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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O monstro onomatopeico

Nock, nock.
Quem é?
É o onomatopeico.
Quem?
Cof, cof! Peço desculpa. Estou constipado. Sou o monstro onomatopeico. 
Um monstro?
Sim. Faço Grrrr! e tenho garras. E pelo longo, mas sou friorento. No inverno, bato com os dentes e também digo Brrrr! como a Sadie Stein naquela crónica do Paris Review.
Mas você lê o Paris Review?
Sim.
Uh là là. Mas o que quer vocemessê?
Nada. Hoje está de chuva e a trovejar (Bruum!), mas nos dias bons, gosto de dar Chuac!, de fazer Zap!, de comer Crunch! e exclamar Hmmm!, de cair Zás! e Catrapás!
E no verão?
No verão gosto de ir ao Slide and Splash. De rir Hihihi! e Hahaha! De exclamar Wow! e também Yááá!
Yááá?!
Yááá! Ah! E também gosto de rir como a bruxa má: Wuhuhuwahaha!  Gosto de monstrinhos que dizem: Oops! e Babum! Não gosto de tik-tak nem que me digam: Shhhh!
E gosta de ler?
Sim. Gosto de livros onomatopeicos, como o Livro Clap da Madalena Matoso. Gosto de dizer Tcharam! quando acabo qualquer coisa, de comer Epás e de dizer Chiiiiiiii! e China pá!
E mais?
Gosto de ouvir o cri-cri dos grilos e o ão-ão dos cães. Gosto das campaínhas que dizem Ding! Dong!
Desculpe, mas você não parece um monstro.
Eu sei. Mas sou, só que digo Miau! e ronrom, não sou um monstro nada mau. Sou assim-assim. Às vezes sou um bocado zum-zum! E também mé-mé!
Aquela é a sua bicicleta?
Sim. Nas descidas faço Trim! e sigo Vruuum! Quando me aleijo, grito Autch! e às vezes Buááá! ou então Buééé! De resto, sou educado e asseado. Nunca digo Ufa! Nunca choro um Snif. E também não arroto um Burp.
E é um monstro de quê? De assustar as pessoas?
Não. Eu sou o monstro do Blargh! e do Bruuum! O meu nome é Crash! e o meu apelido é Buuu!
Crash Buuu?!
Crash Buuu!
É um nome invulgar.
Atchim!
Ai, que susto!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um monstro sem pés nem cabeça

Era uma vez um monstro sem pés nem cabeça. Tinha um tronco, dois braços e duas pernas e andava pela rua com uma mão à frente e outra atrás. Como não via por onde ia, dava sempre com o nariz na porta. Diziam que andava com a cabeça nas nuvens, mas isso não era verdade. O monstro não tinha cabeça. Como também não tinha boca, nunca dava com a língua nos dentes, por isso todos lhe contavam os seus segredos. Quando lhe faziam uma pergunta, metia os pés pelas mãos, embora não tivesse pés. Perguntavam-lhe: "Um gato comeu-te a língua?", mas ele fazia ouvidos moucos porque, de facto, não ouvia. O monstro também metia o rabo entre as pernas e estava sempre de mãos a abanar. E não sentia apetite, porque não tinha água na boca. Crescia como as plantas, mas não estava agarrado à terra. Era um animal vegetal. Fazia tudo de olhos fechados e nunca dava o braço a torcer. Uma mão lava a outra, dizia ele sem falar. E sempre havia quem lhe desse uma mãozinha. A verdade é que ninguém lhe pisava os calcanhares nem lhe arrancava cabelos. Todos tinham medo dele, embora o monstro estivesse de mãos atadas. Tinha um aperto no coração e dor de cotovelo. Felizmente, não tinha dor de corno, já que não tinha cabeça nem namorada. Estava sempre com o pé atrás da porta e com a pulga atrás da orelha, embora não tivesse pés nem orelhas. O monstro tinha um segredo muito bem guardado e não ia abrir mão dele. Se os homens descobrissem que não tinha pés nem cabeça, perdiam-lhe logo o medo e o respeito. O monstro tinha a corda ao pescoço. Mas, graças ao medo dos outros, tinha a faca e o queijo na mão.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

E agora...

