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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O meu bruxedo doméstico

Ocorreu-me agora que passei o Dia das Bruxas na cozinha. Entre outros feitiços, fiz uma sopa de legumes para aquecer a psique e curar os males do mundo. É um ritual simples, mas ainda assim mágico.
Primeiro lavei os legumes. Brócolos, tomate, feijão verde. Nabo, beringela, beterraba. A natureza bela, com todas as suas formas, todas as suas cores. Cortei os legumes às fatias no meu altar de madeira e atirei-os para o caldeirão. A água sagrada a fervilhar de entusiasmo. No final disse a minha reza e lancei uma pitada de sal. Seguiu-se o tempo da espera e do feitiço. Oxalá o remédio surja. Oxalá a humanidade vença. No final provei a minha poção mágica com a colher de pau.
Não era má, a sopa. Era boa.
Ao menos isso.
Neste planeta Terra, tão virado do avesso, em que todos os sonhos parecem falhar, eu escolho o deslumbre das coisas domésticas, tão verdadeiras que parecem encantadas.
Uma colher de pau. Uma pitada de sal. E uma sopa de legumes.
Eis o feitiço do Dia das Bruxas. A minha magia real. O meu bruxedo doméstico.
Enquanto houver esperança, hei de voltar ao caldeirão. Para imaginar a magia. E salvar a inspiração.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Abóbora

Gosto da palavra e do fruto.
Em todas as línguas é doce. E abobadada.
Pumpkin. Potiron. Abóbora.
Gosto da forma e do conteúdo: a casca dura e desajeitada, a polpa cor de laranja.
É um fruto profundo. Talvez oculto.
Está cheio de sementes e sussurros.
Dentro de uma abóbora está a carroça da cinderela e também a bruxa má. Com a sua vassoura, a sua loucura.
Cuidado com as abóboras, menina.
Têm uma magia bonita e uma magia feia.
Apesar disso, ou por causa disso, gosto à farta de pevides.
E de tarte de abóbora. Compota de abóbora.
Óleo de sementes de abóbora. Hmmm.
É um oleo escuro e denso. Como o meu sangue.
Qualquer coisa acontece quando como este fruto. Uma esperança qualquer por dentro.
Eu como pevides e penso: Talvez tudo mude. Oxalá o mundo avance. Oxalá fique quieto.
Temos coisas em comum, eu e a abóbora.
Também eu sou cinderela e bruxa. Desajeitada e oculta.
Além disso, tenho cabeça de abóbora. Sou bastante abobada.


E adoro laurear a pevide.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Banana Chips

No outro dia, descobri as banana chips. No México não querem outra coisa. Parecem batatas fritas, mas não são batatas nem fritas. São fatias de banana. Estavam à venda no café. Diziam: Go bananas with these chips! e eu achei piada, porque joguei Bananoid até tarde e sou Ana Banana. Comprei um pacote: 120 gramas de banana frita e crocante, que amolece na boca. Comi o pacote em 24 horas. 120 g de um grande enjoo de banana com leite de côco. De castigo, fiquei a marear, numa naúsea de marinheiro que anda para cima e para baixo, para cima e para baixo.
Olha, se calhar, entrei num barco e fui a balançar nas ondas. Nem disse adeus a ninguém. Entrei e fui. Nem sequer comprei bilhete. Se me apanham, ainda me lançam ao mar. Neste momento, estou a subir e a descer, a subir e a descer.
Tudo por causa das banana chips.
120 gramas de parvoíce.
Se calhar, gosto de estar enjoada.

É possível.

