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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Para que serve?

Hoje é dia mundial do livro. Coitados dos livros. Há meses que não leio a ponta de um corno. Vou lendo às mijinhas, fico sempre a meio de uma frase. Volto atrás. Releio o parágrafo, a página anterior. Não me lembro de absolutamente nada. Adormeço. As livrarias do bairro estão todas fechadas. Têm folhas à porta a dizer que podemos encomendar livros por email. Ah, boa. Bela ideia. Não encomendei nenhum. O melhor que fiz foi encomendar livros diretamente a algumas editoras. Chegam pacotes às pinguinhas. Se morrerem as editoras independentes, estamos feitos. Ouviram? Acaba-se esta coisa dos livros e da literatura. Se fecharem as livrarias do bairro, corto os pulsos ou então faço uma tatuagem a dizer: mea culpa. Porque a culpa será minha. A culpa será nossa. Ouviram?
Estes tempos não são para livros, né?
Ou são?


Pois tenho a dizer que hoje, dia mundial do livro, chegou por correio um livro lindo, rosa choque. Por favor, agarrem-no. Encomendem-no. Chama-se Para que serve?, é do José Maria Vieira Mendes e da Madalena Matoso, e não serve para nada. Nadica de nada. Não ensina a fazer máscaras de tecido, não dá conselhos amigos, não conta uma história sequer. E é um livro lindo e tão necessário em tempos de confinamento social, económico e cultural. Que bem me fizeram estas perguntas fluorescentes. E que pena não podermos ver as estantes das livrarias repletas de exemplares deste livro. Todos a perguntar em rosa choque: Para que serve? Para que serve? Para que serve?
No dia mundial do livro ocorre perguntar: Para que serve um livro? 
Para nada, claro.
E para absolutamente tudo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O génio da gargalhada

Era um bom dia para a tristeza. As nuvens largadas num pranto, o sol nem vê-lo, mas afinal ainda dei umas gargalhadas magníficas, porque me pus a ler o livro do Ricardo Araújo Pereira.

O riso espanta quase sempre o negrume. É o que nos vale.


Na sua espécie de manual de escrita humorística, Ricardo Araújo Pereira fala-nos precisamente disto: do humor que suaviza. Do riso que consola.

Somos quase todos uma cambada de tristes e, por acaso, isso tem bastante piada.

Aquelas pessoas felizes até são bonitas, mas não são nada cómicas. A bem dizer, são extremamente chatas. "As coisas boas", diz-nos Ricardo Araújo Pereira, "não dão vontade de rir".

Os hipócritas e os hipocondríacos têm muito mais graça. Os aldrabões e impostores também. Talvez por isso o Trump nos dê tanta vontade de rir. Nas palavras de Ricardo Araújo Pereira: "O humor pode ser, então, uma estratégia para reagir ao sofrimento". Nem mais.

Mas não só de lamúria se faz uma gargalhada.

De Aristóteles a Chico Buarque, passando por Shakespeare, Fernando Pessoa e Seinfeld, Ricardo Araújo Pereira vai ilustrando os vários tipos de humor: o riso provocado pelo escárnio, pela imitação, pela caricatura, pela repetição.

Também nos partimos a rir perante a morte, essa piadinha de mau gosto. Estamos condenados ao desaparecimento desde que nascemos. Ainda assim, é possível rir da tragédia. Rimo-nos da morte para não sentirmos miúfa, porque "o riso subverte o medo", nem que seja durante uns segundos.

Em todos estes casos, o génio da gargalhada será sempre o humorista. É ele que atraiçoa e dissimula. Brinca com as nossas expectativas. Surpreende-nos com graça precisamente porque nos engana. O humorista é o ilusionista intelectual. Vira o mundo do avesso, desafia a moral, provoca a desordem. Mostra-nos as nossas próprias incoerências e contradições, põe o dedo na ferida. O humorista é o observador privilegiado. É o revolucionário ligeiramente louco.

Mais do que um manual de escrita humorística, este livro parece ser uma declaração de intenções. "Talvez todas as manobras humorísticas tenham como objetivo introduzir um elemento de caos no mundo".

Venha a nós o Ricardo Araújo Pereira.

Nunca precisámos tanto de rir. Virando as coisas do avesso, talvez seja possível encontrar um sentido na falta de sentido.