E agora,  além de ser sexta-feira à tarde, que já é uma coisa boa, acontecia uma outra coisa muito melhor. Por exemplo, eu estava aqui muito bem neste gabinete a fazer assim no teclado e de súbito começava um tremidinho de terra de fazer mexer os copos de água e via-se um raio de luz no céu ou então na terra - não dava para perceber bem porque era assim de repente - e depois aparecia uma coisa a romper as nuvens, tipo um meteoro ou uma estrela cadente ou um foguetão ao contrário, e ouvia-se uma explosão, CATAPUM!, só que não morria ninguém e também não havia feridos, era uma explosão inofensiva e o meteoro nem era um meteoro, era uma coisa que nem sequer estava bem a cair, estava a aterrar, mas assim em descontrolo, e não era bem uma nave espacial, era uma geringonça descontrolada de voar por aí às cambalhotas, e lá dentro estava um mágico de lacinho na garganta ou então um bicho esquisito mas fofinho ao mesmo tempo de andar assim aos pulos ou então uma palmeira muito magra e muito alta que sabia cantar e tudo, e a geringonça até era pequenina, tipo um Smart de andar no Espaço, só que era grande ao mesmo tempo, porque tinha muitas coisas lá dentro, e parecia uma coisa muito nova, mas na verdade era muito antiga, só que o material era tão bom que não envelhecia, e ninguém sabia muito bem o que era aquilo, nem mesmo o mágico de lacinho ou o bicho esquisito e fofinho ou a palmeira de cantar, era uma geringonça que aterrava assim em qualquer lado, out of the blue, e seria precisamente azul e quem quisesse podia andar nela, era só abrir a porta e entrar, e a geringonça servia para viajar no tempo e no espaço e também para viajar dentro da cabeça, por isso era uma máquina que dava perfeitamente para alterar a história do universo, incluindo o Big Bang, e também a nossa própria memória, o que daria imenso jeito para mudar de cenário e de mentalidade. Mas se nada disto acontecer hoje ao final do dia, se não houver tremidinho de terra nem geringonça de andar por aí, também dá para ver um episódio do Doctor Who, porque o Doctor Who muda de tempo e de espaço e, por acaso, também usa lacinho e é esquisito e fofinho ao mesmo tempo. A música do genérico, por exemplo, transporta-nos logo para outro lado. Se não der para ver o Doctor Who por isto ou por aquilo, a hipótese seguinte é ir para os copos. Também serve. Mas neste caso, a geringonça de voar por aí às cambalhotas somos nós.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conto infantil para adultos: A alegoria da caixa de fósforos

Era uma vez uma caixa de fósforos, onde viviam encarceradas centenas de fósforos que muito raramente viam a luz do dia. Certa manhã de sol e nuvens pequeninas, por obra de um milagre ou de uma mão desajeitada, caíram dois fósforos da caixa que, eufóricos, rebolaram pelo chão da cozinha a festejar a sua liberdade. De seguida, como tinham frio e calor, correram um para o outro e acenderam-se. Ambos ficaram encandeados com a chama admirável que, juntos, emitiam.
Passados dez segundos - mais coisa, menos coisa - morreram.
Moral da história: O excesso de luz embrutece.

