Estamos dentro da terra. Dentro do metro. Dentro da vida.
Há militares muito bem fardados por aqui. Trazem um boné na cachimónia e uma arma ao colo. Cumprimentam um menino. Apertam-lhe a mão. Dizem: Ça va?
Dá gosto vê-los. São calmeirões e prestáveis. Afastam as metralhadoras para nos deixarem passar nas escadas rolantes. Dizemos: Merci.
Lá vão as pessoas apressadas. Com as suas malas e os seus tiques nervosos. A imaginação dentro do cérebro. Dentro do crânio. Dentro do metro.
Uma bomba na mochila. Uma bomba enfiada no bolso de um casaco ou encolhida a um canto. Em contagem decrescente.
O metro chega, entramos.
Um homem toca violino e nós rodamos os olhos. No sentido dos ponteiros do relógio. Andamos fartos de pedintes. Fartos de violinos. Fartos do medo.
Saímos na estação dos eurocratas. Marchamos todos em sentido, militares e pessoas.
Todos menos um.
Quem?
Aquela ali.
Uma leitora passa por nós. Caminha leve e graciosa com o seu livro de capa preta e sacode o marcador de livros no ar.
Ficamos a observar o marcador de livros. É um retângulo de papel a abanar a cauda.
A leitora nunca olha para o chão nem para as pessoas. Avança com os olhos pousados no livro. Sai da carruagem, mete-se nas escadas rolantes. Atravessa as portas, vira à direita, sobe as escadas.
Ficamos com vontade de seguir aquela leitora. De ler aquele livro.
Qual livro?
Não sabemos. Não deu para ver.
Tinha uma capa preta.
Tinha, não tinha?
Olhamos para trás. A leitora ao fundo, nas escadas rolantes. Virou agora mesmo a página e continua a ler. Um mundo qualquer muito melhor do que este.
O marcador de livros no cimo das escadas. A acenar ao longe.
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quarta-feira, 4 de maio de 2016
quarta-feira, 26 de março de 2014
Os que não têm
Os que não têm, pedem ou então pedincham, suplicam, imploram. Passam os dias num degrau, na boca do metro, e dizem ladainhas que ninguém entende. Alguns trazem cartazes ao peito: Tenho fome, tenho SIDA. Outros andam de carruagem em carruagem com uma viola ao ombro, ou ficam num canto a soprar numa flauta ou num clarinete ou numa harmónica. Também há os que cantam ou os que falam sozinhos, os que olham em frente mas não nos vêem porque entretanto enlouqueceram e já não moram aqui. Também há os que vendem revistas ou porta-chaves ou peluches e trazem um cão pela trela ou uma criança pela mão e uma lata ou um chapéu ou um mealheiro.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.
quarta-feira, 20 de março de 2013
A concretização pessoal
A concretização pessoal é apanhar o metro no último momento. Nada me realiza mais do que este sprint final. É preciso imaginar o cenário: as portas do metro a fechar, o metro a apitar por cima e por baixo. É que não vale a pena sequer tentar. Mesmo as pessoas mais apressadas e atarefadas já desistiram, são bons perdedores. Descem as escadas devagar com as suas muitas pernas, minhoquinhas debaixo de terra.
Mas eu hoje dei um sprint final e, contra todos os prognósticos, apanhei o metro. A boca fechou mesmo atrás de mim, foi impressionante. Um milímetro ao lado e eu já não teria sido engolida pelas portas, teria sido triturada ou, pelo menos, trincada. O perigo era, pois, eminente.
Uma vez, as portas do metro deram-me uma trinca no ombro e doeu bastante. Fiquei com uma nódoa negra bem gorda durante vários dias. Mas, desta vez, saí (entrei) ilesa.
Fiquei tão feliz com este meu feito que me esqueci das regras da coexistência urbana e meti logo conversa com estranhos: Ufa, foi por um triz!*
As minhoquinhas perdedoras ficaram para trás, coitadas. Acenei-lhes. Tchaaau!
Eu até nem sou de correr para o metro. Não percebo muito a filosofia de correr para o metro. Tenho a mentalidade das pessoas atrasadas: mais cinco minutos ou menos cinco minutos é igual. De manhã, sou lenta como uma tartaruga, não me mexo muito. Quando saio de casa, evito até olhar para as pessoas, porque de vez em quando lá vem mais uma ave-rara de mapa na mão e faz-me perguntas. Isto irrita-me muito, porque de manhã não me apetece nada ajudar as pessoas. Ajudar as pessoas de manhã é extremamente cansativo.
