de prosa inócua.
Um falava sobre o vazio, outro sobre a desumanização e outro sobre ninguém.
Sempre tive esta atração pelo vácuo.
Sou oca e inconsistente.
Pareço uma aeronave a deslizar como se fosse levezinha.
Tenho a cabeça no ar.
(Literalmente no ar.)
Olho pela janela.
As casinhas lá em baixo. Tão banais e desabitadas.
Está a chover em Bruxelas.
São gotas mirradas, mas fazem mossa.
Não há nada mais pesado do que o vazio.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Julie Delporte

Descobri a Julie Delporte. Os lápis de cor da Julie Delporte, o gato da Julie Delporte, o apartamento, o ex-namorado, as angústias da Julie Delporte. Ando a atrasar a leitura para que o diário não acabe. Este diário é sobre mim.


A Julie Delporte abre as páginas da sua vida ao mundo.
Ainda bem.
Journal é um livro subtil e impetuoso.
Não há nada como escrever sobre a nossa verdade. Com as nossas palavras. O nosso pulso. Os nossos lápis.
A Julie Delporte tem os ovários atestados de testosterona, mas disfarça bem. Por momentos, até parece frágil.

Tenho saudades dos meus lápis de cor.
Vou desenhar as letras como a Julie Delporte.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Um oito deitado de bruços

Ao oitavo dia do oitavo mês chegou uma criança que era um oito prolongado. Um oito deitado de bruços. À espera da eternidade.
Era o "símbolo do infinito, um oito preguiçoso".

(citação e imagem do livro "O pintor debaixo do lava-loiças" de Afonso Cruz)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A minha mala de viagem

A minha mala de viagem não gosta de viajar, mas viaja na mesma. É mole e quadradona. Tem quatro rodinhas e pelo macio. Para onde eu vou, ela roda também. Às vezes rosna. Leva um tabefe.
A minha mala de viagem é malandra. Às vezes muda as minhas coisas de sítio e ri-se de mim no escuro. Tira de um bolso e põe no outro. Eu ralho, ela ri-se.
A minha mala de viagem gosta de andar no escorrega das malas. Quando aterra no tapete, dá um grito e bate palmas. Eu tenho vergonha, ela não.
A minha mala de viagem veio com um livro de instruções, tem uma personalidade complexa.
A minha mala de viagem adormece no comboio. Fica com um fio de baba pendurado no fecho. Quando acorda, desliza na direção certa e chega sempre ao destino.
A minha mala de viagem assobia nas filas e nas escadas rolantes. Nunca apressa as rodinhas. Tem tempo para tudo. E espaço para tudo. É gorda e tem as costas largas, nunca se queixa.
A minha mala de viagem anda comigo ao colo. Engole os sapos todos e também os meus sapatos. Às vezes não traz as minhas cuecas ou a escova de dentes. Ela ri-se. Eu não.
A minha mala de viagem anda de lado ou então às voltinhas. Vai sempre à minha frente e puxa por mim.
Eu sigo-a, porque sou mole e quadradona.
Vou para onde me levam.

sábado, 2 de agosto de 2014

Supergigante na Visão

O Supergigante é um dos "30 livros solares" selecionados por Sílvia Souto Cunha na Visão desta semana.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

A frase supergigante de José Mário Silva

No sábado acordei com um galão e uma frase supergigante de José Mário Silva na Atual. Dei um pulo até às nuvens com o meu ego. Eu era uma ventania contra a atmosfera do universo.
Felizmente fui roubada poucas horas depois. Fiquei sem documentos até ao final das férias e tive de pedir uma semanada a um amigo.
Suspirei de alívio.
O universo restabelecia o equilíbrio.



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Supergigante nas Garatujas Fantásticas!

O jornalista brasileiro Roberto Almeida escreveu um texto supergigante nas Garatujas Fantásticas.
Eu garatujei emocionada, mas depois bebi um copo de água e fiquei bem.

domingo, 13 de julho de 2014

Supergigante no Expresso

Na revista Atual desta semana, Sara Figueiredo Costa recomenda o Supergigante para leitura de verão.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Supergigante em Aveiro!

