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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Um grande peso

O Luís Sepúlveda mora no meu imaginário, no meu ânimo e nos meus livros.


Em “Aqui é um bom lugar”, ilust. Joana Estrela

sábado, 23 de novembro de 2019

Tio Tuca

O Tuca morreu. Era o meu tio mais desatinado, meu vizinho de cima, meu padrinho alcoólico, um homem muito lúcido e ao mesmo tempo destravado. Tinha um tom de voz incomum: muito baixo, sem nuances. Um riso seco e implacável, sarcástico. Mexia as mãos quando falava. Mãos pequenas e subversivas, que se esfregavam uma na outra, que se agitavam no ar, que apontavam o dedo indicador. 
Durante grande parte da vida adulta viveu do whisky e do seu humor negro, das suas ideias frenéticas sobre o mundo e a condição humana.
Nos últimos anos não saía de casa. Primeiro não lhe apetecia, depois continuou a não lhe apetecer. Passava os dias a fumar. Há anos e anos que não bebia. Deixou-se disso de repente, de um dia para o outro.
Sempre que vínhamos a Portugal, íamos lá a casa. Eu e o maridão. Telefonávamos antes para saber se podíamos aparecer. A minha tia atendia, dizia-me que sim, venham. Ele ficava feliz de nos ver, cheio de vontade de conversar. “Sentem-se aí.” Acendia um cigarro, lançava uma pergunta, que podia ser sobre a nossa vida ou sobre o estado do mundo. Podia ser só: “Como estão?” 
Trazíamos-lhe chocolate belga. Ele dizia: “Oh, obrigado, não era preciso”, mas depois corrigia-se: “Era, era, era”. Nunca nos oferecia dos chocolates que trazíamos. Dizia que aqueles chocolates eram só para ele e que não nos dava nem um. E realmente não dava. Nem um.
Nesses encontros, durante umas horas, falávamos da vida e do mundo. O meu tio, sempre tão fechado em casa, tinha uma cabeça voadora, aberta ao mundo. Comentava coisas que via na televisão. Um debate, uma notícia, um anúncio. Tinha sempre uma observação peculiar a acrescentar. Fazia perguntas sobre a Bélgica, sobre as nossas viagens, sobre as minhas idas a escolas secundárias, sobre a Europa, sobre esta coisa de estarmos por aqui a existir. Entusiasmava-se com a conversa, falava de tudo e mais alguma coisa, as mãos pequenas e exaltadas. 
Ultimamente, quando nos despedíamos, trocávamos um olhar no corredor. Um olhar cheio de reconhecimento e admiração. O meu tio desejava-me uma boa viagem, eu dizia para ele cuidar de si. E depois trocávamos esse olhar, que era um olhar de despedida. Um olhar que dizia: esta poderá ser a última vez, este poderá ser o último olhar. Era isto que eu pensava e sei que era isto que o meu tio pensava e sei que ele sabia que eu também pensava.
Não posava para as fotos, não me telefonava nos anos, não me dava prendas de Natal. Nunca quis saber das minhas notas. Não era esse tio. Era um outro tio. Sentava-se comigo a conversar, fazia-me perguntas, ria-se de mim e ouvia-me de olhos e ouvidos muito abertos. Sempre atento aos pormenores. Só ele reparou na mãozinha do meu filho quando dormia ao meu colo. A mãozinha agarrada à minha blusa, a dizer-me: “Não me deixes”. Só ele reparou que o meu pai me passou a mão pelos ombros no dia do meu casamento. “Aquilo era um pai a despedir-se da filha”, dizia ele. “Que coisa tão bonita, aquela festinha nos ombros. Boa sorte, minha filha.”
Uma vez, perguntou-me com um certo fascínio nos olhos: quando começa a vida? Já pensaste nisso? Sim, pensei, pensamos todos, não é verdade? Não, mas aquele momento em que passamos a existir. Em que momento se faz faísca? E nisto estalou os dedos a exemplificar o fósforo que se acendia, a vida a começar. Era um mistério extraordinário, não era? Era, pois.
Durante a minha adolescência, mostrava-lhe os meus textos e ele emocionava-se. Uma vez, chorou tanto para cima do papel que eu lhe interrompi a leitura para lhe dizer que aquele texto não era triste. Ele continuou a ler e a chorar.
Passava a vida a provocar-me com os direitos das mulheres. Que a igualdade era uma parvoíce. Que eu não devia jogar futebol. Que nenhum homem queria uma mulher com pernas de futebolista. Que um homem devia abrir a porta a uma mulher, que um homem devia levar os sacos das compras. E eu muito irritada e confusa. A pensar que os direitos das mulheres não tinham nada a ver com portas nem com sacos de compras. A igualdade era a igualdade. O meu tio ria-se de mim. Que grande seca passarmos a ser iguais, termos os mesmos interesses, querermos as mesmas coisas. Vamos passar a vida à bulha. Uma mulher igual a mim não me ia dar pica nenhuma. O lugar da mulher era na cozinha e era um belo lugar, um lugar feliz. Que mal tinha a cozinha? Havia muito conhecimento numa receita. O dedo indicador apontado para mim: “Podes dar voltas e mais voltas, querida sobrinha, mas vais parar à cozinha.” Depois ria-se, inquieto, desafiador. 
Quando publiquei o meu segundo livro, perguntou-me se eu não tinha vontade de escrever um livro a sério, a dizer quem sou. Eu respondi que o Supergigante era um livro a sério e ele encolheu os ombros. Não era nada. Era um livro para miúdos. Leste? Não. Então lê. Não vou ler.
Que eu saiba nunca leu esse livro nem nenhum dos outros. 
Uma vez, depois de citar um escritor qualquer que falava sobre a duração da vida, o meu tio anuiu que realmente era uma estupidez as pessoas dizerem que a vida era curta. Que na nossa perceção do mundo, nada ia durar tanto tempo como a nossa própria vida. Absolutamente nada. E insistiu: Nada nada nada. Depois o meu tio riu-se e eu ri-me com ele. Era uma frase verdadeira e bonita. Nunca me esqueci dela e já a disse várias vezes: nada dura tanto tempo como a nossa própria vida.
Certa vez, na Bertrand do CascaisShoppingg, o meu tio decidiu oferecer-me os livros todos que eu quisesse. Eu escolhi três ou quatro. Talvez Laura Esquivel e Isabel Allende, mais “Os Cisnes Selvagens”, coisas assim. O meu tio disse: “Está bem. Primeiro lês essas pachachadas, depois lês este.” Eram “As Regras da Atração” do Bret Easton Ellis. “Não li, mas deve ser um deboche completo”. Eu li e confirmo: era um deboche completo.
Quando fiz 18 anos, o tio Tuca ofereceu-me um quadro feito por ele. Era o número 18 rodeado de frases. Assim:

