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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Um homem emoldurado no dia 25 de abril

Aquele homem traz uma moldura enfiada na cabeça. É uma moldura de madeira com uns ornamentos floridos. As outras pessoas evitam olhar para este quadro, porque o homem não é um quadro, é um homem a sério com uma moldura enfiada na cabeça. Neste momento, está a falar sozinho e ri-se das suas próprias piadas. A moldura não lhe prende os movimentos, porque vem pendurada ao pescoço como um colar. O homem vive num outro mundo e parece bastante satisfeito.
É assumidamente um retrato de si próprio.
E parece mais solto do que nós.
Mais espontâneo. Mais real.
Mais livre.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Espécie animal

Ouvi dizer mas não sei se é verdade.
Num planeta pequenino com sede num sistema solar de várias estrelas multicolores situado a um milhar de bilião de anos-luz do planeta Terra, que é basicamente um número um com dezoito zeros à frente, há vida.
Sim, vida.
Vida mesmo.
Daquela de viver e estar na vida a fazer coisas com as mãos e os pés e numerosos orifícios aqui e ali.
Mas uma vida diferente da nossa. Uma vida muito simples constituída por uma única espécie animal e numerosos vírus e bactérias minorcas e ainda muitas espécies vegetais que se encontram, coitadas, em vias de extinção, porque a espécie animal se alimenta precisamente das espécies vegetais que demoram séculos a crescer (séculos mesmo), mas não sabe cultivar a terra. Portanto, esta espécie animal também se encontra em vias de extinção, embora não saiba disso, porque é uma espécie estúpida sem sapiens na sua designação latina.
A espécie animal é composta por quarenta e um indivíduos que parecem crocodilos, mas têm pernas longas que acabam numas garras grossas, uma cabeça de periquito, uma tromba de elefante, uma juba de leão, uma cauda peluda de animal peludo, duas antenas no cocuruto e umas asas nas costas. Têm também a particularidade de andarem de lado como os caranguejos e de olharem também assim de lado, o que pode ser perturbador para nós, que olhamos sempre de frente (sempre), mas é extremamente aceitável para a espécie animal deste planeta pequenino a um milhar de bilião de anos-luz.
Um dia destes conto-vos uma história sobre esta espécie extremamente interessante e estúpida, porque muito claramente já ando fartinha de seres humanos sapiens sapiens com jubas de seres humanos e tiques de seres humanos.
Além disso, confesso que também gostava de laurear a pevide noutro planeta de outro sistema solar de outra galáxia.
Só assim para variar.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Senhora Coisinha

Era muito magra e curta, a Senhora Coisinha. Acabava logo ali, pela anca dos outros, o que era francamente caricato, tendo em conta que a Senhora Coisinha batia frequentemente com a cabeça nas nádegas ampliadas das outras mulheres ou nos gigantones órgãos masculinos, que se atarantavam a seguir, de cabeça no ar. Por estas e outras razões, a presença da Senhora Coisinha, ainda que quase insignificante, era muito incomodativa e tão indesejada como a de um inseto: aparecia em sítios e ocasiões inesperadas e as pessoas, por vezes, assustavam-se, ainda que fossem muito maiores do que ela.
A Senhora Coisinha não era anã. Sabemos isto porque as suas pernas e a sua cabeça eram proporcionais ao resto do corpo. Também não era uma criança nem uma jovem franzina, nada disso. A Senhora Coisinha era uma senhora para os seus 55 anos, vá, e tinha mamas, vagina e útero como as outras mulheres, embora em menor dimensão, proporcionais ao resto do corpo. A Senhora Coisinha era, aliás, atraente quando vista ao perto através de um monóculo especializado ou de uma lupa e não tinha quaisquer complexos por ser tão pequenina. Por exemplo, se fosse preciso saltar para chegar a um balcão, ela saltava. Se fosse preciso gritar para a ouvirem, ela gritava. Se fosse preciso subir a um banco para ver um concerto, ela subia. Sem qualquer problema. A Senhora Coisinha era, portanto, uma pessoa prática e esforçada, vislumbrava em cada desafio uma oportunidade. Em dias promissores, que eram muitos, chegava até a sentir que a sua pequenez era a sua maior grandeza, porque valia tanto como as restantes pessoas perante a lei e a moral, mas era pequena o suficiente para ver os pormenores. E isso, no entender da Senhora Coisinha, era uma mais valia, um grande privilégio, um recurso preciosíssimo, diga-se, porque os pormenores, pensava a Senhora Coisinha, eram mais importantes do que o todo.
No entanto, as outras pessoas, que eram colossais e meio cegas como ciclopes, não estavam de acordo. O todo era fundamental, o horizonte era fundamental, assim como o contexto, o panorama, a macroeconomia, a sociedade. Por causa disso, os encontros com a Senhora Coisinha na farmácia ou no supermercado estragavam-lhes o dia. Eram minudências desnecessárias que as distraíam da visão geral.
Mas a verdade verdadinha é que as pessoas grandes se sentiam ridículas ao pé da Senhora Coisinha. Estavam constantemente a dar-lhe empurrões e pisadelas porque não a viam no seu caminho. Contudo, porque estavam em maioria, apontavam os seus dedos gordos na direção da Senhora Coisinha e riam-se.
O riso das pessoas grandes fazia imenso barulho, mas a Senhora Coisinha estava-se nas tintas. Fazia as suas comprinhas minúsculas e seguia em frente, concentrada como uma formiga. Pensava: Ainda hei de rir melhor. E acreditava nisso, ainda haveria de rir melhor.
Infelizmente, nunca chegou a rir melhor, porque certa manhã de luz amena, um homem maljeitoso sentou-se num banco de jardim e matou a Senhora Coisinha, que estava descansadamente a ler um livro pequenino. Era um acidente evitável, lamentável, lastimável, diziam as pessoas grandes, que gostavam de falar a rimar. Depois, cavaram um pequeno buraco no jardim e atiraram a Senhora Coisinha lá para dentro. A seguir lavaram as mãos, porque eram muito asseadas.
Nunca mais ninguém falou da Senhora Coisinha e, de repente, era como se a Senhora Coisinha nunca tivesse existido, para o bem da visão geral, da sociedade, da macroeconomia.
Mas tinha existido, a Senhora Coisinha. Existia ainda, existiria sempre. Continuava na memória das pessoas grandes, incomodativa como um inseto, como um pormenor.
E as pilas dos homens grandes nunca mais foram as mesmas.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vampira cusca