A vida, por vezes, tem um humor um bocado negro. E já se sabe que rir é o melhor remédio.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A culpa é da Adília Lopes

Está sol lá fora. Perguntaram-me se queria beber café às duas e meia e falar da vida. Eu disse que não me dava jeito. O meu frigorífico está vazio. Além disso, tenho de passar no oculista e na loja dos candeeiros.
Não posso continuar a escrever às escuras. E também tenho de mudar de cadeira. Doem-me as costas.
Às duas e meia não é uma boa hora para falar da vida. Toda a gente sabe isso.

Neste momento são duas e meia e ainda não saí de casa.
Podia estar a tratar da vida ou a falar da vida. Mas afinal estive para ali deitada a ler Adília Lopes.
A certa altura adormeci e depois acordei e continuei a ler Adília Lopes. No final do livro levantei-me e escrevi isto.
Não tenho sentimentos de culpa. Mas tenho alguma noção do ridículo.
Acho eu.

Tirei esta fotografia a um poema da Adília Lopes. Ficou um bocado cinzentona.
Paciência.
Isto sou eu a imitar a Adília Lopes.
Não resulta.



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Vergílio Ferreira

Era domingo. Eu estava a ler Vergílio Ferreira.
Um livro urgente. Entre a capela e o mar. Entre a vida e a morte. Até ao fim.
As páginas meio surradas, a esfarelar. Coitadas.
De repente, uma frase deslumbrante sobre o mar. E logo a seguir outra.
Eram frases gigantes, dramáticas. Poderosas.
Fiquei a vê-las chegar. Uma frase aqui, outra ali.
Lá vinha mais uma. Alta e cheia. Em estado líquido.
Rebentavam na cabeça uma e outra vez.
Como ondas.
A certa altura decidi agarrá-las. Eram frases reais. Tinham pele e cheiro. Poderiam morrer a qualquer momento. Estavam vivas.
Vai daí, copiei-as para um caderno com a minha letra ridícula. E elas ficaram dentro de uma página, a secar.
No final reli essas frases e achei que deviam existir assim. À toa e à solta.
Como poemas. Como mergulhos.
Como ondas. Assim:





















Ouço o mar, é tudo grande e terrível.

Olho o mar ainda, fascinado pelo seu mistério, de que nasce o seu mistério?

Ouço-o na sua massa pesada e escura, retumba no oco do pavor.

E o rumor imenso do mar. Alargado a todo o espaço, mais intenso, exclusivo na solidão do amanhecer. Ouço-o. Pequeno eu face à sua imensidão.

Mas é preciso prestar atenção para o ouvir, no seu rumor implícito como o da harmonia das esferas.

Fresco de brisas o mar, estendo-o ao meu olhar difuso cansado. A verdade primeira. A verdade do início.

O sol vibra à superfície das águas. Um aroma a maresia. Um aroma a existir.

Gostava tanto do mar. Da força repousada do mar. Da música gigante do mar.

A verdade do mar.

O estrondo rouco do mar.

Absorver em nós a imensidão.

O mar deserto até ao limite do poente.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016



O que é isto da Literatura
infanto-juvenil?


Conversa com Ana Pessoa, Madalena Matoso e Miguel Gouveia
Moderação: José Mário Silva

 2 de Outubro / Domingo / 15h00 
 Livraria da Adega, Óbidos 


Mais informações:
Festival Literário Internacional de Óbidos

http://foliofestival.com

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Karl Ove Knausgård

Acabei de ler o primeiro volume daquele norueguês. 
Aquele da autobiografia.
Nunca me lembro do nome do senhor. Mas lembro-me do rosto.
Sim, lembro-me.
Vem na capa. Até lhe tirei uma fotografia.
Assim.

