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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Don Draper

Saudades do Don Draper.
Um dia destes ainda me apanho a ver a série toda outra vez.
De vez em quando penso nele. Como se fosse uma pessoa de verdade. Como se fosse um amigo. Um colega. Mas não um amante.
Não?!
Não.
Estou sentada num sofá a fazer não se sabe bem o quê. Talvez a matutar, a magicar, a conspirar.
Ou nem isso.
Estou para ali assim, pousada sobre as minhas confortáveis nádegas e lembro-me do Don Draper, esse homem criativo, déspota pedante, que trata mal todos os homens, todas as mulheres e demais seres vivos.
Aaah! O Don Draper.
Tenho saudades dos nossos momentos a dois, eu e ele naquele escritório da Sterling Cooper. Ele olhava para a janela de cigarro em punho e eu olhava para ele.
O rosto do Don Draper. Muito quieto e impenetrável.
Estamos ali os dois, a pensar naquelas coisas banais, como o sentido da vida ou o caminho para a felicidade, e não acontece propriamente nada.
Não há uma ação, um diálogo, um romance.
Os nossos pensamentos passam um pelo outro sem fazer barulho.
São pensamentos discretos, quase não existem. Ardem na ponta dos dedos, como cigarros.
E, de vez em quando, eu olho para o Don e tenho vertigens.
Não sei porquê.
Deve ser aquele perfil sólido e, ao mesmo tempo, perigoso.
O Don Draper parece um penhasco e eu, de tanto olhar para ele, fraquejo.
Ainda assim, tenho saudades dele.
Desse perigo iminente.
Desse Don Draper arrogante e vigarista, grande impostor, apanhado do clima.
Esse homem devasso e cínico. Depravado. Engenhoso. Incorreto.
Secreto. Soberbo. Retrógrado. Vagabundo. Hostil.
E, apesar disso, metódico. Corpulento. Inventivo. Valente.
E justo.
Frontal. Combativo. Brilhante.
Aaah! O Don Draper.
Grande sacana.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A Guerra das Estrelas e das Mulheres

Não tarda vou conhecer o novo episódio da Guerra das Estrelas. 
A Força está comigo e a nostalgia também. 
Nos últimos dias andei a rever os episódios do século passado, com o Luke Skywalker e o Harrison Ford.
A abrir, duas naves vagueando pelo Espaço. Logo a seguir, a corajosa princesa Leia, impecavelmente vestida de branco. Traz uma arma na mão e duas empolgantes tranças à volta das orelhas. 
Quem não se lembra disso? 


É a princesa guerreira, capaz de sacrificar o seu próprio planeta por valores mais altos. 
Atenção, universo: a princesa Leia é do caneco. 

Infelizmente para a guerreira e para o império, a história não é bem sobre ela. Já se sabe que as mulheres e os seus pipis são um grande desequilíbrio para a Força. 
O papel de Leia é o de uma princesa sensível, que inspira os rebeldes e não teme o inimigo. 
A mensagem mais famosa do universo é a de uma mulher em desespero: Help me, Obi Wan Kenobi, you’re my only hope.

A Guerra das Estrelas, of course, é uma guerra de pilas e sabres luminosos. Nela participam Luke Skywalker e Obi-Wan Kenobi, o Capitão Solo e o seu companheiro Chewbacca, o mestre Yoda e o medonho Darth Vader.
Não haja dúvida: há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, o universo inteiro já era masculino.

Num momento de apuros, quando Leia começa a dar ordens aos moços, o Capitão Solo sente o seu orgulho ferido. Da boca de Harrison Ford sai um comentário do estilo: Se pudermos evitar mais conselhos femininos, talvez dê para sairmos daqui.
A minha alma irritou-se e virou-se para o lado negro. 
A certa altura, um homem dirige-se a Leia de sorrisinho matreiro. Diz algo do tipo: Well, what do we have here? Leia encolhe-se, porque é uma princesa vulnerável. 
Por esta altura, a minha alma começou a arfar como o Darth Vader.

O cúmulo desta representação dá-se no episódio VI, quando a princesa guerreira surge escravizada e acorrentada aos pés de Jabba The Hutt, ostentando o corpo por baixo de um espectacular biquini metalizado. Nada mais indigno para uma princesa guerreira. 

A bem dizer, os maus da fita passam a vida a capturar a Princesa, que felizmente pode sempre contar com Skywalker e amigos. 
À única mulher protagonista cabe definir estratégias, encorajar os rebeldes e desafiar o poder instalado. Mas não se engane o espectador: a Princesa Leia não anda por aí a manobrar naves e sabres.

Num momento de fraqueza, a Força abandona-a completamente. Han diz-lhe: Estás a tremer e, logo a seguir, beija-a. Quando ela diz: I love you, ele responde: I know. Grande homem. Pobre mulher. A dominar o romance do princípio ao fim está Harrison Ford e a sua luminosa pila.