Uma das frases dizia (e diz): “Os dezoito anos são tão bonitos como os setenta e quatro e contudo os dezoito anos são mais bonitos”. 
O meu tio Tuca não chegou aos setenta e quatro. Chegou aos setenta e um. Mas nada durou tanto tempo como a vida do meu tio Tuca. Absolutamente nada. Nada nada nada.
O tio Tuca morreu pelas 5h da manhã. Eram 6h da manhã em Bruxelas. Os meus três filhos acordavam ao mesmo tempo e eu acordava com eles. O maridão na cozinha a tirar cafés. Um dos meus filhos a ler um livro, outro ao meu colo, outro na cadeirinha. 
Tantas saudades vou ter do meu tio Tuca. Que homem tão desassossegado, tão ele próprio. Era tanto do que sou e quero ser, e tanto do que não sou nem quero ser. 
Olho para os meus filhos e penso: Quando acaba a vida? Em que momento se apaga o fósforo e passamos a não existir? 
No quadro que o meu tio fez para mim há uma frase que diz assim: “Para falar com franqueza os rios estão sempre a nascer”.
Nunca uma sobrinha gostou tanto de um tio. E nunca um tio gostou tanto de uma sobrinha.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A minha mãe aos 70

A minha mãe faz hoje 70 anos. Não tem rugas nem botox. É uma mulher natural.
Toda a gente acha que é 20 anos mais nova. Eu cá tenho a certeza que a minha mãe é 20 anos mais nova.
Quase nunca está doente. Raramente se cala. Quase nunca se cansa. Quase sempre estrebucha, refila, parte a loiça toda e depois parte-se a rir. Não gosta de cozinhar nem de passar a ferro. Diz muitas vezes que se esquece da idade que tem. Eu também me esqueço da idade da minha mãe.
A minha mãe, aos 70, tem energia e paixão para dar e vender. Dança sempre que pode. Estica o seu próprio cabelo, arranja as próprias unhas. Não é de lamúrias nem de queixumes.
Nunca recusa um chocolate. Nunca recusa um copinho. Dantes bebia whisky. Agora só bebe vinho. E talvez conhaque. E também ginjinha. E cerveja, claro. Come queijo da serra, alheiras de caça, Magnum de amêndoas. Fumou durante décadas. Passou horas ao sol.
Numas coisas somos muito parecidas. Noutras somos o total oposto.
A minha mãe, aos 70, é muito mais nova do que muita gente nova que por aí anda. Parabéns, mãezinha! És uma inspiração.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