Suga sumo de laranja por uma palhinha de plástico amarela que mordisca enquanto ouve. Também ajeita os seus óculos muito grossos para se verem bem ao longe. Prefere ouvir a falar, esta moça que suga sumo de laranja. Por causa disso, faz perguntas. Muitas perguntas. Sobre isto, sobre aquilo. Sobre os outros. Sobretudo, sobre os outros. É uma vampira cusca, conheço o estilo. Posso perguntar-te uma coisa? Conheces aquela? E a outra? E aqueloutra? Faz o quê? Ai sim? É solteira? Vive onde? Também exclama, a moça, porque os outros falam mais quando exclamamos, especialmente se formos teatrais. A sério? Meu Deus, não fazia ideia! Que horror! Coitada! Um certo comprazimento preenche-lhe a voz, por causa da fofoquice e também da vitamina C. Sente-se mais forte, agora. Por causa dos outros, que se sentem visivelmente mais fracos. Suga o seu suminho de fruta, a moça, e mordisca. A vida dos outros faz-lhe bem. É como ter vida própria, mas é muito melhor do que ter vida própria, porque não é preciso ter uma opinião ou tomar uma atitude ou gastar energia com coisas mundanas, como seguir uma receita de cozinha ou lavar as janelas. É só preciso estar em companhia, num barzinho de vampiros, a beber sumo de laranja e a fazer perguntas. É uma vampira cusca, sem dúvida, conheço bem aqueles dentes compridos. Tem também a tez muito branca, porque nunca apanha sol. E, por ser eterna, não tem grandes ideias, faz perguntas. Precisa de matar o tempo em barzinhos assim. Ri-se, exclama, cada vez mais forte, os outros cada vez mais fracos. Parecem pessoas de verdade, mas não são. As vampiras cuscas são das maiores pragas nas grandes cidades. Os pombos também. Infelizmente, as pessoas continuam a dar-lhes de comer. E já se sabe que, tanto no caso das vampiras cuscas como no caso dos pombos, a capacidade de reprodução está estreitamente associada à sua alimentação. Nunca mais dou de comer a vampiras cuscas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Teoria da Revolução das Espécies

O professor Alberto Gago e Esperto é antropólogo de formação mas, para sobreviver, trabalha como outra coisa qualquer. Nos tempos livres dedica-se, contudo, à observação disciplinadíssima de pessoas seleccionadas ao calhas. Um exemplo clássico desta sua actividade como antropólogo é sentar-se num restaurante e ficar a observar um casal qualquer. Durante um longo período de tempo, o professor Alberto Gago e Esperto tira imensas notas e, caso haja informações relevantes, persegue o casal durante horas, se não mesmo dias ou semanas ou meses. Casos houve em que prolongou a sua observação durante anos, seguindo as pessoas escolhidas de carro ou a pé, no metro, no autocarro ou até de bicicleta. Por vezes entrevistava as suas pessoas de laboratório, interrogava-os à porta de casa, observava as suas línguas, apalpava as suas glândulas salivares, testava os seus reflexos.
Para o ajudar na sua difícil tarefa, trazia vários instrumentos enfiados numa mala de pele rectangular: um par de binóculos, uma máquina de filmar, um gravador de voz, um iPhone, um computador portátil, uma máquina fotográfica, um estetoscópio, um esfigmomanómetro, um bloco de notas A4, meia dúzia de canetas BIC e um enorme arquivo com o historial dos seus humanos. O professor Alberto Gago e Esperto passou anos nisto (na verdade, décadas) e queria agora publicar um livro com a sua teoria da evolução das espécies que, segundo nos conta, vai mais longe que a de Darwin. Isto porque, desde a Guerra Fria, o ser humano estava a viver um momento único na sua evolução. Os olhinhos do professor Alberto Gago e Esperto brilharam quando disse estas palavras.
Na sequência da sua observação, tinha reunido dados suficientes que permitiam concluir que o ser humano estava, não a evoluir, mas sim a regredir. Ou seja, a evoluir "ao contrário, para trás". Claro que a regressão era, também ela, uma evolução, pelo que o professor Alberto Gago e Esperto intitulou a sua teoria, não de regressão, mas de revolução.
Para este antropólogo, os factos estavam à vista de todos. Os seres humanos andavam cada vez mais corcundas e tinham feições cada vez mais feias, bastava andar pelas ruas das capitais europeias para perceber isso. As mulheres de hoje tinham visivelmente muito mais pêlos do que antigamente e os homens recomeçavam a comer de boca aberta e eram cada vez mais agressivos. No curto espaço de meio século, era possível ver toda esta regressão (ou melhor, revolução). As próprias classes dirigentes andavam mais animalescas. As trombas do presidente iraniano e os cornos de Manuel A. A. Pinho ilustravam claramente esta tendência. Na sua opinião científica, era possível que, nas próximas três gerações, nascesse o primeiro australopiteco. Isto porque a revolução das espécies se estava a dar muito mais rápido do que a evolução. As pessoas eram cada vez menos inteligentes e tomavam atitudes cada vez mais irracionais.
No final desta conversa, o professor revelou uma outra hipótese ainda por comprovar. O professor Alberto Gago e Esperto previa que, no futuro, o ser humano menos sapiente fosse domesticado por uma espécie mais inteligente. Os sinais de hoje pareciam apontar nesse sentido: as pessoas já não tinham ideologias mas queriam seguir quem as guiasse, além de que eram cada vez mais carentes e desorientadas. As observações do professor sobre os acessórios femininos são também extremamente perspicazes no atinente à domesticação da espécie humana1.
A pergunta que se coloca é saber quem será a espécie domesticadora. Mas esta teoria, promete o professor Alberto Gago e Esperto, ficará para um outro livro.
É, pois, com impaciência que aguardamos a publicação desta revolucionária Teoria da Revolução das Espécies.