Mas hoje, não sei, estava mais desperta e deu-me para um sprint final.
Era ver a tartaruga a sair da casca, num fôlego de esperança.
E apanhei o metro.
Foi espetacular!
*Bem, eu não disse Ufa, foi por um triz! Eu disse qualquer coisa menos espontânea num francês de nono ano e não obtive resposta.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
As pessoas urbanas
As pessoas urbanas andam de metro. Algumas vêm sentadas e outras vêm de pé.
Entre as pessoas que vêm de pé, umas vão encostadas à porta, outras agarradas ao varão, no centro da carruagem. As pessoas mais urbanas ouvem música, outras leem um livro. As pessoas ainda mais urbanas fazem as duas coisas ao mesmo tempo: ouvem e leem, leem e ouvem. As pessoas mais ou menos urbanas não fazem nada disto, olham no vazio; os olhos abertos e desfocados.
Um homem lê um jornal e está visivelmente zangado com qualquer coisa que poderá não ter nada que ver com o jornal. Coça a testa, suspira.
Uma senhora traz um chapéu na cabeça que é quase uma cartola, está absolutamente ridícula.
Uma mulher de cabelo muito comprido segura as duas alças da sua malinha elegante com as suas duas mãos elegantes. A mala cintila e os lábios da mulher também.
De repente, o metro pára, mas não numa estação. Fica parado no meio do nada, entre uma estação e outra, no escuro.
As pessoas urbanas olham para o vidro do lado direito e para o vidro do lado esquerdo, mas só se vêem a si próprias, porque não há luz do lado de lá, só há luz dentro do metro.
As pessoas urbanas ficam a ver o seu próprio reflexo e depois entreolham-se através do espelho. Os olhos das pessoas urbanas olham para o reflexo de outros olhos. São muitos pares de olhos que dizem uns aos outros:
"Eu estou a ver-te a ver-me a ver-te a ver-me."
Uma voz off anuncia em francês que o metro partirá assim que possível. Merci de votre compréhension. A voz off repete a mesma informação em neerlandês e depois em inglês.
Ouvem-se os primeiros suspiros aqui, ali e acolá, uf, buf, pffff, mas ninguém diz nada, ninguém refila, ninguém reclama. As pessoas urbanas são civilizadas e pacientes.
A senhora do chapéu ridículo aperta um pouco mais o varão com a sua luva de cabedal preto. A luva faz um som de cabedal, chuiiiic. O rapaz que vem encostado à porta enterra as mãos ainda mais nos bolsos do casaco e roda as pontas dos pés para dentro. Calça uns All Stars verdes e um deles vem desapertado.
As pessoas estão muito caladas e respiram menos, é preciso poupar oxigénio.
O homem do jornal ajeita os óculos e sacode o jornal que, apercebendo-se de qualquer coisa, endireita as folhas.
A mulher dos cabelos muito compridos tosse duas vezes para a sua mão elegante, cof, cof.
Um moço despenteado a rigor cerra os dentes várias vezes seguidas. As pessoas urbanas percebem que o rapaz cerra os dentes, porque os maxilares do moço mexem-se.
Uma senhora asiática que lê um livro abana a cabeça sem tirar os olhos do seu livro. Talvez não tenha gostado da passagem que acaba de ler.
Um homem gordo com ar de escocês que produz o seu próprio whisky olha para o teto, parece concentrado em alguma coisa.
A senhora do chapéu ridículo lança um olhar reprovador à rapariga magra, que olha explicitamente para o seu próprio reflexo. Vários passageiros ficam a observar a rapariga magra, que não observa mais ninguém, só o seu reflexo no vidro. A rapariga magra decide refazer o seu penteado urban casual, o que implica tirar pelos menos seis ganchos da cabeça e voltar a colocá-los na cabeça. O penteado da rapariga fica exatamente igual, mas a rapariga está contente com o resultado.
A primeira pessoa a olhar para o relógio é a mulher dos cabelos muito compridos. Mas há pelo menos quatro pessoas a olhar para o telemóvel e essas não precisam de consultar o relógio para saberem as horas.
Um homem abana a perna por baixo de uma mochila grande que, devido à trepidação, também estremece. A mochila e a perna fazem barulho, tecido contra tecido, zuique, zuique, zuique, zuique.
Ainda só passaram três minutos, talvez quatro.
As pessoas urbanas sabem perfeitamente que poderão ficar ali fechadas uns quinze minutos ou até meia hora ou mesmo uma hora seguida ou mais ainda. Tudo pode acontecer dentro de um túnel escuro. As pessoas urbanas estão preparadas para isso. Olham para o vidro. Algumas pessoas hesitam, parecem estar com receio.
