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quinta-feira, 12 de março de 2020

A menina dos cabelos de linho

Encontrei o meu primeiro cabelo branco. Estava em frente ao espelho e vi-o. Era mais grosso que os outros, mais encaracolado. Depois afastei-o e vi outro cabelo branco e depois outro. 
Eu e o meu rosto em frente ao espelho, a minha juventude por um fio.
Nesse instante, no quarto ao lado, um piano a murmurar. Era um daqueles prelúdios do Claude Debussy, coisa mais bonita para os ouvidos. Escutei melhor. 
La fille aux cheveux de lin. A menina dos cabelos de linho.
Uma melodia frágil e sedutora como a inocência, o piano em pleno voo.


A minha mãe conta muitas vezes que os seus primeiros cabelos brancos nasceram logo a seguir a mim. E que depois foi tudo muito rápido. A minha mãe diz: “foi galopante”. Sempre que fala dos cabelos brancos, a minha mãe diz: “foi galopante”. Não usa este termo para mais nada, acho.
Fico aqui a ouvir os prelúdios do Debussy e a imaginar a minha velhice a galope, os meus cabelos ao vento, como uma crina, a minha vida sem rédeas nem freios, a toda a velocidade. Logo eu, que não gostei nada das aulas de equitação, andava para ali às voltinhas em cima de um cavalo triste e o instrutor nem sequer era simpático. Caí do cavalo logo nas primeiras lições e nunca mais me aventurei em montarias equestres. Tinha seis anos e um cabelo impecavelmente liso e negro, que depois ficou castanho e ondulado, e um dia destes, pelos vistos, há de ser cinzento e esquisito como o céu de Bruxelas. 
Resultado: não sei montar um cavalo. É pena. Bem que eu gostava de sair agora em cima de um cavalo negro. Haveríamos de cavalgar pelas ruas ao som deste piano, sem sela nem estribos. O meu cabelo completamente branco, o meu cavalo completamente negro, os dois numa cavalgadura sempre em frente. Haveríamos de acenar à menina dos cabelos de linho. Haveríamos de continuar rua fora, com toda a fúria.
Olho para o espelho, para os meus primeiros cabelos brancos.
Imagino o que aí vem. As rugas nos olhos, as manchas no rosto. A vida inteira a passar por mim. Feroz. Brava. Solta. Galopante.

domingo, 8 de março de 2020

Sangue, odor e desconforto

Ah, que engraçado. O período chegou agora mesmo, no dia da mulher. Penso nesta coincidência: a condição feminina por dentro e por fora. 
Ontem comprei chocolate e também pensos e tampões. 
Há quem use só tampões. Há quem use só pensos. Eu uso os dois. 
Desculpa, planeta. 
Penso nas mulheres que não têm acesso a pensos higiénicos nem a tampões. É que não são poucas. São muitas. 800 milhões de raparigas e mulheres, parece. No Uganda, na Etiópia, no Quénia, no Nepal, mas também nos Estados Unidos, na Austrália, no Reino Unido. 
A Escócia quer tornar gratuito o acesso a pensos e tampões.
É que não é nada barato ser mulher.
Também não é nada ecológico. As pilas são mais amigas do ambiente.
A menstruação não é verde. É vermelha.
Penso nisto todos os meses e nunca faço nada para tornar o meu útero mais sustentável.
Ainda não consegui adotar o copinho de borracha, perdoem-me. Encomendei-o há anos, mas nunca o usei. 
Era preciso esvaziar o copo e lavá-lo de X em X horas. Não percebo como poderia isso funcionar na casa de banho do trabalho ou numa casa de banho pública. Mesmo em casa, com bebés a entrar pela casa de banho a toda a hora. 

Foto da Me Luna


Compro fruta da época, legumes biológicos, reciclo, reutilizo, uso sacos de pano, mas compro pensos higiénicos e tampões todos os meses.
Tentei as cuecas Thinx e não gostei. Sangue, odor e desconforto.
Desculpa, planeta. Lido mal com o meu próprio corpo. (Cá está uma frase feminina até ao útero.)
Aposto que a Greta usa um copo. Ou então pensos de pano.
Um copo resolve sempre muita coisa. Neste caso, talvez seja a solução para tornar o período mais ecológico e também mais acessível. Não sei.
Bom dia da mulher, gajas! E bom período.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Macau, no verão de 1999

Excerto do texto que escrevi para o Colóquio "Até às raízes da Lusofonia" que se realiza hoje na Universidade de Gent.

Ainda sobre Macau, no verão de 1999:

Vi, naquela ponta do continente asiático, ruas e praças onde o chão se vestia de calçada portuguesa. As placas das ruas estavam escritas em português. Lembro-me de o guia apontar para essas placas e dizer que elas iriam desaparecer em breve, que a língua portuguesa ia sair daquelas ruas.

Eu tinha 16 anos, quase 17.

Nesse verão de 1999 vi, no meio de um enorme largo, as ruínas de São Paulo. Foram as ruínas mais belas e trágicas que alguma vez vi. Uma fachada em granito e uma escadaria. Nada mais do que isto. Tudo o que restava daquela igreja era uma imponente fachada em granito e uma escadaria. 


Foto que roubei à Wikipédia

Lembro-me de termos tirado uma fotografia de grupo nesse local. Lembro-me de pensar nesse momento que tudo aquilo era história: aquela fotografia, aquele grupo, aquele chão. Lembro-me de ganhar consciência de que tudo acaba um dia: os impérios, os edifícios, as nações, as pessoas, os povos e até as línguas. Naquele verão de 1999 eu percebi que tudo o que existia era demasiado frágil. De que um incêndio pode engolir uma igreja. De que uma língua pode desaparecer das ruas. 

Foi também em Macau que percebi que estamos todos dentro das nossas gaiolas, dentro da nossa época, dentro das nossas crenças, dentro da nossa língua, mas que é possível abrir a porta e chegar a quem é diferente de nós. Que uma pessoa pode fazer a diferença. Que tudo isto dura muito pouco.