1 "As mulheres ocidentais do século XXI cobrem os pulsos de pulseiras que tilintam com qualquer movimento do corpo. Ora, o som destas pulseiras é muito semelhante ao dos chocalhos das ovelhas. Não me parece que esta semelhança seja uma coincidência."

terça-feira, 21 de abril de 2009

O estranho caso do lápis pequeníssimo

O lápis pequeníssimo desaparecia nos dedos e reaparecia nas folhas em forma de carbono. O carbono era, por seu turno, o sangue do lápis.
Não demorámos a perceber a semelhança entre o lápis e Benjamin Button. Ora, esta semelhança cativou-nos.
(Não vimos o filme, mas gostamos do Brad Pitt e conhecemos o tal estranho caso de se nascer ao contrário.)
Observamos o lápis como quem observa um diamante: estudiosamente.
(A propósito desta comparação apercebemo-nos disto: o lápis e o diamante são formas distintas de carbono, outro estranho caso.)
Tacteamos o lápis, descobrimos os seus contornos, as seis faces, gostamos de todos elas, giramo-lo na mesa, fechamos os olhos para ouvir o seu chilrear.
Afiamos o lápis cheios de tempo.
(Tão cheios de tempo que o lápis perde o bico e logo o afiamos de novo.)
Gostamos de afiar o lápis.
O lápis pequeníssimo é agora ainda mais pequeno. Em contrapartida, a sua existência é maior, pois gostamos mais dele do que do resto do mundo.
Pousamo-lo na orelha e levamo-lo a passear pelas ruas. Contamos-lhe histórias, compramos-lhe um gelado.
No final do dia voltamos de mão dada para casa. Pegamos no lápis ao colo, acariciamo-lo, entrelaçamo-lo nos dedos para escrever. No final do dia afiamos o lápis pequeníssimo mais uma vez. Na verdade, até ele perder o bico, para que haja silêncio no seu corpo. No nosso corpo. Em todos os corpos.
Depois afiamo-lo novamente. Ansiosamente.
Até ao final do lápis.
No final contemplamos os despojos de carbono e madeira.
Arrastamos estes restos de vida para o cesto dos papéis, bem como tudo o que escrevemos com aquele lápis e tudo o que desenhámos, tudo o que desejámos (primeiro os dedos, depois o coração e finalmente a linguagem).
Era um bom lápis, aquele. Nem duro nem mole. De tipo HB.
(Nada será como dantes.)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Mirtilos

Tinha sede e fome. Por isso bebeu de um só trago um actimel de frutos do bosque.
Depois morreu. Uma alergia fatal a mirtilos.
Por curiosidade, um familiar leu o rótulo de uma embalagem de actimel de frutos do bosque: 0,6% de mirtilos. Repetiu de si para si: Zero-vírgula-seis*.
Depois abanou a cabeça e acendeu um cigarro. Tinha decidido deixar de fumar, mas assim não valia a pena.

*Equivalente, por exemplo, à percentagem de eleitores irlandeses na UE.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sermão de Santo António aos peixes

Os homens do mar deixaram de ir ao mar por causa dos homens da terra. Por conseguinte, no dia 13 de Junho, ninguém comeu sardinhas. Meses mais tarde, o mar enchia-se de sal e de vida.
Nisto, Santo António decide voltar à terra. A Lisboa, precisamente. Disse para as margens do Tejo: O mal dos homens faz bem aos peixes.
Estava deveras contente, pois já tinha a quem pregar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A cidade azul

