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quarta-feira, 29 de abril de 2020

O meu acessório essencial

Amanhã é quinta, hoje é quarta, ontem foi terça-feira, 28 de Abril de 2020. A Penélope Cruz fez 46 anos. Os gémeos fizeram oito meses. E eu fiz uma salada de quinoa e feta que ficou bem boa.
O mais velho espetou-se de bicicleta. Foi numa descida do parque. Contra uma cerca.
No regresso a casa apanhámos uma molha daquelas. Constatei que o meu filho tinha vivido duas primeiras vezes de seguida: primeira espeta e primeira molha.
Chegou-me o período. Lavei o cabelo. Escrevi um texto.
Senti um amor carnal pelos meus filhos. Tive necessidade de os morder e apertar. O leitãozinho mais novo riu-se às gargalhadas com as minhas dentadas.
Abri “O livro do ano” do Afonso Cruz. Dei com esta entrada no dia 28 de abril:

“Não é preciso ser cientista para compreender as árvores. É só preciso ser pássaro. Ou Abril.”


O mais velho andou à solta no nosso quarto. Descobriu os meus fios e colares. E também as minhas pulseiras e pregadeiras. Já não me lembrava de nenhum destes acessórios.
Uma vez no cabeleireiro dei com uma revista de moda que dizia na capa: “acessórios essenciais”. Nunca mais me esqueci desta antítese. Não há nada essencial num acessório. O acessório é, por definição, acessório. Mas percebo a ideia de acessórios essenciais.
Li um post muito fixe da Matilde Campilho. Era sobre dois artigos de jornal. 
Nunca escrevo sobre jornais. Nunca escrevo sobre o mundo. Nunca escrevo sobre os outros.
Se calhar devia dar um passeio fora da minha cabeça, fora da minha vida. 
Não vai ser hoje. Não vai ser ontem, terça-feira, 28 de Abril.
Comi chocolate “caramel au beurre salé”. Pus um dos fios que o meu filho descobriu na gaveta. Olhei-me ao espelho, não senti nada.
No fim do dia, o mais velho deu-me uma cabeçada na boca. Foi um acidente. Sangrei e vi estrelas.
O peixe congelado que comemos ao jantar estava passado.
À noite estive a ver o livro das cores e dos cheiros com o mais velho. Na página verde inventei uma história muito fixe com os vários elementos: era um crocodilo que gostava muito de ervilhas, uma tartaruga que gostava muito de pepino e uma árvore que gostava muito de alface.
O biberão da noite derramou-se no pijama do mais velho. Coitado. Teve mesmo um dia péssimo.
À hora de dormir escrevi este texto sobre o dia terrível na vida do meu filho. Mas afinal não é bem um texto sobre o dia terrível na vida do meu filho. É só um texto sobre um dia. E não é sobre o meu filho, é sobre mim. Que chato.
Nada a fazer. Eu escrevo sobre mim. Para mim. Por mim. Contra mim.
Escrever é viver outra vez. É existir de um lado e do outro. 
É apanhar duas molhas. É levar duas cabeçadas.
Escrever é dar um passeio dentro da cabeça. É ser pássaro e cientista. É ser o dia de ontem: 28 de Abril de 2020.
Escrever é o meu refúgio, o meu abrigo. O meu acessório essencial.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Escrever com os pés

De vez em quando farto-me das canetas, das tampas das canetas, do barulho das canetas, das folhas com quatro vértices, das palavras.
Da escrita.
Da escrita?!
Sim, da escrita.