Um rosto impetuoso e desobediente. Com toques de insano. 
Uma pessoa olha para aquele rosto e tem vertigens. 
Eu, pelo menos, tenho. 
É um rosto à beira do desequilíbrio. 
Se o visse na rua diria: "Aquele é o escritor norueguês que mete medo aos leitores mais robustos."
O escritor papão.
Parece um homem bonito, mas não é um homem bonito. Olhem bem para ele. É tenebroso. O rosto cheio de fissuras. 
O Karl Ove - sim, é esse o nome - tem cara de fiorde. Espanta e assombra.
Acabei de o ler na praia. Sentei-me na toalha e fiquei a olhar para o mundo. Era tudo tão aborrecido. O mar sempre igual, a areia aos bocados. Um rabo muito feio ali à frente. Credo. O mundo é tão desengraçado. 
Nem as bolas de Berlim me devolveram o ânimo. 
Entrei na água e fiquei a boiar nas ondas medíocres. 
A culpa era do sol e também daquele norueguês papão.
O Karl Ove escreve de forma lenta e corrosiva. Fala-nos do pai e do irmão, da mulher e da ex-mulher, faz uns desvios por Rembrandt, escreve sobre a neve e as nuvens, sobre o alcoolismo, a incontinência, a imundície. Sobre a "insuportável banalidade" da vida. 
Sim, é disso que eles nos fala. Sublinhei esta expressão no livro, traduzido com minúcia por João Reis. A "insuportável banalidade".
A certa altura vamos com o Karl Ove ao supermercado. Compramos produtos de limpeza. Estamos com ele a lavar a casa com luvas amarelas. A esfregar o corrimão das escadas. Perguntamo-nos: Para que interessa a marca do produto de limpeza? Para que serve esta descrição detalhada do processo?
Não sabemos, mas não paramos de ler. 
Karl Ove cozinha salmão com batatas e couve-flor e nós cozinhamos com ele.
O livro avança devagar como certas horas. Como certos males.
A sua prosa parece enfastiada ou apática, mas não é. É uma prosa sinuosa, aterradora, perturbada.
Eu fico a pensar no rosto deste escritor papão. E também fico a pensar na couve-flor.
Neste volume o Karl Ove comeu couve-flor umas três vezes. 
É o legume mais enfadonho que conheço. 
Fiquei a pensar nisto.
Não sei porquê.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Esse cabelo

No outro dia vi um cato.
Eu disse: Alô. Ele disse: Aloe.
Era um cato Aloe Vera.
Gosto de plantas babosas com propriedades mágicas de regeneração, por isso trouxe-o para casa. O cato Aloe Vera, bonito e eriçado, num vaso verde.
Nesse mesmo dia acabei de ler Esse cabelo da Djaimilia Pereira de Almeida, um livro, também ele, bonito e eriçado. Baboso e regenerador. Para ler devagar.
E passar a pente fino.
A seguir lavei o cabelo. Disse-lhe: Senta-te. E ele sentou-se. Escovei-o, sequei-o, alisei-o. O meu cabelo muito bem comportado, quase liso. 
Fiquei a pensar na Djaimilia e na protagonista da Djaimilia. No seu cabelo crespo, indomável. 
Esse cabelo fala-nos de cabeleireiros, claro. De cabelo curto e comprido, com tranças ou então ganchos ou então lenços. Também nos fala de fotografias, de disfarces de Carnaval, de uma avó negra e de uma avó branca, de uma Angola ao longe, de um Portugal ao perto. E também nos sussurra uma infância, uma adolescência, a Tieta do Agreste, o vento nas ruas de Oeiras.
Na raiz do cabelo está a cabeça, a existência. E eu gostei de passear por aquele cabelo escuro e selvagem, dono do seu próprio destino.
Logo a abrir o livro:

A verdade é que a história do meu cabelo crespo cruza a história de pelo menos dois países e, panoramicamente, a história indirecta da relação entre vários continentes: uma geopolítica.

No final do dia tirei uma fotografia ao livro e ao cato Aloe Vera. 
Acho que foi uma homenagem às coisas babosas. À geopolítica. À literatura eriçada.
Ao seu poder regenerador.
Não sei.





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

To kill a mockingbird

Atticus said to Jem one day, "I’d rather you shot at tin cans in the backyard, but I know you’ll go after birds. Shoot all the blue jays you want, if you can hit ‘em, but remember it’s a sin to kill a mockingbird." That was the only time I ever heard Atticus say it was a sin to do something, and I asked Miss Maudie about it. "Your father’s right," she said. "Mockingbirds don’t do one thing except make music for us to enjoy. They don’t eat up people’s gardens, don’t nest in corn cribs, they don’t do one thing but sing their hearts out for us. That’s why it’s a sin to kill a mockingbird.