terça-feira, 16 de março de 2010

Conto infantil para adultos: Aladino e a lâmpada mágica

O senhor Aladino tinha sete ofícios. O seu primeiro ofício era ser marido. O segundo ofício era ser pai de três filhos. O terceiro ofício era dar aulas de história numa escola secundária. O quarto ofício era realizar projectos de reabilitação do património com o grupo de arqueologia da junta de freguesia. O quinto ofício era tocar cavaquinho no rancho folclórico. O sexto ofício era ser chefe de um clube do ambiente. O sétimo ofício era jogar Sudoku. No entanto, o senhor Aladino andava enfastiado, porque não tinha tempo para mais nada se não para os seus sete ofícios, que preenchiam a forma e o conteúdo dos dias, mas não a forma e o conteúdo da alma. O senhor Aladino tinha outros desejos. Por exemplo, atravessar o mundo num barco à vela e aprender a dançar o tango. Ora, certo dia, enquanto andava a exercer o seu quarto ofício no Castelo de Alcoutim, o senhor Aladino deu com uma candeia indiana muito misteriosa, porque tinha um corpo ligeiramente achatado e um pescoço muito comprido. Interessou-se, antes de mais, pela luz cintilante que o bronze espelhava, por isso acariciou a lâmpada, a qual se acendeu subitamente, pois tornou-se muito quente e da sua boca emergia agora uma nuvem opaca que foi ganhando a forma de homem. Esse homem era azul, mas em nada se assemelhava aos indígenas daquele filme chamado Avatar, porque não tinha um corpo atilado nem um rosto felino. Era obeso e azul. Esse homem tratou-o por mestre e apresentou-se como génio. Informou, de seguida, que o seu ofício era conceder três desejos a quem o libertasse e ficou à espera desses desejos. O senhor Aladino estava deveras confuso, pois não percebia qual a relação hierárquica entre um mestre e um génio. Queria perguntar ao génio quem mandava em quem, mas teve receio de que a sua pergunta fosse encarada como um dos três desejos, por isso ignorou a sua dúvida e dedicou-se aos seus pedidos. Em primeiro lugar, pediu saúde para toda a família, incluindo para si próprio. Em segundo lugar, pediu dinheiro para toda a família, incluindo para si próprio. E por último, em terceiro lugar, pediu sete vidas para si próprio, para poder dedicar cada uma delas a cada um dos seus sete ofícios e ter, assim, tempo para outras coisas que não os seus sete ofícios. Numa vida seria apenas professor de história e teria aulas de tango nos tempos livres. Noutra vida seria apenas chefe do clube do ambiente e viajaria pelo mundo no resto do tempo. Noutra vida passaria muito tempo a jogar Sudoku, mas também a ler romances e a ver televisão. O senhor Aladino nunca tinha tempo para ver televisão. O génio estalou os dedos e os três desejos realizaram-se. O senhor Aladino estava, de repente, em casa a pôr a loiça na máquina, porque, na sua primeira vida, o seu ofício era, tão somente, ser marido. Não tinha profissão nem filhos, por isso passava muito tempo na cozinha a arrumar a loiça ou a fazer o jantar para a mulher ou simplesmente a comer. Tinha saúde e dinheiro, tal como pedira ao génio. Andava de bicicleta pela vila e era afável com os vizinhos. No início, o senhor Aladino estava extremamente satisfeito com a sua vida de um só ofício, mas depois de muito dormir e descansar, não sabia o que fazer com o tempo que lhe sobrava. Começou então a comprar o jornal diariamente e passava horas no café a ler as notícias. Era formidável saber o que se passava no mundo. Mais tarde começou a apanhar o gosto pelo Sudoku que aparecia na última folha e especializou-se na resolução dessas tabelas. Mesmo assim, o senhor Aladino não tardou a aperceber-se de que não se sentia preenchido. Estava novamente enfastiado e decidiu arranjar uma nova actividade. Era chegada a hora de mudar de vida, pois tinha desejos que ainda gostaria de concretizar. Como ter filhos e aprender a tocar cavaquinho.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Conto infantil para adultos: O presidente fora de água e a baronesa inglesa

A baronesa inglesa é a menina mais feia das redondezas. Tem cabelo insonso e falta de queixo. Mesmo assim, insistiu em que queria casar e colocou-se muito carochinha à janela. Para espanto de todos, a baronesa mais feia das redondezas encontrou, não um barão durão, mas sim um presidente com quem casar. O presidente tinha, infelizmente, um ar ridículo, por causa dos olhos esbugalhados, iguais aos de um cherne fora de água, mas a baronesa não se importou e apaixonou-se em três tempos, qual dona de casa desesperada. Ontem à noite, a baronesa e o presidente foram passear juntos ao centro da cidade. Todos os meninos das redondezas vieram vê-los passar e concordaram que, apesar da sua fealdade, a baronesa e o seu presidente faziam um casal simpático. Isto porque ambos tinham um nariz impossível, à Cyrano de Bergerac, e um sorriso muito torto, de criança mal-intencionada. A baronesa e o presidente passeavam-se pela rua e todos sorriam para eles, porque mais pareciam dois duendes saídos de um conto de fadas. Há quem diga que a baronesa e o presidente vinham de mãos dadas.
O nosso desejo é que, ao darem um beijo, se transformem.
Em meninos de verdade.

Nota do narrador: Esta história não tem nada a ver com a baronesa Catherine Ashton nem com o presidente José Manuel Barroso, porque, como todos sabem, ambos estão muito bem casados com outras pessoas e não andam de mãos dadas na rua. Só por isso.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Conto infantil para adultos: A Bela e o Monstro