A verdade é que não sabem bem onde estão nem qual das estações fica mais perto da sua posição atual: se a anterior, se a seguinte. Poderá ser necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Como é óbvio, não será necessário andar a pé pelo túnel, na escuridão. Haverá, pelo menos, uma ou outra lanterna.
Para passarem o tempo, as pessoas urbanas pensam nas suas vidas ou então na distância entre a localização do veículo debaixo de terra e a estação seguinte. Também mexem em coisas: na carteira, no telemóvel, na agenda.
Um homem careca estala os dedos das mãos, um por um, claque, claque, claque. E nesse momento, como que por milagre, o metro soluça e retoma a marcha. Primeiro avança muito devagarinho, mas a seguir já vai lançado como habitualmente. As pessoas urbanas suspiram de alívio, descomprimem devagar, sorriem.
O metro pára na estação seguinte. Umas pessoas entram, outras saem.
Entretanto, o senhor da mochila grande mete conversa com a mulher dos cabelos muito compridos. A mulher ri-se e responde. Ele diz outra coisa e ela responde. A mulher do chapéu ridículo lança um olhar reprovador ao senhor da mochila e à mulher dos cabelos muito compridos. As pessoas urbanas não devem falar umas com as outras.
Uma senhora pequenina atende o telemóvel e diz uma série de coisas muito rápido numa língua não identificada.
A vida volta progressivamente ao normal. Urban casual.
No final do dia, nenhuma das pessoas urbanas se lembrará dos minutos que passou no túnel, no meio do nada, na escuridão.
Ainda bem!
É melhor não pensar no escuro, na falta de luz ao fundo do túnel.
Sensação estranha, aquela, a de estar enfiada num buraco rodeada de estranhos. Zuique, zuique, tecido contra tecido.
As pessoas urbanas não entram em pânico.
Não é que não tenham vontade.
É mesmo só porque parece mal.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Um homem caminha com as mãos atrás das costas
Aquele homem caminha com as mãos atrás das costas. Aproxima-se das pessoas e elas agitam-se como pombos, claro, têm medo. Não sabem o que o homem traz atrás das costas e o desconhecimento é terrível. Pode muito bem trazer uma bomba ou uma arma atrás das costas. Que arma?, questionam-se as pessoas dentro das suas cabeças. Qualquer tipo de arma! Uma pistola, uma faca, uma metralhadora. O homem que caminha com as mãos atrás das costas pode ser um terrorista ou um agente secreto ou mesmo um louco. Sim, um louco. Bem, também pode ser só um polícia. Pode trazer um bastão atrás das costas, por exemplo. E nesse caso, está a zelar pela segurança dos cidadãos. De repente, as pessoas apaziguam-se. Não é nada mau estar perto de um polícia, pode dar jeito. Quando se fala de armas, o sentimento de segurança e o sentimento de insegurança confundem-se. As pessoas tanto se sentem seguras como se sentem inseguras. Pensam: Sinto-me seguro. E logo a seguir: Sinto-me inseguro. É extremamente difícil sentir um só sentimento de cada vez. A verdade é que o homem que caminha com as mãos atrás das costas pode nem trazer nada atrás das costas. Pode só estar de mãos dadas atrás das costas, há muita gente que caminha assim, em especial homens de meia-idade como este senhor. Sim, é um senhor, não é só um homem. Tem a barba feita e exala um cheiro sofisticado que é bom para as narinas. Além disso tem um ar saudável e simpático. Deve beber sumo de laranja todas as manhãs e abrir a porta do carro às senhoras. Ainda assim, as pessoas agitam-se, não estão convencidas. Um homem com ar de cavalheiro nem sempre convence, porque no geral é difícil convencer as pessoas. O que traz o homem atrás das costas, afinal? O narrador deste texto sente esta tensão no ar e sorri divertido, porque o narrador não tem nada a temer. Não que estejamos perante um narrador corajoso e temerário, nada disso. Este narrador é cobarde até dizer chega, é um autêntico menino da mamã. Só que o narrador, na sua qualidade de narrador, não existe propriamente, não tem carne nem osso, portanto não corre perigo de vida. Já se sabe que, tanto na realidade como na ficção, não é possível matar uma pessoa sem corpo. Um narrador só tem alma. Acresce a isto que o narrador está numa posição estratégica em relação ao homem e às pessoas, porque vem precisamente atrás do senhor que cheira bem e vê perfeitamente o que o homem transporta atrás das costas. Bom, acabe-se com este mistério: o homem traz um guarda-chuva atrás das costas. Esta é a verdade. Sim, um mero guarda-chuva, daqueles