O Supergigante já começou a corrida até Aveiro.
Tudo indica que chegará pelas 18h de sábado à livraria Gigões e Anantes.
Venham daí e divulguem!


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Supergigante em Braga!

O Supergigante veio a correr até ao Encontro Li na Universidade do Minho.

Programa do Encontro Li 2014 (4 e 5 de julho):


Este blogue faz sete anos

Nasceram-lhe os primeiros incisivos. Aprendeu a assobiar. E a comer gelados sem sujar as mãos. Tem um humor mais agudo. Bebe coca-cola às escondidas. Às vezes não responde quando falam com ele. Nem sempre obedece. Passa mais tempo em frente ao espelho. Tem cabelo forte. Gosta de se pentear sozinho. Já não acorda a meio da noite. Conta histórias muito compridas. Às vezes mente. Outras vezes omite. Ou finge que não ouve. Tem uma caligrafia bonita. Está sempre sujo e transpirado. Fala aos gritos. Quer ter um cão e um skate. Quer roubar aos ricos e dar aos pobres. Tem bom aproveitamento. Bom comportamento. Bons amigos. Faz castelos na areia. Fica a olhar para os aviões. Gosta de estalar os dedos. E de fazer o pino.
Parece mesmo uma pessoa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A narradora desfasada

A narradora deste texto anda desfasada. Até o cabelo se desalinha, coitado. Não há maneira de ir ao sítio. Se o empurra para um lado, vai para o outro. Se o hidrata, fica oleoso. Se o ignora, fica encrespado.
É um cabelo carente.
A narradora deste texto sacode os ombros e sai de casa. Se espera pelo elevador, ele não arranca. Se vai pelas escadas, tropeça. Se calça sandálias, molha-se. Se vai a pé, atrasa-se. Se corre para o elétrico, não o apanha. Se o apanha, não encontra o passe. Se tem frio, não tem casaco. Se leva o guarda-chuva, está sol. Se vai de botas, tem calor. Se quer cantarolar, não tem música. Se quer café, não tem trocos. Se tem tempo, não tem ideias. Se tem ideias, não tem caneta. Se tem caneta, não tem caderno. Se quer pagar, não tem carteira. Se está cansada, não descansa. Se descansa, aborrece-se.
E tudo isto - pensa a narradora deste texto - é uma grande canseira.
Antes ficar na cama a ouvir os passarinhos lá fora. E os belgas a celebrar a vitória ou então a derrota.
O que vale é que a narradora deste texto não tem sono. Porque se tivesse sono, não dormia. E se quisesse ler, adormecia.
Antes ficar a escrever um texto fictício sobre um mundo paralelo. Diferente deste mundo.

Completamente desfasado.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A estrofe redonda

A narradora deste texto pensou então que, se os seres humanos olhassem para um poema com a mesma exaltação com que olham para uma bola de futebol, haveriam de andar por aí inspirados e sentimentais, a correr atrás de uma estrofe redonda que nunca mais é real, a agarrar rimas pelo braço, a cabecear sonetos. Passariam os dias e as noites de lira ao colo a declamar poesia. E nunca perderiam a voz. Nem o Norte. Nem as estribeiras.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.

E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O sangue na guelra

O jogo de ontem dá para pensar na vida e não em futebol. 
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se. 
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É. 
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates. 
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.

Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.

Que grande tédio.

Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

Michael Cunnigham

Estive à frente do Michael Cunnigham. Era preciso esticar o pescoço para o ver como deve ser, mas o esforço fez-me bem à coluna. Acho que estou mais alta. A certa altura perdi a vergonha e agarrei no microfone. Fiz-lhe perguntas e ele respondeu.
No final pedi-lhe um autógrafo no meu exemplar fora de horas.
Ele perguntou: "E escrevo o quê?" Eu: "Um conselho para jovens escritores".
Ele escreveu:

To Ana,
Don't panic.
(really)
Michael Cunnigham

Depois pedi-lhe outro autógrafo noutro livro. Ele escreveu:

To Ana,
Never stop.
Michael Cunnigham

quinta-feira, 5 de junho de 2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

À conversa com o Planeta Tangerina

Eu sou multitasking. No outro dia estive à conversa com o Planeta Tangerina por e-mail enquanto passeava por Bruxelas. Foi giro!
Falámos sobre a escrita, a vontade de rir, o chocolate belga e o amor na adolescência.

