Eu não pinto as unhas.
Pinto os dedos. Com esferográficas e canetas de feltro.
Gosto das minhas mãos assim. Secas, gretadas e às pintinhas.
Eu penso que as canetas fazem de propósito. Largam tinta, escorregam, explodem nas mãos. São desajeitadas com intenção.
As minhas canetas pintam a manta. Pintam a macaca. Fazem figuras. Borram a pintura.
E nunca pintam a cara de negro. Estão-se nas tintas.
Por causa disso, as minhas mãos têm grande pinta.
São muito mais bonitas assim.
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias do corpo e da alma. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias do corpo e da alma. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
quarta-feira, 18 de junho de 2014
A estrofe redonda
A narradora deste texto pensou então que, se os seres humanos olhassem para um
poema com a mesma exaltação com que olham para uma bola de futebol, haveriam de andar por aí inspirados e sentimentais, a correr
atrás de uma estrofe redonda que nunca mais é real, a agarrar rimas pelo braço, a cabecear sonetos. Passariam os dias e as noites de lira ao colo a declamar poesia. E nunca perderiam a voz. Nem o Norte. Nem as estribeiras.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.
E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.
E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.
terça-feira, 17 de junho de 2014
O sangue na guelra
O jogo de ontem dá para pensar na vida e não em futebol.
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se.
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É.
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates.
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.
Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.
Que grande tédio.
Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se.
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É.
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates.
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.
Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.
Que grande tédio.
Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.
terça-feira, 4 de março de 2014
Aperto no ombro
Beijinhos, abraços, apertos de mão.
Esta coisa de o corpo falar pelos cotovelos é mesmo assim e o meu corpo gosta. É tagarela.
Uma festinha ou um estalo na cara. Uma pessoa percebe logo.
Ora se está de trombas, ora se faz beicinho, agora pisca o olho, e logo a seguir revira. Um esgar, um aceno, um bater de palmas.
As pessoas falam sem falar. Voltam as costas, dão a mão, abanam a cabeça. E há gestos para todos os gostos. Os silenciosos e os que fazem barulho. Os previsíveis e os inovadores. Os íntimos e os afastados. Um polegar para cima e outro para baixo, um sobrolho a franzir, o dedo médio a levantar, ups!
O corpo também dá pontapés na gramática.
De todos os gestos e contactos físicos formais, semiformais e informais, ainda estou para compreender o aperto no ombro.
É preciso imaginar este contacto inesperado: uma mãozinha semiformal a comprimir a nossa pele.
E não é uma mão conhecida. É uma mão estrangeira: cinco dedinhos misteriosos e, possivelmente, sapudos.
Nunca é um amigo que nos aperta o ombro. É sempre um conhecido disfarçado de outra coisa. (É Carnaval, ninguém leva a mal.)
Dá-me logo vontade de relinchar e distribuir coices, até porque hoje vim mascarada de égua.
O aperto de ombro vem disfarçado de sensibilidade e bom senso. Olha, estou aqui, diz a mãozinha misteriosa. Quero ser teu amigo, insiste ela. Cinco dedinhos a comprimir a minha pele, uma tarântula de estimação.
Quando me apertam o ombro, apetece-me sair a galope e fazer um cocó assustado.
Tenho um temperamento de égua indomável.
E sou dose para cavalo.
Esta coisa de o corpo falar pelos cotovelos é mesmo assim e o meu corpo gosta. É tagarela.
Uma festinha ou um estalo na cara. Uma pessoa percebe logo.
Ora se está de trombas, ora se faz beicinho, agora pisca o olho, e logo a seguir revira. Um esgar, um aceno, um bater de palmas.
As pessoas falam sem falar. Voltam as costas, dão a mão, abanam a cabeça. E há gestos para todos os gostos. Os silenciosos e os que fazem barulho. Os previsíveis e os inovadores. Os íntimos e os afastados. Um polegar para cima e outro para baixo, um sobrolho a franzir, o dedo médio a levantar, ups!
O corpo também dá pontapés na gramática.
De todos os gestos e contactos físicos formais, semiformais e informais, ainda estou para compreender o aperto no ombro.
É preciso imaginar este contacto inesperado: uma mãozinha semiformal a comprimir a nossa pele.
E não é uma mão conhecida. É uma mão estrangeira: cinco dedinhos misteriosos e, possivelmente, sapudos.
Nunca é um amigo que nos aperta o ombro. É sempre um conhecido disfarçado de outra coisa. (É Carnaval, ninguém leva a mal.)
Dá-me logo vontade de relinchar e distribuir coices, até porque hoje vim mascarada de égua.
O aperto de ombro vem disfarçado de sensibilidade e bom senso. Olha, estou aqui, diz a mãozinha misteriosa. Quero ser teu amigo, insiste ela. Cinco dedinhos a comprimir a minha pele, uma tarântula de estimação.
Quando me apertam o ombro, apetece-me sair a galope e fazer um cocó assustado.
Tenho um temperamento de égua indomável.
E sou dose para cavalo.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Um pombo morto
Hoje passei por um pombo morto.
Estava no meio do passeio, a cabeça tombada para o lado e o bico entreaberto. A meio de uma frase, de uma palavra.