To kill a mockingbird, Harper Lee

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Nome da Rosa

Li O Nome da Rosa quando ainda não tinha bem idade para ler O Nome da Rosa. 
Ou seja, foi na idade certa. Fiquei logo a perceber o poder da literatura errada. 
Demorei-me várias semanas no século XIV a percorrer o labirinto daquele mosteiro. 
Lembro-me bem dos monges copistas. Daquela moça na cozinha. E, acima de tudo, da biblioteca proibida, no último andar, onde moravam os livros mais perigosos de todos, que se riam sozinhos. 
Os monges diziam-me: Cuidado com a literatura, pequena. Os livros errados provocam o riso e também a morte. No riso está a perversão e o demónio. 
Não te rias, pequena.
Cedo compreendi que os livros também matam. Que a comicidade é uma arma perigosa. 
Com o Umberto Eco aprendi o prazer da leitura. 
Aprendi a cair em tentação.
E a morrer a rir.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Elena Ferrante

Saio de casa de mala com rodinhas. Aquela pergunta de sempre: esqueci-me de alguma coisa?
Escova de dentes?  Check.
Desodorizante? Check.
Entro no elevador. 3, 2, 1.
Sim, esqueci-me.
De quê?
Da Elena Ferrante. Largada no sofá.
Na verdade não me esqueci.
Deixei-a em casa de propósito. É bem feito.
Há comida no frigorífico. 
Desenrasque-se.
Eu também tenho uma vida. Faço mais ou menos o que quero. Sou mais ou menos livre.
Por exemplo: às vezes, não leio. Não me apetece. Não estou para isso. E a Elena Ferrante tira-me o sono, a segurança, o sossego. Fico a lê-la até às tantas, de coração atribulado. Chego atrasada ao trabalho.
Só mais um parágrafo, só mais uma página. Não me levanto, não me lavo. Não pode ser.
E leio-a de qualquer maneira. De pé, contra a parede, a rebolar pelo chão.
A culpa é da Lila. Não me quer bem. Qualquer dia, dou-lhe um estalo. É uma menina má.
De vez em quando tratam-na por Lina. É o nome da minha mãe, que engraçado. Fico a imaginar a Lila com o rosto da minha mãe.
Bolas! 
Esta caneta acaba de largar tinta. Em sinal de protesto, acho. 
É uma caneta má. Fiquei com as mãos manchadas de negro. Um pequeno crime.
Hesito: se calhar não devia ter deixado a Lila sozinha em casa.
Fico a pensar no livro. Sozinho e macambúzio. De castigo no sofá. 
Faltam-me umas 30 páginas. 
Não faz mal, leio-as noutro dia. Hoje não.
Tenho mais que fazer.
A Elena Ferrante não manda em mim.
Ouviste, ó?
Tu não mandas em mim.
Bom. Acho que vou voltar para trás. Nunca se sabe. 
Estou com receio.
E também saudades.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O dicionário do menino Andersen

Vejam só o que aí vem:

O lançamento deste belíssimo livro é já na sexta, 20 de novembro, às 21h.
Mais informações e cenas fixes aquiali e acolá.

Quem não for, leva com uma definição na cabeça.
Eu, por exemplo, levei com esta banheira.
E gostei.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A claridade fugidia

Acabo de ser atingida por um raio místico. 
Estou no comboio, a agitar o corpo e a alma numa viagem para o Porto, a ler Uma Viagem à Índia.
De súbito, num momento de qualidade ascética, um raio de luz aterrou escancarado no livro. Era o único pedaço de sol na carruagem. 
Uma faísca certeira a iluminar uma estrofe do demoníaco Gonçalo M Tavares. Como se aquela página fosse a entidade eleita. 
Os meus olhos, depois da escuridão, habituaram-se à luz. Leram a estrofe 97 do Canto IV:

"E um homem não conhece a sua verdadeira ambição
até passar por uma tragédia forte, uma tragédia individual. Só se sabe olhar, depois
de se aprender. E olha-se melhor no primeiro momento
a seguir ao sono. Ter os olhos fechados é afinar a pontaria,
é preparar a íris negra para a rápida
claridade que nos foge."