Um texto é um texto. Acaba no fundo da página, com um ponto final ou um ponto de exclamação ou de interrogação.
Por vezes adormeço na ponta dos dedos. Outras vezes, insisto na caneta e troco de cenário, de posição, de cadeira. Mudo de página ou então de letra.
Agora vou fazer letras compridas.
Nos momentos de parvoeira, seguro a caneta de formas esquisitas.
Agora sem o polegar, agora sem o indicador. Invariavelmente, espeto-me contra a página.
Também escrevo de maneiras invulgares.
Que maneiras invulgares?
Sei lá. De trás para a frente. De baixo para cima. Da direita para a esquerda. Aos círculos, aos ziguezagues. Brinco à poesia concreta. Por exemplo: concreta, Creta, careta, coreta. Brinco à caligrafia. Vou fazer uma bolinha no "i".
Em ocasiões espicaçantes, até escrevo de pé. Enquanto espero por alguém ou por alguma coisa. Pouso o caderno na palma da mão esquerda e dou-lhe com a direita. No meio da rua, ao frio e ao vento.
Quando o caderno é magro, é como se escrevesse na mão. As palavras ganham consistência. Fazem-me cócegas e eu rio-me. Fujo delas e, logo a seguir, encoraja-as. Trago as palavras na palma da mão. É divertido.
Gostava de escrever de pé mais vezes.
Felizmente, o IKEA já anda a vender umas mesas ajustáveis há uns meses.
A bem da coluna vertebral e da escrita vertical.
Vou escrever com os pés.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O meu afia

O meu afia tem o parafuso no sítio e uma boca perfeita. É um afia clássico. Tem corpo de metal e faces curvilíneas para acomodar os dedos.
Por vezes, desaparece. Não o vejo durante dias. Fico desamparada.
Eu gosto de afiar lápis, de lhes torcer o pescoço. Giro o grafite e fico a assistir à queda das aparas, a ouvir o barulho do corte. É um espetáculo bonito.
Não há arte sem sacrifícios. O lápis diminui, a expectativa aumenta.
O meu afia aguça-me a mente. Fico aprimorada e pontiaguda. Até dói.
Eu digo afia-lápis. Não digo aguça nem afiador ou afiadeira. Nem apara-lápis ou apontador de lápis.
Um lápis bem afiado é uma arma. Um bom afia também.
O primeiro perfura, o segundo corta.
Afiar é um desporto de alto risco. Eu pratico e gosto.
Infelizmente, não tenho grande jeito. Arranco nacos de madeira aos meus lápis elegantes. Os bicos esmorecem e caem.
Tenho mãos grandes e uma vontade sôfrega.
O meu afia desafia.
Eu gosto disso.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Folhas soltas

Não há nada mais solto do que escrever em folhas soltas.
A letra sai folgada e espaçosa, as palavras são desprendidas, não pertencem a ninguém.
As folhas soltas são livres e independentes, sabem a mar e a vento.
É possível fazer uma bola com uma folha solta. Um barco, um avião. Outra coisa qualquer.
Algumas folhas soltam-se e nunca mais regressam. São devassas e infiéis.
Tenho saudades de escrever em folhas soltas. No verso de papéis antigos, em folhas de rascunho.
Algumas folhas soltas dizem uma coisa de um lado e outra do outro. Por vezes, são feias porque vêm riscadas, emendadas, desalinhadas.
Alguns livros não deviam ser livros.
Deviam ser publicações abertas. Uma caixa de folhas soltas. Um envelope. Um dossiê.
Poemas e histórias desapertados. Sempre dava para atirar literatura pela janela.
Toma lá um conto da Alice Munro.
Um poema do Alexandre O'Neill.
Uma carta do Albert Camus.
Uma folha solta é espontânea e criativa. Desenlaça uma história sozinha. Foi assim com o Paperman. Era assim comigo.
Eu já não escrevo em folhas soltas, não sei porquê. Tenho cadernos previsíveis de folhas muito presas. Sou mais organizada, menos desenfreada, menos desunida. Tenho prisão de ventre.
O mais próximo que tenho de folhas soltas é um caderno de argolas. Pelo menos, dá para arrancar as folhas e libertá-las da ordem. E abaná-las. Amachucá-las. Deitá-las no lixo. Pô-las de castigo na gaveta.
Mas as folhas arrancadas não são folhas soltas.
São folhas tristes e abandonadas.
Não são rajadas de letras.
Não são desenfreadas.
Não sabem a vento.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Michael Cunnigham

Estive à frente do Michael Cunnigham. Era preciso esticar o pescoço para o ver como deve ser, mas o esforço fez-me bem à coluna. Acho que estou mais alta. A certa altura perdi a vergonha e agarrei no microfone. Fiz-lhe perguntas e ele respondeu.
No final pedi-lhe um autógrafo no meu exemplar fora de horas.
Ele perguntou: "E escrevo o quê?" Eu: "Um conselho para jovens escritores".
Ele escreveu:

To Ana,
Don't panic.
(really)
Michael Cunnigham

Depois pedi-lhe outro autógrafo noutro livro. Ele escreveu:

To Ana,
Never stop.
Michael Cunnigham

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A letra morta das canetas

Passa-se algo com as minhas canetas.
Em poucas semanas já finaram umas quatro ou cinco e a morte é sempre súbita. Zás, morreu. Falta-lhes o fôlego e sai-lhes um último suspiro de tinta, a sílaba derradeira, é triste. Resta-me sacudi-las na esperança de que voltem à consciência, mas isso nunca acontece. Ficam para ali mudas e vazias, já não há mais caneta para ninguém.
Isto incomoda-me bastante, sobretudo porque me morrem sempre nas mãos, às vezes mancham-me os dedos, é aborrecido.
À primeira vista trata-se de mortes naturais, mas esta quantidade considerável de canetas moribundas não me parece nada natural.
Fiquei mais atenta à minha escritura e começo a desconfiar da minha mão direita.
Se calhar os meus dedos andam a assassinar canetas e eu ainda não dei por isso. Sugam-lhes a tinta às escondidas. Ou asfixiam-nas assim: polegar contra indicador.
É bem possível.
Mas não há como provar isso.
Já se sabe que, na escrita, a justiça ficou no tinteiro. Não passa de letra morta.
A história é escrita pelos vencedores.

E em terra de canetas, quem sabe escrever é rei.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A felicidade é escrever um postal

A felicidade é escrever um postal.
Escrever um postal é dizer tudo dentro de um quadrado. 
É como fazer um puzzle, mas não tem nada a ver com um puzzle.
É como andar de mão dada a alguém, mas não é como andar de mão dada.
Gosto especialmente de lamber o selo.
Lamber o selo é felicidade.
Infelizmente, já não é preciso lamber o selo. 
Os selos agora são proativos. Já vêm pegajosos.
Mas antes, quando era preciso lamber, eu lambia e tinha bastante jeito, parece-me.
Se houvesse um concurso de lamber selos, eu chegaria, pelo menos, às semifinais.
Sou lambona.
Hoje estava à procura de uma coisa que não tinha nada a ver com isto e encontrei um postal gratuito da Coca-Cola. 
Tenho esta mania dos postais gratuitos. É piroso, eu sei.
O postal trazia o Pai Natal original e a frase Share happiness. 
O Natal é quando uma mulher quer, por isso decidi partilhar felicidade.
Enviar um postal a alguém é felicidade.
Receber um postal também é felicidade.
Escrever um postal é gostar de alguém dentro de um quadrado.
E eu gosto disso.
Sou quadradona.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Papel, canetas e escrita