Talvez por isso tenha escrito tanto nessa época. Para fixar a existência, para existir um pouco mais. Talvez por isso ainda hoje escreva tanto sobre a adolescência, essa época em que precisamos tanto de viver, em que somos capazes de infringir todas as regras para nos salvarmos.

Foi nessa viagem a Macau que me apercebi de quão diferentes somos e ao mesmo tempo de quão parecidos conseguimos ser. Para mim a lusofonia também é isto: festejarmos o que temos em comum, mas sobretudo o que não temos em comum.

Eu chego ao final deste texto e compreendo finalmente que, ao contrário do que pensava, tenho vivido até às raízes da lusofonia (para aproveitar o título deste colóquio), que é um enorme privilégio ser portuguesa, lusófona e europeia, e que possivelmente a lusofonia fez de mim linguista e escritora.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

E depois passaram-se treze anos

No outro dia fiz as contas: treze anos em Bruxelas. 
Tantos dias, tantas noites. 
Tudo o que aconteceu entretanto. 
As pessoas que chegaram. As pessoas que partiram. 
Éramos muitos, ficámos poucos. 
Art Nouveau. Art Deco. Arts-Loi. 
O sol fraco no inverno. A chuva forte no verão.
Eu perdida em Schuman. Eu a caminho de casa.
Aquela fase em que estava sempre a ouvir Andrew Bird. Aquele ataque de riso no teatro. Aquele ataque de riso numa reunião de trabalho.
Magritte. Marolles. Mexilhão.
A escadaria do Mont des Arts. As esplanadas de Saint Boniface. Os lagos de Ixelles.
Aquele piquenique. Aquela garrafa de tinto.
Eu a descer a rua. A escrever na varanda. A beber Leffe blonde.
A Flagey. O Belga. O festival de filmes de animação.
Eu e ele no Bois de la Cambre. No Bozar. No parque Tenbosch.
Aquele dia em que encontrei a Leila no mercado. O concerto da Lisa Hannigan. Aquela gripe de caixão à cova. 
A estação central. O aeroporto. O 81.
As noites de inverno com os meus filhos ao colo. Aquele dia interminável no Ikea. A cimeira das 24 horas. Aquela molha a caminho de casa.
Batata frita. Banda desenhada.
As noites no Archiduc. As manhãs no sofá.
O casamento da Ritinha e do Evgeniy.
Aquele dia de sol tão bonito que foi o dia dos atentados. Aquele espetanço de bicicleta. Aquela vez em que caí na neve.
A exposição do Chagall. O festival de banda desenhada. Aquela noite em que me roubaram a mala.
O primeiro concerto da Guerreira. A Edina a fazer stand up.
As aulas de francês. As aulas de neerlandês. Os cursos de escrita criativa.
O sofá da primeira casa. A escrivaninha da segunda casa. Os janelões da terceira casa. 
O meu casaco de inverno que é sempre o mesmo.
Esta cidade que é de todos e não é de ninguém. Eu cada vez mais estrangeira. Cada vez mais portuguesa. Cada vez mais europeia. 
Volto ao tal sofá da primeira casa. Escrevo no meu caderno: “Fevereiro de 2007”. É o meu primeiro caderno em Bruxelas. Um caderno lindo, forrado a tecido. O papel ligeiramente amarelo, completamente liso. 
Estou no sofá de 2020 e regresso a esse primeiro caderno. Encontro-o numa das estantes. Leio a primeira frase da primeira página:

“E depois havia o frio e o nevoeiro, mas nada disso era triste.”


Que coisa estranha, começar um caderno assim: “E depois”. Mas nessa época as frases podiam começar a meio. Nessa época nada era triste. 
Era a minha infância em Bruxelas. Uma infância feliz, cheia de ingenuidade e esperança. 
E depois passaram-se treze anos.
E depois eu perdi a infância. E depois entrei na adolescência. 
Tenho agora treze anos de Bruxelas. Estou mais crescida. Estou mais insegura. Estou sempre amuada.
E depois?
E depois nada.
Os cadernos mudaram. O tempo passou. E eu escrevo.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2019


Último dia do ano. Oito da manhã: o sol ainda não nasceu.
Vou à cozinha tirar um café.
Um corvo pousa na varanda. É grande e negro e macabro. Igualzinho a estas noites de inverno.
Olho para o corvo e penso neste ano velho. 
Sempre aquele sentimento de perda, qualquer coisa que acaba.
Estou tão mal das costas. Estou tão mal da saudade. 
Há oito meses que não vou a Portugal. 
O corvo salta do parapeito. Vai à vida dele. Este ano também.
2019
Um ano comprido a dar com pau. Comecei o ano grávida. Acabo o ano balofa. Engordei 20 quilos, perdi 10.
A casa cheia de bebés. Biberões por todo o lado.
O meu pai fez 70 anos. A minha mãe também.
Brexit. Moçambique. Notre Dame.
Renovei o cartão do cidadão. 
Não dei um único mergulho no mar. Não fui uma única vez ao cinema.
Eleições europeias. Eleições legislativas.
Pessoas zangadas. Milhares de pessoas nas ruas.
Aqui, no Irão, na Colômbia. Hong Kong. Chile. Argélia.
Perdi o cartão multibanco. Perdi o passe. Perdi uma caneta muito fixe. Perdi um avião. Perdi a voz. 
Parti os óculos. 
Andei na roda gigante com os meus sobrinhos.
Boris Johnson. Greta Thumberg.
Cortaram-me a barriga. Os gémeos nasceram.
Uma amiga escreveu um livro lindo. 
Uma amiga ligou-me ontem para me dar uma boa nova. Até andei de lado.
Amazónia. Lula. Bolsonaro.
Comprámos um puf, dois berços, um armário. 
Mudámos de operadora. Mudámos a disposição da sala. A creche mudou de morada.
Fiz um curso de primeiros socorros. Fiz as minhas primeiras palavras cruzadas.
Li Georges Perec. Álvaro de Campos. Sylvia Plath. Adrienne Rich.
O Tuca morreu. O Rui Gonçalves também.
Pensei sobre isto e aquilo. Senti assim ou assado.
João Gilberto. José Mário Branco.
Tive muito calor no verão. Tive muito frio no outono.
Fui a Pontevedra. Conheci pessoas altamente. 
Eva Mejuto. Dora Batalim. 
Henrique Rodrigues. Ana Biscaia.
A família toda em Bruxelas. Várias vezes. Primeiro os meus pais, depois os meus sogros. Depois a Sara e o Manuel. Depois o meu irmão com a Rita e os meus sobrinhos. Depois os meus sogros outra vez. Depois novamente o meu irmão, a Rita e os meus sobrinhos. Depois os meus sogros. Depois a Sara, o João e o Manuel.
Análises de sangue. Noites em branco. Casas abandonadas.
A sensação de que existo aos bocados. Penso aos bocados. Durmo aos bocados.
A esperança de que venha a juntar todos os bocados de mim própria. A esperança de um dia existir plenamente.
Talvez para o ano. Talvez em 2020. Talvez já amanhã.
Aí vêm eles: os anos 20 do século XXI. 
Os anos loucos.
Gosto cada vez mais disto. Deste inverno. Desta varanda.
Bruxelas, o meu bairro, a minha casa.
O meu café, a minha janela, o meu caderno. O meu marido, os meus filhos, o meu cansaço.
Bebo o café sem leite nem açúcar. A minha vida aos bocados. 
O sol nasce.
Aqui é um bom lugar.