Interrompi a leitura e escrevi isto. 
Para ultrapassar o assombro. E agarrar a claridade fugidia.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A livraria PTYX é um livro aberto

Eu desço a rue Lesbroussart como se estivesse a descer a rua do Alecrim: a baloiçar os braços e sem travões nas pernas. Cá vai disto.
A meio da rua, mais para baixo do que para cima, vejo a livraria PTYX, uma casa branca com escritores pendurados nas janelas.
Eu leio a fachada da livraria como quem lê um livro.
É que o rosto da PTYX reproduz a página de um dicionário. De alto a baixo, letras pretas sobre a fachada branca.
Para meu regozijo, ao lado da montra, na porta imaculada, está a Virginia Woolf. Eu passo por ela e tiro-lhe o chapéu.
A livraria PTYX é um livro aberto. Eu entro e leio os títulos, ouço o murmúrio nas prateleiras. Um murmúrio contínuo, como um texto que passa. Abro os pequenos livros como se abrisse ostras ou pequenos tesouros. Com dedicada cautela e expectativa.
Regra geral, fico no cantinho das novelas gráficas. Descubro grandes pérolas ali. Uh là là!
A livraria PTYX é a minha livraria de eleição.
No entanto, a minha eleição não lhe serve de muito. Não sou grande cliente. Na verdade, sou uma porcaria de cliente. Por norma, só lá vou aos sábados e nem sempre é possível passar na PTYX aos sábados. Há outras coisas para fazer.
Que outras coisas, pá?
Sei lá. Outras coisas.
Quando desço a rua Lesbroussart, são mais as vezes em que passo na livraria sem entrar do que as vezes em que lá entro. Independemente disso, tiro sempre o chapéu à Virginia Woolf.
Como é que é possível não ter tempo para as livrarias?
Receio que a maior parte da clientela da PTYX seja como eu: uma clientela de sábado-à-tarde-quando-dá. Se assim for, a PTYX tem os dias contados. Não é possível manter uma livraria com clientes sem travões.
Infelizmente para mim e para outros, a PTYX não abre aos domingos. São os próprios livreiros que explicam: on n’est pas feignant, ON LIT! Aos domingos, estão a ler, claro. Eu também leio aos domingos. Compreendo e aprovo.
Sempre que passo em frente à PTYX a baloiçar os braços e sem travões nas pernas, sinto remorsos.
Se a PTYX fechar, a culpa é minha.
Os leitores têm de ir às livrarias. Têm de folhear os livros nas livrarias. Têm de comprar livros nas livrarias.
Por uma questão de respeito e gratidão.
Não basta tirar o chapéu.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Com a cabeça nas letras

Acontece-me com frequência.
Estou muito bem no sofá a ler um livro e a bebericar um chá, quando, às páginas tantas, uma página do livro abre a boca e eu caio lá para dentro.
Às vezes magoo-me na queda e fico confusa, não sei onde estou. Bato com a cabeça nas letras.
Eu grito, mas ninguém me ouve. Não há janelas nem portas dentro de uma página.

Ando de frase em frase durante horas e não encontro a saída, não entendo as palavras. São muito maiores do que eu.

Reparem: eu estou dentro da página. Não é possível ler por dentro.

Ando de um lado para o outro como uma barata tonta. Caminho pelas palavras de cima para baixo e de baixo para cima. Chego ao fim da página e volto para trás.
Tento rasgar o papel mas não consigo, não tenho força. Fico enclausurada entre as linhas.

E não há nada para fazer aqui além de ler e reler. Rastejo pelo chão da página e tento decifrar as letras. Leio e releio. Repetidamente. Insistentemente.
Primeiro em voz alta e depois com a ajuda das mãos e dos pés.
Da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.

Infelizmente, não há palavra que me salve. A leitura não avança, não acontece.
As palavras ficam a repetir-se no tempo como máquinas avariadas.

A única solução é parar de ler.
Quando eu desisto, a página abre a boca e eu saio.

São páginas caprichosas.
Lidam mal com a rejeição.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Eu sou um gato

Acabei de ler o delicioso "I am a cat" do inconformado Natsume Soseki.
Publicado em fascículos ao longo de 1905 e 1906, este romance sobre a sociedade japonesa é narrado por um gato sem nome que muito se espanta com a natureza humana e sobrehumana.
O amor, a amizade, o casamento, a verdade, a mentira, o trabalho, a casa, as crianças, o dinheiro, a corrupção, as obrigações e a literatura - todos estes temas rebolam pelo livro e caem sempre de pé.
Como os gatos.

Será possível que não haja uma edição do portuguesa deste livro?