Há várias coisas que me irritam. Uma é passarem-me à frente na fila; outra é ter vontade de escrever (o que implica tempo, espaço e energia) e não ter à mão um pedaço de papel ou uma caneta.
Esta situação irrita-me de tal maneira que se me rebentam na cabeça palavras zombeteiras como bombinhas de Carnaval e eu cerro os olhos e os punhos com muita força, ranjo os dentes. Fico assim durante horas. Nas semanas seguintes, esta irritação de pele fica a morar nos meus dias e nos meus sonhos, é insuportável. Não quero que esta situação se repita, acordo encharcada em suor durante a noite, faço tudo ao meu alcance para que nunca me falte papel nem canetas nem escrita.
(Nada me parece mais importante do que papel, canetas e escrita. É ridículo.)
Durante esse período de prevenção, compro, por exemplo, um caderno de argolas e folhas pautadas ou uma caneta azul Stabilo 0.4, uma esferográfica preta Staedler triplus ball M, uma caneta mais clássica, mais cara, talvez uma Sheaffer maneirinha, um diário de capa dura e folhas lisas, um caderno ainda mais pequeno, muito engraçado, com um elástico à volta para andar na bolsinha mais pequena da mala, uma caneta minúscula para trazer dentro da agenda, uma agenda com páginas em branco no fim, um exemplar amarelo de uma edição especial da Moleskine com o Pac Man, coisas assim. Além disso, colecciono folhas de rascunho no escritório, folhas de rascunho em casa, faço cadernos pequeninos com folhas velhas, compro cadernos reciclados porque são reciclados, uma caneta bonita porque é bonita, uma caneta simples porque é simples, uma lapiseira porque é uma lapiseira.
Por vezes, quando mudo de mala reparo que andava a passear cinco canetas e três cadernos. Reparo também que, durante um período de tempo desconhecido, não utilizei nenhuma das canetas nem nenhum dos cadernos para o efeito devido. Começo, por isso, a desistir das canetas e dos cadernos um a um: este caderno foi ao mercado, esta caneta ficou em casa, esta lapiseira comeu rosbife, e assim por diante.
É evidente que, quando chega a vontade de escrever (o que implica tempo, espaço e energia), não tenho um pedaço de papel na mala nem uma caneta. Volto, pois, a cerrar os olhos e os punhos e a ranger os dentes, ouço as tais bombinhas de Carnaval nos ouvidos, talvez solte um gemido ou um guincho; provavelmente um rugido.
Nos dias piores, tenho papel, mas não caneta. Não há nada mais frustrante do que ter papel e não ter caneta. É como ter um cigarro, mas não um isqueiro nem um fósforo nem um pedaço de madeira seco nem coisa que o valha. Escarafuncho a mala à procura de uma resposta, igual aos maluquinhos que vasculham os caixotes do lixo. A eterna esperança no movimento dos braços, risível como uma bombinha de Carnaval, como uma palavra zombeteira.
A título de exemplo, hoje trago um caderno de folhas lisas na mala e uma caneta, mas não me apetece nada escrever.
A propósito de tudo isto, lembro-me do seguinte: O caderno amarelo com o Pac Man continua à minha espera, deitado na prateleira de baixo da casinha dos livros. No entanto, quando o comprei, há cerca de dois meses, parecia não haver no mundo coisa mais urgente do que comprar um exemplar amarelo da edição especial da Moleskine com o Pac Man. (Não fosse a edição esgotar-se e a oportunidade perder-se para sempre.)
Esta recordação do caderno amarelo irrita-me ainda mais do que não ter papel ou caneta.
É como ter mais olhos que barriga.
Mais fama que proveito.
Mais buracos que um queijo suíço.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Três desejos

Brevemente neste blogue, um dos três desejos.

Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Estes eram os três desejos do narrador que, apesar de minúsculo, comia Kinder Surpresa como gente grande. Os desejos eram também maiores do que ele próprio, como certos sonhos de infância. Queria, urgentemente, uma história, uma personagem, um discurso diarístico. Na verdade, queria qualquer coisa que não aquele silêncio. Urgentemente.
Nos tempos livres, o narrador costumava brincar com as retroexcavadoras cor-de-laranja que descobria dentro dos ovinhos, mas ultimamente só tem comido o ovo de chocolate e deita fora os brinquedos.
O autor é mais maduro do que o narrador. Além de nada desejar, veste uma misteriosa gabardina preta para o proteger da chuva, do vento e dos outros. Comporta-se, aliás, como os gatos: senta-se contemplativo no parapeito da janela, mas o narrador não tem a certeza se o autor contempla alguma coisa, porque não mexe a cabeça nem as orelhas nem os olhos nem as patas. Ninguém contempla imóvel.
Era a opinião do narrador. À falta de metafísica naquela casa, come chocolates, mas não brinca. Tem três desejos mais fortes do que ele próprio.
Diz em voz alta: Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Repete: Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Depois grita, chora, esperneia.
O autor está virado para a janela, por isso não lhe vemos o rosto. Está tão quieto que mais parece uma estátua. Há quatro semanas que não se mexe (na verdade, o narrador tem medo que o autor tenha morrido à janela).
Por vezes, aproxima-se devagar do parapeito, põe-se em bicos dos pés para tocar na cauda longuíssima do autor, mas depois arrepende-se. Regressa ao seu cantinho, mais pequeno do que antes.
Hoje, no entanto, pela hora de almoço, algo acontece:
Belgavista é nome de peixe.
É o que diz, de repente, o autor. Depois salta para o chão e começa a lamber as próprias patas. É previsível que, além da vontade de escrever, tenha uma pontinha de fome. Daí a alucinação.
O narrador dá um pulo de contente, mas continua a comer chocolate. Na sua modesta opinião, Belgavista não é nome de peixe.
Mas isso, agora, pouco importa.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os que escrevem