Ilustração da Joana Estrela para o “Aqui é um bom lugar”

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O gordo da passadeira

No outro dia choveu, e bem. 
Lá vínhamos nós a rastejar pela vida, eu e o meu barrigão. Calçávamos umas sandálias de cortiça que escorregavam na água.
A certa altura atravessámos a passadeira. O meu barrigão à frente e eu atrás.


“Eu sou Eu Sei”, Madalena Matoso

De repente, a meio da passadeira, entre uma poça de água e outra, para nosso grande espanto e indignação, levámos com uma buzinadela nas trombas. Eu, o meu barrigão e as sandálias de cortiça até andámos de lado.
Dentro do carro buzinador estava um homem branco e gordo, sessenta e tal anos, as duas mãos ao volante.
Parámos ali mesmo, no meio da passadeira. Tirámos o capuz do impermeável, apontámos para a barriga. Para que não restassem dúvidas.
O homem gordo sacudiu os ombros e a cabeça naquele jeito impaciente dos homens brancos, que sabem tudo sobre a condição humana e não estão para choradinhos. 
Pelo amor da Santa, a grávida que saia da frente. A grávida e os outros todos também, dizia o homem gordo de si para si, as mãos sapudas ao volante. 
Anda tudo com as mulheres ao colo hoje em dia, já repararam? E com os paneleiros e os ciganos e os pretos e os imigrantes e os velhos e sei lá mais o quê. Estou pelos cabelos com essa gentinha.
Ali estava ele, o homem branco todo-poderoso, protegido da chuva e da lentidão pela sua caixa de metal com quatro rodas. Cheio de urgência e virilidade. Tão desiludido com a vida. Tão cansado das minorias e das suas queixinhas menores. Gente feia e zangada. Sempre a apontar o dedo. Parecem umas crianças. “Ó mãe, olha ele!” 
O homem gordo dá uma buzinadela geral às pessoas chatas. Saiam todos da frente. 
Ali estava ele, o homem branco - gordo por opção e não por fecundação - a olhar com desprezo para os fracos de espírito e de corpo.
É curioso e meio esquisito. Durante a juventude, o homem gordo até era de esquerda. Lutou e acreditou na igualdade e na democracia. Mas entretanto a vida passou-lhe por cima e o homem gordo esqueceu-se desse sonho. Já não pode ouvir falar em coitadinhos. Nem em reivindicações e lamentos.
Que mal fez ao mundo este homem branco, que até paga os impostos e é bom pai de família? Lá porque nunca foi oprimido nem vítima de abusos. Lá porque nunca foi excluído nem discriminado. Lá porque os homens brancos antes dele andaram por aí no bem-bom durante séculos a excluir e a oprimir cada um. 
A culpa agora é deste homem barrigudo por acaso? Só por ser homem, branco e gordo? Vão discriminá-lo por causa do seu género, da sua orientação sexual e da cor da sua pele? Tenham paciência. Já ninguém faz isso. 
A grávida que se puxe à calma. Já ninguém é misógino, minha senhora, e a minha mãe teve cinco filhos e não fazia queixinhas. Deixem-se lá de protestos e dessa mania das injustiças. Saiam da frente.
E, por favor, parem de dizer que o homem branco é um privilegiado, porque eu cá não tenho privilégios nenhuns. Na verdade devo ser o único não privilegiado. Reparem que não existe um Dia Internacional do Homem Branco nem ONG para defender os meus interesses de homem branco nem ajudas especiais ou quotas para os homens brancos. 
Tenham dó do branco barrigudo. A vida não está nada fácil para ele: espera-se tanto do homem branco e tão pouco dos outros todos.
Eu e o meu barrigão temos muita vontade de fazer um manguito prolongado ao homem gordo, mas neste momento não há pilinha que nos valha, porque também não é bem uma piça que queremos mostrar ao senhor. O que gostávamos de gesticular ao homem gordo era precisamente o contrário de uma pichota. Era um gigante par de ovários ou de mamas. Uma vagina obscena para mandar abaixo esta visão do mundo tão masculina e sobranceira e simplória ao mesmo tempo. Infelizmente, esse gesto de fêmea enraivecida nem sequer existe. O poder da pichota continua a ser supremo, até mesmo na comunicação gestual.
Ó homenzinho branco, meu patego a dar com pau. Ainda não percebeste nada. Este mundo foi feito à tua imagem, mas já não é teu. Este mundo agora é de todos. E esta estrada também não te pertence. Esta estrada é de quem andar nela. É dos velhos e dos seus cãezinhos, é das grávidas e dos deficientes e dos outros todos. 
Não fiques assim, com esse arzinho amuado e contrariado. Há muita coisa que tu não entendes. Na verdade, a maior parte das experiências humanas estão-te vedadas. Nunca saberás o que é ser um preto no meio dos brancos, nunca saberás o que é ser um imigrante ilegal, nunca saberás o que é ser uma grávida de gémeos a duas semanas do parto. Por isso, puxa-te tu à calma, homenzinho gordo. Um pouco mais de empatia e humildade, por favor. 
Não buzines nas passadeiras. Não continues a oprimir os mais fracos. Sobretudo, não venhas com conclusões e generalizações sobre vidas que desconheces. Tu já não mandas nisto tudo. 
Devias levar com um par de ovários nos olhos, mas toma lá um abracinho. Sei bem que a sociedade espera isso de mim e de todas as mulherzinhas: empatia e candura; e não agressividade e rebeldia.
Enfim. Eu e o meu barrigão respiramos fundo e avançamos pela vida, ligeiramente desequilibrados por causa das sandálias e da nossa indignação. Estafermo do homem gordo e de todos os que me fizeram razias nas passadeiras e me ultrapassaram nas filas e não me deram lugar no elétrico nem no autocarro. É que não foram assim tão poucos. Foram bastantes. Homens, mulheres, velhos e novos. Mundo cruel, este, que não cuida dos que precisam.
Tenham dó da mulher grávida, pá. A vida não está fácil para ela: vai passar os próximos tempos a lavar pichotas.
Uma buzinadela geral para vocês todos, que ficam desse lado a rir e a fazer o que vos apetece.
Uma buzinadela e um maguito também, sim?