A cidade é escura e as pessoas são tão brancas. Fosse a cidade menos escura e as pessoas menos brancas, seriam um pouco mais compatíveis. As pessoas e a cidade.
Isto pensava Klaas, que era um rapaz sensível. Pensava frequentemente em coisas assim, menos quotidianas, menos práticas, potencialmente inúteis.
Klaas imaginou depois uma cidade que não esta e fechou os olhos para que ela existisse. Era uma cidade azul: o céu e a terra unidos pela cor, o azul em cima muito claro e o do chão muito escuro, entre um e outro um esbatimento perfeito de azul que pintava as fachadas, as praças, os bancos, as estátuas, os carros, as pessoas. O azul mexia-se com o vento, ia e vinha como os reflexos na água. Alguns prédios eram azul-água, outros azul-turquesa. As árvores baloiçavam quase líquidas, marinhas, as pessoas tristes tinham o rosto violeta, as menos tristes um azul neutro. Mas o primeiro azul, o original, o primário, primitivo, esse morava apenas nos olhos da rapariga. A dos cabelos aos caracóis, que apanhava o 27.
O Klaas decidiu que todas as manhãs, essa rapariga que apanhava o 27 sairia no Sablon para dar cor e vida aos vitrais da igreja, e anunciar o dia. Um milagre em tons de azul. Klaas decidiu também que o sol da cidade azul estava nos olhos da rapariga que apanhava o 27.
Depois abriu os olhos para apanhar o 27. E lá estava a rapariga dos caracóis a acordar a cidade.
Azul não era uma cor original para os olhos da rapariga do 27. Disto apercebeu-se Klaas, por que os olhos já eram efectivamente azuis.
Klaas aproximou-se da rapariga para vislumbrar melhor a cor dos olhos e viu que eles eram afinal, não de um azul original, mas de um appel-blauw-zee-groen, uma cor que só os flamengos conhecem. Entre o verde e o azul, a maçã e o mar. Havia nessa cor um certo mistério, uma certa verdade, um certo pecado. Isso fez com que Klaas esquecesse as pessoas e a cidade.
Nesse preciso momento, os olhos da rapariga nasceram repentinamente para Klaas. Era um olhar fulminante e Klaas caiu no chão, ofuscado.
Para os da cidade escura, o rapaz estava cego. Para os da cidade azul, era um recém-chegado. Para ela, um comum-mortal.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Mulher à janela

Queria estar em casa e, quando estava, queria estar noutro lugar. Escolhia por isso a janela da sala para os seus serões e ficava horas a ver a chuva, bem como as pessoas debaixo dela.
A chuva era fina e transparente. Por vezes, não se via. Uma chuva a fingir que não era.
As pessoas eram pequenas ou grandes. As que vinham da esquina eram pequenas e depois ficavam grandes. As que vinham da outra ponta da janela eram grandes e ficavam pequenas. As primeiras apareciam imprevistas no fundo da rua e subiam muito lentas, como caracóis, até desaparecerem enormes na outra ponta da janela. As segundas apareciam enormes e minguavam a cada passo, até desaparecerem formigas na esquina. Quem subia a rua era pequeno e inchava até ser gente. Quem descia a rua era pessoa, que se tornava depois em quase nada.
A mulher media as pessoas da esquina com o polegar da mão esquerda: alinhava-o com o olho e depois concordava com a designação "polegarezinhos". Achava que as pessoas que vinham da esquina eram duendes. Que só depois se transformavam em pessoas.
Por outro lado, os que vinham da ponta da janela já eram pessoas e depois ficavam cada vez mais pequenos até desaparecerem na esquina com o tamanho exacto de um polegar. Eram agora duendes.
A sua rua dividia os dois mundos e a mulher à janela preferia minguar a crescer. Ou seja, gostava mais de duendes do que de pessoas. Por isso, quando saía de casa, nunca subia a rua: descia sempre. Fosse qual fosse o seu destino, começava o seu trajecto por descer a rua que unia os dois mundos.
Pelos seus cálculos, minguava cinquenta vezes em cada saída, porque dava cinquenta passos até ao dobrar da esquina. A esta altura seria, pois, mil vezes mais pequena do que um polegar. Qualquer dia, serei um só átomo, prometia a si mesma.
Ninguém via a mulher à janela, pois era demasiado pequena para os olhos. Hoje à tardinha, olhou para o seu reflexo na janela e nem mesmo ela se viu.
Era quase igual à chuva:
uma pessoa a fingir que não era.

terça-feira, 25 de março de 2008

Ressurreição

Aquele vampiro foi à missa e nem sequer acreditava. Há anos que não entrava numa igreja e logo naquele domingo de Páscoa decidiu: Vou à missa. E foi.
Disse a quem o ouviu que ia à igreja ouvir o órgão antigo, de cantar austero e olhar profundo, soturno, vestido de negro. Disse: Aquele órgão com cara de Nosferatu, e logo se arrependeu da comparação. Tossiu, tropeçou, disse muito alto: Aquele órgão com cara de Adamastor. (Por ter barba nas pontas e todas as tormentas no rosto.)
Foi à missa.
O homem de Deus anunciou: Vós sois o sal da terra! e nisto o vampiro chorou o sal de dentro. Assim: de súbito, inexplicavelmente, de marinheiro em alto-mar. O padre falou da ressurreição de Cristo e o vampiro estremeceu, cheio de pecado. (Teve terror a Deus, imenso terror a Deus.)
Quando o órgão cantou no fundo do seu corpo, o vampiro perdeu as asas, virou peixe, entrou numa enorme boca. Chamou-a: Adamastor, e morreu.
Três dias depois abriu-se um caixão e dele saiu um vampiro. Renovado, inspirado, impossível. Disse: Sou Orfeu, por trazer música no corpo. Os homens disseram: É a ressurreição de Nosferatu.
Mas não era. No corpo do homem renascia a própria música, de cantar austero e olhar profundo, soturno, vestido de negro. Uma música um pouco mais real, brutal, divina.
Pelas ruas da cidade andava pé ante pé o órgão daquela igreja, com cara de Nosferatu ou Adamastor, cheio de pecado na voz. Apelidaram-no erradamente de vampiro ressuscitado por desconhecerem o rosto da música.
Do pecado.
Do sal da terra.
E de Deus.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O moleiro

Falava sozinho. Dizia:
- Só o ar importa!
e nisto o Senhor Müller inspirava toda a inspiração do mundo e dizia sentir o ar por dentro, a ventania do corpo. Havia dias de furacão, explicava, e nessas alturas o corpo inchava como um balão, ia com o vento, completamente dominado. Dizia tudo isto e rodava a anca larga.

No fundo do moinho havia um saco e ninguém sabia o que tinha dentro. O Senhor Müller recusava-se a abri-lo e guardava o moinho como um guarda prisional. Dizia que era secreto, mais valioso que os tesouros, que um moleiro tinha mais do que qualquer pirata no mar alto, por interpretar melhor o vento.