Os que escrevem nem sempre escrevem. Às vezes fazem outras coisas. Por norma fazem outras coisas. O autor e o narrador deste texto supõem que os outros, que fazem outras coisas, também escrevem. Os que escrevem nem sempre escrevem. Por vezes mascam pastilhas elásticas. Andam de comboio. Vão ao mercado. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. O autor deste texto, na verdade, prefere comer chocolate a escrever. O narrador não, gosta mais de escrever. Por vezes nem o autor nem o narrador escrevem, ficam a meio, entre o pensamento e a escrita. Por vezes a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Por norma a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Às vezes os que escrevem lêem o que os outros escrevem. Gostam do que os outros escrevem. Têm inveja do que os outros escrevem. Às vezes têm medo.
Uns escrevem mais que os outros, melhor que os outros, mais forte que os outros, mais opaco. Os que escrevem só têm isso em comum: escrevem. Nem todos os que escrevem são escritores. A maioria é outra coisa. Alguns são tradutores. Ou medíocres. Ou as duas coisas. Os que traduzem põem noutra língua o que os outros escrevem. Os que escrevem também viajam. Também compram pão. Também vão à livraria Galileu em Cascais comprar o último romance do José Eduardo Agualusa. Também vão à praia. E a Aveiro. No comboio. Alfa pendular. Os que escrevem nem sempre escrevem no comboio. Às vezes ouvem música. Ou lêem o que os outros escrevem. Ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Outras vezes não fazem nada. Mascam pastilhas elásticas. Ou olham para a capa do último romance do José Eduardo Agualusa.
Os que escrevem têm medo. Da noite. Do dia. Do lobo mau. Dos cabelos negros do Agualusa. De Angola. Os que escrevem compram livros, mas nem sempre os lêem. Os que escrevem são iguais aos outros. Medíocres, pequeninos, invejosos. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. Só isso.
Tenho medo do José Eduardo Agualusa.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1 de Abril

No dia 1 de Abril o narrador convenceu o autor a escrever.
Se ainda não se espantou, espante-se.
Repito: o narrador convenceu o autor a escrever.
Jamais se vira uma coisa assim. Era um evento verdadeiramente extraordinário, porque, como todos sabemos, tudo isto se costuma passar ao contrário: é o autor que convence o narrador. É sempre o primeiro que guia o segundo numa autêntica hierarquia de vontades, pois mesmo na arte da inspiração e da escrita há protocolos, disciplinas e hierarquias e tudo o que de artístico tem tão pouco.
Esta era, portanto, a ordem natural das coisas, mas ultimamente, por as actividades do autor não darem espaço nem oxigénio nem dióxido de carbono à autoria devido a prioridades do momento que nada tinham que ver com arte, o autor perdera, por assim dizer, a vontade, o fio à meada, a inspiração, o que quer que esteja no início da coisa artística, daí que não se esforçasse por convencer o narrador de nada, se não apenas que se calasse e metesse a cabeça entre as orelhas. E dito isto, o narrador, por vingança ou tédio ou simples maldade - que também a há no coração dos narradores - ia cantando dentro da sua cabeça, a qual ficava, por sua vez, dentro da cabeça do autor, a tal canção do Sérgio Godinho, que o autor, por azar, não apreciava (o pronome relativo refere-se aqui à canção e não ao Sérgio Godinho, apreciado por toda a gente e mais alguma).
E justamente no dia 1 de Abril deu-se o caso extraordinário ou até o milagre de Nossa Senhora de o narrador, aborrecido como estava com a inércia do autor, ter tomado a iniciativa de escrever, ou melhor, de fazer o outro escrever por ele. O autor, para mal dos seus pecados, levantou-se contrariado da cama, ainda a noite madrugava, e sentou-se no sofá da sala de estar, por sinal muito fria dado que se esquecera da janela aberta durante todas aquelas horas nocturnas, e escreveu.
Intervalo para descrição: No colo uma almofada e sobre a almofada um bloco. Na mão direita a caneta e na cabeça o narrador ditando o texto devagar. O narrador afastava os cabelos atrapalhados do autor lá do alto do cocoruto todo-poderoso certificando-se de que a redacção saía correcta e escorreita do ponto de vista ortográfico, sintáctico e verbal.
No final da história, satisfeitíssimo, o narrador ordenou ao autor que publicasse aquela redacção no seu lugar. Mas infelizmente, ao ouvir o nome proibido do lugar, o autor acordou sobressaltado daquele feitiço e rasgou o texto decididamente. Depois coçou a cabeça com muita força e o narrador caiu redondo por ali baixo, tendo sido sua sorte a de ter ficado pendurado na ponta de um cabelo espigado que o agarrou pelos colarinhos durante a queda.
O autor foi então ao seu lugar ou não propriamente: sentou-se na margem de cá a observar a margem de lá contemplativamente. Imaginou que Ulisses, depois de regressado a Ítaca, se fizesse ao mar vezes sem conta só para repetir o regresso, a terra à vista, o mar interrompido.
O autor todo-poderoso, de repente inspirado, regressado, artístico, escreveu uma história que nada tinha que ver com a história inicial, a do narrador. Ria-se enquanto escrevia. No final achou que a sua obra era boa.
Tão boa que não parecia sua.
(E não era. Isto porque o narrador continuava a ditar a mesma história, escondido atrás dos cabelos. No entanto, chegado ao final da mesma, deixou que o autor a publicasse, julgando-a sua.)
O narrador procedera desta forma condenável não por altruísmo, não por vingança nem tédio nem nada.
Só por ser dia 1 de Abril. Mais nada.
Um narrador brincalhão.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O escritor e a cidade