Se calhar era um pombo-correio e nunca chegou ao destinatário.
Fiquei tristonha.
Percebi que estava tristonha porque antes estava feliz e dei logo pela diferença.
(Antes do pombo = feliz; depois do pombo = tristonha)
Uma pena abanava o vento.
Não, perdão. Ao contrário:
O vento abanava uma pena.
Parecia um aceno, um voo de despedida. Uma pena pequenina numa das asas.
Tadinho, tive pena do pombo.
(Olha, «pena» e «pena» são palavras homónimas.)
Logo eu, que por acaso odeio pombos, odeio pessoas que alimentam pombos. Os pombos têm cara de parvos.
Se houvesse um desporto de «tiro ao pombo», eu inscrevia-me e vestia-me assim à coronel tapioca. Com uma pressão de ar nas mãos, de enfiar a bala lá dentro. Apontar, suster a respiração, disparar: PUM!
Quando passo por pombos, aponto e sustenho a respiração. Infelizmente não disparo, porque não tenho licença de porte de arma e eu não faço nada fora da lei, sigo as regras todas.
Sou um bom soldadinho, acho.
Quando estou dentro de um carro e os pombos andam assim feitos parvos a bicar a estrada, solto uma gargalhada de bruxa má e ponho o pé na tábua. Zás! Faço grandes rasas aos pombos, mas acho que o meu objetivo não é matá-los. (Acho.)
É muito chato isto de morrer, de chegar ao fim do corpo. Fiquei mesmo com pena do pombo.
(Ah, que engraçado: «pena de morte» é outro tipo de pena.)
Depois apercebi-me de que o pombo, assim tombado para o lado, até era bonito. Na verdade, era lindíssimo e essa beleza feia de voo interrompido emocionou-me.
A beleza cruel do cadáver.
Depois segui caminho e pensei que os pombos são muito mais bonitos quando estão mortos do que quando estão vivos. Quando andam assim cheios de vida a criar imundície em cima das estátuas, não têm piada nenhuma. São horríveis.
Agora fiquei com a pressão de ar na cabeça.
(Memórias de infância: Eu era sempre a última a disparar a pressão de ar. Acho que era por ser a mais pequenina.)
Se houvesse um campeonato de tiro ao pombo, inscrevia-me nos campeonatos da região flamenga e não nos da região francófona, porque os francófonos são moles, não devem dar luta nenhuma.
Nunca tentei disparar contra animais a sério. Daqueles assim com asas.
PUM!
Era vê-los rebentar, penas por todo o lado.
BUWUWUWAHAHAHA (bruxa má).
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Pessoa em frente a uma máquina
E se as cortinas da sala não estivessem fechadas, mas sim abertas?
E se afinal não estivesse uma noite fria lá fora, mas sim uma manhã de Primavera?
Seria uma bela surpresa.
Eis duas perguntas dentro da cabeça de uma pessoa que está em frente a uma máquina.
Outras perguntas:
E se no parapeito da janela não estivesse uma orquídea sem flores, mas sim uma gaiola com um periquito amarelo lá dentro?
E se eu abrisse a janela e depois a gaiola e depois os meus braços e eu fosse afinal o periquito amarelo e saísse a voar pela rua?
Seria ótimo, claro.
A pessoa em frente a uma máquina pensa sobre isto e é como se voasse pela rua.
O pensamento é como voar pela rua e sempre dá para fugir da vizinha de cima, que não dorme de noite nem de dia, está sempre acordada.
A vizinha de cima deve ser uma coruja, até porque roda o pescoço mais do que o normal.
Outras perguntas dentro da cabeça da pessoa que está em frente a uma máquina:
E se isto não fosse uma cidade cheia de betão e gente, mas sim um bosque repleto de árvores e barulhinhos misteriosos? E se isto não fosse um planeta, mas sim um meteoro ou uma estrela cadente?
Sempre dava para cair por aí como um periquito amarelo.
A pessoa em frente a uma máquina ri-se. É evidente que não gostaria de ser um periquito amarelo nem uma estrela cadente. A pessoa em frente a uma máquina nem gosta de periquitos. Nunca teve um periquito, sequer. Nem mesmo na infância.
Mas agora deu-lhe a fraqueza e achou que seria muito mais giro ser um periquito do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Nas cabeças extremamente avançadas dos seres humanos, a ficção é sempre melhor do que a realidade.
Eis o perigo.
Há numerosos estudos que comprovam que ser um periquito não é melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Os dados existentes parecem indicar aliás o contrário: não há nada melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Nada é mais eficiente nem mais resistente nem mais felizardo do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Em especial no inverno, em noites frias como esta. Um periquito já estaria morto, coitado.
E se afinal não estivesse uma noite fria lá fora, mas sim uma manhã de Primavera?
Seria uma bela surpresa.
Eis duas perguntas dentro da cabeça de uma pessoa que está em frente a uma máquina.
Outras perguntas:
E se no parapeito da janela não estivesse uma orquídea sem flores, mas sim uma gaiola com um periquito amarelo lá dentro?
E se eu abrisse a janela e depois a gaiola e depois os meus braços e eu fosse afinal o periquito amarelo e saísse a voar pela rua?
Seria ótimo, claro.