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Coitada da Ana Pessoa

Coitada da Ana Pessoa. Está para ali assim, vagarosa e inchada. Tão duplamente grávida. Já nem consegue respirar até ao fundo de si própria. Não consegue andar até ao fundo da rua. Mete muito dó.
Até a Ana Pessoa tem pena de si própria. Só lhe apetece escrever um texto a começar assim: “Coitada da Ana Pessoa”. Felizmente tem alguma noção de si e dos outros, por isso não vai escrever esse texto.
Faz hoje 37 anos, mas podiam ser muito mais. Está pesarosa e pesadona. Um feliz aniversário, Ana Pessoa. É o que eu te desejo.
Antes a vida era mais ligeirinha, não era? Liam-se umas páginas de um livro e havia uma certa beleza nas horas. Depois o corpo virava-se para o lado e adormecia.
A Ana Pessoa lembra-se dessa vida e tem saudades de si própria, da pessoa original. Da pessoa sozinha que, a bem dizer, já era bastante. Mas ultimamente, coitada, a Ana Pessoa confunde-se. Já não sabe bem onde começa a sua pele nem onde acaba a sua existência. 
É uma pessoa ao cubo. Tem três cabeças, três corações. O ego triplicado, cheio de varizes e estrias, o umbigo virado do avesso. 
Coitada da Ana Pessoa. 
Nunca sentiu tanto com tanta intensidade. Nunca ocupou tanto espaço. Nunca pesou tantos quilos. 
E isso, na verdade, talvez queira dizer que a Ana Pessoa nunca existiu com tanta força, com tanta pujança. Nunca a sua existência foi tão pronunciada. Toda ela é uma abundância que só visto. Uma presença inegável. E portanto, ouçam: não tenham pena dessa tal Ana Pessoa. Anda por aí fértil e generosa a largar óvulos em dose dupla. 
É bem feito. Ovulasse menos. Com recato e moderação, que é o que se espera de uma mulher.
Quem diria, Ana Pessoa. 
Logo tu, que durante tanto tempo acreditaste que a maternidade não era para ti ou que tu não eras para a maternidade porque o universo te dizia precisamente isso, que tu e a maternidade não eram feitas uma para a outra, e portanto andavas tão ocupada a fazer outras coisas na vida, como, por exemplo, a ser tu própria ou, pelo menos, a tentar ser e estar neste mundo, como toda a gente.
Agora, olha, vais ter a casa cheia de homens, que até te lixas toda. 
Um marido e três rapazes. 
É obra, Ana Pessoa. Coitadinha da tua existência. Vais passar as passinhas do Algarve, deixa-me que te diga.
É da maneira que começas a falar baixinho e a existir um pouco menos. Só te fica bem, Ana Pessoa. Pode ser que fiques mais pequena, mais frouxa, mais razoável.
E durante essa tua subtração a caminho do desaparecimento, pode ser que algo bom aconteça. Pode ser que te caiam umas respostas em cima da tola quando o teu ego escorregar pelo ralo da banheira. Pode ser que compreendas, por exemplo e por fim, que as mães são culpadas de tudo.
Que não há volta a dar. 
E pode até ser que nessa existência minguante passes a escrever alguma coisa de jeito, Ana Pessoa.
Imagina. Isso é que era bom! Uma prosa sem ego. Sem merdas. Sem estrias. Era mesmo muito bom. Tu não achas, Ana Pessoa?
Eu acho. 
Doem-me muito as pernas. 
Dói-me esta existência triplicada. 
Mas cá estamos todos, eu e eles, para dar a volta a isto. 
Quero o meu umbigo de volta. 
A minha pessoa.
O meu ego original.

Ilustração de Bernardo P. Carvalho para “O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca”



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

2018

Cá estamos. 2019. Não comi doze passas, não bebi imenso, não vi o fogo de artifício. Fiquei para aqui assim, a enfardar bolo-rei e a pensar no ano que passou.
2018. 
Um inverno muito escuro, um verão muito quente. 
Aretha Franklin, fake news, Facebook. 
O meu filho de madrugada, ao fim do dia, a toda hora.
O Henrique. Meu alicerce, meu moinho de vento.
Andámos na roda gigante. Perdemos um avião. Fomos a Bordéus.
Li uns livros muita bons. Falei com alunos incríveis. De Miranda do Douro. Do Funchal. De Esposende. De Vila Nova de Gaia. Adorei todas as sessões. Adoro escolas. E alunos e professores. 
Estive nas Palavras Andarilhas. Fui picada por uma vespa. Escrevi um livro. Emagreci, mas depois engordei outra vez. Descobri Rachel Cusk. Emma Cline. Juan José Millás.
A Leïla morreu. O Francisco nasceu. O Seedz fechou.
Tive uma crise de costas no verão. Tive um ataque de choro no meio da rua. Tive um ataque de riso ontem à noite.
A torradeira deu o berro. A Živa foi-se embora. A Joana foi mãe. A Luísa também.
2018.
Um ano tão solitário e, ao mesmo tempo, tão habitado.
Tenho tanto sono.
Em 2019 espero dormir mais. 
Isto não é bem uma resolução. É uma intenção. Logo se vê.
Bom ano, malta!