A verdade era que nem sempre a Bela e o Monstro se amavam. Por vezes não gostavam um do outro e em dias mais entediantes, com tantos empregados silenciando pelo castelo, perdiam a cabeça e chegavam mesmo a odiar-se.
Nesses momentos ela atirava-lhe com os pratos do outro lado da mesa e ele rugia furioso. Nos dias bons, a Bela chorava e ele pedia-lhe perdão. Depois saíam de mão dada para o jardim. Mas nos dias maus, que eram os mais frequentes, gritavam como loucos e ela ameaçava que se ia embora.
O Monstro, rugindo de amor e ódio, arrastava-a para o quarto e enclausurava-a durante dias. A Bela nem sequer chorava, gostava aliás daqueles dias de paz em que jogava sudoku e lia contos de fada sobre príncipes mais belos do que o seu. Não via ninguém, nem mesmo as dedicadas aias. Também não comia nem bebia, só para chatear o marido.
Durante esse tempo, o Monstro, logo pela manhã, pegava no seu enorme cavalo e galopava pela floresta, rugindo para as árvores. De vez em quando arrancava mesmo uma do chão, tal era a sua força bruta e a sua pouca delicadeza para com o ambiente. À noite via filmes americanos no canal Hollywood com o Woody Allen, o Clint Eastwood, a Kim Basinger, o Fred Astaire.
Até que um dia se sentia só, tão profundamente só, que até os pedaços de lenha que atirava para a lareira lhe pareciam mais felizes do que ele próprio. Então encaminhava o seu monstruoso corpo até ao quarto da Bela e implorava-lhe perdão durante horas, se não mesmo dias, semanas, meses. Ajoelhava-se no chão, unia as volumosas patas e chorava. A Bela assistia pacientemente ao espectáculo até se render a uma qualquer compaixão que, não sendo enorme, ganhava forma no seu peito.
No entretanto os empregados reuniam-se na cozinha e discutiam sobre quem tinha razão naquela disputa, se a Bela, se o Monstro, e não chegavam a conclusão nenhuma. Eram ambos cruéis e egoístas, além de parecerem incompatíveis.
Moral da história visando a educação das crianças: Que as meninas não sejam tão belas, para não serem tão amadas. E que os meninos não se tornem monstros, para saberem amar um pouco menos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Conto infantil para adultos: Soldadinhos de chumbo

Que um homem não é de ferro já todos sabiam. Mas que os soldadinhos de chumbo já não queriam ser de chumbo, não, ninguém sabia. Só eles. Aliás, os soldadinhos de chumbo tomaram esta decisão ontem à noite: já não queriam ser soldadinhos de chumbo, pronto. Informaram então o primeiro-cabo. Disseram: "Queremos ser homens de verdade". O primeiro-cabo alarmou-se e fez o que lhe competia: informou o cabo de secção. Por seu turno, o cabo de secção apressou-se escada acima para informar o segundo-sargento, que informou o primeiro-sargento do andar de cima, que informou o sargento-mor de cima, que informou o cadete, que informou o alferes, que informou o tenente, que informou o capitão, que informou o major, que informou o coronel, que informou o brigadeiro-general, que informou o tenente-general, que informou o general. E quando a informação chegou finalmente às águas-furtadas, o marechal exaltou-se, gesticulou irritado. Disse ao general que, nas forças armadas, quem dava informações era ele e não os soldadinhos de chumbo. O general informou prontamente o tenente-general e a informação desceu direitíssima até ao rés-do-chão. Por último, o primeiro-cabo informou os soldadinhos de chumbo. Disse: "Nas forças armadas, quem dá informações é o general e não os soldadinhos de chumbo". Os soldadinhos de chumbo não perceberam logo a informação. Parecia-lhes um facto evidente, estavam plenamente de acordo. Uniram, pois, os calcanhares com energia e levaram a mão direita à borda da testa, cheios de continência.
É que, entretanto, já se tinham esquecido da tal decisão.
(Eram soldadinhos de verdade.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Conto infantil para adultos: No circo

Há um macaquinho no circo. Quando o macaquinho grita, toda a gente grita. Quando o macaquinho salta, toda a gente ri. Quando ele ri, toda a gente ri mais ainda. O macaquinho é divertido por ser pequenino, ágil, frágil, desinibido e também por ter braços finos e muito compridos.
Parece um menino, mas não é.
(O Pinóquio também parece um menino, mas não é.)
(O macaquinho não diz mentiras, porque não diz nada. Não fala, o macaquinho.)
Nas bancadas ninguém sabe nada do macaquinho além de que é divertido e tem braços compridos. E todos se riem dele. Dos miúdos aos graúdos. Vão ao circo e riem, as pessoas. No final do espectáculo saem satisfeitas para a rua.
Por o macaquinho ser divertido. Por ser pequenino e ter braços compridos.
Sobretudo, por ser macaco e não menino.
E também por terem comido pipocas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Conto infantil para adultos: A bruxa má