O escritor estava no quarto a escrever. Sentava-se à escrivaninha e rabiscava num caderno liso. O escritor todo-poderoso escrevia sobre a cidade, sempre sobre a cidade, aquela cidade, a sua. O texto que andava a escrever desde ontem chamava-se justamente Cidade.
O escritor fez uma pausa na escrita. Para ir à casa de banho e lavar as mãos. De vez em quando fazia isto para refrescar não as mãos, mas as ideias. Quando regressou ao seu lugar, olhou pela janela. Para espreitar a cidade. Aquela cidade. Pensou: "Na quietude de coisa já vivida".
Nesse momento, mal o pensamento ocorrera, o escritor irritou-se, fartou-se, desesperou-se. Não da escrita, não do quarto, não da janela, não das mãos, não do pensamento, mas da cidade. Daquela cidade. Da sua cidade.
O escritor todo-poderoso não fez mais nada: agarrou na cidade pelos cabelos, amachucou-a e deitou-a para o cesto dos papéis. Depois, aliviado, regressou à escrita. Ao tal texto que se chamava Cidade.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O texto e quem escrevia

Disse o texto a quem escrevia: "Não me escreverás!" e quem escrevia bateu no texto com força dizendo: "Cala-te!". Com o embate, o texto saltou da cabeça e foi aterrar na boca. Quem escrevia tossiu engasgado e levou as mãos aos lábios sentindo o peso do texto na língua. Disse: "Tu nem sequer existes!" e o texto mexeu-se inquieto por dentro. Quem escrevia estava muito parado, quase suspenso sobre a folha tão branca como os voos de infância e, ao soltarem-se, era quem escrevia que caía vagaroso e não a folha, de tal modo impenetrável que não se rasgaria com o gesto de uma mão nem de duas nem de mil. "Pára!", gritou quem escrevia e o texto estava agora na ponta da língua, à beira do abismo, queria falar mas tinha medo de morrer na folha. Calaram-se os dois. Saiu uma palavra dos lábios. O resto do texto tentou puxá-la para dentro da boca, mas ela seguiu corajosa para o mundo. Pousou nas maçãs do rosto e subiu muito réptil, letra a letra. Havia um buraco misterioso e a palavra estalou no ar em salto mortal desaparecendo no ouvido. Quem escrevia ouviu: "Serpente" e endireitou as costas como as serpentes se endireitam para o ataque. A imagem daquele corpo esguio hipnotizava quem escrevia: viu na folha branca o corpo maleável da cobra, a língua repetitiva como as marés, os olhos poderosos em forma de luas. Disse a serpente: "Não me escreverás!" e quem escrevia obedeceu. No sono quase acordado quis desculpar-se. Disse: "Há textos que ficam por dentro" e, ao engolir a saliva, engoliu o texto inteiro que trazia na ponta da língua. Só a serpente ficou no ouvido, as oito letras muito juntas e flexíveis dormindo contra o tímpano. Naquela noite a palavra maleável falou outras palavras e no ouvido nasceram outras letras. Quem escrevia acordou e escreveu o que a serpente lhe ditava.