que aumentam e encolhem consoante a necessidade. Neste momento, o guarda-chuva vem encolhido, porque não está a chover, até porque estamos na plataforma do metro e, por norma, não chove debaixo de terra. O narrador ri-se das pessoas inquietas e agora distrai-se da sua personagem principal. Está a pensar nesta característica interessante e invejável de os guarda-chuvas aumentarem e encolherem consoante a necessidade. Seria bom aplicar esta característica a outras coisas. Aos carros, por exemplo. Às estátuas, às praças, às igrejas e também às pizzarias, às tascas, aos quiosques de jornais, às lojas de roupa, aos supermercados, às máquinas de lavar loiça, às máquinas de cortar relva, a todo o tipo de máquinas aliás. Às alterações climáticas, ao mercado único, à política comum das pescas. Aos livros. Ou mesmo às pessoas, porque não? Aumentá-las e encolhê-las consoante a necessidade. Preciso de ti: aumenta. Agora já não preciso de ti: encolhe. Contabilistas, tradutores, escritores, arquitetos, astrónomos, padres, mães, pais, padrinhos. Ocuparia tudo muito menos espaço. Poderíamos meter tudo e mais alguma dentro de gavetas e teríamos um mundo limpo e arrumado. Seria muito melhor viver num mundo assim. O narrador vai enumerando as vantagens dentro da cabeça, mas logo se depara com as desvantagens. Por exemplo, o sentimento de insegurança é uma desvantagem, porque esse seria porventura maior num mundo repleto de coisas que aumentam e encolhem. Nada seria previsível! Tudo caberia dentro de uma mala ou de um bolso. Seria possível trazer um prédio atrás das costas ou mesmo um comboio ou até a própria União Europeia, consoante a necessidade. As pessoas seriam como mágicos, mas sem a parte da magia. Cada um transportaria o que quisesse dentro da sua cartola. O narrador pensa em tudo isto e esquece-se do protagonista desta história. O que trazer dentro de uma cartola? No caso de um narrador, histórias e personagens, metáforas, diálogos, expressões idiomáticas.
O metro chega e o homem do guarda-chuva entra na primeira carruagem, desaparece no meio dos outros. É uma pessoa como as outras. Vai encolhido a um canto, já ninguém o vê.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Um casal comprido e narigudo
Um casal comprido e narigudo vem aos beijinhos no metro. São 8h da manhã e as pessoas afastam-se do casal, incomodadas com os beijinhos alheios (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma rapariga de casaco vermelho fica a olhar para eles e ri-se. Acha curioso observar pessoas de narizes compridos a darem beijinhos, parecem passarinhos e não se atrapalham nada. Observa-os atentamente: Ela de rugas fininhas mas profundas na ponta dos olhos e dos lábios, caracóis ao alto, ele de cabelo grisalho e bem composto. Têm ambos, à vontade, idade para ter juízo. Dão beijinhos curtos e sonoros - chuac, chuac, pio, pio - um som entre o assobio de pássaro e o grasnar de ganso.
A rapariga de casaco vermelho ri-se outra vez. É infantil, apesar de já ser bem grande.
A carruagem vem cheia de gente de hálitos e hábitos esquisitos. Uma mulher com ar de quem começa a dar ordens ao marido às 6h da manhã e lava o chão da cozinha todos os dias porque os três filhos rapazes não sabem comer para cima da mesa encolhe os ombros, sobe e desce as sobrancelhas num tique nervoso, está verdadeiramente irritada com os beijinhos curtos e sonoros do casal comprido e narigudo.
Um senhor de óculos pequeníssimos vem a ler a Economist. De vez em quando suspira e lança um olhar enfastiado para o casal comprido e narigudo. Também lança um olhar enfastiado para a rapariga de casaco vermelho, que se vem a rir (é infantil). Afinal lança um olhar enfastiado para todos os passageiros (nothing personal).
As pessoas estão cada vez mais próximas umas das outras porque querem afastar-se o mais que podem do casal comprido e narigudo (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma senhora baixinha e muito magra, de franja pelos olhos para fingir que tem 30 anos, embora seja visível que tem, no mínimo, 50, masca uma pastilha acelerada e olha para o mapa do metro com um ar muito concentrado. Claramente, esta senhora de franja pelos olhos não está a olhar para o mapa do metro, até porque é impossível ver alguma coisa através daquela franja farfalhuda. Está mesmo só à procura de uma distração. Os beijinhos destabilizam-lhe os ouvidos e a senhora já tem problemas de equilíbrio por causa de não-sei-quê nos tímpanos.