Ou então estou meia abananada.
Deve ser isso.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O que eu faço por chocolate à sexta-feira

Nada mau, a minha tradução já vai a meio. Esfrego as mãos porque tenho frio e também uma nova ideia. 
A ideia é: Acho que mereço um chocolate.
Abro o porta-moedas para contar as moedas.
Oh, que chato, afinal não tenho moedas para ir à máquina.
Penso: "Não faz mal, posso ir ao café e pagar com o multibanco".
Nice!
Vou aos pulinhos até ao elevador. 10, 9, 8 e por aí fora até ao chão.
Afinal esqueci-me do cartão de identificação. Sem cartão de identificação, não dá para sair do café, por isso volto para trás.
1, 2, 3 e por aí fora até ao 10.°. Onde é que ele está? Talvez no bolso do casaco.
Aaah, cá está ele. Agarro-o pelos colarinhos, regresso à cafetaria.
10, 9, 8 até ao chão.
Damm!
Afinal a cafetaria está fechada.
Penso: "Não faz mal, vou à papelaria." Na papelaria vendem-se papéis e também chocolates enrolados em papel. Estará fechada?
Suspense. Dobro a esquina.
Maravilha! A papelaria está aberta.
Fico 10 minutos indecisa. Este assim com noisettes ou aquele com pistaches fraîches? Mousse de café ou praliné croustillant? 
E se levar todos?
É melhor não.
Decido escolher os dois melhores e depois o melhor dos dois, sempre facilita a escolha. Fico com o de noisettes e o de praliné na mão.
Escolho o de noisettes.
Vou pagar, sorrisinho no canto da boca.
Aviso ao balcão: "Multibanco não funcemina"

What?

Não há nada a fazer, por isso desisto.
Devolvo o chocolate à prateleira e regresso ao gabinete. 1, 2, 3 até o 10.°.
Penso: "É da maneira que ando de um lado para o outro e poupo em calorias."
Parece que até já me sinto mais ágil, estou cheia de ganas de traduzir o resto do documento.
Olhem para mim a trabalhar com afinco.

Eu não preciso de chocolate para nada.
Nem sequer gosto de chocolate.
Nunca gostei.

Blaaargh! Que enjoo!
Há gente que não passa sem chocolate.
Não compreendo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Charlotte Chocolat

No outro dia uma amiga ofereceu-me um pacote de biscoitos.
Dentro do pacote estavam os ditos biscoitos mas eu ainda não sabia disso, porque o pacote estava fechado, e do lado de fora do pacote, mesmo a olhar para mim, estava uma moça sardenta de cabelo escuro com ar de quem conhece uma receita sofisticada de biscoitos de chocolate. Olhei melhor. A senhora tinha nome. Chamava-se Charlotte Chocolat.


Percebi logo que eu e a Charlotte Chocolat íamos ser amigas. 
O pacote dizia que os biscoitos eram feitos de chocolate e flor de sal.
Sim, é verdade: chocolate e flor de sal. 
Fiquei tão entusiasmada com a ideia de comer um biscoito doce e salgado ao mesmo tempo que abri o pacote e comi os biscoitos todos em dez minutos. Foi uma amizade fugaz, de facto, mas mudou-me para sempre.
Estou com vontade de tomar chazinho com a Charlotte Chocolat todos os dias. De tal forma que fui ao sítio dos generosos fabricantes e descobri outras companhias simpáticas para a hora do chá: a Céline Citron, o Sylvain Speculoos, o Viktor Vanille e a Nicole Noisette.
Ainda não interagi com estas personagens comestíveis, mas gostaria de beber chá com todas elas. 
Quem será o autor destas personagens?
Alimentada pela inspiração que me crescia na boca, comecei a imaginar possíveis nomes para outros biscoitos:
Amélia Amêndoa, José Café, Henrique Gengibre, Laura Laranja, Margarida Manteiga, Carolina Canela...
Deve ser engraçado inventar nomes para biscoitos.
Infelizmente, eu não dava grande nome para um pacote de biscoitos, porque já não há paciência para Ana Banana.
Voltei ao sítio generoso agora mesmo e acabo de descobrir que o café ao lado de casa tem destes pacotes generosos para a hora do chá.
A minha boca entusiasma-se, começa a fazer planos.
Pequeno intervalo para notícias sobre o tempo: amanhã, em Bruxelas, vão estar zero graus. A minha boca pensa: "Vai-me saber bem o chá!"
Claramente, eu nunca hei de ser magra nem sofisticada, sou um mamífero bruto a comer.
Por isso, olha! Mais vale cair numa depressão profunda. 
E buscar consolo nos ombros da Charlotte Chocolat. 
A minha boca diz de si para si: "Mmmmmmh..."