Era, por assim dizer, a corrupção de quem escrevia, a perdição, a salvação.

O pecado original da escrita.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Os leitores

No lançamento do seu livro, o escritor anunciou: "Não escrevo mais". Os leitores ficaram em estado de choque, preocuparam-se com o escritor e depois com o homem atrás do artista. Depois olharam para os seus umbigos e preocuparam-se com as suas leituras de Verão, alguns desmaiaram, degeneraram, desidrataram. Alguém disse: "Há tomates espanhóis no supermercado" e os leitores afluíram sôfregos ao supermercado, compraram tomates, comeram alguns e os outros atiraram ao escritor demissionário. A associação de protecção dos leitores tomou medidas imediatas, marcou a greve para os meses do Verão causando o caos no mundo livreiro. Fecharam-se livrarias e editoras, queimaram-se livros, penduraram-se cartazes na rua: "Queremos artistas responsáveis". Numa manifestação de 20 mil pessoas em Lisboa, várias dezenas de leitores invadiram a casa do escritor, amarraram-no à sanita, pontapearam-no. Depois soltaram-no, arrastaram-no até à rua, levaram-no para a prisão. Deram-lhe uma caneta e um caderno. Ordenaram: "Escreve!" e ele escreveu porque estava desesperado (o desespero inspira). Os leitores voltaram a ser felizes.
Meses mais tarde, o escritor disse: "Não escrevo mais!" e os leitores pontapearam-no outra vez. Num fôlego sofrido que parecia o último, o escritor murmurou: "Não consigo escrever!". Os leitores acharam o caso realmente insólito, discutiram o caso, chamaram um especialista. O médico dos artistas chegou a horas, examinou o escritor, deu ordens: "Abra a boca!", "Diga Aaaaaaaah!", "Inspire!", "Expire!", "Levante-se!", "Sente-se!". No final o doutor arrumou o estetoscópio e fez uma careta grave. Disse: "Tem falta de abstracção!" e os leitores ficaram horrorizados, era uma doença rara, quase sem cura, havia quem morresse disso. Que fazer?
Os leitores reuniram-se em plenária para a votação final e decidiram falar com a musa inspiradora. Ao vê-la, o escritor sorriu, a musa deu-lhe um beijo seco e perguntou: "Então, já passou?" e ele abanou a cabeça desanimada. A musa saiu da cela encolhendo os ombros e anunciou aos leitores: "O escritor precisa de férias!". Os leitores revoltaram-se, ameaçaram processá-la, atiraram cadeiras ao ar, apresentaram contas, diziam percentagens. Mas a maré vazou e com ela partiu a musa inspiradora na sua barca silenciosa. Marcaram encontro para o dia seguinte.
Após uma negociação que se arrastou por mais de uma semana, os leitores e a musa celebraram um contrato, no qual os leitores se comprometiam a dar anualmente uma semana de férias ao escritor. Soltaram o prisioneiro numa cerimónia orquestrada e o escritor partiu de Belém com a musa. Os leitores despediram-se dele no cais, abanavam as cabeças com os soluços e os lenços brancos com as mãos. O escritor ficou a vê-los e, de repente, começou a chorar. A musa inspiradora levou as mãos à cabeça, disse-lhe palavras meigas, lamentou para dentro: "Artistas!". O escritor ficou muito tempo de olhos postos em Belém. Depois pediu à musa: "Não me leves para longe!" e começou a escrever. Tinha saudade da prisão.

PS – Esta história baseia-se num único facto real: há quem vá de férias amanhã e só volte para a semana, ou seja, dia 20 (escusam de me procurar por aqui entretanto)! O resto é tudo ficção: o escritor só podia ser inventado, os tomates não vinham de Espanha, a musa era uma boneca mecânica, o médico nem sequer tinha canudo e os leitores eram muitos mais violentos (tive a aligeirar a coisa).