A Força está com a princesa Leia, mas não assim com tanta força.

Talvez o novo episódio não se situe numa galáxia tão distante no que toca às mulheres. 
É esta a minha exigência. 
My only hope.

Apesar de tudo isto, adoro o penteado da princesa Leia. 

Na Bélgica dava-me um jeitão. 
Sempre abafava os sons furiosos do trânsito. 
E combatia com eficácia este Inverno.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Regresso ao futuro

Há 30 anos, o Doc levou-nos num DeLorean desportivo para o dia 21 de outubro de 2015. O Regresso ao Futuro, a trilogia mais amada do cinema, levou-nos para trás e para a frente na companhia de Michael J Fox.
No futuro distante, no dia 21 de outubro de 2015, os skates não têm rodas, os carros voam e as pizzas aumentam de tamanho no microondas.
Where we're going, we don't need roads, diz-nos o Doc.
Mas afinal o futuro é mais lento do que a imaginação. Na verdade, atrasou-se um bom bocado. É um futuro vintage.
Trinta anos depois, o Marthy Mcfly continua a ser um sonho. E, de certa forma, os anos 80 continuam a guiar o imaginário futurista.

Agora sim, regressámos ao futuro, que é o presente. Vou ver a trilogia toda outra vez. Para regressar ao passado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Signe Baumane

Todos os anos vou animar para o Anima, o festival bruxelense (e bruxuleante) de filmes de animação.
Ontem descobri Signe Baumane, artista letã a viver em Nova Iorque que veio a Bruxelas apresentar o seu novo filme intitulado "Rocks in my Pockets", título sugestivo para uma história sobre três mulheres cheias de pedras nos bolsos numa Letónia em pleno desequilíbrio.
Aos 50 anos, Signe Baumane apareceu no palco de corpo são e mente vã numa versão dupla, de saia comprida por cima de um par de calças. Durante a conversa com o público, assumiu que passa a vida a pensar em sexo e também em suicídio. Logo a seguir esclareceu-nos que, felizmente para ela, pensa mais vezes em sexo do que em suicídio, o que lhe permite não só ter mais sexo, mas também sobreviver. O seu novo filme fala sobre isto e muito mais.
O trailer lança a primeira pedra, que aqui reproduzo em versão portuguesa: Neste mundo louco, de guerra, divórvio, política, sexo, negócios, educação, dinheiro, segredos, casamento, poder, maternidade e violência, como manter a sanidade? A resposta é difícil e também pouco saudável.
É Signe Baumane que dá vida - e também voz - a este filme autobiográfico sobre a sua avó, a sua mãe e também a própria Signe, numa história contada, narrada e ilustrada na primeira pessoa.
No final do filme, Signe Baumane atirou-nos pedras de papel, ofereceu ilustrações originais a uns quantos felizardos e falou-nos de tudo um pouco: da reação negativa de alguns familiares ao filme, dos ensaios intensivos para dar voz ao texto, do processo criativo.
Disse-nos que não faz filmes para si própria, mas sim para o público. Para nos entreter, para lançar perguntas (e também algumas pedras).
Deste encontro ressalta a ideia inquietante de que, apesar de tudo, há alguma esperança no pensamento suicida.
Nem que seja para ter a opção de escolha. E sobreviver.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bow ties are cool

Eu gostava de saber quantos homens passaram a usar laço por causa do Eleventh Doctor. Não devem ter sido poucos, mas por acaso ainda não vi nenhum.



Quando vi a fatiota do novo Doctor Who, senti um certo vazio.
É que o novo Doctor parece mesmo um doutor. Não tem um ar desajeitado e o cabelinho para a frente. E acima de tudo, não tem aquela falta de classe com tanta classe.
Acho que estava à espera de um acessório equiparável ao laço. Bow ties are cool. Uma coisa foleira e inesperada. Por exemplo, um Doctor Who de Crocs ou de sandálias Birkenstock ou com aqueles acessórios pirosos a fingir que são outra coisa. Umas leggings a fazer de calças, por exemplo. Uns óculos de sol a fazer de bandoleta. Umas argolas de cortinado a fazer de brincos. Chapéus a fazer de inteligência. Roupa a imitar pele de leopardo. Botas à cowboy. Uma t-shirt do Hard Rock Cafe. Algo assim sem estilo mas com estilo.
Mas pronto...
O novo Doctor Who não é o Matt Smith.  É por isso.
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Django - Western Spaghetti à la Tarantino

Tenho três fraquinhos. Um por Western Spaghettis, outro por humor negro e outro ainda pelo Quentin Tarantino. Por tudo isto, quando fui finalmente ver o Django, a minha expectativa ia bem alta.
O filme surpreende, claro, porque o Tarantino é assim; surpreende. Os atores também. 
Dois homens andam de cavalo pelo Faroeste, à caça de bandidos com cabeça a prémio. Wanted: dead or alive. O objetivo destes dois homens não é praticar o Bem, claro, é ganhar dinheiro. Eles vivem, os outros morrem, assim é que está certo. Os cadáveres são, portanto, tesouros.
OK, o argumento é estapafúrdio, mas funciona precisamente por ser estapafúrdio. O estapafúrdio é real: gente a matar e a morrer, escravos negros que sobrevivem ao chicote, tortura, vingança, homens contra homens.
Diálogos curtos e duros, de fazer subir a tensão e o riso.