A carruagem vem cada vez mais cheia e as pessoas estão cada vez mais unidas contra o casal comprido e narigudo, conspiram e suspiram contra os beijinhos sonoros no metro, uma vergonha.
A mulher dos três filhos está tão enervada que, ao sair do metro, abalroa a rapariga do casaco vermelho, que ainda vem com um sorrisinho parvo no semblante. A rapariga do casaco vermelho, que, apesar de infantil, é grande, vai projetada contra a senhora da franja pelos olhos que, por ser franzina e ter problemas de equilíbrio, acaba mesmo por cair nos braços do senhor dos óculos pequeníssimos. Na carruagem paira brevemente uma esperança de romance que afinal não é mais do que isso: uma esperança de romance. Senhora e senhor dão às asas como pombos assustados, cada um para seu lado. Desolada, pas de soucis.
O senhor dos óculos pequeníssimos dá o último suspiro e guarda a revista debaixo do sovaco, o que é um claro sinal de que o senhor desistiu de se cultivar. Trata-se portanto de uma perda de conhecimento valioso, tanto para o senhor dos óculos pequeníssimos como para a comunidade no geral. A carruagem apoquenta-se.
O casal comprido e narigudo com idade para ter juízo continua aos beijinhos - chuac, chuac, pio, pio. Ela de rugas fininhas, ele de cabelo grisalho, não reparam em nada disto: na mulher dos três filhos, no senhor dos óculos pequeníssimos, no estado do mundo, na senhora da franja pelos olhos, na rapariga de casaco vermelho.
As pessoas que dão beijinhos sonoros passam a vida a transformar o mundo mas nem dão por isso, porque não querem saber de nada e, muito provavelmente, não leem a Economist. São burras.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Um homem corre para o metro.
Um homem corre para o metro. O cabelo grisalho e uma calva redonda no cocuruto. Não tem idade para correr nem muito jeito para isso, mas corre na mesma: está com pressa. Pela mão traz uma mala de pele ou a imitar pele, ligeiramente puída, talvez professor de matemática ou vendedor de livros por catálogo. O metro está parado há coisa de cinco segundos, mas o homem ainda não chegou à plataforma. Por isso, corre. Galga agora os degraus da escada rolante, dá um pequeno encontrão numa senhora muito gorda, pede desculpa verdadeiramente arrependido, a senhora parece perdoá-lo. As portas do metro já assobiam, começam agora mesmo a fechar-se e o homem, que tem pernas e braços compridos, tira partido das pernas e dos braços compridos e lança a mão vazia para uma das portas, na esperança de parar o movimento ou o tempo ou coisa que o valha. Infelizmente as portas continuam a fechar-se até que se fecham mesmo. A mão do homem fica exactamente a meio: os cinco dedos dentro do metro e o resto da mão do lado de fora. As portas não voltam a abrir, a enorme carruagem não anda para a frente nem para trás. O homem ali fica especado, a mão entre uma coisa e outra. O condutor do metro não presta atenção a nada disto. De outro modo, abriria as portas agora mesmo. Os passageiros olham atónitos para os dedos pendurados na porta. Do lado de fora, as pessoas mexem-se alvoraçadas como pombos. Por fim, e para horror dos que assistem, o metro parte. Os passageiros amotinam-se, começam a esbracejar e a gritar. O homem de cabelo grisalho não tem outro remédio: corre pela plataforma com o metro que avança, levado pela própria mão. Alguns passageiros correm atrás dele. O homem de cabelo grisalho e calva redonda no cocoruto não tem idade para correr nem muito jeito para isso, mas corre na mesma. Felizmente, a senhora muito gorda está de costas para o homem que corre na sua direcção. Além de muito gorda, é completamente surda, não sabe o que se passa.
A colisão brutal entre os dois corpos foi o que bastou para salvar o homem e a sua mão. Homem e mulher caem no chão como dois amantes.
Um tratamento de choque.
Para onde iria o homem com tanta pressa? Jamais saberemos.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Debaixo da terra
Descemos umas escadas e estamos numa estação de metro. Debaixo da terra.
À nossa frente vem um rapaz que é quase um homem. Ou melhor, um rapaz que quer ser homem e não sabe. Ou que não sabe ser homem, mas quer sê-lo. Ou o contrário: que sabe ser e não quer. De qualquer das formas, pelo compasso das pernas e a posição minguante, há qualquer coisa que o rapaz quer e não sabe. Ou que sabe e não quer.