In the old days, a man was taught to forget himself. Today it is quite different: he is taught not to forget himself and he accordingly spends his days and nights in endless self-regard. Who can possibly know peace in such an eternally burning hell? The apparent realities of this awful world, even the beast lines of being, are all symptoms of that sickness for which the only cure lies in learning to forget the self.

quinta-feira, 26 de março de 2015

The Voyage Out

O livro "The voyage out", primeiro romance de Virginia Woolf, faz hoje 100 anos.

"That was the strange thing, that one did not know where one was going, or what one wanted, and followed blindly, suffering so much in secret, always unprepared and amazed and knowing nothing; but one thing led to another and by degrees something had formed itself out of nothing, and so one reached at last this calm, this quiet, this certainty, and it was this process that people called living."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

The summer without men

Para combater o inverno, ando a enfiar a carapuça e a ler o The summer without men (Verão sem homens) da Siri Hustvedt.
A páginas tantas, a narradora cobriu-me de beijos.
Gostei.

But before I get to that, I want to tell you, Gentle Person out there, that if you are here with me now, on the page, I mean, if you have come to this paragraph, if you have not given up and sent me, Mia, flying across the room or even if you have, but you got to wondering whether something might not happen soon and picked me up again and are reading still, then I want to reach out for you and take your face in both my hands and cover you with kisses, kisses on your cheeks and chin and all over your forehead and one on the bridge of your (variously shaped) nose, because I am yours, all yours.
I just wanted you to know.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

The Remains of the Day

The Remains of the Day é um livro para ampliar o tempo.
E a dignidade.

O mordomo de Kazuo Ishiguro é das personagens mais nobres que conheço.

But then as I continued to stand there, a curious thing began to take place; that is to say, a deep feeling of triumph started to well up within me. I cannot remember to what extent I analysed this feeling at the time, but today, looking back on it, it does not seem so difficult to account for. I had, after all, just come through an extremely trying evening, throughout which I had managed to preserve a "dignity in keeping with my position" – and had done so, moreover, in a manner even my father might have been proud of. And there across the hall, behind the very doors upon which my gaze was then resting, within the very room where I had just executed my duties, the most powerful gentlemen of Europe were conferring over the fate of our continent. Who would doubt at that moment that I had indeed come as close to the great hub of things as any butler could wish? I would suppose, then, that as I stood there pondering the events of the evening – those that had unfolded and those still in the process of doing so – they appeared to me a sort of summary of all that I had come to achieve thus far in my life. I can see few other explanations for that sense of triumph I came to be uplifted by that night.

The Remains of the Day, Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

E se o mundo inteiro lesse o mesmo livro?

No outro dia fui à livraria Passaporta ouvir o Bernardo Carvalho, o escritor brasileiro (e não o ilustrador português). O escritor tirou do bolso do casaco um chorrilho de perguntas que lançou ao público. Ficámos todos com ar de ponto de interrogação. "Não há nada mais desagradável que a dúvida."
Bernardo Carvalho fez uma leitura enérgica em português e o público seguiu a tradução em francês, neerlandês e inglês que ia sendo projetada num écrã gigante.
No Passaporta é sempre assim. "Todo mundo fala, por assim dizer, de forma figurada, a língua que todo mundo entende".

Segue-se uma citação livre do texto interrogativo "O óbvio ululante" que o autor leu na conferência:

Há alguns anos, lá na empresa, alguém teve uma ideia genial: E se o mundo inteiro lesse o mesmo livro?

E se o mundo inteiro fizesse exatamente a mesma coisa, achando que faz diferente, não seria mais fácil e natural supervisionar o mundo e, por conseguinte, encontrar o livro que todo mundo vai ler? E se, para isso acontecer, a gente criasse um dispositivo no qual quanto mais as pessoas lessem uma coisa, mais a mesma coisa seria lida e quanto mais as pessoas vissem uma coisa, mais ela seria vista? Não parece óbvio? E não seria mais fácil para todos, lá na empresa, delegar o trabalho de achar o livro que todo mundo quer ler a esse dispositivo redudante, natural e óbvio?

Se as outras empresas dão ao mundo o que o mundo quer, por que a nossa haveria de dar ao mundo o que nem todo mundo quer? É a lei da oferta e da procura. Não é lógico e natural? A lógica e a natureza são as mães de todas as coisas. A começar pela economia. E por que não pela cultura?