- Positive?
- I don't know.
- You don't know if you're positive?
- I don't know what positive means.
- It means you're sure.
- Yes.
- Yes, what?
- Yes, I'm sure... - pum, tiro certeiro, homem ao chão.

- I'm positive he's dead.

Mas o filme também é uma história de amor. Uma bela e um monstro que, por acaso, também são uma monstra e um belo. Têm marcas de chicotes nas costas e uma marca de ferro no rosto, trazem toda uma história de escravatura aos ombros. E a vingança fica bem aos mais sofredores, que são simultaneamente os mais fracos e os mais fortes. Não há nada como um escravo livre e apaixonado para vingar os seus.
São quase três horas de entretenimento a sério com muito sangue a brincar. E o espectador é o mais cruel, porque se ri às gargalhadas com sangue a jorrar e gente má a praticar o Mal.

Resultado: ontem fui tirar sangue sem medo e até fiquei a ver o meu sangue a sair. A enfermeira deve ter ficado impressionada. Eu, pelo menos, fiquei. Nunca tinha visto o meu sangue a sair.
É divertido ver o sangue a sair.

Django. The «D» is silent.

Há filmes que têm este poder sobre nós, que nos fazem bem, que nos querem mal, que nos ensinam qualquer coisa.  Eu, por exemplo, fiquei a saber que há um certo Bem dentro do Mal e que o meu sangue é escuro e denso.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Johnny Depp

Neste fim-de-semana tive vontade de dar um par de estalos no Johnny Depp. Um estalo com a palma da mão direita e outro com as costas da mão direita, tudo isto em dois segundos: traz, traz.
Há quase 20 anos, na altura da série 21 Jump Street, o Johnny Depp era-me tão indiferente como bróculos cozidos, mas agora já não é assim. Gosto dele como de queijo fresco e eu gosto muito de queijo fresco.
Comecei a ter um fraquinho pelo Johnny Depp na altura do cavaleiro sem cabeça, por causa do rosto muito branco e do fato muito negro, o seu ar sombrio que trazia à memória os vestígios das suas inesquecíveis mãos de tesoura. O Johnny Depp tinha, já nessa altura, o Bem e o Mal no corpo, a Bela e o Monstro.
Este contraste cativa-me.
Quando se vestiu de Willy Wonka, quis saltar para dentro da sua cartola para entrar na sua cabeça. Também simpatizei com a sua madeixa branca e com o seu rosto ainda mais obscuro em Sweeney Todd.
Todas estas personagens e também o facto de Johnny Depp ter encarnado, a certa altura, Sir James Matthew Barrie fizeram com que lhe perdoasse todos os disparates, incluindo o bigode e a pêra que usou naquele filme enjoativo sobre chocolate.
Mas só quando Johnny Depp perdeu definitivamente o tino e pintou os olhos de negro para se transformar em Jack Sparrow é que tive vontade de me atirar ao mar e procurar aquele pirata improvável.
Ora, neste fim-de-semana fui ver o Public Enemies. O Johnny Depp é, nem mais nem menos, John Herbert Dillinger, o bandido americano mais procurado dos anos 30 que assalta bancos como quem rouba ameixas no quintal do vizinho. Johnny Depp anda com uma arma por baixo do sovaco, veste fato completo com colete no meio, frequenta bares de jazz e conquista a belíssima Marion Cotillard com duas frases: I like baseball, movies, good clothes, whiskey, fast cars... and you. What else you need to know?
Isto passou-se no filme, como é evidente, porque, na vida real, qualquer mulher – especialmente a Marion Cotillard – teria passado por cima de Johnny Depp, calcando-o cuidadosamente com os finíssimos saltos altos. Na vida real, com esta deixa, só Al Pacino teria levado a rapariga para casa. Mesmo o Robert De Niro não teria conseguido mais do que um beijinho na testa.
O Johnny Depp é ridículo num papel igual aos outros, porque não é um homem igual aos outros. O Johnny Depp é especial de corrida, tem de ser tratado como tal. O Johnny Depp devia ser fustigado por tentar ser igual aos outros.
Tenho a certeza de que Marion Cotillard não pensaria duas vezes, se tivesse pela frente o pirata das Caraíbas. Também ela se atiraria ao mar.
O Johnny Depp é um saltimbanco e não um assaltante de bancos. E devia levar um par de estalos para ver se aprende a lição.