http://planeta-tangerina.blogspot.be/2014/06/ana-pessoa-quase-em-direto-de-bruxelas_2.html

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Segunda de manhã na capital da Europa

Auscultadores nos ouvidos, lenço ao pescoço. As segundas-feiras começam no elevador. Primeira porta, segunda porta, terceira porta. Afinal não está frio nem quente, está assim assim. Os dois sem-abrigo não pedem dinheiro, estão distraídos. Andam à procura de qualquer coisa por baixo das mantas. Estou a ouvir Austra. Um pai apressado empurra um carrinho de bebé. O miúdo traz um helicóptero ao colo e fala pelos cotovelos. Olho para trás, para o helicóptero e para os sem-abrigo, que ainda não encontraram o que procuram. O café de esquina está sempre cheio. Não percebo. São caros, antipáticos e vendem sandes esquisitas. Com pasta de atum. Ou tomate e bacon. Acho que nunca comi uma sandes de tomate e bacon. O elétrico passa, guincha na curva. Além disso, vêm dentro de sacos de plástico. As sandes. Passo por uma montra de pains au chocolat, vejo pessoas na montra a beberem café, nunca entrei aqui. Um dia destes. Tenho saudades dos cafés portugueses, das pessoas ao balcão, de uma meia de leite, de bolos de arroz. Passo por uma escola secundária. Alguns miúdos estão cá fora a olhar para o seu próprio reflexo nos carros e a partilhar auscultadores e cigarros. Uma mulher ultrapassa-me, parece determinada. Vai mudar o mundo ainda hoje, sem falta. Traz uma saia travada, mas a saia não a trava. Um cão enorme passeia um senhor franzino pela rua. Uma bicicleta passa por mim e logo a seguir outra. A última bicicleta faz triiiiiim. É um ex-colega por baixo de um capacete foleiro. Está tudo bem? Sim. E contigo? Tanta tecnologia, tanto design e ainda não inventaram um capacete de jeito. Uma senhora faz-me uma pergunta. Os olhos parecem perdidos, traz um mapa na mão. Tiro os auscultadores, pergunto: Como? A senhora balbucia qualquer coisa e eu aponto para o mapa. O meu francês é melhor que o dela. O cabelo dela é melhor que o meu. Tem sotaque nórdico. A florista da praceta tem sempre umas plantas sofisticadas cá fora. Qualquer dia compro uma planta nesta florista. Passo pelo homem que fuma à porta de casa. Está sempre no mesmo sítio à mesma hora, de cigarro em punho e chinelos nos pés. Sustenho a respiração. Não me apetece inalar tabaco. Uma mercearia marroquina já tem a fruta cá fora. Também nunca entrei aqui. Passo pelo cão velho, que ocupa o passeio todo. No outro dia, ladrou-me. Não sei porquê. Ao longe, os edifícios do Parlamento Europeu. Ficam sempre bem nas fotos. De qualquer ângulo, de qualquer maneira. A luz faz sempre ricochete nos vidros. Os edifícios do Parlamento Europeu parecem frágeis e robustos ao mesmo tempo. A extrema direita vai para o Parlamento Europeu trabalhar contra a Europa. Logo agora, que precisávamos tanto do contrário. Felizmente, o cartaz absurdo das eleições europeias já não está em cima da Avenue Belliard a olhar para mim e a dizer Use your power. Passei estranhos momentos em frente àquele cartaz enquanto esperava que o sinal mudasse. Um dos tipos estava com um chapéu de cowboy, à faroeste. Afinal ando farta dos Austra, vou mudar. Percorro a lista. Grande parte dos europeus não quer saber e a Europa vai avançando a meio gás, com pouco power. Escolho Real Estate. Devíamos ter mais aulas de História na escola. Era uma vez a Europa. A educação é uma competência exclusiva dos Estados-Membros. A Europa só dá bitaites; não mete o bedelho na educação. Cada um trabalha para o seu lado. Os únicos que me escreveram cartas a apelar ao meu voto foram os belgas. Eu não sou belga. Sou portuguesa. O consulado de Portugal não me passa cartão. Vejo o meu edifício ao longe e também vejo estrelas. É por causa da bandeirinha. Tem mesmo estrelas. Entro no elevador. Já lá estão duas mulheres, uma nova, outra menos nova. Nenhuma responde quando digo: Bonjour. Devem estar a ter um dia péssimo ou então são eslavas. Os eslavos não gostam de dizer: Bonjour. Foi um polaco que me disse. É estúpido dizer bom dia. Não me conhecem de lado nenhum. Não sei se isto é verdade. Se calhar é um daqueles mitos. Como aquele de as mulheres portuguesas terem bigode. Eu sou mais europeia do que outra coisa. Olho para o meu reflexo no espelho. Tenho de ir fazer este buço. É urgente. Tenho saudades de casa. Estamos muito melhor unidos do que separados. Ainda que cada um trabalhe para seu lado. Penso na mulher da saia travada, na que vai mudar o mundo ainda hoje. Desejo-lhe um bom dia. Embora não a conheça de lado nenhum. Depois tiro os auscultadores. Acabou-se a música.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Supergigante vem aí a correr