Ilustração do livro “Eu Sou Eu Sei”, Madalena Matoso

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O meu bruxedo doméstico

Ocorreu-me agora que passei o Dia das Bruxas na cozinha. Entre outros feitiços, fiz uma sopa de legumes para aquecer a psique e curar os males do mundo. É um ritual simples, mas ainda assim mágico.
Primeiro lavei os legumes. Brócolos, tomate, feijão verde. Nabo, beringela, beterraba. A natureza bela, com todas as suas formas, todas as suas cores. Cortei os legumes às fatias no meu altar de madeira e atirei-os para o caldeirão. A água sagrada a fervilhar de entusiasmo. No final disse a minha reza e lancei uma pitada de sal. Seguiu-se o tempo da espera e do feitiço. Oxalá o remédio surja. Oxalá a humanidade vença. No final provei a minha poção mágica com a colher de pau.
Não era má, a sopa. Era boa.
Ao menos isso.
Neste planeta Terra, tão virado do avesso, em que todos os sonhos parecem falhar, eu escolho o deslumbre das coisas domésticas, tão verdadeiras que parecem encantadas.
Uma colher de pau. Uma pitada de sal. E uma sopa de legumes.
Eis o feitiço do Dia das Bruxas. A minha magia real. O meu bruxedo doméstico.
Enquanto houver esperança, hei de voltar ao caldeirão. Para imaginar a magia. E salvar a inspiração.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Uma bagunceira que eu sei lá

Olho para a minha casa. Uma bagunceira que eu sei lá. Tudo tão fora do sítio, tudo tão sem nexo. 
Um casaco na casa de banho. Uma chupeta no bolso. Um papel no chão. 
Entro no quarto e apanho o meu reflexo no espelho. Toda eu uma desordem completa. 
Pego no papel que anda pelo chão: uma lista de coisas que nunca cheguei a fazer. Não sei onde largar o papel, por isso deito-o no lixo. 
Brinquedos espalhados pela sala. Ideias espalhadas pela cabeça. Roupa pendurada nos estendais. O meu cansaço pendurado nas cadeiras. O secador de cabelo em cima do armário. Um par de meias em cima da secretária. Uma toalha em cima da cama. Um coelhinho debaixo do sofá. E os livros. Livros na mesa de jantar. Livros na cómoda do quarto. Livros empilhados no chão. Uma pilha de livros muito mal empilhada, a bem dizer. Não tarda caem. Uma caixa de lenços vazia. Um pacote de leite vazio. 
Sacos de roupa emprestada. Sacos de roupa para emprestar. Sacos de coisas para a cave. Sacos de coisas para o lixo. Tanta tralha. Ao fundo, uma mochila olha para mim desanimada, encostada à parede. O rato Mickey está para ali tombado para o lado com as suas mãozinhas insistentes. As plantas cheias de sede. O meu filho cheio de ranho. Eu cheia de sono. O meu cabelo tão fora do controlo, tão desgovernado, coitado. Eu sou uma balbúrdia por dentro e por fora. 
Ainda assim, ao longe, no fim da tralha, no fim de tudo, há sempre aquela esperança. Uma esperança pequenina largada a um canto. Uma esperança, também ela, desordenada. Com uma voz muito fininha. A dizer baixinho: um dia havemos de dar a volta a isto. Eu, ele, nós, eles. 
Quem sabe. Talvez. Quiçá. Um dia destes. No fim de semana. Ou então na próxima semana. Ou nos feriados de novembro. Num futuro próximo, decerto. Mas hoje não. Hoje olhei para a escultura minorca que mora em cima da lareira e fiz como ela. 



Fechei os olhos a esta balbúrdia e fiquei por aqui a escrever sobre isso. A escultura chama-se "Preguiça" e vem assinada: J. R. Não faço ideia quem seja esta pessoa. É pena. 
Bocejo e deixo-me ficar nesta lerdice pegada. A máquina da roupa chega ao fim do ciclo e apita, mas eu não ouço. Eu não moro nesta casa. Estou distraída a escrever este texto. 
Eu vivo de lirismo e fantasia. 
Eu escrevo para arrumar a cabeça. 
Para dar sentido aos dias. Para fugir. 
Para existir. 
Para chegar a casa.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Seis vezes seis