Rui Gonçalves

O Rui Gonçalves morreu.
Era um homem muito alto e muito magro. Vivia sozinho num apartamento em Oeiras. Não tinha filhos nem cães nem gatos.
Era amigo dos meus pais e também meu amigo. Ligeiramente louco. Profundamente preconceituoso. Homofóbico. Racista. 
Andava sempre armado. De manhã à noite. Dormia com a pistola debaixo da almofada. Mas não era um homem violento. Era até doce na sua loucura varrida.
Fazia paraquedismo. Não comia queijo. Contava histórias incríveis do Ultramar, mas só as que davam para rir no fim. Nós ríamos sempre no fim.
Durante a minha infância trazia-me prendas a toda a hora. Coisas pequenas e banais, que ele apresentava com grande pompa. Fazia introduções enormes a esses pequenos tesouros. Podiam ser berlindes. Lápis de cor. Borrachas. Pouco importava. Tinham uma história. Eram valiosos. 
Sempre que me dava um desses tesouros, o Rui fazia questão de esclarecer que aquela prenda era uma exceção. Que não ia estar sempre a trazer-me prendas quando nos viesse visitar. Ora essa, comentavam os adultos, claro que não. Os miúdos depois habituam-se, já se sabe. Mas a verdade é que o Rui me trouxe sempre prendas. Sempre sempre sempre.
Uma vez, eu e a minha vizinha Aurora estávamos sentadas no chão da sala a rir às gargalhadas. Não me lembro por que razão nos ríamos, mas sei que nos ríamos muito. O Rui observava-nos em silêncio, com aquela alegria triste dos adultos que perderam a infância. A certa altura virou-se para a minha mãe e disse: “Se há coisa que estas miúdas vão poder dizer é que tiveram uma infância feliz”. E depois virou-se para mim e para a Aurora - que ele tratava por “Orora com O grande” - apontou o dedo e disse: “Nunca se esqueçam que tiveram uma infância feliz”. Eu e a Aurora parámos de rir. Um pedaço da nossa infância talvez tenha chegado ao fim naquele momento. E foi uma infância feliz realmente, graças também ao Rui Gonçalves, que me trazia prendas sempre que ia lá a casa e fazia umas entradas muito cómicas nas minhas festas de aniversário: primeiro chegava a voz dele e depois talvez um braço ou uma perna e só depois ele inteiro.
Conheci-lhe algumas namoradas e também uma esposa, com quem casou duas vezes. Se bem me lembro, ele dizia “esposa”. Não dizia “mulher”. Eu adorava esta história dos noivos que se casaram duas vezes.
O Rui nunca gostou de nenhum dos meus namorados. Tratava-os com frieza e desdém. A semanas de me casar, foi até bastante indelicado com o meu futuro “esposo”. Inquisidor, severo, desagradável. Na altura levei a mal, mas agora levo a bem.
É que o Rui Gonçalves gostava à brava de mim. Nunca tive dúvidas disso. E não há muita gente de quem se possa dizer isto assim, sem reservas: que gostam à brava de nós.
Durante a minha adolescência, dizia-me coisas espantosas. Por exemplo, que eu devia sentir gratidão por ser uma pessoa normal e saudável, que a normalidade e a saúde eram preciosas, que o melhor que me podia acontecer na vida era ter uma relação como os meus pais tinham, uma relação para toda a vida, com intimidade e amor e sexo e família como ele nunca tivera. Também me dizia: “Promete-me que não te vais casar com um preto” e eu ficava sempre muito envergonhada e indignada com aquele pedido. Não podia prometer tal coisa. Como não? Claro que não. Ele desafiava-me: “Eras capaz de casar com um preto?” Claro que era. Que disparate. O Rui muito desgostoso. A insistir: “Por favor, não te cases com um preto.” E eu com a certeza adolescente de que me ia casar com um preto lindo de morrer, porque o destino é mesmo assim: mete sempre a pata na poça.
Volta e meia, perguntava-me pela “Orora com O grande”. Eu respondia sempre a mesma coisa: que nos tínhamos afastado, que eu não sabia nada dela. E o Rui ficava sempre assim, com aquela alegria triste das pessoas sem infância, a pensar na vida.
Durante uma fase da adolescência interessei-me pela implantação da República. Não sei por que raio, mas queria escrever qualquer coisa sobre essa época. Até já tinha um protagonista: um rapaz que fumava beatas do chão e ganhava uns tostões a trabalhar como ardina.
O Rui entusiasmou-se muito com a ideia. Durante meses trouxe-me fotocópias de livros que ele encontrava nas bibliotecas: imagens de ardinas, páginas sobre a revolução de 5 de outubro, apontamentos sobre o Partido Republicano Português. Infelizmente, nunca escrevi nada sobre a implantação da República, mas lembro-me muitas vezes do rapaz ardina. Era uma boa personagem. Talvez venha a existir um dia. Talvez se venha a chamar Rui.
No meu aniversário, o Rui telefonava-me e dizia-me apenas isto: “Saúde saúde saúde”. Eu dizia obrigada e perguntava-lhe se estava bem. O Rui nunca me respondia. Repetia “Saúde saúde saúde” e eu ria-me. Gozava à farta com aquela frase: “Saúde saúde saúde”. Se ele estivesse em casa, talvez me dissesse que estava a olhar para as fotografias que tinha na parede, que eu estava em várias dessas fotografias e que só me desejava “Saúde saúde saúde”.
Nos últimos anos desfez-se de tudo. Vendeu o apartamento, ofereceu o conteúdo da casa a este e àquele. Depois zangou-se com toda a gente. Depois adoeceu. E depois morreu um pouco mais sozinho do que antes, parece-me.
Neste último ano, enviou-me algumas cartas e recortes de jornais, incluindo artigos sobre os meus livros que ele encontrava aqui e ali. Agrafava uma
folha em branco à capa da publicação e explicava tintim por tintim onde e quando encontrara o artigo. Sublinhava algumas palavras a vermelho. Da casa do Rui herdei uma saladeira de porcelana que era dos pais dele. Uso-a muitas vezes. Tem um bom tamanho para saladas de fruta.
Nunca me vou esquecer do mantra “Saúde saúde saúde”. 
Nunca me vou esquecer que tive uma infância feliz. 
Nunca me vou esquecer do meu amigo Rui, esse homem improvável, louco e racista que andava sempre armado.
Parecia uma personagem de ficção, mas era um homem de verdade.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Isabel Minhós Martins

O Expresso elegeu as 50 pessoas que mais marcaram a vida dos portugueses em 2019. Ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, António Damásio e Dulce Maria Cardoso, está (e muito bem!) a escritora e editora Isabel Minhós Martins, autora da esmagadora maioria dos livros do Planeta Tangerina: álbuns ilustrados de topo e livros de não ficção que nos levam a pensar sobre todos estes fenómenos do mundo e da vida. O tempo, as estações, as árvores, as aves. A escola, o cérebro, o sono. O mar, o amor, o cabelo. Os quintais, os generais, os exploradores.
As palavras são de Gonçalo M Tavares e não podiam ser mais merecidas. Parabéns, Isa! É um privilégio trabalhar com você, viu?


segunda-feira, 6 de maio de 2019

Mãe é mãe

(O dia da mãe é quando uma filha quiser.)



Não é não. Já é já. Mãe é mãe.
A minha mãe de manhã. À tarde. À noite. 
A minha mãe na praia. Na cozinha. No shopping.
A minha mãe a cortar tomate. A comer chocolate.
A beber ginjinha. A dançar um sambinha. 
A minha mãe contente. Na boa vai ela. A abrir a janela. 
A fechar o forno. A secar o cabelo. 
A minha mãe no sofá. A falar ao telefone.
Cheia de sono. Cheia de ideias. Cheia de fome.
A minha mãe a fazer coisas. Colares, brincos, pulseiras. Sacos, mantas, quadros.
A minha mãe na feira do artesanato. A lamber um gelado. A cantarolar um fado.
A minha mãe de óculos escuros. A dar mergulhos.
A minha mãe a rir. A dormir. A jogar sueca. A jogar dominó.
A minha mãe no forrobodó.
A baralhar as datas. A baralhar as cartas. 
A viver a vida. A rir disto tudo. 
A minha mãe rápida. Frenética. Atarefada.
A minha mãe sempre. 
Feliz. Triste. Zangada. Concentrada. Como for. Como vier. 
A minha mãe. A minha terra. A minha mão.