O moleiro inspirava até o fim de si mesmo e ficava suspenso, cheio, gasoso, branco como as nuvens. Dizia:
- Só o ar é puro e livre, só o ar viaja pelos corpos, dentro do próprio sangue.
O Senhor Müller era naturalmente louco, mas a sua loucura parecia saudável, fazia-lhe bem ao corpo, não fosse o segredo perturbante do saco.

Claro que na aldeia se falava constantemente daquele mistério e o padre servia-se dele aos domingos, para incentivar o terror a Deus. As crianças diziam que nele (no saco e não em Deus) dormia um monstro e as senhoras benziam-se quando alguém falava no nome da Senhora Müller e sugeria que a pobre mulher estava muito bem embrulhada no saco.
A padeira remexia desconfiada a farinha que vinha do moinho e provava-a antes de fazer a massa. Mas no final, todos comiam do pão, até mesmo o padre e as beatas nas suas metaformoses religiosas de pão que se transforma em corpo.

- O corpo transforma-se em ar!
(Era assim que o Senhor Müller explicava a morte.)

O moleiro morreu no próprio moinho, numa tarde sem vento. Antes de se ocuparem do corpo, os aldeões dirigiram-se ao saco. Era tão pesado que até o próprio padre teve de ajudar os homens a arrastarem-no para a rua. As crianças esconderam-se no moinho e as mulheres, cheias de terror nos olhos e no corpo, agarravam-se umas às outras. E fizeram bem.

Porque quando a boca do saco se abriu, saltaram para o mundo todas as inspirações possíveis, todo o ar imaginado, desde um furacão até às nuvens mais brancas, de formas variadas. Era um espectáculo bonito de se ver aquele, o ar a explodir de liberdade, cheio de cores, texturas e cheiros.

Os aldeões pensaram ter visto um milagre, mas o padre acusou o moleiro de heresia e o assunto foi literalmente enterrado.

O Senhor Müller ainda disse:
- Guardei tudo isto para que nunca nos faltasse o ar!
E algumas pessoas ouviram-no, já que a sua voz andava à solta, a viajar pelos corpos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sede

Abriu uma porta do armário, tirou um copo, abriu a torneira. Ergueu o copo cheio como outros erguem o cálice do vinho.
Bebeu. E suspirou.
Limpou a boca com as costas de uma mão e reparou que estavam secas:
a boca e a mão.
Tinha sede. Imensa sede. Bebeu mais um copo de água. Dois copos de água, três, quatro.
- Este copo é pequeno! - concluiu, e atirou-o para o chão.
O copo partiu-se.
Abriu uma porta do armário e tirou uma taça. Achou-a pequena. Tirou uma taça maior, depois outra. Eram todas pequenas. Atirou-as para o chão.
Partiram-se.
Abriu outra porta e tirou um tacho, depois outro. No final, tirou uma panela de pressão. Pousou a panela no lavatório e encheu-a de água. Enquanto esperava, outra espécie de água brotava da boca. Quis beber mas os braços não conseguiam levantar a panela. Debruçou-se sobre o lavatório e sorveu a água com a língua.
Desistiu.
Tirou a panela do lavatório e enfiou nele a cabeça. Abriu a torneira, molhou o rosto e os cabelos. Depois bebeu toda a água que o corpo permitia. Finalmente, fechou a torneira e caiu no chão com o peso do líquido.
Os vidros enfiaram-se no corpo e havia sangue no chão da cozinha. Suspirou e nessa altura reparou que os lábios continuavam secos. Quis levantar-se para beber e não conseguia.
Era uma sede inexplicável, impossível, insaciável.
Arrastou-se até ao lavatório e ergueu-se com a ajuda das mãos. Estendeu a língua por baixo da torneira e saboreou uma gota que caía. Não tinha força para rodar o manípulo, mas tinha sede. Imensa sede.
Uma luta aterradora contra o próprio corpo.
Declarou:
- A sede da minha alma é indomável.
E abriu a torneira.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O sonho do psicanalista

O psicanalista sonhou o sonho da sua vida e nesse sonho era ele que se deitava no divã. Falava para o tecto. Não demorou a perceber que afinal falava consigo próprio, pois também ele se sentava na cadeira do psicanalista.
No sonho sonhava que se deitava, embora já estivesse deitado. No fundo, a sensação era a de se afundar mais um pouco no divã. Sentia-se extremamente confortável. Pedia: "Analise-me!" e o psicanalista retorquia: "Analise você!". Um deles olhava para o tecto, o outro olhava para o primeiro.
Silêncio, um silêncio profundíssimo e ele um pouco mais deitado do que antes, no fundo de si mesmo, cada vez mais no fundo. Uma voz pedia-lhe: "Fale-me dos seus sonhos!" e ele reclamou silêncio, um pouco mais de silêncio, ainda mais silêncio, o maior silêncio de todos. Explicou: "Aquele silêncio que vem de dentro e é opaco, impenetrável". Ele deitado no divã e sentado na cadeira: via-se a si próprio na posição do outro e já não sabia quem era.
Quis falar de um sonho e tentou lembrar-se de um. Contou que estava deitado num divã, que pedia ao psicanalista: "Analise-me!" e que este lhe retorquia: "Analise você!". Depois disse que afinal aquilo não era um sonho, que era o momento dentro do sonho e que portanto era real. Tentou falar de outros sonhos e, quando abriu novamente a boca, não tinha voz. O psicanalista deixara de o ouvir, observava-o apenas. Ele deitado no divã a esbracejar, sem uma palavra para dizer.
(Visto assim, do lugar do psicanalista, o psicanalisado mais parecia um náufrago. Morreria afogado no divã a qualquer momento.)
O psicanalista ainda disse: "Fale-me de um sonho que não esse!" e o outro, cada vez mais deitado, queria dizer-lhe bem alto: "Só conheço os sonhos dos outros", mas a sua boca não produzia sons.
Na manhã seguinte, o psicanalista acordou no seu próprio divã e não conseguia levantar-se. Agitava os braços no ar, agarrava-se às almofadas, mas tudo parecia afundar-se com ele. Era o divã que o engolia e o psicanalista, quando se cansara da luta, deixou-se estar naquela enorme boca.
Tinha a esperança de que se tratasse de um sonho dentro do sonho.
Mas era evidente que não.
O psicanalista não sabia nada sobre o seu universo onírico. De facto, só conhecia os sonhos dos outros, alimentava-se deles, vivia para eles. E naquele dia, os outros – unidos por aquele divã e já sem sonhos para sonhar – comiam-no vivo. Para terem os seus sonhos de volta.
(O chamado sonho contra sonhador.)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Os dez dedos das mãos