É quarta-feira. Hoje há mercado. E eu faço 36 anos.
Vou comprar ameixas. Alperces. Pepino. E azeitonas, pera abacate, queijo de cabra, húmus. Com sorte, ainda há pão com nozes e meloas doces. Eu sou feliz à quarta-feira. Especialmente hoje, que está mais fresquinho. A minha cria odeia calor e eu preciso de arejar as ideias. Talvez aprenda qualquer coisa hoje. A mulher dos legumes, que parece um homem, dá-me sempre bons conselhos. As mãos duras e calejadas, uma espécie de luvas nos pulsos. Espero que o senhor dos queijos me faça um elogio. Passa a vida a amanteigar-me. "Esse vestido fica-lhe tão bem." Vou almoçar àquele sítio novo aqui ao lado. Tem um bom terraço. O meu filho fica sentado na mesa a brincar com o guardanapo. Depois havemos de ir ao parque ver as árvores e os pássaros. Eu vou beber café, ele vai comer relva. Pelas 16h convém estarmos em casa para lhe dar a fruta. Eu faço planos dentro da cabeça e também faço 36 anos. Sou um seis ao quadrado. Um seis vezes seis na tabuada da vida. Nada mau. Um dia talvez venha a ser um sete vezes sete, um oito vezes oito. Eu olho para o meu filho, este pé descalço que só sabe pôr terra à boca, e penso que ele ainda nem chegou ao início da tabuada. Ao um vezes um. E penso também que talvez um dia ele chegue aqui, ao seis vezes seis. E que nessa altura talvez saiba que o tempo e o espaço continuarão depois dele. Que, na melhor das hipóteses, gostará de estar entre os vivos e chegará ao fim da tabuada. Ao dez vezes dez. Que a história da vida é feita das histórias dos dias. Das nossas paixões, das nossas zangas. Das nossas idas ao mercado, dos nossos passeios no parque. Que a maior parte dos dias acabam da mesma maneira. Com um certo cansaço. Que não é nada mau regressar a casa. Que o amor existe. Que o amor pode. Que o amor ordena. E que, depois do seis vezes seis, ainda há muita tabuada pela frente. Eu, que sempre fui uma nostálgica debruçada sobre o passado, chego aos 36 a pensar nos próximos 36 anos. Oxalá cheguemos a esse futuro. Oxalá a minha tabuada ainda não vá a meio. Gostava que me restasse mais tempo com este menino, pé descalço, do que o tempo que vivi sem ele.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O mundo real e o mundo eletrónico

Não compro livros desde o Natal. E ofereci tudo o que comprei. 
Por acaso não é bem verdade. Adquiri uma coletânea de contos no Kindle através de um clique, mas esse livro não é bem um livro. É um documento eletrónico sem consistência física, que comprei na amazónica Amazon.
Tenho lido pouco. À segunda página adormeço. E logo a seguir acordo estremunhada e releio a mesma página. Só então adormeço de vez, exatamente no mesmo parágrafo. 
No outro dia entrei na Candide só porque sim. É uma das livrarias aqui do bairro, onde moram pedaços de sol e pequenas preciosidades. Foi o meu objetivo do dia: ir até à Candide ver as vistas.
Além de não ter comprado nada, bati com o carrinho em várias pilhas de livros. Fui dizendo Desolée nas curvas e contracurvas. Ainda peguei naquele livro noturno da Kitty Crowther. No Natal comprei dois exemplares e não ficou nenhum cá em casa. Quero um exemplar só para mim, mas não tenho pressa. 
Quando saí da Candide disse Au revoir, mas devia ter dito DesoléeÉ uma afronta sair da Candide de mãos a abanar. 
Foi o senhor da Candide que me apresentou Annie Ernaux. Foi na Candide que descobri Julie Delporte. O senhor da Candide dá-me marcadores de livros e bons conselhos. Pergunta-me se prefiro a edição de bolso, que é mais barata. Demora-se nos embrulhos. Entusiasma-se: Se gosta desse, então vai gostar deste. Um pouco ao estilo da Amazon, mas nada a ver com a Amazon. Eu sou feliz na Candide por causa do senhor da Candide, que fala um francês muito delicado e me pergunta quantos meses tem a cria. 
Eu não vou à Candide comprar livros. Eu vou à Candide respirar, interromper o dia. Interagir, vasculhar. Eu vou à Candide viver.
Moro num bairro onde o comércio tradicional persiste. Há mercearias, padarias, cafés, sapateiros, talhos, queijarias, livrarias. Neste inverno tão duro, em que dou os primeiros passos no mundo contraditório da maternidade - que é uma solidão a dois - são estas lojas que me salvam. As pessoas das lojas, as vitrines onde paro, os diálogos curtos. 
A senhora da farmácia ri-se porque me esqueci da carteira. Digo Desolée. Ela responde-me que as mães também precisam de descanso. Durma quando ele dorme. Eu digo: Mas ele não dorme. Ela dá-me conselhos. Faça assim, faça assado. Compro café aqui e pão ali. Vou à senhora das tartes. E depois vou até ao parque ouvir os pássaros. A cria ri-se muito com o barulho dos pássaros. Pio pio, pio pio. 
Sento-me num banco de jardim. Respondo às mensagens do WhatsApp, envio fotografias aos avós, vou ao Facebook, escrevo no blogue. Porque o mundo da tecnologia e da comunicação também me salva. Quero ler os textos da Ana Cássio Rebelo sobre a Índia e os da Maria João Lopes sobre a Maria Rita. Ouço a Biblioteca de Bolso através do iTunes. Eu quero viver no mundo real do meu bairro e também neste outro mundo das apps e das hiperligações. Não são mundos inconciliáveis. Mas são antagónicos.
O mundo real é humano. É carente. Precisa de mimos. Precisa de tempo. Precisa de mim. 
Cada vez que uma livraria fecha, sinto que a culpa é minha. E é mesmo.
Se a Candide fechar, atiro-me a um poço. Ou a Ptyx. Ou a livraria da Flagey das bandas desenhadas. A propósito, ainda não fui à livraria portuguesa que abriu há umas semanas. 
O que será deste mundo sem livrarias nem mercearias? Ruas sem lojas, sem caras, sem diálogos, sem filas.
Andamos cada vez mais sozinhos com os nossos botões eletrónicos. 
Olho para a minha cria e apetece-me pedir-lhe desculpa. Desolée, pequeno ser humano. O mundo está cada vez mais próximo. Mas as pessoas estão cada vez mais distantes.
E de quem é a culpa?
É minha, claro.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um dia destes corto as unhas dos pés