terça-feira, 19 de março de 2019

O meu pai

O meu pai foi sempre o Pai Natal. Eu sabia que o meu pai era o Pai Natal. Eu acreditava no Pai Natal precisamente porque o Pai Natal era o meu pai. Ho ho ho!
O meu pai ri-se bastante. Da vida. Das pessoas. Das piadas secas. 
Às vezes fica a rir-se sozinho. 
O meu pai come uma laranja todas as manhãs. Lê o Expresso todas as semanas. Ouve jazz a toda a hora. 
Tem um certo fascínio por atrocidades e tragédias. Reis ingleses passados da cabeça, naufrágios marítimos. Compra livros. Lê. Conta os pormenores.
O meu pai não usa risco ao meio nem risco ao lado. Penteia o cabelo para trás. Usa barba desde sempre. Antes era quase preta, agora é quase branca. 
Uma vez cortou a barba no Algarve. A minha mãe quase teve um fanico. Lembro-me disso. E lembro-me de ter achado que o meu pai parecia uma pessoa diferente sem barba. Foi estranho.
O meu pai nasceu em Angola, viveu no Porto, cresceu na Parede.
Estava a fazer a tropa quando se deu o 25 de abril. Nessa altura não usava barba. 
É sempre o meu pai que me vai buscar ao aeroporto. Quando me vê, tira-me uma fotografia. Quer levar ele a mala.
Envia-me mensagens quando o Benfica joga. Envia-me fotografias da praia e da minha mãe. Compra-me revistas. Guarda-me artigos que talvez me interessem.
Faz as vontadinhas todas à minha mãe. Faz as vontadinhas todas aos filhos e também aos netos.
Quase nunca comenta os meus livros. Deste último achou que um dos textos era sobre ele. É capaz.
O meu pai é fixe. Eu gosto dele e ele gosta de mim.

Fim.
Ilustração da Joana Estrela para o “Aqui é um bom lugar”

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Leïla-Thérèse

A Leïla morreu. Chamava-se Leïla-Thérèse. E era tão nova. Tão alta. Tão viva.
Passei agora na rua dela, na porta dela. Número 25. O nome dela ainda lá está. Tirei um nome à placa, não sei porquê.
Em junho escrevemos-lhe um postal. Eu e a Laura. Estávamos juntas num café e gostávamos que ela se juntasse a nós em breve. Foi o que escrevemos.
Há meses que a Leïla não nos queria ver. Não queria ver ninguém. Respondeu-nos por email nesse mesmo dia. Que estava muito fraca, que precisava de recuperar do último tratamento, que aquele postal lhe dava força.
No meu dia de anos enviou-me uma mensagem linda. Eu respondi. Foi a última vez que falámos. Estive a ler isso tudo hoje. Os últimos emails. As últimas mensagens.
Há uns tempos encontrámo-nos no mercado. Lembro-me bem. Ficámos felizes por nos vermos. Ficámos tão felizes. Porque seria? Mais tarde falámos sobre isso. Por que razão estávamos tão felizes naquele encontro? Seria por estarmos no mercado? Seria por ser inverno? Seria por sermos amigas e vizinhas? Por ter sido um encontro não planeado, imprevisto, espontâneo? Realmente era bom encontrar uma amiga no mercado. Era bom encontrar uma amiga num dia de inverno. Mas não era bem isso.
Fizemos compras juntas. Os comerciantes conversavam com a Leïla, riam-se das suas piadas, que eram sempre agudas e sarcásticas. Eu disse-lhe que os comerciantes não se riam para mim. Ela fez uma piada qualquer, não me lembro exatamente o que disse. Apontei para uns dióspiros. Disse-lhe: "São tão bons, estes dióspiros." Ela disse: "A sério? Eu nunca comi um dióspiro." Como era possível? A Leïla, uma mulher tão rural, tão francesa, tão agrónoma, nunca ter comido um dióspiro. Rimo-nos. A Leïla comprou um dióspiro e prometeu-me que depois me diria se tinha gostado. (Gostou.)
No final das compras disse-lhe que estava feliz de a encontrar precisamente porque estava muito triste. Ela respondeu-me que também estava feliz por me ver porque também estava muito triste. Decidimos sair do mercado e beber um copo.
Sentámo-nos à janela de um bar de esquina. Estava frio. A Leïla propôs que bebêssemos vinho quente. Era uma bela ideia. O dia muito escuro lá fora e nós lá dentro, a bebericar vinho quente. Estava bom, não estava? Ui, que bom que estava. Falámos das nossas mágoas, das nossas esperanças. Haveríamos de sair dali menos tristes do que antes, menos frágeis, menos sóbrias. Eu disse mais uma vez que estava feliz por nos termos encontrado, estupidamente feliz. Era possível sentir felicidade na tristeza. A Leïla, tão doente, tão forte, tão viva, disse que o importante nesta vida era passar tempo com as pessoas de quem gostamos. Que o resto não valia um chavo. Eu concordei. Agarrámos nos nossos saquinhos de pano e nas nossas mágoas, e lá fomos à vida. Falámos deste episódio várias vezes. De como era bom encontrar uma amiga num dia triste. De como era bom beber vinho quente no inverno.
Quando o meu filho nasceu, a Leïla trouxe-lhe um orangotango. Rimo-nos com aquele boneco, inventámos vozes e gestos para ele. A Leïla disse ao meu filho que o ia levar a passear muitas vezes com aquele orangotango. E que um dia o ia raptar porque ele era um bebé muito lindo.
A última vez que a vi, foi ao longe. Eu vinha a saltitar pela rua com a minha cria e a Leïla vinha a caminhar devagar, quase sem forças. A Leïla tão doente. Tão triste. Tão fraca. Ela não me viu, mas eu vi-a. Abrandei o passo e fiquei a vê-la. A Leïla tão cheia de tristeza. Tão cheia de perda. E eu tão cheia de pena. Tão cheia de silêncio. Tão cheia de vergonha da minha sorte, da minha saúde, da minha cria. É possível sentir tristeza na felicidade.
Não nos falámos. A Leïla não ia querer a minha pena nem a minha vergonha. Eu sei disso. E agora a Leïla morreu e nunca vai levar o meu filho a passear com o orangotango. Nunca o vai raptar. E nunca mais vamos beber vinho quente.
Mas jamais me vou esquecer que fui feliz naquele dia triste, que encontrei uma amiga nesse dia de inverno e que, juntas, abrimos os nossos corações ao meio, como dióspiros. É que nem sempre é assim. Quase nunca é assim. E é pena. O importante nesta vida é passar tempo com as pessoas de quem gostamos.
O resto, realmente, não vale um chavo.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Uma vez servi hambúrgueres aos Xutos e Pontapés