A pessoa em frente a uma máquina pensa sobre isto e é como se voasse pela rua.
O pensamento é como voar pela rua e sempre dá para fugir da vizinha de cima, que não dorme de noite nem de dia, está sempre acordada.
A vizinha de cima deve ser uma coruja, até porque roda o pescoço mais do que o normal.
Outras perguntas dentro da cabeça da pessoa que está em frente a uma máquina:
E se isto não fosse uma cidade cheia de betão e gente, mas sim um bosque repleto de árvores e barulhinhos misteriosos? E se isto não fosse um planeta, mas sim um meteoro ou uma estrela cadente?
Sempre dava para cair por aí como um periquito amarelo.
A pessoa em frente a uma máquina ri-se. É evidente que não gostaria de ser um periquito amarelo nem uma estrela cadente. A pessoa em frente a uma máquina nem gosta de periquitos. Nunca teve um periquito, sequer. Nem mesmo na infância.
Mas agora deu-lhe a fraqueza e achou que seria muito mais giro ser um periquito do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Nas cabeças extremamente avançadas dos seres humanos, a ficção é sempre melhor do que a realidade.
Eis o perigo.
Há numerosos estudos que comprovam que ser um periquito não é melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Os dados existentes parecem indicar aliás o contrário: não há nada melhor do que ser uma pessoa em frente a uma máquina. Nada é mais eficiente nem mais resistente nem mais felizardo do que uma pessoa em frente a uma máquina.
Em especial no inverno, em noites frias como esta. Um periquito já estaria morto, coitado.
terça-feira, 23 de junho de 2009
A Forma e o Conteúdo
A Forma e o Conteúdo apanhavam juntos o autocarro para a escola e sentavam-se ao lado um do outro. Quando a Forma não ia à escola, o Conteúdo ficava triste. O mesmo se passava com a Forma, quando lhe faltava o Conteúdo. Davam-se bem.
Ora, um dia, estavam a Forma e o Conteúdo a ouvir uma música da Lisa Hannigan em casa da Forma, quando o Conteúdo disse à Forma:
- Amo-te.
A reacção da Forma foi estranha: agarrou no comando e desligou a aparelhagem de música. Depois voltou a ligá-la. Demorou-se com o comando porque queria pôr a mesma canção. A Lisa Hannigan regressou àquele espaço. E a Forma rebolou na direcção oposta ao Conteúdo.
Ele não se importou: gostava de ver a Forma rebolar.
Ora, um dia, estavam a Forma e o Conteúdo a ouvir uma música da Lisa Hannigan em casa da Forma, quando o Conteúdo disse à Forma:
- Amo-te.
A reacção da Forma foi estranha: agarrou no comando e desligou a aparelhagem de música. Depois voltou a ligá-la. Demorou-se com o comando porque queria pôr a mesma canção. A Lisa Hannigan regressou àquele espaço. E a Forma rebolou na direcção oposta ao Conteúdo.
Ele não se importou: gostava de ver a Forma rebolar.
O Conteúdo era profundo no sentimento. A Forma era mais pragmática, imaginava um beijo e não uma palavra. Coerente consigo própria, não disse nada.
O Conteúdo também não, embora por outros motivos. Tinha a consistência de uma nuvem: quando se mexia, os seus movimentos nasciam desagregados. A Forma pensava que, se o abraçasse, o Conteúdo ganharia mais consistência. Este pensamento agradava-a, por isso aumentou o volume da aparelhagem.
A certa altura, cerca de quatro minutos depois, a canção chegou ao fim.
Acabava-se o pretexto, portanto despediram-se.
O Conteúdo também não, embora por outros motivos. Tinha a consistência de uma nuvem: quando se mexia, os seus movimentos nasciam desagregados. A Forma pensava que, se o abraçasse, o Conteúdo ganharia mais consistência. Este pensamento agradava-a, por isso aumentou o volume da aparelhagem.
A certa altura, cerca de quatro minutos depois, a canção chegou ao fim.
Acabava-se o pretexto, portanto despediram-se.
O Conteúdo pôs a mochila às costas e foi-se embora.
A Forma encheu o peito de ar, por isso ficou um pouco maior do que antes.
O Conteúdo tropeçava nas próprias pernas descendo a rua. A vontade de andar era maior do que o corpo. O Conteúdo pensou que, se fosse uma ave, tudo seria mais fácil. Depois pensou noutra coisa, designadamente que o amor era difuso, confuso, complicado.
E assim era.
Assim seria.
A Forma encheu o peito de ar, por isso ficou um pouco maior do que antes.
O Conteúdo tropeçava nas próprias pernas descendo a rua. A vontade de andar era maior do que o corpo. O Conteúdo pensou que, se fosse uma ave, tudo seria mais fácil. Depois pensou noutra coisa, designadamente que o amor era difuso, confuso, complicado.
E assim era.
Assim seria.
Mas não para sempre. Só o tempo suficiente.
Para o amor ganhar forma. Nada mais.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Atracar
Disse: atracar.
E não chegar.
E não chegar.
Acercar. Entrar. Voltar. Regressar.
Não.
Disse: Atracar.
E, por isso, imaginou.
Disse: Atracar.
E, por isso, imaginou.
Primeiro o verbo.
Depois o corpo. Atracando.
