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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O fiscal - Capítulo IV

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Por Ana Pessoa


Depois lembrou-se do que o trouxera ali e, antes que a mulher falasse outra vez, apressou-se com a acusação: "A senhora fala mau português!". A autora gargalhou da cozinha, onde começou a preparar um chá. A porta entreaberta deixava ver o seu riso não contido e o homem corou de raiva. Respondeu misteriosa: "Isso não existe, senhor fiscal!" e o homem desesperou com aquela afronta. Saltou no sofá como um sapo: "Como assim, senhora?" e a mulher retorquiu calmamente: "Não há mau nem bom português, senhor fiscal. A língua é de quem a fala!".
O fiscal cortou a conversa com um gesto próprio de maestro perante a orquestra e disparou num compasso acelerado apontando o dedo indicador para o tecto: "A senhora é uma assassina de palavras: diz fato com um "c" ao meio, escreve ótimo com um "p" ao meio, são tiros directos no coração das palavras!". A mulher lançava a cabeça para trás para que as gargalhadas saíssem fluidas. Depois regressou à sala com um tabuleiro dançando nos braços ao som das chávenas que batiam delicadas nos pires.
Estavam agora sentados frente a frente, ela igual ao sol (cabelos eriçados como raios e o corpo avolumado, muito convexo) e ele igual a uma lua quase nova, minguando ainda (cabelo a escorrer pela testa e a coluna dobrada para a frente, um pouco côncavo).
Ela disse quase maternal que não era criminosa, que o português tinha vestígios de uma língua antiga e concluiu sem mais explicações: "Mas os polícias não têm de saber latim, não é assim?". Enquanto o senhor fiscal barafustava dizendo que não era polícia, a senhora espantava-se com a sua nova frase rimada. O homem escreveu no seu bloco: "problemas graves de isolamento, diz que português é latim". Depois fechou o caderno com uma violência teatral e impôs-se: "Minha senhora, eu sou o fiscal de palavras!".
A mulher olhou-o como se o visse pela primeira vez e o homem assustou-se com aquele olhar, saltou novamente no sofá e perguntou rápido: "Que foi?". A mulher abriu muito os olhos e depois os braços (a chávena muito equilibrada na mão direita, o pires pousado na esquerda). "Senhor fiscal, acabo de descobrir a sua palavra!" e o homem, um pouco mais curvado do que antes, repetiu várias vezes: "Como é que é?".
A autora sorveu ruidosa o seu chá e disse como quem revela um milagre: "Desumbigar. O senhor fiscal precisa de se desumbigar!". O homem estava confuso, repetiu mais uma vez a sua pergunta e a mulher esclareceu cheia de poesia: "O senhor fiscal precisa de sair de dentro, de se abrir ao mundo, de destorcer o cordão umbilical, de subir do ventre até aos olhos, de saltar para fora".
Fez-se silêncio à excepção do chá que continuava a estalar nos lábios da senhora. A palavra estranha ao ouvido regressava ao tímpano do homem, ganhava volume na boca, tinha um sabor qualquer a infância. O fiscal constatou: "Essa palavra não existe!", mas a mulher encolheu os ombros despreocupada. "Agora que eu a disse, passa a existir!".
O homem saltou outra vez: estava indignado. Abanou a cabeça e o bloco de notas no ar e, enquanto abria o caderno, dizia ameaçador: "A senhora pode ir presa por isto!". Ordenou muito formal: "Nome completo e profissão" e a mulher obedeceu prontamente: "Maria Apalavrada, inventora de palavras.".
A mão do homem congelou no bloco de notas. O fiscal ironizou ainda: "Ai sim? E que palavras inventa a senhora?". "Todas as que não existem e deviam ser inventadas!", respondeu criminosa a autora. O verbo desumbigar reapareceu no ouvido do homem e ele desejou secretamente que a palavra existisse. A mulher achou que tinha ganho um cliente por isso discursou: "Invento e vendo palavras. É, de facto, um óptimo negócio porque as pessoas precisam de se exprimir e não têm palavras. Você precisava do verbo desumbigar para organizar o seu pensamento. "Desumbigar" é o seu verbo, senhor fiscal! Há uma palavra para cada um de nós!".
Quase sem querer o homem riu e ela riu com ele.
Só então o homem tirou o chapéu e a mulher brincou dizendo: "Um negócio de tirar o chapéu, não é, senhor fiscal?" e ele riu com aquela frase tão bem dita. De repente, o senhor endireitou as costas, era agora mais homem do que fiscal, e quis saber: "E a sua palavra, qual é?".
A mulher sorriu o seu melhor sorriso. "Eu também tenho um verbo: inversar! Preciso do inverso das palavras, de inventar versos, de inverter o pensamento. Toda eu sou versos invertidos!".
O homem recostou-se no sofá, já não saltava, as palavras ganhavam subitamente um outro sabor.
E foi assim que naquela tarde, o senhor fiscal e a inventora de palavras viram o inverso de um no outro e gostaram do que viram. Ele desumbigou e ela inversou, entre os dois havia um fio invisível de sílabas que os ligava.
No final da noite já não se sabia quem era quem, a língua de um era a língua do outro.
FIM