Hoje é o último dia de novembro e começou a nevar em Bruxelas. O meu filho nasceu há três dias. Neste momento está com soluços. Era um dia quase perfeito, mas uma amiga deu entrada no hospital e o Zé Pedro morreu. Vejo a neve a cair e canto O Homem do Leme dentro da cabeça.
Uma vez servi hambúrgueres aos Xutos e Pontapés. É mesmo verdade. Foi numa roulotte do Rock in Rio. O Tim fez o pedido e eu cumpri todos os desejos: coca-colas, cervejas, batatas. O Tim olhou para a conta: "Eh pá, acho que te enganaste." Eu desculpei-me: "É que eu não sei fazer contas". O Tim ralhou-me. "Mau, mau, Maria". Fez uma piada qualquer sobre tabuada, a que se seguiu um esforço conjunto: eu e o Tim a fazer a conta juntos. Ora, um hamburguer assim, outro assado, colas, cervejas, este era com menu, o outro não era. Às tantas, admiti: "Não consigo concentrar-me". O Tim riu-se, chutou um número. Eu perguntei: "Mas eu enganei-me na conta para cima ou para baixo?" Ele disse: "Para baixo". Eu disse: "Então, não faz mal!" O Tim riu-se. Insistiu. Aquelas coisas de sempre: nem pensar, quero pagar. Eu disse que estava bem assim. Sou fã e tal.
"De certeza?" Eu disse: "De certeza". Ele disse: "Coitado do patrão!" Eu encolhi os ombros. O patrão era um tipo sujo e desonesto, mas eu não disse isso. Na verdade, não devo ter dito nada. E nem fiz uma piada sobre a minha alegre casinha. Fiquei para ali com cara de parva a dar uns quantos chutos à minha desconcentração. Depois eles foram-se embora, os Xutos e Pontapés, com aquele jeito inventado de serem rockeiros à portuguesa, os seus hambúrgueres e cervejas e coca-colas, e eu fiquei a vê-los ir com a sensação de que um dia escreveria sobre isso. O meu momento desconcentrado com os Xutos e Pontapés.
Neva lá fora e eu canto: "E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder".
Não há dias perfeitos. Não há salvação eterna. Não há deus que nos valha.
Mas há canções extraordinárias. E pessoas.
Incluindo alguns artistas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A minha mãe penteia os meus cabelos

A minha mãe penteia os meus cabelos e também as árvores e os rios. 
Os caminhos ficam muito direitos. As casas abrem as janelas.
A minha mãe estica o meu cabelo e também as nuvens e as ondas.
As aves voam mais alto. As flores falam mais baixo.
Tudo é maior e mais claro, quando a minha mãe penteia os meus cabelos.
O céu boceja. Prolonga os braços.
A minha mãe desembaraça as horas e também os meus cabelos.
O sol olha para o mundo com um certo espanto no rosto.
E a tarde pousa no chão como um milagre.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O meu pai

Porque hoje é dia do pai.
E é Natal quando uma pessoa quiser.

O Pai Natal não existe. O Fernando Pessoa também não.
Eu sempre soube disso.
O Pai Natal é o meu pai. E o Fernando Pessoa também.
O meu pai tem barba e ri-se muito, porque a vida tem piada.
Um dia apareceu sem barba e ninguém gostou.
O meu pai ficou triste, mas depois riu-se. Nós também. A barba voltou a crescer.
O meu pai come uma laranja todas as manhãs.
E escreve direito em linhas tortas.
E conhece todos os caminhos.
O meu pai tem o cartão da FNAC e sabe mexer no iPad.
E também sabe nadar. E fazer o nó de gravata.
E contar histórias macabras sobre monarcas ingleses.
O meu pai é do Benfica.
E eu sou do meu pai.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Na ponta dos dedos, a arte começa

Para a mãe, a maior artesã.


Na ponta dos dedos, a arte começa. Um pedaço de tecido, um pedaço de arame, uma planta, uma obra de arte. Concentra-se, sonha, faz. Sem música, sem nada, só a arte na ponta dos dedos. Um colar, uma flor, uma borboleta, uma outra natureza paralela. Abre as mãos amplas, põe um anel grande. Dedos longos, um anel grande. Faz as suas próprias unhas: corta, lima, trata, pinta, sopra. Unhas fortes e bonitas. As misteriosas mãos da minha mãe, uma obra de arte. A minha mãe, os pequenos prazeres da vida: um petisco, um café, um gelado, um mergulho, uma cerveja, ameijoas à bulhão pato, uma ginjinha. Caminha em frente, sempre em frente. Não sabe para onde vai nem por onde vai, esqueceu-se, vai em frente. Fala alto, ri-se alto, encolhe os ombros, Estou-me nas tintas. Dentes fortes e bonitos, gargalhadas fortes e bonitas. Um nariz sensível a todos os cheiros: ai, cheira-me a isto, ai, cheira-me àquilo. Cheiros paralelos. Sonha, cresce, faz, cheira, caminha em frente. As suas mãos cada vez maiores, cada vez mais belas, a minha mãe cada vez maior, cada vez mais bela, a ocupar todas as coisas no mundo – o mar, o sol, as montanhas –, a minha mãe igual a uma obra de arte. As misteriosas mãos da mãe, dedos longos, unhas fortes. Uma gargalhada. E na ponta dos dedos, a arte começa.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tia Lilita

Cada um faz o seu luto.