Aquela rapariga lambe os dez dedos das mãos. Está sentada sozinha numa mesa de quatro e come uma salada agressiva, cheia de pormenores coloridos. Tem um garfo numa das mãos e na outra três anéis. Espeta o garfo na salada e encosta-o aos dedos da mão dos três anéis, que ajudam a dobrar a folha de alface. Olha só para o prato enquanto come e é agora que lambe os dez dedos. Um a um e sempre o mindinho primeiro (só depois os outros, por ordem de chegada). De vez em quando não lambe mas chupa. Faz imenso barulho, mas mal se ouve porque a música do bar toca mais alto.
Interesso-me pela rapariga que lambe os dez dedos das mãos.
No final da refeição rápida lambe apenas quatro dedos: os dois polegares, um dos indicadores e um mindinho. É rápida com a língua e com as mãos. Limpa depois a saliva dos dedos nas calças de ganga, puxa uma mala inquieta e tira do seu interior um pacote de tabaco de enrolar e uma bolsa velha, que tem na frente um arco-íris estranho de loja marroquina. Da bolsa emerge uma pequeníssima caixa de cartolina e, de dentro da caixa, uma folha de papel muito frágil. Deita tabaco para cima da folha, enrola-a com ambas as mãos, lambe uma das margens e, quase por magia, nasce um cigarro. A rapariga tem um esboço de sorriso no rosto, lambe novamente o papel, depois um dos dedos, mete o cigarro na boca, roda-o com a língua, acende e fuma.
Entretanto começa a roer as unhas de ambas as mãos, passa o cigarro de um dedo para outro. Quando a beata deixa de minguar, a rapariga apaga o cigarro com força, esmaga-o no cinzeiro. E de repente, acontece algo verdadeiramente imprevisível: para meu grande espanto, a rapariga lambe a palma da mão inteira. Explico: põe a língua de fora, estica-a para os lados exibindo-a em toda a sua amplitude e lambe a mão dos três anéis, que ergue alta e muito aberta.
Descontrolo-me com aquela visão. Levanto-me sobressaltada, dirijo-me à rapariga: "O que é que está a fazer?". Ela olha-me de lado, quase indignada. Responde: "Estou a lavar-me!" e dobra-se sobre si mesma para lamber o seu próprio lombo.

Era evidentemente a primeira mulher-gata que eu conhecia. Uma mulher fantástica e uma gata extremamente limpa, as duas numa só. A partir desse dia invejei a rapariga que lambia os dez dedos das mãos. Por ela me fazer sentir realmente incompleta.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Contemplação

O quadro ocupava várias paredes, mas naquela altura isso era irrelevante porque as paredes deixavam de existir e o mundo era agora o quadro. As telas gigantes representavam um jardim e era tão bom olhar para elas, que a mulher se lembrou do Jardim do Éden. A arte emocionava-a e ela disse bem alto: "A mão de Deus nas coisas". A mulher chamou-se a si própria Eva e atravessou o quadro. Primeiro com a mão, depois um pé, depois o outro.
Tinha chovido naquela manhã, adivinhou, pois a relva estava húmida e as últimas gotas desequilibravam-se das árvores. A mulher estava agora nua e o seu corpo era tão branco que mais parecia uma estátua em movimento. Afastou a cortina de um chorão e sentou-se à beira do lago: era bom ouvir a água pousar nas margens.
Horas mais tarde sentiu-se sozinha e foi então que pensou no primeiro homem. Imaginou-o nu e branco como ela e antecipou o primeiro beijo. Depois levantou-se e encheu os pulmões de ar. Gritou: Adão!, mas nesse momento caiu sobre o jardim uma nuvem enorme e a mulher calou-se. A sombra ia descendo na sua direcção e Eva dirigiu-se a ela sem medo. Finalmente reconheceu cinco dedos enormes que, acariciando-lhe primeiro o rosto, a pegaram ao colo. A mão de Deus nas coisas.
Neste caso, era a mão do pintor. Vinha ver o seu jardim de tempos a tempos e gostava de colher os seus frutos. Pintor e obra olharam-se com demora, ele enorme e ela muito pequena.
Quem os vê, pensa: Um não existe sem o outro.
Mais uma história de amor.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A velha e o cão