As espias em torno dos pulsos, dos tornozelos, do ventre, o rosto amarrado ao cais, a testa contra o porto (contra os pés do porto), o nariz apertado no pouco ar que afasta o mar da terra.
Nisto um arrepio rolou até ao final das costas.
Depois o corpo. Atracando.
As espias em torno dos pulsos, dos tornozelos, do ventre, o rosto amarrado ao cais, a testa contra o porto (contra os pés do porto), o nariz apertado no pouco ar que afasta o mar da terra.
Nisto um arrepio rolou até ao final das costas.
Um longo arrepio.
Tinha frio, talvez. Ou medo.
(Provavelmente saudade.)
O arrepio instalou-se no final das costas e ficou.
Para sempre.
Tinha frio, talvez. Ou medo.
(Provavelmente saudade.)
O arrepio instalou-se no final das costas e ficou.
Para sempre.
Rodou um pouco a cabeça e viu, pela proa dos olhos, o bico amarelo de uma gaivota.
(Respirou finalmente o fio de ar entre o mar e a terra.)
Pensou: Não é mau atracar.
Pensou: Não é mau atracar.
E não era.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Da pessoa e do sentimento
O sentimento, visto de frente e a olho nu, tentava caminhar na direcção oposta ao resto da pessoa, pendurava-se no final dos dedos para tentar ancorar o corpo, mas os braços navegavam em direcção a Este. O sentimento era, por natureza, mais leve do que as borboletas e nada podia contra o peso do cérebro, do estômago e dos pés.
A pessoa caminhante sentia aquele sentimento pendurado nos dedos e, no entanto, seguia em frente.
Em direcção a Este.
De súbito, por lhe faltar a força e o corpo, o sentimento largou o dedo indicador e caiu por causa da força da gravidade. Felizmente, o resto da pessoa apercebeu-se da queda livre e apanhou o sentimento com a outra mão.
Ambos suspiraram de alívio. Entreolharam-se.
A pessoa cerrou o punho para não mais perder o sentimento.
Caminhava, ainda assim, na direcção oposta.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Aquário
Certo dia, a rapariga disse que queria ser peixe.
Sim, peixe, com guelras e umas barbatanas dos lados, milhares de escamas a escarpar-lhe o corpo. Um peixe.
Andava farta dos homens, das mulheres, das criancinhas, do seu corpo quadrado em cima das pernas.
Poetizava para dentro:
Não seria mau de todo respirar pela boca. Respirar realmente pela boca. Fazê-lo por natureza e não por escolha.
Sim, peixe, com guelras e umas barbatanas dos lados, milhares de escamas a escarpar-lhe o corpo. Um peixe.
Andava farta dos homens, das mulheres, das criancinhas, do seu corpo quadrado em cima das pernas.
Poetizava para dentro:
Não seria mau de todo respirar pela boca. Respirar realmente pela boca. Fazê-lo por natureza e não por escolha.
(A rapariga abria e fechava a boca insistentemente, os olhos muito abertos, perdidos na água.)
Havia na casa da avó um aquário enorme, redondíssimo, e a rapariga dizia que aquela era a sua casa: um loft transparente, cheio de luz e de água, feito de vidro. Uma casa original.
Dias mais tarde, desiludiu-se: o facto de o aquário não ter saída chateava-a profundamente e a rapariga acabou por desistir daquela casa. Decidiu então viver num rio.
(A ideia de nadar até ao fim da água e da vida entusiasmava-a.)
Lembrou-se depois dos afluentes e, nessa noite, sonhou que desembocava num rio que desembocava noutro e depois noutro e caía eternamente pela água dentro. Quando acordou, desaguou definitivamente no mar e não quis sair dali.
Disse: "Serei um peixe de água salgada" e pensou no mar por dentro, na sua boca de peixe a respirá-lo, a bebê-lo, a ouvi-lo, a cheirá-lo, a senti-lo.
Seria um peixe-balão (gostava do nome) e flutuaria lentamente nas águas. Depois fechou os olhos para boiar perdidamente, redondamente, infinitamente, sem peso nem alma. As barbatanas muito abertas, a boca dentro de água.
E no entanto, nesse preciso instante, sobressaltou-se. Disse: "um peixe a boiar é um peixe morto". A rapariga endireitou-se na cadeira, chorou de susto. Ficou em silêncio alguns minutos, uma espécie de choque transformava-lhe o rosto.
Havia na casa da avó um aquário enorme, redondíssimo, e a rapariga dizia que aquela era a sua casa: um loft transparente, cheio de luz e de água, feito de vidro. Uma casa original.
Dias mais tarde, desiludiu-se: o facto de o aquário não ter saída chateava-a profundamente e a rapariga acabou por desistir daquela casa. Decidiu então viver num rio.
(A ideia de nadar até ao fim da água e da vida entusiasmava-a.)
Lembrou-se depois dos afluentes e, nessa noite, sonhou que desembocava num rio que desembocava noutro e depois noutro e caía eternamente pela água dentro. Quando acordou, desaguou definitivamente no mar e não quis sair dali.
Disse: "Serei um peixe de água salgada" e pensou no mar por dentro, na sua boca de peixe a respirá-lo, a bebê-lo, a ouvi-lo, a cheirá-lo, a senti-lo.