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O fiscal - Capítulo III

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Por Fábio Reynol

A mulher virou-se e foi à cozinha. Enfim o homem encontrara alguém que reconhecia e até respeitava o seu honroso cargo auto-proclamado de fiscal da língua portuguesa. Isso o fez lembrar de sua última diligência, na qual interpelou um padre pelo uso inadequado da palavra "mesmo" como pronome relativo. Sem delongas, ele entrara na sacristia logo após a missa e fora direto ao sacerdote:
- Desculpe-me, reverendo, mas um erro grosseiro foi cometido hoje em sua homilia.
- A que se refere? Virou-se o padre com ares de preocupação.
- Lembra-se de quando se referiu ao cálice do altar?
- Sim. O que o senhor tem contra o mesmo?
- É exatamente isso, "o mesmo" não é adequado. Na verdade, eu o considero um erro horroroso de estilo. Eu devo pedir que o senhor não use mais "o mesmo".
- Quer dizer que eu não posso usar o mesmo porque o senhor não gosta do estilo dele?
- É mais do que isso, reverendo. Ele faz parecer que o senhor é pouco versado na língua, compreende?
- O senhor está dizendo que o cálice que eu utilizo na liturgia faz as pessoas julgarem a minha educação, por isso eu não devo mais usar o mesmo?
- O senhor não entendeu, padre. Não é o cálice a questão, ele pode continuar, só peço que o senhor não use mais "o mesmo".
- Que cálice devo utilizar então?
O fiscal perdeu a paciência e as estribeiras e berrou com o funcionário de Deus:
- O MESMO, PADRE!
E o padre desceu das tamancas eclesiais:
- Ponha-se para fora daqui seu maluco de... As demais palavras do padre lhe escaparam da memória, talvez por serem totalmente inadequadas a um vocabulário sacerdotal. Enquanto o homem de Deus disparava ofensas contra o fiscal, o homem dos vocábulos foi arrastado para fora da igreja pelos braços do sacristão. Desde então ele decidiu apresentar suas credenciais de fiscal antes de interpelar qualquer outro infrator. Isso deveria lhe garantir um mínimo de respeito.
O tratamento que agora recebia da mulher era prova disso. Nunca havia sido recebido com tanta deferência desde que se aventurara nessa perigosa profissão. O espanto pela educada recepção e o flashback da humilhação na sacristia o fizeram distrair a ponto de só agora perceber o local onde estava. A sala parecia ter saído de um página de Eça de Queiroz. Uma cristaleira do século XIX com licoreiras coloridas parecia ser a peça mais nova do recinto. Em cima do móvel um galo de louça preto de crista vermelha fitava uma coleção de mais de vinte pratos ornamentais na parede oposta. Pesadas cortinas de veludo mantinham o sol quase completamente do lado de fora.
Sem tirar o traseiro do assento, o fiscal esticou o pescoço para os lados aproveintando-se da ausência momentânea da proprietária. Observou o ponto que mais lhe chamou a atenção e o anotou imediatamente em seu bloco: "Ausência de livros de qualquer espécie. Sem evidências de consultas freqüêntes à gramática, nem mesmo um mini-dicionário à vista. Possível biblioteca no andar superior (?)". Deparou-se de repente com uma foto antiga na parede de uma casa de campo em meio a um vinhedo, imaginou que lugar seria aquele e meteu novamente o bloco no bolso. (continua)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo II