O Supergigante vem aí a correr. Deve estar com pressa.
Eu também estou com pressa. Enquanto ele vem e não vem, vou limar as unhas. Estão mesmo feias. E a seguir vou pintar as unhas e depois vou ler uma banda desenhada e depois vou pedalar na bicicleta.
A espera dá tempo para tudo. Por exemplo, neste momento estou na varanda a apanhar sol belga e a comer pistácios. 
Há aqui um pistácio mais retraído, vou tentar abri-lo. Eu gosto dos pistácios que dão luta. 
Afinal não li uma banda desenhada. Fiz outras coisas.
Já parti uma unha a tentar abrir o pistácio retraído. Depois insisti e magoei-me. 
Agora estou a chuchar no dedo e a escrever sobre o pistácio retraído.
Mais valia fazer-me à estrada. O Google diz-me que, daqui ali, são dois mil quilómetros e que, se eu fizer metade do caminho a pé, vou demorar mais de 200 horas. 
Se for a correr, devo demorar 100. 
Se for de bicicleta, talvez demore 50.
Neste momento estou a fazer o almoço. A seguir vou almoçar e depois vou encher os pneus.
Eu corro para o Supergigante e o Supergigante corre para mim.

sábado, 24 de maio de 2014

A toda a velocidade



- Olha, afinal é um livro.
- O quê?
- O Supergigante!
- A sério?
- Sim. Estás desiludido?
- Um bocado... 
- E o homenzinho? 
- Não sei! 
- Se calhar também está desiludido.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Em passo de corrida




- Mas quem é este homenzinho a correr?
- Não sei. 
- Será o Supergigante?
- Acho que não.
- Tu já viste o Supergigante?
- Não. Só ouvi falar.
- Será uma pessoa?
- Acho que não. Mas vem aí!
- Se calhar é um super-herói.
- Pois... Se calhar.

Partida, largada, fugidaaaa!


 
- Vem aí o Supergigante!
- Vem aí o quê?
- O Supergigante.
- O que é o Supergigante?
- Sei lá! Mas deve ser enorme.
- Pois é.
- E vem aí a correr.
- Que estranho!

terça-feira, 20 de maio de 2014

O pássaro cá atrás

Há um pássaro novo cá atrás. Acorda-me todas as manhãs aos gritos e eu rogo-lhe pragas. O pássaro canta como um despertador: um grasnar histérico e insistente, que se repete até à exaustão. Não deve ser um pássaro bonito. Se fosse, não precisava de grasnar assim. A culpa é da primavera, quiçá. Levanto-me e vou à casa de banho. O pássaro continua a grasnar mesmo em cima da cabeça. Deve estar a marcar território ou então a afugentar um inimigo. Em qualquer dos casos, deve estar a ter sucesso porque os outros pássaros piam fininho. Vou para a cozinha e corto fatias de pão com a minha faca serrilhada de aço inoxidável. Eu, se pudesse, voava para longe com o meu ninho debaixo do braço. O pássaro continua a grasnar toda a gente. Deve ser um corvo, porque os corvos são feios e também não cantam. Grasnam. Além disso, comem o que vier ao bico, incluindo cadáveres. Os corvos são nojentos. Bebo café com leite e penso neste pássaro recém-chegado. Se calhar está muito aflito. Todos os imigrantes se afligem no princípio. Deve estar com medo da vida ou da morta. Ou então não gosta de passarinhas e ainda não saiu do armário. Estou a comer pão com doce de amora e penso na pressão de ar, nos chumbinhos que moravam em latas redondas. Sempre gostei do barulho dos chumbinhos dentro da lata. Infelizmente, nunca tive pontaria.
Se tivesse, era já. PUM!