E se usássemos a língua que todo mundo fala, por assim dizer, de forma figurada, a língua que todo mundo entende, para fazer todo mundo ler o mesmo livro? Não seria lógico e natural? E se fizéssemos as pessoas das mais diferentes línguas escrever cada vez em menos línguas até chegar a uma só, a mesma língua para todos?

E qual melhor atrativo do que saber que se escreve na língua que todo mundo entende? E se, para persuadir os renitentes, que se recusassem a escrever nessa língua comum, a gente desse a impressão de que continuavam escrevendo em línguas diferentes?

E se a gente inventasse um nome para todos esses sotaques incorporados na mesma língua, numa única língua para todo mundo entender? Algo como multiculturalismo? Não seria incrível?

E se a gente criasse um mecanismo e uma lógica, com base matemática e científica, por meio dos quais quanto mais se visse uma coisa mais essa coisa seria vista e quanto mais uma pessoa lesse uma coisa, mais as outras seriam levadas a ler a mesma coisa, achando que chegavam a essa coisa por mérito e esforço próprio? Não seria incrível?

Para que contrariar as pessoas se podemos concordar com elas e com o que elas acham natural? Para que provocar o público? Para que forçá-lo a ver coisas que ele não vê a olho nu? Ou que não quer ver? Que presunção é essa, meu Deus?

Então, se perguntarem o que é bom, que é que eu digo? E quando eu já não estiver aqui para dizer? Ora, basta deixar as pessoas dizerem que bom é o que é natural, e o natural é o que elas acreditam. Que foi? Deus não é bom? Então?

No que é que vocês mais acreditam: numa história que é o relato de alguma coisa que realmente aconteceu ou numa loucura qualquer tirada da cabeça singular de uma pessoa? O que é que tem mais ressonância? O que de fato ocorreu e todo mundo pode comprovar ou os pensamentos antinaturais de um doido?

Ninguém quer ler livros que põem em dúvida o que estão contando. Percebem?
Tem que fazer acreditar para ser bom. Se começa a questionar, acabou.

Os terroristas da exceção acreditam nas singularidades, de verdade! E nos problemas. Eles dizem que a arte deve apresentar problemas, que a arte não tem de criar soluções. Eles querem criar problemas! Mas o público quer soluções. Ninguém precisa de mais problemas.

Onde na empresa funcionamos por pleunasmos, os terroristas da exceção funcionam por paradoxos. E aonde é que isso pode levar? A um mundo de dois ou três gênios, dizendo coisas que contrariam o que todos nós pensamos em consenso? É isso? Desde quando literatura é reflexão? E onde fica o  prazer da leitura? Quem é que quer ler o que não dá prazer?

E o que é que eles querem? Criar tantas visões de mundo quantos livros forem publicados? E como é que isso é possível com a quantidade de livros que precisamos publicar para que o mundo continue caminhando na mesma direção e nós sigamos recebendo nossos salários? Querem ofender o público e gosto do público às custas dos nossos bônus?

Não há nada mais desagradável que a dúvida. Quem quer duvidar? E para que serve a literatura se não for para confirmar e agradar? Eu pergunto: Para quê? Que contraexemplos eles têm para dar? Os impressionistas? A arte moderna? A ciência? É isso? É pra rir?

Curiosamente, nesta noite interrogativa, aconteceu um verdadeiro ato de "terrorismo de exceção": o Bernardo Carvalho venceu o Prêmio Jabuti pelo seu romance "Reprodução".
Se calhar é este livro que toda a gente vai ler (eu vou).
Não seria lógico e natural?

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Annie Ernaux

No outro dia descobri Annie Ernaux. Li o pequeno livro Passion Simple numa tarde. 
A páginas tantas:

Ici encore, devant les feuilles couvertes de mon écriture raturée, illisible sauf pour moi, je peux croire qu'il s'agit de quelque chose de privé, de presque enfantin, ne portant pas à conséquence – comme les déclarations d’amour et les phrases obscènes que j’inscrivais en classe à l’intérieur de mes protège-cahiers et tout ce qu’on peut écrire tranquillement, impunément, tant qu’on est sûr que personne ne le verra. Quand je commencerai à taper ce texte à la machine, qu'il m'apparaîtra dans les caractères publics, mon innocence sera finie.