Seria um peixe-balão (gostava do nome) e flutuaria lentamente nas águas. Depois fechou os olhos para boiar perdidamente, redondamente, infinitamente, sem peso nem alma. As barbatanas muito abertas, a boca dentro de água.
E no entanto, nesse preciso instante, sobressaltou-se. Disse: "um peixe a boiar é um peixe morto". A rapariga endireitou-se na cadeira, chorou de susto. Ficou em silêncio alguns minutos, uma espécie de choque transformava-lhe o rosto.
Perguntou-se: Para quê viver no mar, se não podia deitar-se nele, de rosto contra o sol e o sal?
Era uma rapariga interessante. Definida. Definitiva. De carne e osso.
(Jamais abdicaria do seu direito a boiar.)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
No café da esquina
Entram vagarosas duas velhinhas.
Dizemos velhinhas, porque são frágeis de corpo e têm, de facto, uma estatura pequena, magra, minguante. Dirigem-se à mesa mais próxima, logo atrás da porta. Andam a passo de tartaruga.
Uma mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, observa-as do fundo da sala enquanto bebe um café com leite e come um croissant. Era um entretenimento como outro qualquer, já que não tinha comprado o jornal.
Uma mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, observa-as do fundo da sala enquanto bebe um café com leite e come um croissant. Era um entretenimento como outro qualquer, já que não tinha comprado o jornal.
Uma das velhinhas traz bengala, a outra não. Apoiam-se uma na outra, muito trementes, tremeluzentes. Sentam-se com dificuldade, em câmara lenta e, depois de um suspiro, comentam o cansaço, as maleitas, a idade. Conversam. A mulher de trinta anos pensa algo como:
Quando a solidão chega, tudo são desculpas para as palavras.
Uma das velhinhas começa então a contar qualquer coisa e a outra ouve. A rapariga de trinta anos não consegue decifrar o que dizem nem o que ouvem, mas interpreta alguns sinais. Na sua perspectiva, a conversa parece realmente completa, tem várias pausas no meio e expressões de surpresa. Havia até um certo suspense no desenrolar da história e, a julgar pelos rostos intrigados, o assunto era sério.
Uma das velhinhas começa então a contar qualquer coisa e a outra ouve. A rapariga de trinta anos não consegue decifrar o que dizem nem o que ouvem, mas interpreta alguns sinais. Na sua perspectiva, a conversa parece realmente completa, tem várias pausas no meio e expressões de surpresa. Havia até um certo suspense no desenrolar da história e, a julgar pelos rostos intrigados, o assunto era sério.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, apercebe-se então de que ela é afinal mais sozinha do que as velhinhas e arrepende-se do comentário anterior. Confessa para os seus botões (e para o croissant, que leva agora à boca) que não ouvia uma história contada assim há muito tempo. E vai um pouco mais longe: Talvez que nunca tenha ouvido uma história contada assim, com tantas indicações cénicas e pormenores dramáticos. Admitiu também que, por outro lado, não contava uma história assim há ainda mais tempo, um tempo anterior a si, veja-se. Tudo isto por falta de tempo, claro. Para ouvir, para falar.
A velhinha que contava a história debruçava-se agora para a frente, gesticulava firmemente, insistia num ponto qualquer da narrativa. A outra encorajava-a, mexia em sintonia a cabeça, os braços, o tronco. Depois pararam de falar/ouvir, para receberem o chá de tília e, enquanto as chávenas se servem, as duas velhinhas abanam a cabeça, em desacordo com o mundo. Depois regressam à conversa, ou seja, aproximam-se novamente do centro da mesa.
A velhinha que contava a história debruçava-se agora para a frente, gesticulava firmemente, insistia num ponto qualquer da narrativa. A outra encorajava-a, mexia em sintonia a cabeça, os braços, o tronco. Depois pararam de falar/ouvir, para receberem o chá de tília e, enquanto as chávenas se servem, as duas velhinhas abanam a cabeça, em desacordo com o mundo. Depois regressam à conversa, ou seja, aproximam-se novamente do centro da mesa.
A mulher de trinta anos, mais coisa menos coisa, não deixa de reparar no seguinte: as duas velhinhas estão mais bem penteadas do que ela, mais bem arranjadas do que ela, possivelmente mais lavadas e perfumadas até. Têm batom nos lábios e colares de pérolas ao pescoço. Trazem anéis robustos nas mãos e várias alianças.
A mulher de trinta anos engole então o croissant e pede a conta. Desculpa-se a si própria pela pressa que traz nos gestos: Não tenho tempo para merdas. Bate com as moedas na mesa, veste o casaco coçado e sai. Na rua dá por si a pensar:
A mulher de trinta anos engole então o croissant e pede a conta. Desculpa-se a si própria pela pressa que traz nos gestos: Não tenho tempo para merdas. Bate com as moedas na mesa, veste o casaco coçado e sai. Na rua dá por si a pensar:
Era uma vez duas mulheres com todo o tempo para a vida e muito pouco tempo para ela.
Prosseguiu:
Era uma vez eu, que tenho muito tempo para a vida e não tenho tempo para ela.
O pensamento era quase absurdo, impertinente, mas não completamente. A mulher de trinta anos sabia disso e envelheceu um pouco mais.
