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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Discurso diarístico sem mim – Parte III

Gostaríamos, francamente, que certas pessoas não existissem ou passassem a não existir, que desaparecessem da face desta Terra e da outra, levadas pela força do vento ou da água ou da terra ou do fogo. Passamos, aliás, muito tempo a imaginar catástrofes naturais ou artificiais que justificassem o desaparecimento dessas tais pessoas e, nos dias menos bons, desejamos que qualquer uma destas catástrofes suceda de facto. Nos dias bons, desejamos apenas que essas pessoas se fossem embora. De preferência, com o rabinho entre as pernas ou então com uma pesada mala de viagem às costas ou a rastejar pelo chão (tanto faz), desde que apanhem o comboio ou o avião ou o foguetão ou a nave espacial. Gostaríamos, com efeito, que nunca mais voltassem atrás nem olhassem para trás nem deixassem nada para trás, nem sequer uma recordação ou uma carta ou um postal ou um número de telefone. Gostaríamos que certas pessoas sumissem da nossa vida com a simplicidade com que o fumo sai das chaminés, para nunca mais regressarem, em estado gasoso ou em qualquer outro estado, à casa de onde saíram. Gostaríamos, aliás, que a nossa vida fosse uma casa, à semelhança da nossa casa inicial ou da nossa casa final ou da nossa casa do meio. Que a nossa vida fosse uma casa e tivesse, pelo menos, quatro paredes, bem isoladas e feitas de betão. Gostaríamos, também, que a vida tivesse uma porta e que todos tivessem de bater nela antes de entrarem. (Não abriríamos a porta a certas pessoas. Andaríamos descalços pela vida-feita-casa para não fazermos barulho e apagaríamos as luzes para que certas pessoas não soubessem que andávamos na vida.) Gostaríamos que a vida tivesse, pelo menos, quatro paredes para as pintarmos de uma cor qualquer ou para nos encostarmos a elas ou para pendurarmos um quadro bonito ou feio. Gostaríamos que a nossa vida fosse uma casa e não esta alameda cheia de semáforos e carros e pombos e pessoas feias, monstruosas, indesejáveis, detestáveis. Gostaríamos, sinceramente, que essas pessoas fossem dar uma volta ao bilhar grande e se perdessem no regresso. Gostaríamos, já agora, que a noite fosse fria, tão inteiramente fria, que essas pessoas tilintassem como passarinhos mas não soubessem voar e chorassem de medo e dormissem ao relento num sítio estranho sem casas nem vidas, apenas relva molhada repleta de bostas de cães vadios ou de gatos vadios ou de pombos doentíssimos. Pensamos em tudo isto e desejamo-lo com toda a convicção, embora saibamos que nenhum destes desejos se realizará num futuro próximo ou longínquo, mesmo que desejemos tudo isto com muito força e várias vezes por dia, à luz de velinhas secretas. Imaginamos, no entanto, todas as catástrofes naturais e artificiais e, de todas elas, temos preferência pelo furacão, porque gostamos de vento e de drama. Imaginamos o furacão e sentimo-nos, efectivamente, felizes. Gostaríamos, sem dúvida, que certas pessoas fossem levadas por um furacão para um sítio qualquer e que nunca mais conseguissem pentear o cabelo nem andar a direito por causa das 1001 rotações do corpo durante a viagem. Na verdade, sempre que falamos com essas pessoas ou sempre que as vemos ou ouvimos ou sentimos ou pressentimos, imaginamos este furacão. Fantasiamos, depois, o uivo ensurdecedor do vento, o cabelo desgrenhado dessas tais pessoas, as suas perninhas ridículas abanando no céu, cada vez mais longe desta Terra. Depois caímos, naturalmente, na real e apercebemo-nos de que a nossa preferência pelo furacão tem mais a ver com o Feiticeiro de Oz do que com o nosso profundo desejo de ver desaparecer certas pessoas.
Concluímos, então, que continuamos a preferir a ficção à realidade. E gostaríamos, com toda a franqueza, que certas pessoas não existissem de todo. Nem a sério, nem a brincar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Discurso diarístico sem mim – Parte II