Alguns choram, outros nem tanto: ficam assim endurecidos, incolores, o semblante desabrido.

A tia Lilita morreu.

Não foi hoje. Também não foi ontem. Foi há muito tempo.
Não, não foi há muito tempo.

Via a tia Lilita nos casamentos, nos baptizados, nos Verões em São Pedro de Moel. Ultimamente, nos funerais. Pegava-me na mão com as suas duas mãos, repetia o meu nome várias vezes.

Uma vez, fui ao Porto almoçar a casa da tia Lilita. Uma vez só, não percebo. Foi no Verão de 2008, os primos de Hamburgo também estavam lá e o tio Pedro ainda era vivo. Chamou-me ao quarto, disse-me: «Diz ao teu pai que eu penso muito nele, nos nossos tempos lá em Angola.». Vim para Lisboa com esse recado ao colo e entreguei-o ao pai.

Era difícil chegar a casa da tia Lilita, tínhamos de subir muitos degraus e faltava-nos o fôlego várias vezes, mas nós disfarçávamos o esforço como podíamos, porque éramos jovens e saudáveis. A tia Lilita também tinha dificuldade em descer e subir tantos degraus.

A avó e a tia Lilita eram muito amigas. O avô e o tio Pedro também.

A tia Lilita foi a última a morrer.

Não, não foi a última a morrer, porque nós ainda cá estamos (somos jovens e saudáveis) e, depois de nós, virão outros e, depois deles, outros, para que nunca tenhamos tempo de lembrar os que vieram de Angola.
Cada um faz o seu luto.

A mim deu-me para ler O Retorno da Dulce Maria Cardoso. O retorno de África contado na perspectiva de um adolescente. Acabei de ler o livro esta semana. Tantas coisas que ficaram por saber desse retorno.

Consta que a Dulce Maria Cardoso era adolescente quando veio de Angola. O meu pai também era adolescente, mas não é retornado, porque veio antes do retorno. O pai não quer ler O Retorno, porque não é retornado. Diz-me: «Eu não sou retornado» e, de facto, não é.

A tia Lilita foi a última a morrer. A última dos nossos. Dos que foram para Angola construir estradas e outras coisas (não sei bem o quê).

A tia Lilita casou por procuração. Só depois partiu para África. Que viagem foi essa, que nunca me foi contada? Que cartas escreviam entrementes? O tio Pedro deve ter ido buscar a tia Lilita. Que encontro foi esse? A tia Lilita talvez viesse vestida de noiva, não sei. Que história foi essa, que nunca ma contaram? Eu também nunca pedi para ma contarem, acho.

Não, isto não é verdade. Agora, lembro-me. Um dia a tia Lilita contou-me essa história, mas eu estava tão distraída a pensar na ideia de casar por procuração que não devo ter ouvido. A ideia de casar por procuração era fascinante. Dava para escrever uma longa carta em papel de pergaminho, talvez: «Meu mais prezado amigo», «para o meu mais que tudo», «o meu coração é uma andorinha», gosto de imaginar frases para estas cartas. Onde estão essas cartas? Como trocar alianças por procuração? Quem assinaria o papel primeiro?

A tia Lilita morreu.

E agora sim. Já não há ninguém para contar as histórias que ficaram por contar.

Tanta falta de tempo para as histórias dos outros. Sei tão pouco desse retorno, dessa vida.
Cada um faz o seu luto.

A mim dá-me para escrever.
O tio Pedro também era assim, parece-me.

Onde anda o livro do tio Pedro? Gostava de o ler.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Avó

Sétimo dia.

A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.

Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.

A Avó não morreria nunca.

Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.

Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.

Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.

Uma outra avó.

Eu digo Avó e não a minha Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.

Dizia-me: Não precisas de dizer o meu pai ou a minha mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o teu pai e a tua mãe.

Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.

Para bom entendedor.

Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.

De uma frase:

Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".

A avó não dizia o que os outros dizem.

A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."

Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.

Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.

A Avó.

Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.

Morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Uma espécie de milagre.

Segunda verdade:
Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.

A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.

Uma outra avó.

Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.

Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.

Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.

Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.

A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o Avô no Céu.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Victor

Para a Tanya, o Vladi e o Victor.

Ainda não conhecemos o Victor, mas imaginamo-lo moreno e brando como certas tardes de Outono, os dentes alinhados num sorriso bom.
Ainda não conhecemos o Victor, porque o Victor ainda não nasceu.
O Victor vai nascer daqui a pouco, hoje mesmo, pelas 18 horas, mais coisa menos coisa.
(No final do texto, é provável que já tenha nascido.)
Ninguém conhece o rosto do Victor, nem mesmo os pais, porque o Victor esteve sempre escondido no ventre da mãe, a olhar para as suas mãos.
Gostaríamos que o Victor tivesse nascido ontem, não por ter sido domingo, mas por ter sido o nosso dia de anos. Seria uma coincidência feliz e teríamos algo em comum com o Victor. No entanto, o Victor não quis nascer no domingo.
O Victor não mostra o rosto a ninguém. O Victor não deu a cambalhota quando devia. Quando a mãe come doces, o Victor dá pontapés.
O Victor quis nascer na segunda-feira, embora não possamos dizer com toda a certeza que o Victor tenha nascido na segunda-feira, porque o Victor ainda não nasceu.
A mãe do Victor, que é morena e branda como certas tardes de Outono, não gostava de chocolate antes de o Victor existir.
O Victor mudou o mundo antes mesmo de nascer.
Imaginamo-lo moreno e brando como certas tardes de Outono, os dentes alinhados num sorriso bom, as mãos nos bolsos, encostado ao muro da escola a fazer promessas de amor em búlgaro, uma língua de sons secretos, de alfabeto secreto, inatingível.
O Victor ainda não nasceu, mas já existe há muito tempo.
Simpatizamos com o Victor.
Porque gosta de chocolate. Porque não deu a cambalhota quando devia. Porque mudou o mundo antes de nascer. Porque decidiu nascer no dia 9 do 8 do 10. O Victor deve ter jeito para números.
O Victor tem uma personalidade forte. Gostamos de pessoas assim.

sexta-feira, 19 de março de 2010

As cartas do pai parecem pautas de música

Para o melhor pai de todos.