Numa história a sério, a mulher de trinta anos regressaria ao café para ouvir todas as histórias do mundo com todo o tempo para a vida, mas infelizmente esta não é uma história assim. A mulher de trinta anos encolheu simplesmente os ombros e abanou a cabeça, em desacordo com o mundo.
Depois regressou à vida. Salvo seja.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Cronologia
Agora que o futuro virava presente, ela riu-se da sua ignorância, da sua sapiência, da ordem natural das coisas. Depois lembrou-se:
Um dia também o presente seria antigo e sentiu na língua um certo travo amargo, diferente de todos os outros.
Tudo isto (o futuro, o presente, o passado, nesta ou noutra ordem) lhe deixava marcas na pele: havia células mortas no rosto, vestígios de outras mãos nas suas mãos, saudade na boca. No nariz nasciam outros cheiros, outro ar, outro mar.
Pensou: "Fosse o tempo outro e o que sou hoje não seria nada disto".
Nesse instante, repentinamente, sentiu uma dor nas costas e caiu. Uma dor invencível. Inesquecível. Apetecível. Como se a vida de dentro saísse para fora. Explodindo.
Chegava, pois, a metamorfose do corpo.
Disse: "Já não era sem tempo" e levantou-se renovada.
Depois abriu as asas e voou.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
A coisa mais esquisita
O cão achava que, de todas as coisas que existiam, a chuva era, de longe, a mais esquisita. E portanto, cada vez que ela vinha, ele ladrava. Imenso. E se ela se demorava, gania.
De tal forma sofria o cão em dias de chuva que o dono tinha de esperar que ela parasse para poder sair com o domesticado à rua. De outra maneira não o conseguia levar: bem que podia puxar pela trela ou empurrá-lo, que o cão não ia.
Certa vez o cão mordera até a mão da empregada de limpeza por causa da sua insistência. Tanto sangue jorrara do seu braço que a senhora nunca mais voltou. Um episódio triste por causa de um capricho de cão, também ele deveras esquisito.
Por uma só vez o dono tinha conseguido a proeza fantástica de, em pleno dia de temporal, levar o cão até à entrada do prédio. Desciam calmamente as escadas, dono e cão lado a lado, uma verdadeira conquista. Mas infelizmente, assim que a porta da rua se abrira, o cão agarrou-se à ombreira com os dentes, espumando de raiva e terror. E a partir desse momento, o dono nunca mais tentou levar o cão à rua quando a chuva chovia.
Não que o cão não gostasse de água. Nada disso. Não só gostava, como adorava. Chapinhava no mar deliciado, ficava eufórico quando lhe davam banho. Abanava-se contente na banheira, bebia a água do próprio corpo. Mas realmente algo o impedia de se aproximar da chuva.
E o que o impedia era isto: o cão não percebia a chuva, a razão da sua existência. A verdade era só essa: não percebia o porquê do seu movimento repetido nem as formas do seu corpo. Ela era, no seu entender, uma coisa maior do que as outras, sem peso nem cor. O cão confundia muitas vezes o seu cheiro por ele ser tão variado, colorido, profundo e isso assustava-o, causava-lhe dores no corpo e na alma.
E nos dias em que ela caía, o cão ladrava à chuva para que ela existisse. Como os outros. Concretamente, em carne e osso.
Mas ela não existia.
Claro que o cão, no fundo do seu cérebro, não tinha medo dela. Ficava aliás a vê-la da janela quando ela não respondia ao seu ladrar. E como bem sabemos, ninguém fica a contemplar quem teme. O cão é que não sabia.
Claro que o cão, no fundo do seu cérebro, não tinha medo dela. Ficava aliás a vê-la da janela quando ela não respondia ao seu ladrar. E como bem sabemos, ninguém fica a contemplar quem teme. O cão é que não sabia.
Resumindo, o cão tinha um terror imenso daquele amor. E nem sequer sabia que amava.
Um sentimento esquisito.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Cabelo, cabeça e queda
Para o Belgavista, que faz um ano e 150 vistas.
Para ter a certeza de que o tempo passava, decidiu cortar o cabelo. A ideia ocorrera-lhe enquanto tomava duche. Fechou a torneira com uma mão imperativa e inclinou o corpo para a frente. Estava agora em bicos de pés.
O gel de banho ainda escorria pelas costas e a rapariga sentava-se já no parapeito da banheira. Nua.
Assim ficou cinco segundos. E durante esses cinco segundos, teve frio. Depois abriu uma gaveta e tirou de um estojo vermelho a tesoura pequeníssima das unhas. Enfiou-a directamente no cabelo e cortou-o. Sem demora. (Nem sequer se penteara antes disso.)
Assim ficou cinco segundos. E durante esses cinco segundos, teve frio. Depois abriu uma gaveta e tirou de um estojo vermelho a tesoura pequeníssima das unhas. Enfiou-a directamente no cabelo e cortou-o. Sem demora. (Nem sequer se penteara antes disso.)
O cabelo era fino e negro, havia vestígios de champô nas pontas que saltavam para o chão.
No final, não varreu a casa de banho. Levantou-se do parapeito e espreitou o seu reflexo no espelho enublado.