terça-feira, 14 de julho de 2009

Senhora Eleonora

Durante a hora de almoço estivemos a observar a senhora Eleonora. Para isso, tivemos de dobrar os nossos olhos como sinos porque a senhora Eleonora estava sentada na mesa do lado. Decidimos observar a senhora Eleonora por ela ser muito gorda e saltar, por isso mesmo, à vista.
A julgar pelo volume do peito, a senhora Eleonora podia ser prima-dona de profissão, vocação e temperamento, mas rapidamente concluímos que não era.
Uma pena.
Quando a comida chega, a senhora Eleonora recebe-a de braços literalmente abertos. Pega no garfo com a mão inteira e enrola com pressa um novelo de massa, que enfia de uma só vez na enorme boca. Temos fome só de a ver.
A senhora Eleonora não está sozinha. À sua frente, uma mulher magra desinteressante conta qualquer coisa e a senhora Eleonora come e cala. De vez em quando pressiona um guardanapo na boca e bebe um trago de água sem gás. No final de um relato visivelmente cómico, a senhora Eleonora dá uma gargalhada profunda e engasga-se porque ri, bebe e come ao mesmo tempo. A gargalhada, interrompida por uma curtíssima tosse, deixa adivinhar a enorme caixa-de-ar e nós temos novamente pena de a senhora Eleonora não ser prima-dona. Isto porque, tendo em conta a simpleza do apetite, não restam dúvidas de que a senhora Eleonora não actua nas óperas das grandes cidades. Desejamos, portanto, que a sua profissão e atitude na vida sejam tão prezáveis como as de uma prima-dona.
A senhora Eleonora fala agora de olhos esbugalhados e a sua voz é tão poderosa que queremos ouvir a sua história. Infelizmente nenhum de nós parla italiano, por isso não percebemos a história certamente animadíssima, pois já se sabe que as pessoas gordíssimas e respectivas histórias são, por norma, mais animadas do que as outras pessoas e as outras histórias, por causa do enorme apetite que têm por todos os prazeres da vida.
A senhora Eleonora regressa à massa com a sua mão sapuda e domina-a facilmente. Ri enquanto come, mas agora já não se engasga.
Observamos a indumentária da senhora Eleonora e reparamos, em primeiro lugar, nos enormes brincos redondos e cor-de-rosa que apontam para a frente no final dos caracóis. Descendo pelo pescoço, apercebemo-nos de que o colar é feito das mesmas esferas cor-de-rosa. Ora, isto causa-nos um certo espanto. Dir-se-ia que a senhora Eleonora, além de ser gorda, ostenta este facto nas orelhas e no pescoço, orgulhosa das suas formas redondíssimas. Nunca tínhamos visto uma mulher deste tamanho com tanta vocação para ser gorda.
Estamos conquistados, por isso observamo-la ainda.
No final da refeição, quando já nada há no prato, enquanto a mulher magra e desinteressante vai dizendo uma outra coisa, a senhora Eleonora pega num pedaço de pão e arrasta-o pelo prato, desenhando círculos perfeitos. Enquanto come olha para o prato imaculado, à procura de vestígios. Não encontra.
Está visto: a senhora Eleonora adora ser gordíssima. Por esta razão, temos imensa pena de não sermos tão gordos.
No final desta hora de almoço, damos graças a Deus Nosso Senhor por a senhora Eleonora não ser prima-dona.
Só então nos apercebemos de que não acreditamos em Deus.
Dizemos em tom de correcção: Ainda bem que a senhora Eleonora não é prima-dona.
Repetimos: Ainda bem.
Pois não seria tão graciosa nem tão sublime.
E isso seria lamentável.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

À hora do lanche

Para o mano, que fez 30.