O meu pai escreve-me cartas. São feitas de papel de verdade e vêm impecavelmente dobradas ao meio, como mapas de tesouros. As cartas do pai vêm dentro de envelopes de verdade que exibem selos de verdade e chegam às minhas mãos a meio da semana, misturadas com recortes de jornal. Rasgamos o envelope com os dedos ou então com os dentes ou então com uma tesoura ou com a ponta de uma caneta. Rasgamos o envelope de qualquer maneira. Lemos as cartas do pai antes de vermos as capas das revistas ou dos jornais que nos envia. Lemos as cartas do pai antes de tudo o resto. As cartas do pai demoram quatro páginas, as quais demoram todo o tempo do mundo. Cada página demora muitas letras. Cada letra é longa como uma semibreve. As cartas do pai parecem pautas de música, porque as letras são altas e delgadas como claves de sol e caminham ordeiras pelas páginas alvacentas. As cartas do pai parecem pautas de música, também porque têm o ritmo e o som de canções conhecidas. Contam-nos a história das horas e das pessoas, dos centros comerciais, da cidade de Lisboa, do fim-de-semana passado, do próximo fim-de-semana, das actividades da Dona Lina e da Dona Amélia, das peripécias do Dom Rodrigo, dos horários do filho que entretanto se fez pai. A letra do pai é atilada e traz adornos suaves nas pontas e nos acentos. Com as cartas do pai chegam outras histórias: recortes do Expresso, da Visão, da Revista Única, do Público, que são receitas de cozinha, entrevistas, faits divers de Hollywood, crónicas da Clara Ferreira Alves, reportagens sobre lugares desconhecidos no mundo. Não sabemos quanto tempo o pai se demora na escrita e nos seus recortes, quanto tempo se demora nos correios. Também não sabemos quanto tempo nos demoramos na leitura. Provavelmente todo o tempo do mundo, que é quanto demoram as quatro páginas. As cartas do pai viverão certamente mais tempo do que nós e, por isso, escondemo-las numa caixa que escondemos, por sua vez, na casinha dos livros. Faríamos o mesmo a outros mapas de tesouros. Nem sempre leio todos os artigos que o pai me envia, porque me falta o tempo ou o espaço ou outra dimensão qualquer. Também não respondo às cartas do pai. Provavelmente pelas mesmas razões. O pai escreve na mesma. Gostaria de ser melhor filha para merecer o melhor pai de todos, cujas cartas parecem pautas de músicas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Miúxa

Para a Miúxa,
que nasceu no Dia de Reis
para desviar a atenção do Menino.

Por norma, chega a casa com paisagens dentro da cabeça.
Os outros trazem outras coisas dentro da cabeça: recordações do próprio dia, planos para o dia seguinte, contas por pagar, sentimentos de culpa, expectativas, raciocínios, argumentos. Mas a Miúxa não. As paisagens que traz dentro da cabeça são como fotografias, porque têm cores e são mais concretas do que certas memórias concretas. No entanto, não são como fotografias, porque crescem dentro da sua cabeça como árvores e são tão profundas como o mar. Nos tempos livres, pensa nessas paisagens. Também vê as paisagens dos outros ou lê as paisagens dos outros. Por exemplo, as narrativas de José Saramago ou os livros que os outros recomendam. Ou então, livros policiais. Além disso, gosta de cozinhar, porque tem jeito nas mãos para manejar o forno e construir castelos de claras. A Miúxa gosta de doces e de fazer doces para os que gostam de doces.
Por norma, chega a casa com paisagens dentro da cabeça.
Nessa casa, além da Miúxa, vivem o marido, o filho, o passarinho, a tartaruga e a gata Nani. A Miúxa escreve sobre a sua casa e todos estes seres que habitam a sua casa, mas sobretudo, sobre a tartaruga, que vive na despensa. A Miúxa escreve, igualmente, sobre as suas paisagens. Por vezes, desenha-as no papel ou no próprio computador. Por causa do jeito que tem nas mãos, também passa as suas paisagens para a tela. Os quadros da Miúxa têm pedacinhos de Monserrate, de Monet, da praia de São Pedro. A Miúxa vive na cidade, mas é possível que preferisse morar longe da cidade. Não sabemos. Por ser Dia de Reis, imaginamos que esteja, neste preciso momento, a desmontar o seu presépio. De outra maneira, talvez estivesse a fazer um bolo de iogurte ou de noz. Gostamos de doces, em geral, e dos doces da Miúxa, em particular. Também gostamos dos quadros da Miúxa. Na verdade, gostaríamos de plantar as paisagens da Miúxa na nossa casa, mas receamos que sejam difíceis de criar em vaso. Como as pessoas. E as ervilhas-de-cheiro.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A mulher de avental não está de avental, mas é como se estivesse.

Para a primeira de todas as mulheres de avental.