É estudante. Tem uma mochila às costas, logo deve ser. Frequenta um instituto técnico ou coisa do género. Passa nas práticas e chumba nas teóricas. Filho único, arriscamos. De mãe trabalhadora e pai ausente (ou, pelo menos, pouco presente).
Não se pode ter tudo, claro, mas o rapaz não sabe disso. Não quer isso. Não aceita.
Uma luz ao fundo do túnel, um som tempestuoso de Juízo Final e o metro chega. É sempre assim, por isso ninguém se assusta. Está quase vazio o metro por causa da hora (é cedo).
À nossa frente vem um rapaz que é quase um homem. Ou melhor, um rapaz que quer ser homem e não sabe. Ou que não sabe ser homem, mas quer sê-lo. Ou o contrário: que sabe ser e não quer. De qualquer das formas, pelo compasso das pernas e a posição minguante, há qualquer coisa que o rapaz quer e não sabe. Ou que sabe e não quer.
É estudante. Tem uma mochila às costas, logo deve ser. Frequenta um instituto técnico ou coisa do género. Passa nas práticas e chumba nas teóricas. Filho único, arriscamos. De mãe trabalhadora e pai ausente (ou, pelo menos, pouco presente).
Não se pode ter tudo, claro, mas o rapaz não sabe disso. Não quer isso. Não aceita.
Uma luz ao fundo do túnel, um som tempestuoso de Juízo Final e o metro chega. É sempre assim, por isso ninguém se assusta. Está quase vazio o metro por causa da hora (é cedo).
O rapaz não entra.
Achamos isto estranho e ficamos de pé atrás, mas depois percebemos: passam nesta estação duas linhas de metro, uma que vai para Norte, outra que vai para Sudoeste. O rapaz vai para cima e não para baixo. Logo, não entra.
O rapaz encosta-se à parede. Flecte um joelho e calca a parede com o pé direito. Tira do bolso um telemóvel demorado, consulta-o. O aparelho emite uma luz esquisita, igual à dos objectos voadores não identificados. Do outro bolso saem uns fios negros atrapalhados que sobem pelo peito como plantas trepadeiras e desaparecem nos ouvidos: uns headphones de enfiar até aos tímpanos. (O rapaz gosta do que ouve, ou pelo menos parece: abana a cabeça em consonância.)
Continua especado a olhar para o telemóvel, vai carregando nas teclas todas, não sabemos o que faz.
Chega outro metro. Vai para Norte. O rapaz descola o pé da parede e entra na primeira carruagem. (Nós também.) O rapaz senta-se. (Nós não. Vamos bem de pé.)
O rapaz pousa a mochila no colo, abre-a, tira um jornal equivocado. Trata-se possivelmente de uma edição estudantil a contestar o sistema educativo. Consulta a publicação de trás para a frente, salta os artigos. Não lê, vê. Fecha o jornal, gira-o na mão e interessa-se pela contracapa: um anúncio qualquer de um concerto ou de uma festa.
Regressa ao telemóvel, à luz não identificada. De repente levanta-se, sai naquela estação.
O rapaz encosta-se à parede. Flecte um joelho e calca a parede com o pé direito. Tira do bolso um telemóvel demorado, consulta-o. O aparelho emite uma luz esquisita, igual à dos objectos voadores não identificados. Do outro bolso saem uns fios negros atrapalhados que sobem pelo peito como plantas trepadeiras e desaparecem nos ouvidos: uns headphones de enfiar até aos tímpanos. (O rapaz gosta do que ouve, ou pelo menos parece: abana a cabeça em consonância.)
Continua especado a olhar para o telemóvel, vai carregando nas teclas todas, não sabemos o que faz.
Chega outro metro. Vai para Norte. O rapaz descola o pé da parede e entra na primeira carruagem. (Nós também.) O rapaz senta-se. (Nós não. Vamos bem de pé.)
O rapaz pousa a mochila no colo, abre-a, tira um jornal equivocado. Trata-se possivelmente de uma edição estudantil a contestar o sistema educativo. Consulta a publicação de trás para a frente, salta os artigos. Não lê, vê. Fecha o jornal, gira-o na mão e interessa-se pela contracapa: um anúncio qualquer de um concerto ou de uma festa.
Regressa ao telemóvel, à luz não identificada. De repente levanta-se, sai naquela estação.
Ficamos a vê-lo desaparecer na plataforma. E o metro continua. A vida também.
Era um rapaz subterrâneo, submerso, triste.