De vez em quando lembro-me disto: de sermos miúdos e comermos que nem uns brutos à hora do lanche. A mãe a dizer qualquer coisa e nós a rir de outra qualquer. Sentados na cozinha, frente a frente. Perguntávamos um ao outro: Sabes o que é que eu estou a comer? Sabes? Sabes? E depois abríamos a boca para mostrar a comida mastigada.
Um nojo.
Repetíamos a pergunta até não haver mais pão.
De vez em quando, fazíamos bolinhas com o miolo. Atirávamo-las um ao outro ou jogávamos ao berlinde.
Comíamos chocolate em pó às colheradas. Se a mãe soubesse, matava-nos.
Suchard Express. Sobretudo, Suchard Express. Depois veio o Ovomaltine, mas não era tão bom.
Também gozávamos com os professores. Imitávamos as vozes e os gestos, ríamos que nem uns perdidos. Havia aquele professor da "crosta terrestre", coitado. E as histórias do Bernardo, que só fazia asneiras nas aulas.
Também víamos televisão. A rua Sésamo, talvez.
(De resto, não nos gramávamos, nem sequer brincávamos juntos nas horas mortas. Mas à hora do lanche, não era assim. Divertíamo-nos à brava. E comíamos que nem uns brutos.)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Arroz com ervilhas

Queria, por exemplo, um homem na sua vida. Pensou nisso enquanto preparava o refogado para o arroz de ervilhas.
Estava a mexer a cebola no tacho e pensou exactamente: "Queria um homem na minha vida".
O arroz era quase sempre de ervilhas. De vez em quando fazia também arroz de tomate, mas por norma escolhia sempre as ervilhas. Isto por estas serem pequenas, redondas, fáceis, acessíveis, digeríveis. Simpatizava com as ervilhas, com a cor, o sabor e particularmente com a sua consistência. E fora justamente a propósito disso – do paladar das ervilhas – que se lembrou de certos beijos. E daí o homem. Na sua vida.
A necessidade de um homem na sua vida.
Abriu o congelador, tirou o pacote de ervilhas, entornou várias dezenas no tacho, mexeu novamente. Depois deitou a água, mais tarde o arroz. Comeu. Só isto: arroz com ervilhas. E enquanto comia elogiava por dentro a marca daquelas ervilhas, pelo facto de serem verdadeiramente rechonchudas e saborosas.
Pensou depois nas desvantagens de os homens não virem em pacotes, de não terem uma marca específica, de não virem congelados em embalagens respeitadoras do ambiente, por exemplo. Seria mais prático. Sempre que essa falta voltasse, tirava-se do congelador o dito e enfiava-se umas quantas colheres no tacho. Ao gosto de cada um. Sal, azeite e homem. Quanto baste.
Por exemplo, no seu caso, poria só um cheirinho. Para não enjoar.
Depois lavou a loiça bem-disposta. A mulher é que estava bem-disposta, não a loiça.
Nunca mais pensou em homens congelados nesse dia. Nem nos seguintes.
Uma pena.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Calendário do advento

Devo dizer que duvido que alguém respeite a lógica dos calendários do advento. Duvido.
Há quem defina as pessoas consoante o seu QI, a sua inteligência emocional, a sua declaração de IRS, o seu agregado familiar. Mas para mim as pessoas sempre se definiram consoante a quantidade de chocolate que ingerem e, até agora, só conheço dois tipos: as que comem chocolate à bruta e as que não comem quase chocolate nenhum.
Posto isto, duvido que haja quem coma um chocolatinho por dia (emanando aquele desapego de quem não come, mas irradiando sempre uma felicidade magra com a dose minimalista de cacau). Para mim, ou se devoram os vinte e quatro chocolates em dois tempos (o primeiro tempo para uma dúzia, o segundo para a outra dúzia) ou se saboreia um número reduzido perto de zero.
Pode ser que esse tipo de gente moderadíssima até ande por aí, mas eu (que só conheço pessoas que comem chocolate à bruta ou que não comem quase chocolate nenhum) desconfio expressamente delas: não acredito na sua natureza humana, duvido da sua existência.
Por outras palavras: acredito mais rapidamente no Pai Natal do que em pessoas que respeitem o calendário do advento.