Era uma vez uma bruxa má que queria ser boa. Tinha um sonho em que era assim: muito boa, muitíssimo boa. Nesse sonho, o seu rosto não era tão feio nem tão severo, parecia até mais leve e feliz, e portanto, mais novo, mais bonito. Quando acordava, a bruxa má queria ser verdadeiramente boa, chegava mesmo a ter boas intenções, boas ideias, boas maneiras. E fazia planos concretos para praticar o bem na floresta e trazer a felicidade aos homens, aos animais, aos frutos, às árvores e ao rio, que eram tudo quanto conhecia no mundo. Mas infelizmente, mal se levantava da cama, a bruxa era má, profundamente má, pior que as cobras e os lagartos. Batia nos animais, arrancava cabelos às árvores, cozinhava coisas malignas num enorme tacho, rogava pragas a certos homens e ria-se poderosa, soltando a sua maldade para o mundo.
Ora, certo dia, passou pela floresta um monge que montava um cavalo branco. Ia a caminho do seu mosteiro, mas infelizmente nunca o monge chegou ao seu destino, porque à sua frente surgiu a bruxa má que queria aprender a ser boa. O monge disse, Eu te ajudarei a seres boa, mas, assim que o homem bom desceu do cavalo branco, a bruxa má transformou-o num esquilo, ficando-lhe com a sua veste negra de monge cristão, que muitíssimo bem servia para indumentária de bruxa má.
Arrependida do seu acto, a bruxa má, que tanto queria aprender a ser boa, pediu desculpa ao esquilo, mas este desatou a correr pela floresta e desapareceu. O cavalo também tentou fugir mas, ao contrário do esquilo, que era pequeno e castanho, via-se bem ao longe, por isso a bruxa má apressou-se a lançar-lhe um feitiço, que era o de nunca mais relinchar. O cavalo ficou mudo para sempre. A bruxa má atirou então a sua gargalhada furiosa e voltou para casa.
Mais tarde, enquanto preparava alguns legumes no seu wok, a bruxa má teve pena do cavalo e ficou chateada consigo própria por lhe ter tirado a voz. Para mal dos seus pecados, já não havia nada a fazer, dado que os seus feitiços, por serem tão cruéis, não tinham emenda.
Encolheu os ombros e comeu em silêncio. Não propriamente triste. Não propriamente alegre. Talvez ligeiramente desconfortável por ser tão má.

Moral da história: O ser tem muita força. O querer não tem tanta. Na vida ganha o mais forte. Conforme dita a natureza.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Conto infantil para adultos: História dos três homens que, além de reis, eram magos

Ao sexto dia do primeiro mês recém-chegaram três homens para adorar o recém-nascido. Pelos tecidos complicados que traziam no corpo, pareciam abastados, se não mesmo reis. Isto pensava Maria, que nada dizia por ser mulher. José perguntou: "Quem sois?" e, para seu enorme espanto, dois dos três homens ajoelharam-se perante ele. O terceiro, que era corcunda e velho, não se ajoelhou. Na opinião de Maria, a mais submissa de todas as criaturas que adoravam o belo adormecido na manjedoura, o homem mais velho pemanecera de pé, não por ser mal-educado, não por ser arrogante, mas possivelmente por estar cansado da viagem e ter um corpo mais fraco que a alma. Esse homem disse: "Sou rei e mago. Chamo-me Belchior.". Maria e José, até então as pessoas mais simples da humanidade, surpreenderam-se, não tanto por causa dos títulos, mas sobretudo por causa do nome. Belchior era um nome impossível e José concluiu que os três homens deviam vir de muito longe. Piedosos e dedicados (mas não cristãos, que era coisa que na altura ainda não existia, porque o menino ainda não falava), Maria e José ofereceram a casa aos três estrangeiros, partilharam do seu pão e lavaram-lhes os pés. O segundo homem era muito novo, tinha as faces muito rosadas por causa do frio, comia e bebia timidamente. Apresentou-se baixinho: "Chamo-me Gaspar" e Maria achou aquele nome ainda mais bonito do que Jesus. O último, como bem sabemos, chamava-se Baltazar e era preto. José estava deveras perplexo com as suas feições pois nunca tinha visto um preto na vida. Assim era o interesse dos homens pelos homens: genuíno, investido, humano.
Os três homens que, além de reis, eram magos, contaram a sua viagem. Disseram ter seguido uma estrela no céu que os guiara até ali, à manjedoura mais sagrada de todas, apesar de imunda como as outras. Esta viagem tornar-se-ia o maior mistério para Jesus Cristo, mas Maria e José, até então as pessoas mais simples da humanidade, não sabiam disso, por isso não fizeram as perguntas devidas em devida altura. Para insatisfação do menino.
De facto, Jesus Cristo, que tudo sabia do céu e da terra, nunca chegou a compreender aquela viagem. Na sua adolescência ficava, noite após noite, a olhar as estrelas e não sabia como segui-las, dado que nenhuma delas parecia apontar para um caminho. Questionava-se igualmente sobre a viagem dos três homens. Como poderiam seguir uma estrela, se durante o dia não a podiam ver e não tinham mais nada que os guiasse?
Como já atrás se disse, tudo isto se passava na sua adolescência, porque quando Jesus Cristo entrou na fase adulta, dedicou-se a outros interesses e deixou de ter tempo para as estrelas e para a história dos três homens que, além de reis, eram magos.
Foi um desperdício de história, como é óbvio.
Aaaah, mas tivesse Jesus Cristo nascido português, tivesse ele uma pitada que fosse de lusitano, e a história não se desperdiçaria assim. Porque tudo valeria a pena, se a sua alma fosse outra, incluindo olhar o céu. Tivesse Jesus nascido português e observaria as estrelas durante toda a vida. Melancolicamente. Saudosamente. Para sempre.
Teria sido, naturalmente, um ofício tão digno como salvar a humanidade. Mas, nesse caso, Jesus Cristo talvez nunca chegasse a inventar o cristianismo.
O Baltazar perguntou: "E então? Que mal viria ao mundo?". Os outros magos esmagaram-se de vergonha. Disseram: "Além de preto, é inconveniente".
E foi assim que começou o racismo. Por causa das crenças. E nunca por causa dos homens, jamais por causa dos homens. Isto pensava Maria, que nada dizia, por ser submissa e não portuguesa. Jamais portuguesa.