A mulher de avental está na cozinha, mas não está a cozinhar nem a lavar a loiça, por isso não está de avental. A cozinha da mulher de avental é a mais bonita de todas as cozinhas, a mais ampla de todas as cozinhas, a mais luminosa. Tem uma janela enorme, mais alta do que as pessoas mais altas e também mais larga do que as pessoas mais largas. A janela da cozinha mais bonita de todas as cozinhas tem o tamanho de uma parede e a mulher de avental está de frente para ela. Observa, agora mesmo, o alpendre da sua casa, o jardim, o pátio longuíssimo. A relva está molhada e muito sozinha por causa do Inverno e da chuva que ele chora. No centro da cozinha há uma mesa de jantar e a mulher de avental está sentada num canto dessa mesa. Por cima da mesa há uma toalha lindíssima e nada mais. A toalha de mesa foi bordada e oferecida pela tia. A roupa jamais secará com aquela humidade. Isto pensa a mulher de avental, enquanto segue os caminhos abstractos da toalha com o dedo indicador. A vida é mais lenta no Inverno, vai por aí, arrastando-se pelo chão da cozinha como uma tartaruga, esconde-se num canto para hibernar. Era o penúltimo dia. A chuva faz barulho ao cair e incomoda os ouvidos e também os olhos, porque não deixa ver mais além. A mulher de avental observa tudo isto e come, cheia de tempo, uma mousse que parece ser de chocolate, mas não é. A mulher de avental come uma mousse de alfarroba e não uma mousse de chocolate. É provável que a mulher de avental goste mais de comer mousse de chocolate do que mousse de alfarroba, mas, neste preciso momento, o seu paladar não está na boca nem no céu da sua boca nem na ponta da língua nem nas papilas gustativas. O paladar da mulher de avental está nos olhos e estes saboreiam a vista ou a falta dela. Não se pode jogar futebol quando a relva está molhada. Por causa disso, não há crianças no pátio, nem vozes, nem jogos, nem nada de nada. Apenas a relva molhada e as casas iguais àquela. A cozinha é muito mais bonita na Primavera, quando o sol vem iluminar a bancada, a cesta de frutos, os electrodomésticos e as peças de alumínio, de vidro, de porcelana. A mulher de avental faz anos no penúltimo dia do ano. Há 38 anos que é assim. Faz o balanço do ano no penúltimo dia. Também faz o balanço dos 38 anos. Faz, portanto, dois balanços ao mesmo tempo. A mulher de avental não está de avental, mas sim de lenço na cabeça, porque perdeu o cabelo. Também emagreceu. Tudo isto se passou em 2009. Proclama aquele ano como o pior de todos os anos. A mulher de avental pensa nisto e não se sente propriamente triste. Noutros dias, sim, sente-se triste, mas hoje não, porque é o penúltimo dia e não o primeiro nem o segundo. Segue, novamente, os caminhos abstractos da toalha com o dedo indicador. A sua esperança é maior do que a janela enorme, ou seja, é maior do que as pessoas. A mulher de avental não está de avental, mas é como se estivesse, porque está a trabalhar a vida como quem trabalha a massa. Decide: Tudo será diferente em 2010, quando a Primavera entrar na cozinha. E levanta-se.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O meu avô e eu

Para o meu avô.


O meu avô morreu. Chamava-se Fernando Pessoa, mas não era poeta, era engenheiro.
Quando decidi estudar alemão na universidade, bateu-me nas costas três vezes. Disse-me que eu era a primeira da família a estudar Letras. (No peso da sua mão estava o peso da família inteira.)
O meu avô batia-me nas costas três vezes, quando eu fazia qualquer coisa acertada ou quando ele pensava que eu tinha feito alguma coisa acertada.
Também me disse que o alemão era uma língua fácil para quem tinha estudado latim. (O alemão é uma língua difícil, mesmo para quem tenha estudado latim, mas eu nunca disse isto ao avô.)
O meu avô não discutia as suas ideias: a própria ideia de discutir ideias irritava-o.
Ninguém discute com o avô Fernando.
O meu avô conta uma história e abre muito a mão direita para mostrar a dimensão da sua história, da sua inteligência, do seu feito. O meu avô conta uma história, várias histórias, mil e uma histórias, sempre as mesmas histórias. Fala dos pretos, de África, do Antigo Regime, diz mal de quase todos os povos, e todos o ouvimos respeitosamente. Ninguém discute com o avô Fernando.
Certo dia, quase sem querer, saí de Portugal. Estava na Alemanha há cerca de um ano e o meu avô sentou-se ao meu lado.
(Foi a primeira e única vez que o meu avô se sentou ao meu lado.)
Disse-me: Sobre essa tua decisão de viver no estrangeiro, interessa-me saber uma coisa. E nisto abriu a tal mão direita, para me mostrar o peso dessa coisa.
(Até então, eu não tinha consciência de ter tomado decisões na vida. A ideia de ter decidido viver no estrangeiro assustava-me.)
Prosseguiu: Eu queria saber, justamente, qual é o teu objectivo. E repetiu, apontando para mim: O teu objectivo.
Nessa altura e mesmo hoje em dia, fixar objectivos parece-me uma tarefa tão ou mais difícil do que aprender alemão, por isso, em vez de falar sobre temas difíceis, falei de outras coisas: da Alemanha, dos alemães, da importância daquela experiência. Falei também da Europa, de como era fácil viajar na Europa, de como o mundo estava tão perto. Disse-lhe ainda que queria estar sozinha, fazer qualquer coisa sozinha, descobrir qualquer coisa sozinha. O meu avô ouviu tudo isto com muita atenção, mas no final perguntou-me: E o teu objectivo? Qual é o teu objectivo?. Insistiu: Tens de ter um objectivo!. Encolhi os ombros. Respondi-lhe que o meu objectivo era conseguir. O meu avô bateu-me três vezes nas costas e levantou-se. Eu levantei-me também. Depois repetiu com o ar mais sério do mundo, como se o meu futuro começasse ali: O teu objectivo é conseguir.
O meu avô só não foi poeta, porque não quis.
Quando eu crescer, quero ser poeta. E conseguir como ele conseguiu. Para que ele me bata nas costas três vezes.