A velha batia-lhe com o jornal se o visse, por isso ele esperava que a dona fosse à cozinha. O cão apoiava-se então nas patas traseiras, levantava a mão da frente e coçava a nuca com enorme fúria. Por vezes, a velha apanhava-o em flagrante e enrolava o jornal com as mãos muito trémulas. Enquanto lhe batia, cuspia asneiras entre lábios já que não tinha dentes e dizia-lhe que era mau, que as carraças vinham da mão de Deus, que ele seria punido depois da morte no Inferno por ser um cão tão reles. Em certos dias não lhe dava de comer para o castigar ainda mais e o cão já nem gania de lamento.
Certa manhã, a velha deu com o cão ao lado do sofá, deitado quase de costas. "Queres mimo, queres! Cão imundo, em ti não te toco eu!", jurava a velha e depois praguejava em silêncio, o queixo balbuciando alguma verdade. De facto, o cão estava deitado em posição de festinhas, mas já estava morto havia dias e a velha tardou em aperceber-se disso. Até que, certa vez, reparando que o peito do cão não crescia nem encolhia, lá sentenciou: "Vais pró Inferno!". A velha sentou-se no sofá com a ajuda da bengala enterrada na carpete. Explicou ao cão que o criado de Lúcifer o viria buscar e resolveram esperá-lo juntos durante dias, a velha no sofá e o cão a seus pés, deitado quase de costas, a língua desenrolada no chão. A velha só então se apercebeu do comprimento exagerado daquela língua. Possivelmente, articulando-a bem, aquele cão conseguiria falar. Assim como assim já era tarde para isso pois os mortos não falavam perante o Diabo.
Finalmente alguém abriu a porta da rua. A velha ajeitou a almofada satisfeita, o criado que viesse levar o cão imundo. Mas em vez do mensageiro de Lúcifer, entravam afinal a filha e o genro, um ao lado do outro, gordos como balões. Já não os via há anos, a filha estava cada vez mais feia e ficava ainda mais horrível quando vociferava por causa das veias em relevo no pescoço. O que a filha dizia era incompreensível, a sua dicção era péssima, antes fora que lhe tivesse amarrado uma língua de cão à boca quando a ensinara a falar. A velha levantou-se e disse que não era boa hora para estarem ali, pois esperavam o criado de Lúcifer. Depois coçou a nuca em compasso de espera, mas nenhum dos dois arredava pé. O genro disse qualquer coisa incompreensível à filha, mas esta não respondia, parecia em estado de choque. É que a mãe, em vez de falar, ladrava e tinha carraças no corpo todo.
Cão que ladra não morde, dizia o genro de si para si. Era um pensamento deveras estúpido.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Lei de Murphy

Independentemente da hora a que acordasse, o engenheiro era sempre o último a chegar ao trabalho. Se acordava cedo, atrasava-se. Se acordava tarde, já era tarde. Se ia de carro, a sua fila era sempre a mais lenta. Se ia de autocarro, perdia-o (mesmo que corresse), sendo que o segundo tardava sempre em chegar. Praguejava: "Cabrão do Murphy!".
O engenheiro começava a fumar pelas 7 da manhã, assim que saía de casa. Quando chegava à paragem, esmigalhava a beata contra o chão. Se viesse cedo, ainda arriscava acender outro cigarro, mas o autocarro teimava em chegar depois do primeiro bafo. Conclusão: a sua manhã começava invariavelmente mal.
Até que, numa noite como as outras, antes de adormecer, o engenheiro disse de si para si: "Já sei!" e no dia seguinte acordou tarde, cantou no duche, comeu torradas com manteiga, beijou a mulher antes de sair de casa, assobiou pela rua.
Quando chegou à paragem disse entre dentes: "Toma, cabrão!" e acendeu um cigarro com o gesto perfeito das estrelas de cinema. Como previsto, depois do primeiro bafo, o autocarro chegou. O homem riu-se de felicidade. Afinal também havia maneira de contornar a lei de Murphy, o engenheiro sentia-se todo-poderoso. Começou a chuviscar, mas o homem não quis saber da água nos ombros (pela lógica, amanhã traria o chapéu-de-chuva e não haveria chuviscos). Pisou o cigarro recém-aceso e quando ia a entrar no autocarro, ouviu atrás de si: "Mas o que é isto?".
Era um agente da autoridade e o engenheiro olhou-o com respeito. "Sabe que pode ser multado por deitar coisas para o chão? Limpe lá as pontas dos cigarrinhos!". A porta do autocarro fechou-se antes de o homem entrar mas, mesmo assim, o engenheiro petrificou em frente à estrada e assim ficou durante cinco segundos, a sentir o peso da chuva nos ombros. O polícia esperou-o pacientemente. O engenheiro baixou-se e apanhou as duas beatas em silêncio. Praguejou para dentro: "Cabrão do Murphy!". Não havia recipientes do lixo ali perto, por isso o homem atravessou a rua, desceu até à rotunda e deitou as beatas num contentor verde.
Voltou para a paragem e o polícia felicitou-o pelo acto. Depois deu-lhe uma breve lição de cidadania. Não se contendo, o engenheiro declarou gravemente: "Vou fazer queixa de si!" e o outro riu-se indignado: "De mim? A quem? Aqui quem manda sou eu!". Desafiaram-se com um olhar afiado, afinado, afidalgado. O engenheiro tirou um bloco de notas do bolso da camisa. Depois tirou uma esferográfica barata, olhou-a com interesse, apertou-lhe a cabeça e a caneta fez clic-clic. Pediu com ar importante: "O seu nome, por favor" e na boca do outro explodiu uma gargalhada, tinha agora o queixo e o peito para fora.
"Chamo-me Murphy!", disse o agente já recomposto, "Escreve-se com ph e tem um ípsilon no fim". O engenheiro petrificou outra vez e foi homem-pedra durante cinco segundos. Entretanto, ao fundo da rua, aparecia mais um autocarro mas nenhum dos homens deu por isso. O engenheiro escreveu demoradamente o nome do polícia enquanto este o soletrava. Desafiaram-se outra vez com os olhos. O homem viu o autocarro, quando este já estava parado à sua frente, mas não quis correr. Tinha medo do ridículo.
O polícia afastou-se devagar e atravessou a rua fora da passadeira. Gritou-lhe já do outro lado: "A minha lei é transcendente!". O autocarro partiu e o engenheiro petrificou outra vez em frente à estrada. E agora sim, chovia torrencialmente.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O outro lado do espelho