terça-feira, 18 de março de 2008

Conto infantil para adultos: O mosquito

Naquele pinheiro-manso vivia um mosquito que não sabia que era mosquito por nunca ter visto outro na vida. Uma vez que os seus olhos eram do tamanho do corpo, a única coisa que via de si próprio eram as asas negras. Assim, o mosquito sabia que não era um pássaro por não ter penas, nem uma fada por as asas não serem brancas.
Até que certo dia o mosquito viu uma abelha pousada numa flor e anunciou:
- Olha, se calhar sou uma abelha!
Ficou a ver o que fazia a senhora abelha e achou o seu trabalho interessantíssimo: sugava néctar. O mosquito foi também beber de uma flor e depois, não sabendo o que fazer com tanto néctar, engoliu-o. Era uma experiência agradável aquela; não havia nada mais saboroso no mundo.
Estava o mosquito a deliciar-se com a sua refeição, quando, de repente, a flor da ameixeira gritou:
- Sai daqui, coisa porca!
O mosquito alarmou-se com o insulto e saltou assustado. Reclamou:
- Respeitinho, seu projecto de ameixa! Sou uma abelha! Ainda te corto a raiz com o meu ferrão!
A flor riu-se e abanava as pétalas para refrescar o rosto.
- Que coisa idiota! Tu não és uma abelha, és um mosquito!
- Um mosquito?! O que é um mosquito?
- É uma coisa odiosa! E porca, justamente!
- Porca?!
- Sim, PORCA! Os mosquitos pousam na merda e comem-na!
O mosquito parecia contemplativo. Ora aí estava uma óptima ideia! Perguntou:
- E a merda é má?
- Claro! Cheira mal! Só as flores é que têm um perfume bom!
O mosquito partiu. Agradava-lhe a ideia de comer merda, mas parecia-lhe injusto que a dita fosse mal-cheirosa. Daí o seu projecto de experiência científica:
Ia encher a flor da ameixeira com merda para ver se o perfume desta passava a ser bom.
Era uma ideia fantástica. E o mosquito voava contente.
Tinha finalmente descoberto quem era. E já sabia o que comer.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Conto infantil para adultos: Cadeia alimentar

Naquele jardim vivem animais em harmonia: aves que voam, aves que nadam, répteis, anfíbios e insectos de toda a espécie. E naquele dia, estava uma abelha pousada numa flor quando um gafanhoto saltitão a apanhou em pleno voo. Engoliu-a, claro. Dá-se então a coincidência de vir saltitando atrás do gafanhoto um enorme sapo que lançou a língua esfomeada e apanhou o outro em pleno salto. Atrás do sapo - claro está - vinha a saltar contente um homem chinês que, lançando a confusão, o apanhou com uma só mão. Assustado, soltou o sapo um arroto e da boca saltou o gafanhoto que, abrindo a sua, deixou escapar a abelha que, por sua vez, espetou o ferrão no nariz do chinês. Fugiram todos aos saltos e em alvoroço - chinês, sapo e gafanhoto – os três muito tristes por já não terem almoço. No fim caiu a abelha aos pés da flor e os três saltitões desapareceram.
A flor abriu então as pétalas e riu-se daquele espectáculo. Estava ela nisto e aproximou-se um cágado, encantado com aquele riso. Disse:
- És muito bela!
E antes que a flor respondesse, o cagádo desceu até ela e comeu-a. Devagar. Pétala a pétala.
Curioso!, pensou o cágado, A mim ninguém me come!.
E era verdade. Havia gente que comia tartarugas, especialmente os ovos e as espécies mais carnudas, mas cágados não.
Sentiu-se, de certa forma, pouco saboroso, pouco saboreado, completamente rejeitado pela Natureza. Decidiu acabar com aquilo.
Partiu à procura de outros cágados.
Era o início de outra espécie de canibalismo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Conto infantil para adultos: Conversa de sereias