No final, não varreu a casa de banho. Levantou-se do parapeito e espreitou o seu reflexo no espelho enublado.
Riu-se para os olhos sempre seus.
E foi até à sala.
A cabeça com pouco cabelo era um pouco mais leve do que antes. E a mulher abanou a cabeça violentamente. Livremente. Loucamente.
Depois desequilibrou-se. E caiu.
A cabeça com pouco cabelo era um pouco mais leve do que antes. E a mulher abanou a cabeça violentamente. Livremente. Loucamente.
Depois desequilibrou-se. E caiu.
O tecto era mais longínquo visto do chão. Uma nova perspectiva da casa.
Era bom cair em dias assim.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O espirro
O rapaz adolescente dobrou a esquina e espirrou.
Quase em simultâneo e devido à contracção do rosto, as quinze borbulhas que o adolescente trazia na testa explodiram.
Quase em simultâneo e devido à contracção do rosto, as quinze borbulhas que o adolescente trazia na testa explodiram.
Este espectáculo (o rapaz a espirrar e as borbulhas a explodirem) assemelhava-se a um fogo de artifício, não tanto pela diversidade de cores, mas pela conjugação de sons: um espirro aberto, festivo, prolongado e uma erupção que era afinal várias explosões carnavalescas.
No momento seguinte, a saliva, o muco e o pus caíam harmoniosamente aos pés do rapaz adolescente. O prazer que este sentia era quase orgásmico.
Depois limpou à camisola duas gotas de muco e continuou o seu caminho um pouco mais rápido do que antes, cheio de pressa para sair dali.
(Tinha uma alergia a pessoas adultas e, àquela hora, o bairro devia estar cheio delas.)
quinta-feira, 13 de março de 2008
O rapaz e a neve
Naquela noite o rapaz achou que amava. Estava escuro e havia neve.
Na mão veio pousar um pequeno floco e ele emocionou-se. Depois, num segundo, a neve morreu água e o rapaz pensou: "Este amor é impossível". Por causa disso, amou ainda mais.
Os flocos de neve eram iguais às bolas de sabão: frágeis, intocáveis, sublimes.
Os flocos caíam.
As bolas subiam.
O rapaz apercebeu-se então que o mundo estava ao contrário e soprou violento para a noite. Os flocos de neve ficaram então suspensos no ar e logo mudaram de trajectória.
(A neve já não cai; sobe.)
(A neve já não cai; sobe.)
O rapaz fica a vê-la subir.
Os flocos de neve flutuam depois sobre as casas e tomam a forma das nuvens, confundindo a própria noite. É tão branca a neve, que os pássaros acordam para o dia. Tão bela, tão irrepreensivelmente bela, que o corpo do rapaz sente uma dor só de a ver.
O rapaz ordenou: "Cai!" e ela caiu das nuvens para morrer nas suas mãos. Ele emociona-se. Diz: "Amo-te!" pensando que o amor é a contemplação do Belo.
O rapaz bebe então a água da neve: são agora um só corpo.
O rapaz bebe então a água da neve: são agora um só corpo.
Tudo isto se passa no interior de um pisa-papéis, atrás de uma redoma de vidro. Daí o movimento aleatório da neve. E o mundo ao contrário.
Tudo ali é ficção.
À excepção do Belo.
E da dor.
(Só aquele amor é real.)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Ovo, larva e fase adulta
Amadurece atrás do ovo e chama-o «ventre» por uma questão de fé: quer nascer mamífero e sugar o alimento. Nasce e é quase nada: um volume sem metafísica, uma alma sem peso. Querem matá-la e é ela a predadora: olha-os nos olhos e eles hesitam. É pequena e brutal. Tem um projecto de asas nas costas e adivinhamos o sangue de todos os homens no corpo translúcido da virgem. Vem pela noite e o seu voo é sôfrego, sofrido, total. As pernas leves e longas como as bailarinas dos sonhos e o corpo negro, tão negro que a noite nasce mais clara do que antes. Vem pela escuridão e as suas asas são ágeis, delicadas, dedicadas, iguais às das fadas que pousam nas janelas. Vem graciosa e feminina beijar os pescoços dos homens para colher do seu sangue. A boca prolongada numa espécie de bico e é agora uma espécie de ave. Abre a boca e tem dentes, é afinal um mamífero. Chamam-lhe vampira e ela encolhe-se para desaparecer na noite: as mãos cobertas de sangue, o fruto proibido nos lábios. Quando amanhece, ela morre. É uma morte triste e da sua boca escorre o fruto de todos os homens.
Do laço de sangue nasce outro ovo. Ela chama-o «ventre».
Por uma questão de fé.
Por uma questão de fé.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
História do rapaz que deixou de ver
Uma manhã igual a outras, um pouco mais tímida, mais jovem, mais ingénua. O rapaz dos óculos saiu do metro e começou a subir a Rue de la Loi. De repente, estava ele a seguir com o olhar os carros que vinham do sentido oposto e deixou de ver. O rapaz parou. Esperou. Continuou a andar pela rua, de pés inseguros, seguindo o compasso apressado das pessoas. O rapaz tirou os óculos. Tentou ver e não via. Limpou os óculos com a ponta da camisola. Voltou a equilibrá-los na ponta do nariz. Continuava sem ver. O rapaz estendeu então os braços, tocava nas pessoas fugidias, rodopiava em plena rua. Gritou: Estou cego!