Deve ser estranho crescer assim: sem contemplação.
sexta-feira, 28 de março de 2008
No metro
Tem barriga em forma de ovo e sente com a mão o peso do fruto. Quase sorri. Os outros passageiros olham-na atentos, assustados com o fruto desconhecido.
A mulher grávida é, aos olhos dos passageiros, um bicho de duas cabeças.
O homem atrás do ventre vem a dormir. Corpo dobrado sobre si mesmo e barriga inchada, a mão esquerda muito aberta dedilhando a placenta.
Entre o fruto e o mundo, uma parede de sangue.
Entre mulher e mãe, o ovo. Entre mãe e filho, um cordão.
E nós, entre estações, à espera que os outros nasçam.
O metro abre-se como um ovo e nós, os de cá, a saltar para o mundo.
Entre o princípio e o fim, tudo o resto.
Entre o fruto e o mundo, uma parede de sangue.
Entre mulher e mãe, o ovo. Entre mãe e filho, um cordão.
E nós, entre estações, à espera que os outros nasçam.
O metro abre-se como um ovo e nós, os de cá, a saltar para o mundo.
Entre o princípio e o fim, tudo o resto.
E nós, os da vida, no meio.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Gesto repetido
Ao meu lado vem sentada uma rapariga e classifico-a de estranha. Senta-se muito direita e sacode a cabeça repetidamente com movimentos curtos, violentos, intermitentes. Traz o pescoço sempre tenso, a cabeça presa, prensada, pesada. Ao mesmo tempo vem a ler qualquer coisa. Não olho directamente para ela mas interesso-me pelo gesto repetido.
Interpreto.
Talvez corra no seu cérebro um pensamento eléctrico e haja um curto-circuito a meio que provoque pequenos choques na cabeça. Ou um qualquer brainstorming de electrões ferozes, ou uma frase negativa a circular no sangue, ou até mesmo um mandamento. Não matarás, não cobiçarás, não falarás, não pensarás em coisas boas.
A testa enrugada da rapariga lembra-me os rochedos do Cabo da Roca, imponentes, impenetráveis, inultrapassáveis. Os olhos movem-se irrequietos: abrem, fecham, semicerram. De novo sacode a cabeça. Adivinho sofrimento e tenho pena da rapariga. Se tivesse alguma fé que não somente a fé na sorte, rezaria por ela, acenderia uma vela, sacrificaria uma virgem, uma vaca, qualquer coisa.
Ganho coragem e resolvo espreitar o livro que lê (talvez a leitura seja a culpada pelo gesto repetido, todos nós vibramos quando lemos). Vejo linhas, símbolos e a única expressão inteligível é "molto fortíssimo". Reconheço uma pauta de música e vem-me à cabeça o solfejo, a professorinha ao piano e nós muito pequenos de flauta da boca, a clave de sol que ninguém sabia desenhar.
A rapariga apanha-me em flagrante e, de repente, é como se não falássemos a mesma língua. Finjo-me interessada: "É bonita a música?" e ela ri-se surpreendida. Diz que sim com a cabeça e não tem mais palavras para mim. Toda ela é melodia, daí o curto-circuito no corpo.
Interrompo novamente: "É uma música triste?" e ela olha-me como se nunca tivesse pensado nisso. Perdoo-a: "Sente, logo não pensa". Resolve dizer que não e fecha o livro. Já não sacode a cabeça e é nessa altura que vejo a caixa negra aos seus pés: parece resistente e tem a forma de um violino.
Dá-se um curto-circuito na minha cabeça. Não falamos a mesma língua, por isso não digo nada. Ouço um violino por dentro e sofro. Ordeno a mim própria: Não pensarás. Na paragem seguinte, a rapariga pega na caixa e sai do metro. Traz o livro debaixo do braço e parece-me feliz. Concluo: sofre mas não sabe.
Interpreto.
Talvez corra no seu cérebro um pensamento eléctrico e haja um curto-circuito a meio que provoque pequenos choques na cabeça. Ou um qualquer brainstorming de electrões ferozes, ou uma frase negativa a circular no sangue, ou até mesmo um mandamento. Não matarás, não cobiçarás, não falarás, não pensarás em coisas boas.
A testa enrugada da rapariga lembra-me os rochedos do Cabo da Roca, imponentes, impenetráveis, inultrapassáveis. Os olhos movem-se irrequietos: abrem, fecham, semicerram. De novo sacode a cabeça. Adivinho sofrimento e tenho pena da rapariga. Se tivesse alguma fé que não somente a fé na sorte, rezaria por ela, acenderia uma vela, sacrificaria uma virgem, uma vaca, qualquer coisa.