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O senhor Antónimo

Ninguém sabe de onde vem o senhor Antónimo. Se lhe perguntam, não responde. Se insistem, começa a guinchar. O senhor Antónimo não presta contas a ninguém. Não trabalha, não paga impostos, não recebe, não gasta. Não é eficiente, nem pontual, nem responsável. O senhor Antónimo não sabe ver as horas nem olhar para um mapa. Se calhar, anda sempre perdido. Além disso, tem uma estranha forma de caminhar. Quando avança com o pé direito, inclina-se para esquerda. Quando avança com o esquerdo, inclina-se para a direita. De vez em quando, tropeça e bate com a cabeça, escorrega em qualquer coisa, cai no meio do chão. Como está escuro, anda sempre aos tombos. É que o senhor Antónimo dorme durante o dia e só sai de casa à noite. Vai vivendo disto e daquilo, come o que os outros deitam para o lixo. O senhor Antónimo nunca foi ao jardim zoológico. Nunca comeu um gelado. Nunca comprou o jornal. É um homem muito velho, mas parece um menino pequenino. Se lhe dizem "Bom dia", deita a língua de fora. Se lhe dizem: "Faz isto", ele faz outra coisa qualquer. Se lhe dão um abraço, ele dá pontapés. Se lhe dão de comer, ele cospe. Se lhe oferecem qualquer coisa, ele recusa. O senhor Antónimo não quer ficar a dever nada a ninguém. Não tem um clube de futebol nem joga no Euromilhões, porque não acredita na sorte nem na Virgem Maria. O senhor Antónimo não gosta de pessoas nem de bichos nem de plantas nem de pedras nem de santos. Não bebe café com leite, não come torradas, não boceja nem se espreguiça. O senhor Antónimo está sempre do contra. Como se não bastasse, veste sempre a roupa do avesso e depois ri-se, porque as etiquetas lhe fazem cócegas no queixo. O senhor Antónimo não sabe ler nem escrever, está-se borrifando para o mundo. Quando o puxam de um lado, vai para o outro. Se o tratam bem, reage mal. Se lhe pedem um favor, diz uma asneira. Nunca toma banho. Nunca sorri. Nunca pisca os olhos. A única coisa que o senhor Antónimo gosta de fazer é correr atrás dos ratos e falar sozinho numa língua esquisita que ninguém entende. Se a rua vai para cima, ele vira para baixo. Se a seta aponta para a direita, ele vai para a esquerda. O senhor Antónimo não vai propriamente a lado nenhum. Anda por aí à deriva. Não sabe de onde vem nem para onde vai. É esgrouviado.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lá fora

Fartinho de estar em casa a anhar? 
Vai lá fora passear!
Pentear macacos. 
Rir como uma hiena.
Vai até Sesimbra! 
Dar uma volta ao bilhar grande. Ou a uma lagoa pequena. 
Escorrega na lama. Cai que nem um pato. Faz uma cena.
Não te esqueças de levar um chapéu. E uma canção alegre.
E, já agora, o Lá Fora!
Para aprenderes qualquer coisinha.
E não levares gato por lebre.


(clicar na imagem para ficar mais maior grande)

domingo, 4 de maio de 2014

Marguerite Duras


"Elle avait aimé démesurément la vie et c’était son espérance infatigable, incurable, qui en avait fait ce qu’elle était devenue, une désespérée de l’espoir même."