Ver 1.° episódio da série "Conto infantil para adultos":

Uma sereia disse à sereia-mãe:
- Estou apaixonada por um peixe.
- Por um peixe?! Que horror, filha!
- Que horror, porquê?!
- Os peixes não são da nossa espécie.
- E os seres humanos são?
- Não, mas são quase.
- Quase?! Somos metade humanas, metade peixes.
- Sim, mas um ser humano tem posses, pode dar-te uma vida melhor!
- Oh, uma vida melhor... Eles nem podem passear no fundo do mar!
- Podem, sim! Com uma botija de oxigénio.
- Para isso prefiro um peixe!
- Mas, filha! Os peixes são tão enfadonhos!
- Eu acho-os bem divertidos!
- Andam sempre às voltas e nem sequer falam!
- Mas pelo menos não querem sexo!
Fez-se um silêncio. A sereia-mãe nunca tinha pensado nessa enorme incompatibilidade entre homens e sereias. Estava casada desde sempre com Neptuno e sempre incentivara a relação entre marinheiros e sereias. Foi obrigada a concordar com a filha:
- Pronto, está bem! Tens razão! E de que espécie é o teu pretendente?
- É um linguado e chama-se Benjamim.
- Um linguado?! Tão pequenino?
- Sim, neste caso não precisa de ser grande!
- Ó filha, mas os linguados são bons é para comer!
- Pois, exacto! É disso que se trata!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Conto infantil para adultos: O duende revoltado

Começa hoje a série "Conto infantil para adultos"
com publicação às terças-feiras,
à excepção de hoje!

Dois duendes andam pela dispensa a roubar chocolates, que são para dar às crianças. Um é mais velho do que o outro, logo tem uma barriga maior e um colete mais gasto, bem como um ar mais sereno e uma certa inteligência na voz. De resto, parecem irmãos: vestimenta verde, olhos muito redondos, bochechas inchadas, sapatos compridos e, claro está, o chapéu em forma de funil muito preso à cabeça. São extremamente pequenos, daí que ninguém os ouça nem os veja. O mais novo não parece satisfeito. Confessa:

- Estou farto de ser duende!
- Farto de ser duende?!
- Sim, estou farto.
- Mas como podes estar farto de ser quem és?
- Porque quero ser outra coisa.
- Outra coisa?! Não há nada mais divertido do que ser duende!
- Dizes tu, que nunca fizeste mais nada na vida.
- E que queres tu fazer da tua?
- Não sei! Mas estou farto de ser duende.
- Tu já nasceste assim! Não podes ser outra coisa qualquer!
- Posso sim! Garanto-te que vou deixar de ser duende.
- Para passares a ser o quê?
- Não sei! Mas não quero ser como os outros. Os duendes são irritantes.
- Irritantes?!
- Sim, irritantes! Estão-se sempre a rir e só fazem coisas boas.
- E isso é mau?
- Não, daí que sejam ainda mais irritantes. Estou farto de ser bonzinho! A partir de hoje vou fazer tudo ao contrário.
- Ou seja, nunca mais te vais rir e só vais fazer coisas más?
- Por exemplo! Porque não? Seria algo inovador!
- Mas as crianças deixariam de gostar de ti!
- Não, eu é que deixo de gostar delas!
- Porquê?
- Porque são estúpidas! Estão sempre a crescer e depois deixam de nos prestar atenção!
- Mas isso é a ordem natural das coisas!
- Uma ova! Natural é haver o Bem e o Mal! E eu vou ser mau, que é para se lembrarem de mim para sempre!

E foi assim que o duende revoltado se tornou bicho papão. Entrava às escuras no quarto das crianças para elas não verem a sua pequena estatura e dizia coisas horríveis numa voz muito grossa. Mas, certa vez, uma criança assustada perguntou:

- Quem te fez mal?
O papão assustou-se. Respondeu:
- Ninguém!
A criança calou-se pensativa. Disse por fim:
- Então não és um papão! - e acendeu a luz.