A mulher saiu do duche de 5 minutos e meio, viu o seu reflexo no espelho ainda baço e perguntou: "Quem és tu?". É que, de repente, parecia-lhe que a mulher do outro lado era um pouco mais forte, um pouco mais alta, um pouco mais bonita. A mulher aproximou-se do espelho e limpou-o com uma toalha irritada. "Sou o outro lado espelho" ouviu da sua boca e riu-se de si própria. O reflexo ria-se também, depois ficaram as duas muito sérias, os lábios cerrados, duas testas inclinadas para a frente, tinham rugas tão profundas que mais pareciam feridas. Os cabelos da mulher estavam molhados e afunilavam nas pontas. Caíam gotas de água nos ombros magros, escorriam pelos seios murchos iguais às almofadinhas de cheiros inúteis que a avó fazia nos Natais. Uma gota mais robusta caía agora pelo ventre sempre maior do que desejara (a esperança estúpida de que ninguém o visse senão ela) e hesitava numa subida mais íngreme até morrer no umbigo. A imagem do espelho era definitivamente mais bonita do que a mulher e essa certeza enervava-a. As duas mulheres olharam-se fixamente e, num acesso de raiva, lançaram as mãos pelo espelho para puxarem o cabelo uma à outra. Os berros de uma eram iguais aos da outra, tinham unhas com demasiado cálcio e arranhavam-se com violência. Uma sangrava da testa, a outra da boca, estavam agora as duas deste lado e pontapeavam-se. A mais fraca escorregou no chão e, durante a queda, a outra agarrou-lhe o pescoço com um só punho erguendo-a à bruta. Depois, com a ajuda da outra mão, atirou-a contra a parede. A mulher caiu de costas no outro lado do espelho e aí ficou deitada engolindo tragos de oxigénio. A outra ficou a vê-la. Finalmente, olhou à sua volta e abriu todas as portas da casa de banho à procura de álcool para desinfectar as feridas. Por vezes dizia "Au!", mas não muito alto para a outra não ouvir. Depois cortou calmamente as unhas já que seis delas se tinham partido. Saiu da casa de banho, entrou no quarto, mexeu na roupa e gritou de lá para cá: "Que falta de gosto!". Vestiu qualquer coisa à pressa e regressou ao espelho para se maquilhar. Enquanto ali estava, o lápis preto contra as pálpebras dos olhos que estavam postos nos olhos do reflexo, pensou: "A lei do mais forte!". Depois acenou para o espelho como quem se despede dos comboios no apeadeiro. E enquanto movia o braço direito no ar, a sua imagem respondia-lhe com o esquerdo. Ou seja, uma era o inverso da outra.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O planeta azul

Nos dias bons sonhava com o corpo caminhando contra o vento (e não com o vento contra o corpo). Mas o planeta era sempre o mesmo, muito redondo e demasiado pequeno para as pernas sempre longas. Explicava ao médico: "Não é o planeta do Principezinho porque não tem crateras e é azul". A psicóloga queria saber sobre a paisagem e ela explicava ao pormenor as várias estrelas ao longe, os planetas do lado que eram afinal rostos de pessoas desconhecidas. Havia também um mar ao fundo diferente do mar da Terra por cair de cima para baixo, escorrendo por uma parede invisível. O psiquiatra perguntou-lhe se via o seu planeta quando estava acordada e ela riu-se divertida. Nos sonhos maus havia uma nuvem redonda que era maior do que o planeta. Nessas alturas, tentava fugir do nevoeiro mas o corpo ficava no mesmo sítio e era o planeta que rodava debaixo dos pés. A naturista falou-lhe dos efeitos de uma nutrição desequilibrada. Também sonhava que abria os braços e se atirava para o espaço mas, por mais que saltasse, voltava sempre a cair no seu planeta. Falou deste sonho num almoço de domingo e a mãe disse-lhe: "Se calhar estás com falta de espaço!". A filha concordou. Nesse domingo foi de comboio para Bruxelas só porque era o próximo comboio a partir. Ao chegar à estação central viu uma placa de rua a apontar para a direita. Leu "Grand Place" e achou apropriado ir vê-la. Entrou na praça por um dos vértices, respirou fundo e sentou-se no centro. Adormeceu sem querer passados alguns minutos. Sonhou outra vez com o corpo contra o vento e, ao acordar, viu um homem ao seu lado. Estava sentado numa cadeira e fumava cachimbo. Aos pés do homem estava uma tela e ao lado dessa tela havia mais telas. Ela levantou-se e pensou "Este vento é igual ao do meu sonho". Depois olhou para os quadros. A imagem do meio era a mais confusa, tinha estrelas, planetas, nuvens, água, vento e luas. No centro da tela viu o seu planeta e perguntou ao homem o nome do quadro. O homem disse: "Universo Paralelo" e ela sorriu. Contou-lhe do seu sonho repetido e o homem ouviu atentamente. No final ela perguntou: "Que quererá isto dizer?" e ele encolheu os ombros. "Não sei, mas é uma sorte teres um planeta só para ti". Ela concordou e voltou satisfeita para a estação.