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Por Ana Pessoa

A palavra autoria explodiu no ar como um fogo de artifício. A mulher gostava que a tratassem por autora e por isso respondeu prontamente "Sim, sou eu a autora!".
O fiscal não a ouvira muito bem porque entretanto a mulher resolvera desembaraçar-se da porta e havia trincos e chaves tilintando contra a madeira. As mãos da mulher eram cheias como balões mas certeiras no toque: em dois segundos estava escancarada a porta e a autora surgia inteira.
Dizia: "Aqui é tudo legal, senhor fiscal!" oferecendo o perfil ao homem para que ele entrasse. E enquanto ela se admirava com a sua frase rimada, ele estava ocupado em interpretar a autora (ainda nem tinha tirado o chapéu nem guardado o seu título de fiscal). Era difícil entender aquela mulher e o homem precipitou-se para o seu bloco de notas, onde escreveu: "má dicção". A mulher repetia "Tudo legal!" e o som do último compasso vinha de um lugar secreto – entre a ponta da língua e a dentição. Era fechado, misterioso, irreproduzível.
Já estavam na sala. A mulher não perdia tempo por o tempo ser dinheiro. Tinha chegado ao Brasil havia anos, morava na Rua Atlântica desde então e logo aprendera a lidar com os brasileiros: não podia falar-se muito com eles, eram demasiado conversadores para o que queriam dizer e a senhora aprendera a ouvir apenas as palavras essenciais dos seus discursos. Naquele caso: "fiscal".
Repetiu muito alto as duas frases do pedaço de papel ("De facto, um óptimo negócio. Compre.") e era como se o som viesse do bolso do homem, pois ele saltou assustado com as palavras da mulher. Não só na escrita mas também na fala, a senhora dizia "facto" com o fonema oclusivo "k" a meio. Estava realmente estupefacto mas, de repente, esqueceu-se deste fenómeno, pois a mulher dissera ainda: "Sente-se, senhor fiscal!". O homem derreteu devagar até ao sofá, vaidoso com o seu novo título de senhor à frente de fiscal, ensenhorando-se no seu lugar. O homem gostava da forma como a mulher dizia "senhor", a vogal vinha fechada e a última nota vibrava discreta, nem a mais nem a menos, um "r" verdadeiramente elegante, impossível, inimaginável.
(continua)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O fiscal - Capítulo I

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Por Fábio Reynol

Reticente e incomodado foi o fiscal de palavras ter com a portuguesa que usava mal, segundo ele, o português. Muito mais incomodado do que reticente, a bem da verdade, a ponto de deixar as reticências ao largo para atravessar a Rua Atlântica a fim de tirar satisfações com a mulher. A pedra no sapato do homem era um pedaço de papel de pão no qual a mulher havia escrito: “De facto, um óptimo negócio. Compre.”
Eis a razão da hesitação do fiscal: ele não era o destinatário do bilhete. Esse fato o transformava num intrometido e o colocava na obrigação de explicar como o papel que não lhe dizia respeito havia parado em suas mãos. Seu dever de defender a boa língua portuguesa, no entanto, falava mais alto do que a vergonha de assumir a própria indiscrição.
Outro empecilho dessa empreitada era a sua bizarra profissão que, pelo simples fato de ela não ser reconhecida por ninguém com exceção dele próprio, era motivo de chacota e desdém por aqueles que eram interpelados por um dito fiscal de palavras. Mas quanto a isso, ele já estava acostumado e não seria esse o impedimento para cobrar o zelo esperado de uma mulher nascida no nobre berço da língua.
Abra-se um parêntese necessário. A nomeação de um fiscal de palavras se dá, naturalmente, a alguém que conheça a língua, mas principalmente a uma pessoa que acredite que terá autoridade sobre as demais para cobrar e ver cumprir o bom uso da palavra. Em outras palavras, um louco. Fechemos o parêntese.
Lá foi ele, chapéu na cabeça e prova do crime no bolso. Esta obtida de maneira vil e ilegal, como já frisado. Atravessou a Atlântica sem molhar os pés e bateu na porta da casa sentindo ares de uma autoridade policial. A porta entreabriu-se.
- O que deseja? Respondeu a própria suspeita colocando a cara na fresta.
- Minha senhora, eu sou fiscal de palavras da língua portuguesa. Disse ele mostrando uma folha amarela e surrada, a mesma que tinha sido carimbada em cartório e que havia sido rejeitada pela secretaria da Academia Brasileira de Letras e rechaçada pela Embaixada Portuguesa em Brasília, ambas as instituições se recusaram a dar mais combustível a tal insanidade.
- O que deseja? Repetiu a mulher sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo da folha.
- Este bilhete é de sua autoria?
(continua)

Brasil-Portugal - Uma Relação de Língua

Caros leitores,
isto não é uma ficção. Escrevo-vos para anunciar que redescobri o caminho marítimo para o Brasil, onde conheci Fábio Reynol. No regresso a Portugal li o seu diário e, de repente, viajava a bordo de uma garrafa com textos dentro. Bebi desta garrafa muitos dias. E certa manhã atirei-a ao Tejo para que ela regressasse às mãos do Fábio. Ia com uma mensagem dentro.
Foi assim que a língua atravessou o oceano (de cá para lá e de lá para cá) e, quase sem querer, nasceu um texto escrito a quatro mãos: duas batem palmas ao som do samba, as outras duas bóiam no ar com o fado.
Este texto tem a forma de um mapa, chamámo-lo "folhetim" e demos-lhe um título: "O fiscal". Hoje abrimos a garrafa para comemorar. Segue o texto.