Um dia destes corto as unhas dos pés. Agarro-as pelos ombros e tau! Corto-lhes a cabeça.
Há semanas que ando a magicar o golpe. O meu corpo a descer por aí abaixo até ao sopé de si próprio. As mãos ao encontro dos pés, com uma tesourinha em riste.
Uma tesourinha malvada e feminina, cheia de curvas e método.
E hei de usar a tesourinha mais antiga de todas, porque a tesourinha mais antiga de todas, apesar de enferrujada e desconjuntada, corta bem de um lado e do outro.
As tesouras mais jovens são todas umas falhadas. Andam por aí a transbordar design e elegância, mas são fracas de espírito.
É sempre assim. Os jovens não têm calo.
Já os meus pés, sim. Têm calo. E umas unhas muito grossas que estão cada vez mais compridas. Não sei por que razão as deixo crescer tanto. Todos os dias adio o golpe.
Talvez me tenha afeiçoado a elas. Às minhas unhas grossas.
Há uma beleza qualquer nas coisas feias. Carros sujos. Casas velhas. Unhas grossas.
Mas hei de cortá-las um dia. Prometo.
A dor na ponta dos pés chegará ao fim.
O meu corpo ficará mais leve.
E eu hei de voltar a calçar 39.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Come chocolate, pequena

O que me vale é o chocolate belga. Com toda a sua verdade e corpulência. Com toda a sua pompa e fartura.
Uma lambarice de cacau e açúcar.
Neste momento, cá em casa, há de tudo. Trufas do Pierre Marcolini. Bombons da Neuhaus. Quadradinhos da Zaabär. Minibarras da Galler.
Estou para aqui a lambiscar trufas de champanhe, compenetrada na minha gula, e apercebo-me agora mesmo de que nunca visitei uma fábrica de chocolate.
Gostava à farta de visitar uma fábrica de chocolate.
Para amansar a curiosidade, continuo a comer trufas e leio as biografias dos chocolateiros belgas, esses chefes do cacau. Fico desiludida, claro, por isso como mais um pitéu adocicado. É que os chocolateiros belgas não têm um ar nada doce. E também não parecem lambões nem roliços. A bem dizer, têm percursos de vida normais: licenciaram-se em pastelaria, confeitaria e chocolate, abriram uma lojinha aqui, depois outra ali. São autênticos merceeiros do cacau. E são todos homens, entradotes e muito bem penteados.
C'est dommage, não?
Preferia que fossem chalupas e esgazeados como o Willy Wonka, mas não duvido da sua genialidade.
Come chocolate, pequena, como dizia o outro. E eu como. Não sou pequena, mas como.
O miúdo chora e eu devoro um coração negro com crosta estaladiça. O miúdo adormece e eu tufas nas trufas de pistácio. Ou nas de caramelo e sal. Ou nos biscoitos de chocolate de leite recheados à mão com creme de baunilha. (À mão, ouviram?)
O miúdo acorda e eu engulo um bombom com pedaços de coco. Ou com espuma de maracujá. Ou barras de chocolate branco recheadas com mousse de café e pedaços de avelã. Ou quadradinhos de chocolate preto recheados com espuma de framboesa. Ou com praliné crocante.
No outro dia saímos de casa contra a chuva só para comprar chocolate com especiarias. Foi um festim de sabores. Chocolate preto com coentros, por exemplo. Chocolate de leite com tomilho. Chocolate branco com pimenta rosa. Ou com cardamomo.
De facto, para que serve a metafísica? Que parvoíce.
E a reflexão e a poesia e o entendimento, para que servem?
Perante um bombom, tudo perde sentido. A única maneira útil de passar o tempo é a comer docinhos. E eu cá sou feliz na minha imbecilidade.
Abro os papelinhos delicados e devoro os bombons com exaltada violência. Sou uma besta do chocolate. Não há nada a fazer.
Nunca fui comedida. Nem razoável. Nem moderada. Sou assanhada por natureza. E tenho um apetite voraz.
Ainda assim, sou um doce de pessoa.
Juro.
A sério.
Sou mesmo.
(Pudera.)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A-ma-re-lo

Curioso! Os últimos livros que entraram cá em casa são todos amarelos. Começo a achar que os comprei por causa das capas. Sei lá. O amarelo dá-me pica e vontade de rir.
A-ma-re-lo. Sempre gostei da palavra e da cor.
De resto, esteve um belo dia de outono, deixem-me que vos diga. O sol pousou torrado na varanda e eu sentei-me por ali a permanecer. Aproveitei e tirei uma foto aos livros amarelados. Assim:


Nisto topei o vaso das ervas daninhas, onde nasceu uma flor amarela muito pequena. Deve ser uma florzinha lixada para nascer assim, no meio do frio e das plantas beras. Se calhar ela própria é uma espécie invasora. Não sei.
Ao longe, o outono. As folhas das árvores por todo o lado: no chão, nos ramos, a esvoaçarem por aí. Delicadas e amarelas a dar com pau.
Uma amiga tem um casaco amarelo lindo. Eu nunca tive um casaco amarelo, mas tenho um caderno amarelo que tem uma banana na capa. Gosto da expressão francesa "avoir la banane". Nunca usei esta expressão. Algumas pessoas tratam-me por Ana Banana.
Há uns anos fui vacinada contra a febre amarela. Lembrei-me agora. Tenho saudades das páginas amarelas.
E mais nada.
Gostava barés de ter um casaco amarelo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um homem massaja-lhe os pés

Um homem massaja-lhe os pés e ela concentra-se nele. Um rosto muito pequeno e frágil. Os olhos em bico, a tez escura. Talvez seja vietnamita ou cambojano. Os dedos do homem nos seus tornozelos e ela pensa em Marguerite Duras e no seu amante chinês, tão intensamente mole, de causar dó e asco ao mesmo tempo.
Fecha os olhos, mas não relaxa. Está sentada num cadeirão muito burguês e balofo e apercebe-se agora mesmo da sua existência igualmente burguesa e balofa. Neste momento, reflete sobre a quantidade de toalhas que o massagista oriental usa durante a massagem. Seis quilos de toalhas, talvez oito. Uma máquina de roupa.
Abre os olhos e observa. Só então lhe ocorre que nem fizera a depilação. Que chato. Há semanas que não olha para as pernas. Contempla as suas patas descuidadas mesmo em frente àquele rosto delicado. As unhas dos pés com vestígios de um verniz fossilizado. Coitado do homem caído a seus pés. Se lhe der um pontapé, ele cai e parte-se aos pedaços.
Jamais teria um amante chinês, pensa. Ou vietnamita. Ou cambojano. Eram homens demasiado pequenos para a sua existência. Eis um pensamento tacanho e desidratado, igualzinho aos seus pés. É uma mulherzinha burguesa, balofa e também muito racista no amor e no sexo. Ainda assim, gosta de um bom amasso.
No final da massagem, sai do salão aos pulinhos, os pés de súbito muito leves, levezinhos. Na primeira esquina, encontra um pequeno milagre: uma vontade ansiosa de escrever com as mãos e com as patas traseiras. Começa a escrever logo ali, a caminho de casa. As patas e as ideias muito hidratadas.
Por vezes fazia-lhe bem pôr a vida de molho. Enfiar o pé na argola.
Levar um bom apertão.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ela escreve e o país arde