Ganho coragem e resolvo espreitar o livro que lê (talvez a leitura seja a culpada pelo gesto repetido, todos nós vibramos quando lemos). Vejo linhas, símbolos e a única expressão inteligível é "molto fortíssimo". Reconheço uma pauta de música e vem-me à cabeça o solfejo, a professorinha ao piano e nós muito pequenos de flauta da boca, a clave de sol que ninguém sabia desenhar.
A rapariga apanha-me em flagrante e, de repente, é como se não falássemos a mesma língua. Finjo-me interessada: "É bonita a música?" e ela ri-se surpreendida. Diz que sim com a cabeça e não tem mais palavras para mim. Toda ela é melodia, daí o curto-circuito no corpo.
Interrompo novamente: "É uma música triste?" e ela olha-me como se nunca tivesse pensado nisso. Perdoo-a: "Sente, logo não pensa". Resolve dizer que não e fecha o livro. Já não sacode a cabeça e é nessa altura que vejo a caixa negra aos seus pés: parece resistente e tem a forma de um violino.
Dá-se um curto-circuito na minha cabeça. Não falamos a mesma língua, por isso não digo nada. Ouço um violino por dentro e sofro. Ordeno a mim própria: Não pensarás. Na paragem seguinte, a rapariga pega na caixa e sai do metro. Traz o livro debaixo do braço e parece-me feliz. Concluo: sofre mas não sabe.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Com a cabeça no tecto
A senhora do metro informa-me: "Para o mês que vem já não tem desconto!" e eu, apesar dos bons ouvidos e do raciocínio rápido, pergunto: "Como?". A senhora do metro explica-me que no próximo mês já não tenho idade para ter desconto para jovens. Esboço um sorriso esclarecido, compro o último passe com desconto e desço as escadas rolantes. O metro tinha acabado de passar e fico à espera do próximo. Enquanto espero, olho para dentro, penso na vida (há dias assim): eu e os meus pais a rirmo-nos, eu de olhos fechados na praia, eu a vir da escola com o João, eu a correr para o comboio, eu a beber café, eu e a Marta no trem velho, eu e a Isabel nas Avencas, eu na faculdade de tantas letras, eu e o Henrique no Pico, eu no aeroporto de Lisboa, a minha mãe a dizer: "Não chores!", eu noutras cidades, noutros aeroportos, noutras vidas. Depois faço planos: casar, ter filhos, escrever um livro, plantar uma árvore, comprar uma casa, ter desconto para reformados. Finalmente começo a rir de mim própria, abano a cabeça, lembro-me do Peter Pan, do nosso pacto de sangue, da Sininho aos pulos, da Terra do Nunca e, de repente, bato com a cabeça no tecto.
É que entretanto tinha começado a voar na paragem do metro e nem tinha dado por isso. Tenho uma sensação de vertigem quando olho para o chão, mas abro bem os braços e equilibro-me. Digo: "Detesto o metro" e voo dali para fora. Quando chego à rua, já voo a grande velocidade. Sem querer, arranco o chapéu de uma senhora e peço desculpa num berro. Um miúdo com óculos de Harry Potter corre atrás de mim e grita-me: "Então e a vassoura?". Olho para ele divertida, o cabelo à frente da cara: "Não sou dessa geração!" e a mãe do rapaz, que o espera nas escadas do metro, sorri-me um sorriso cúmplice. O miúdo acena-me, eu aceno, a mãe acena. Mãe e filho reúnem-se outra vez na entrada do metro, abraçam-se e ficam a ver-me desaparecer nas nuvens. Penso: "Gosto do vento!".
É que entretanto tinha começado a voar na paragem do metro e nem tinha dado por isso. Tenho uma sensação de vertigem quando olho para o chão, mas abro bem os braços e equilibro-me. Digo: "Detesto o metro" e voo dali para fora. Quando chego à rua, já voo a grande velocidade. Sem querer, arranco o chapéu de uma senhora e peço desculpa num berro. Um miúdo com óculos de Harry Potter corre atrás de mim e grita-me: "Então e a vassoura?". Olho para ele divertida, o cabelo à frente da cara: "Não sou dessa geração!" e a mãe do rapaz, que o espera nas escadas do metro, sorri-me um sorriso cúmplice. O miúdo acena-me, eu aceno, a mãe acena. Mãe e filho reúnem-se outra vez na entrada do metro, abraçam-se e ficam a ver-me desaparecer nas nuvens. Penso: "Gosto do vento!".
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