Ao mesmo tempo fez-se luz na cabeça do duende e ele voltou à dispensa para roubar chocolates. Perguntaram-lhe:

- Então agora já és bom?
- Pois! Parece que já nasci assim!

Era a vitória do Bem sobre o Mal.
Por essa altura, uma criança entrou na dispensa e atirou com um pacote de arroz para a prateleira. Infelizmente acertou em cheio no duende revoltado matando-o instantaneamente.

Era a vitória do Caos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Conto infantil para adultos: Cinderela sem pés nem cabeça

A Cinderela foi à praia. A água estava fria, mas mesmo assim a Cinderela mergulhou e logo de seguida perdeu o pé. Assustada, começou a procurar o seu pé pois sem ele não podia andar. Nisto apareceu a raia madrinha que lhe explicou o feitiço: "Não tens pé porque tens uma barbatana. Ou seja, hoje és sereia em vez de Cinderela".
A Cinderela feita sereia achou aquele discurso uma estupidez e quis saber qual o sentido daquele feitiço. A raia madrinha contou-lhe que, durante aquela tarde, passaria um marinheiro que se apaixonaria por ela. A Cinderela agora sereia riu-se. Na história que lhe cabia só havia príncipes e sapatos, por isso ignorou a raia madrinha e foi antes passear para o fundo do mar, que era realmente bonito. Tão bonito, tão bonito, que a Cinderela sereia se distraiu com as horas e, à meia-noite certinha, a sereia virou Cinderela. Uma vez que não conseguia respirar no fundo do mar, começou a nadar em direcção à superfície, mas infelizmente morreu a meio do caminho. Não tinha pés para tanto.
A raia madrinha chorou de desgosto mas o marinheiro não. Na história que lhe cabia não havia Cinderelas. Apenas sereias e a ilha dos amores.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Conto infantil para adultos: A lição do zangão

Um zangão fora visto de ferrão para o ar e a rolar no chão com uma operária, na hora de produção da cera. Disseram as línguas beras que eram amantes. A abelha rainha levantou-se de rompante e mandou chamá-los para os matar. A operária encolheu as asas, mas o zangão entrou na sua casa dando ar de sua graça e, antes de a rainha falar, pôs-se logo a explicar: "Peço perdão, querida rainha, há aqui confusão, sou um zangão muito sério e não cometo adultérios nem nada que se pareça. Queira Sua Alteza reconsiderar a sua sentença pois acabo de salvar esta operária da morte". Tentando a sua sorte, contou o zangão: "Foi um grande espalhafato, jamais se vira tal caso!". A pobre operária, a meio do seu trabalho, caíra num favo muito farto ficando encharcada em mel desde o topo das antenas até à ponta do ferrão e então o zangão entrou em acção. Fora uma verdadeira aventura: agarrara a operária pela cintura, mas também ele ficara encharcado. E o resultado fora ficarem os dois colados! Finalmente, sendo o caso urgente, resolveram comer o mel um do outro, o que implicara um enorme esforço por parte da operária e do zangão. A abelha rainha deu um grande sermão e, para acabar com a confusão, mandou a operária trabalhar e o zangão passear.
Coitadinha da rainha, mal sabia ela que esta era apenas a primeira donzela a apaixonar-se pelo zangão que, exibindo o seu ferrão, tinha conquistado o coração de todas elas. Por conseguinte, no dia seguinte, o zangão voltou à colmeia e volta e meia lá foi visto com outra operária, de ferrão para o ar e a rolar pelo chão, na hora de produção da cera. Era deveras uma questão bem séria e a seguir foi a tragédia! Quando a abelha rainha os mandou chamar para os matar, todas as abelhas se atiraram para o mel para salvarem o zangão da sua punição. E o zangão, em vez de socorrer as abelhas, esticou as asas e as antenas e pôs-se a voar dali para fora. Ora ora, coitadinhas das donzelas que morreram afogadas no seu próprio mel. E coitadinha da rainha que chorou noite e dia pelas suas filhas. Quem sobreviveu disse adeus à colmeia vazia e Sua Alteza, cheia de firmeza, ia a sair do palácio quando chegou o zangão armando a confusão: "Peço a sua atenção, cara rainha! Tenho um plano para esta colmeia: dou-te um milhão de filhos e dividimos o reino a meias!". Não tendo à mão outra solução, a rainha aceitou a proposta do zangão. Jamais se assistira a tal caso pois naquela colmeia, agora cheia de abelhas, havia um zangão que reinava.

(Receita: para conquistar uma mulher e respectivo reino junte uma colher de mel e um beijo. Mexa bem em lume brando até a massa ganhar consistência. Sirva quente.)