Marguerite Duras, Un barrage contre le Pacifique

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Um homem emoldurado no dia 25 de abril

Aquele homem traz uma moldura enfiada na cabeça. É uma moldura de madeira com uns ornamentos floridos. As outras pessoas evitam olhar para este quadro, porque o homem não é um quadro, é um homem a sério com uma moldura enfiada na cabeça. Neste momento, está a falar sozinho e ri-se das suas próprias piadas. A moldura não lhe prende os movimentos, porque vem pendurada ao pescoço como um colar. O homem vive num outro mundo e parece bastante satisfeito.
É assumidamente um retrato de si próprio.
E parece mais solto do que nós.
Mais espontâneo. Mais real.
Mais livre.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um livro qualquer

O narrador deste texto decidiu celebrar o dia mundial do livro comprando um livro qualquer. E quando dizemos qualquer, é mesmo qualquer: um livro desconhecido com um título bonito ou uma capa que apetecesse apertar. O narrador deste texto tinha saudades disso, de comprar um livro só porque lhe apetecia e não porque alguém lhe falara dele ou porque lera um artigo sobre o dito ou porque andava empolgado com um determinado autor ou porque a Amazon definira que o narrador também ia gostar disto se gostou daquilo. Todos diziam ao narrador que tinha de ler isto ou aquilo, era muito aborrecido. No entender do narrador, o pior da vida eram mesmo as listas de livros. As 5 autobiografias para mudar a sua vida. Os 10 livros policiais mais policiados. Os 100 livros sem limites. Os 40 livros para ler antes dos 40. Os narradores mais apetecidos. Os mais proibidos. Os mais amorosos. Os mais saborosos. Os mais risíveis. Os mais enervantes.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Karateca no Brasil

BREAKING NEWS: A karateca chegou ao Brasil.
Alegadamente, a travessia teve lugar numa caravela.
Fontes próximas garantem que a karateca trazia na cabeça um chapéu de pirata e debaixo do braço O caderno vermelho da menina karateca.
Quando chegou, a menina karateca gritou: Yáááá!
A seguir, tirou o pé do chão e começou a sambar.

 
A propósito destes contactos com o Brasil, provas documentais mostram a karateca em ameno bato-papo com as fenomenais Garatujas Fantásticas.

Do catálogo da SESI-SP editora para os mais novos constam outras obras catitas do Planeta Tangerina, porque Quem lê sabe porquê.

Yáááá!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

«¡La estación!», exclamó mi madre. «Cómo habrá cambiado el mundo que ya nadie espera el tren». Entonces la locomotora acabó de pitar, disminuyó la marcha y se detuvo con un lamento largo. 
Lo primero que me impresionó fue el silencio. Un silencio material que hubiera podido identificar con los ojos vendados entre los otros silencios del mundo. La reverberación del calor era tan intensa que todo se veía como a través de un vidrio ondulante. No había memoria alguna de la vida humana hasta donde alcanzaba la vista, ni nada que no estuviera cubierto por un rocío tenue de polvo ardiente. Mi madre permaneció todavía unos minutos en el asiento, mirando el pueblo muerto y tendido en las calles desiertas, y por fin exclamó aterrada: «¡Dios mío!». Fue lo único que dijo antes de bajar. Mientras el tren permaneció allí tuve la sensación de que no estábamos solos por completo. Pero cuando arrancó, con una pitada instantánea y desgarradora, mi madre y yo nos quedamos desamparados bajo el sol infernal y toda la pesadumbre del pueblo se nos vino encima. Pero no nos dijimos nada.

Vivir para contarla, Gabriel García Márquez

quarta-feira, 26 de março de 2014

Os que não têm

Os que não têm, pedem ou então pedincham, suplicam, imploram. Passam os dias num degrau, na boca do metro, e dizem ladainhas que ninguém entende. Alguns trazem cartazes ao peito: Tenho fome, tenho SIDA. Outros andam de carruagem em carruagem com uma viola ao ombro, ou ficam num canto a soprar numa flauta ou num clarinete ou numa harmónica. Também há os que cantam ou os que falam sozinhos, os que olham em frente mas não nos vêem porque entretanto enlouqueceram e já não moram aqui. Também há os que vendem revistas ou porta-chaves ou peluches e trazem um cão pela trela ou uma criança pela mão e uma lata ou um chapéu ou um mealheiro.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.