Não escrevia desde o segundo dia. Este facto era tão mau como o tempo em Bruxelas, mas entristecia-a ainda mais que o tempo em Bruxelas, porque o segundo dia tinha sido há muito tempo, quando o sol ainda não era um sonho na cidade escura. Não escrevia desde o segundo dia e apetece-lhe que isto não seja verdade. Pega, portanto, na tesoura de poda para cortar aquela raiz profunda e semear, no seu lugar, uma semente de escrita, que funcione ao contrário, de frente para trás, da direita para a esquerda, como a língua árabe, e reinvente o passado, em mil e uma noites. O Orhan Pamuk diz que passa 10 horas por dia a escrever. Diz também que acorda cedo, por isso adivinhamos que se sente à escrivaninha logo de manhã. Tenta imaginar o escritório de Orhan Pamuk, a possível janela de um segundo andar [ou terceiro ou quarto, não mais] sobre uma rua movimentada, com dois sentidos. Nisto doem-lhe os ombros e os olhos e os pés, bem como o coração, a cabeça e o estômago, como se tivesse escrito [ela e não ele], 10 horas sem parar. Explicava dentro da cabeça que, no fundo, assim era: tinha, afinal de contas, escrito sem parar e não apenas 10 horas, mas 10 dias seguidos, 10 meses, mil e uma noites, para trás e não para a frente, da direita para a esquerda e, portanto, talvez em hebraico. Tudo isto dentro da cabeça, porque, conforme insistia, escrevia dentro da cabeça. Ora, isto não era verdade. Já se sabe que ninguém escreve dentro da cabeça e os seus pensamentos, jamais tangíveis, são feitos de pombos e não de palavras: descem até à cidade e sobrevoam as casas ao sabor do vento ou contra ele, uns atrás dos outros, desaparecem nas esquinas mais escuras, em trajectórias que mais ninguém conhece. Passam também em frente à janela de Orhan Pamuk, mas não o vêem. Ele, sim. Vê-os. E ela vê-o a ver os pombos, gosta de o ver a ver os pombos. Coloca-o à janela para ele ver os pombos. Imagina Orhan Pamuk de pijama, de roupão, de fato de treino, de camisa branca, de t-shirt, não sabe que roupa escolher para Orhan Pamuk. Diz que escreve dentro da cabeça, mas ninguém lê o que escreve, por isso ninguém acredita. Ela também não lê o que escreve, portanto é possível que nem ela acredite. Pega na tesoura de poda, mas não consegue encontrar a raiz daquela falta profunda. Encolhe os ombros e fuma cigarros. Também escova os dentes várias vezes por dia e faz outras coisas, como falar ao telefone, comprar pijamas e chocolates. Um desperdício de tempo, de água, de dinheiro, de saúde, de latim. Não lhe faz bem não escrever: a cabeça fica cheia de pombos e não há espaço para uma praça, para um sopro, para uma janela, por isso os pombos não voam e bicam-lhe a cabeça sem parar, 10 horas seguidas, todos os dias. O sol já é um sonho na cidade sempre escura e ela decide escrever. Pensa em Orhan Pamuk e sente uma ponta de inveja. Talvez uma asa de inveja. Duas asas, um pombo, um bando inteiro de inveja. Está mau tempo em Bruxelas. Doem-lhe os ombros e os olhos.
Um pombo pousa no seu parapeito, mas ela não o vê. Está de costas. A escrever. Que azar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Discurso diarístico sem mim – Parte I

Não escrevia desde o primeiro dia. Ora, esse dia [o primeiro] tinha sido há imenso tempo dentro e fora da cabeça e daquela dimensão que era o tempo a contar desde o primeiro dia à volta do sol e de si própria. Tinha, no entanto, uma enorme urgência da escrita. Uma enorme urgência para a escrita. Na escrita. Pela escrita. Dir-se-ia que a urgência da cabeça, do tronco e dos membros estava desfasada da tal dimensão à volta do sol. Ou que a urgência fazia parte da espera, não obstante a urgência.
A meio da tarde, a pálpebra inferior do olho direito saltava como o coração de um passarinho. Isto acontecia todas as tardes, por volta das 14 horas e 10 minutos, a hora perfeita dos relógios sem horas. Quem já teve um passarinho na mão, conhece o seu compasso acelerado.
Assim saltava a pálpebra inferior do olho direito e isto incomodava o resto do corpo, o resto do tempo, o resto do mundo: tudo parecia estar em sintonia com o coração do passarinho, escondido atrás da pálpebra.
O dia 8 de Setembro de 2009 parecia-lhe um óptimo dia para acabar com aquela espera que, como já se disse, não era uma espera, mas sim uma urgência estendida no tempo. O desfasamento entre o corpo e o tempo era tão grande que mais parecia um abismo.
Dito isto, o abismo abriu-se de repente como uma boca ou como uma cortina ou como uma luz ao contrário [por ser negra] e o corpo caiu devido à gravidade ou à vontade de cair [não sabemos].
A professora de português do 5.º ano chamava-se Lídia Inês Pinto e este nome parecia-lhe tão bonito que o corpo desfasado do tempo desconfiava que ela [a professora] era, afinal, uma das suas personagens. Tinha, no seu entender, que era pouco e parcial, um certo jeito para todos os nomes que não o seu e o nome daquela professora parecia-lhe seu e não dela [da professora]. Isto a propósito da escrita, porque a professora fictícia ou real [pouco importa] lhe disse, certa vez, que o discurso diarístico era o princípio da escrita. Depois explicou porquê, mas ela [a do abismo] não se lembrava da razão. Do resto, sim, lembrava-se. Tão claramente como do rio Tejo. Tinha algumas memórias [não muitas, não todas] e aquela era uma delas. A professora podia ser fictícia, mas o conteúdo era real.
O princípio da escrita era, pois [talvez], o início do corpo: eventualmente, o tal coração de passarinho atrás da pálpebra inferior do olho direito.
Para que se saiba, estava a ler o Livro do Desassossego. [Ah!, diz o leitor, daí o seu desassossego, a sua urgência, ou parte dele e parte dela.] Também lia outras coisas ao mesmo tempo, mas o Livro do Desassossego era o princípio de outras coisas. Também fazia parte daquele princípio, mesmo que a posteriori do princípio.
O abismo, de natureza opaca e rugosa, assustava-a, por isso susteve a respiração durante a queda. Também fechou os olhos. Por causa disso ou apesar disso, o coração de passarinho atrás da pálpebra inferior do olho direito parou de bater e houve, dentro da cabeça, um pressentimento de morte.
A morte do coração atrás da pálpebra era, naturalmente, uma coisa boa, porque matava de uma vez por todas, não a urgência, não a saudade, mas, pelo menos, o tempo [perdido]. Assim pensava o coração original, maior do que certos pássaros, e, correndo desvairado, soprou sangue, vento, poeira e escrita pela cabeça, o tronco e os membros.
Era o segundo dia.