Mas não estava, claro.
O oftalmologista quase diagnoticou um daltonismo estranho, qualquer coisa a ver com o cinzento. Mas depois lá percebeu que se tratava de uma coisa de pele. Mandou-o ao dermatologista. Este também não percebeu a causa daquela cegueira momentânea. Mandou-o para o psicólogo.
Consta que o rapaz dos óculos tinha uma alergia ao nevoeiro.
Mas não estava, claro.
O oftalmologista quase diagnoticou um daltonismo estranho, qualquer coisa a ver com o cinzento. Mas depois lá percebeu que se tratava de uma coisa de pele. Mandou-o ao dermatologista. Este também não percebeu a causa daquela cegueira momentânea. Mandou-o para o psicólogo.
Consta que o rapaz dos óculos tinha uma alergia ao nevoeiro.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Incompatibilidades (I)
O homem sobe a rua. De um lado, vivendas atrás de grades. Do outro também. Atravessa a rua mais ou menos a meio. Do lado de lá de um gradeamento, um cão ladra. O homem assusta-se, pula para trás. O cão pula também, mas para a frente, contra o gradeamento. Ladra. Homem e cão não se vêem. O primeiro adivinha espuma no focinho do outro e este fareja-lhe o medo. Ladra outra vez.
O homem insulta: Cabrão!. Depois recompõe-se, ajeita o casaco, faz-se ao caminho. Insulta ainda: Cabrãozão!. O outro fica encurralado na esquina. Ladra.
O homem não gosta de cães. Nem percebe pessoas que gostem de cães. O cão, por seu turno, não percebe cães que gostem de pessoas.
Passam a vida a ladrar!, diz o homem sobre os cães.
O cão diz o mesmo sobre os homens.
Ambos tinham razão.
O homem não gosta de cães. Nem percebe pessoas que gostem de cães. O cão, por seu turno, não percebe cães que gostem de pessoas.
Passam a vida a ladrar!, diz o homem sobre os cães.
O cão diz o mesmo sobre os homens.
Ambos tinham razão.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Declaração
Quando o dia caiu inteiro e o mundo a espreitou através da janela, a rapariga fechou as persianas e os olhos para não o ver. Queria sentir-se sozinha e, pela primeira vez, disse: "Amo-te!". Era um sentimento estranho, até porque a declaração não era dirigida ao mundo nem à janela. Na verdade não era dirigida a ninguém, já que estava sozinha e queria realmente sentir-se só. A rapariga diria mais tarde que amar era um estado de espírito. Mas naquela altura não sabia disso e quis esquecer-se.
Abriu o frigorífico para comer o resto de qualquer coisa e por momentos assaltou-a a ideia de que amava aquele electrodoméstico (a porta cheia de ímanes, a pequena luz ao fundo, o frio sempre pálido, qualquer coisa com sabor a fresco). Era um frigorífico agradável ao toque e ela acariciou-o distraída como as grávidas fazem às barrigas. Claro que, quando desligou a luz do quarto se riu de si própria. Era evidente que não amava o frigorífico.
Antes de adormecer, pensou naquele sentimento de pertença e apercebeu-se de que amava simplesmente o regresso a casa. Que regressar tinha um certo toque de amor e dedicação. Que aquele electrodoméstico simbolizava esse regresso. Estava extasiada com a sua descoberta.
Dormiu toda a noite um sono profundo e na manhã seguinte escreveu uma declaração de amor.
"O teu corpo é para mim um regresso a casa". Afixou-a na porta do frigorífico, releu-a mil e uma vezes.
Claro que a declaração não era dirigida ao electrodoméstico. Na verdade, mais uma vez, não era dirigida a ninguém.
Abriu o frigorífico para comer o resto de qualquer coisa e por momentos assaltou-a a ideia de que amava aquele electrodoméstico (a porta cheia de ímanes, a pequena luz ao fundo, o frio sempre pálido, qualquer coisa com sabor a fresco). Era um frigorífico agradável ao toque e ela acariciou-o distraída como as grávidas fazem às barrigas. Claro que, quando desligou a luz do quarto se riu de si própria. Era evidente que não amava o frigorífico.
Antes de adormecer, pensou naquele sentimento de pertença e apercebeu-se de que amava simplesmente o regresso a casa. Que regressar tinha um certo toque de amor e dedicação. Que aquele electrodoméstico simbolizava esse regresso. Estava extasiada com a sua descoberta.
Dormiu toda a noite um sono profundo e na manhã seguinte escreveu uma declaração de amor.
"O teu corpo é para mim um regresso a casa". Afixou-a na porta do frigorífico, releu-a mil e uma vezes.
Claro que a declaração não era dirigida ao electrodoméstico. Na verdade, mais uma vez, não era dirigida a ninguém.
A rapariga sentiu subitamente uma enorme urgência em apaixonar-se e saiu de casa a correr. Tinha imensa pressa.
Era, de certa forma, um regresso a si própria.
Nota aos leitores assíduos: Agora sim, um regresso a sério!
Subscrever:
Mensagens (Atom)