Ela escreve e o país arde. A culpa logo ali, na ponta dos dedos. E então pára de escrever. Faz outra coisa qualquer. Por exemplo, rega as plantas. As suas mãos em brasa.
O país arde e ela caminha para o elétrico. Lê um artigo sobre amamentação. Aponta a expressão "breast friend". No Facebook, algumas mulheres falam de assédio sexual. Só as mulheres falam de assédio sexual. Os homens estão-se a flamejar para isso.
O país arde e ela pensa naquele padre da sua infância. Aquele homem místico a pousar-lhe a mão no joelho. A falar-lhe da beleza por dentro e da beleza por fora. A capela compenetrada naquela coisa do divino, Jesus muito crucificado. Não se percebe se estará morto ou vivo. A menina muito bem sentada no banco da capela, a ouvir o Senhor Padre, pronta a confessar os seus pecados. Mas aquela mão desconcentra-a. A mão divina pousada no joelho. Tomara que aquela mão saia dali, pensa. Porque o seu joelho não tem vocação nenhuma para o sobrenatural. É um joelho muito feio e peludo, cheio de cicatrizes. Ainda hoje, quando pensa no seu joelho, pensa em todos os seus pecados e também naquela mão divina, que afinal era a mais humana de todas as mãos, a mais feia de todas as mãos.
O elétrico chega ao seu destino e ela pensa no seu país a arder, naquela memória em chamas e coloca então a hipótese de esse padre morrer num incêndio. O homem carbonizado, extremamente morto. Depois arrepende-se desse pensamento, claro. Faz outra coisa qualquer. Por exemplo, escreve um texto. Sempre é uma pequena fogueira para a alma. Talvez qualquer coisa aconteça. Um certo ardor por dentro, quem sabe. Mas está difícil escrever neste mundo. Está difícil viver.
Um certo vazio em todas as coisas.
O país arde e ela passa pela livraria bonita. Os livros muito bem sentados na montra. Não se percebe se estarão mortos ou vivos. Lembra-se então daquele livro enigmático, que falava de um futuro inventado em que os bombeiros queimavam livros. Fahrenheit 451, a temperatura a que o papel arde. Diz que o autor escreveu o livro em duas semanas. Uma autêntica combustão criativa.
Há qualquer coisa inspiradora nessa ideia, de facto.
A literatura no meio das chamas. Esturricada. Fulgurante.
Reduzida a cinzas.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Feira do Livro Infanto-juvenil de Bolonha

A convite do Hay Festival, estive na Feira do Livro Infanto-juvenil de Bolonha com a diretora da programação infanto-juvenil do Hay Festival, Julia Eccleshare, o editor e tradutor britânico Daniel Hahn e a escritora norueguesa Nina Elisabeth Grøntvedt, no evento "Hay Festival's Aarhus 39 list - a collection of the best emerging writers for young people from across Europe".
Foram dois dedos de conversa bem boa sobre escrita, viagens, tradução e literatura infanto-juvenil.




À tarde passei pelo belíssimo stand da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, da autoria de João Fazenda, vencedor do Prémio Nacional de Ilustração.




E pousei várias vezes no Planeta Tangerina.



Felizmente ainda deu tempo para dar um abraço a Grace Silva da El Naranjo, editora mexicana do Supergigante.


Mamma mia!
Foi belíssimo!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dez anos em Bruxelas

Chegámos a Bruxelas há exatamente dez anos. Eu e a rapariga do elétrico. Lembro-me bem.

Como se fosse ontem. Como se fosse hoje.

Estamos a sair do elétrico agora mesmo. No dia 31 de janeiro de 2007, um belo dia de inverno. Frio e calor na rua. Arrepio e aconchego.

Trazemos uma mochila às costas e arrastamos atrás de nós uma mala esquisita que não regula bem das rodas.

Atravessamos uma passadeira e depois outra. Chegamos à morada nova. Consultamos o mapa. Será mesmo ali?

Sim, é. Lá está ele: o lote 13. O número da sorte. O número do azar.

Tocamos à campainha. Ninguém abre. A rapariga insiste. Ninguém abre.

Eu olho para a rapariga à porta de casa e a rapariga olha para mim.

Sentamo-nos em cima da nossa mala esquisita. Eu e a rapariga à espera. Somos a pessoa do passado e a pessoa do futuro, observamos as casas.

Um silêncio estranho na rua. Os passeios muito parados no tempo, como se a cidade não morasse ali.

O dia a descer depressa.

A rapariga diz: Não tarda faz-se noite.

Eu digo: Não tarda faz-se o dia seguinte e o ano seguinte. E a década seguinte.

Será mesmo assim. É mesmo assim. Foi mesmo assim. Viemos por dez meses, mas afinal ficámos dez anos.

A rapariga à porta de casa não sabe desse lapso temporal, mas eu sei, porque sou dez anos mais velha, estou dez anos à frente.

Eu olho para essa rapariga e vejo um autorretrato, uma fotografia ou outra coisa assim muito quieta e antiga, com tendência para a eternidade.

Eu penso nela, na rapariga recém-chegada, e tenho vontade de ser essa outra, a que veio por dez meses e ficou dez anos. Ser exatamente essa pessoa há dez anos.

Chegar àquela rua, ao lote 13. Sentar-me na mala idiota. Ficar à espera. Desistir de estar à espera. Verificar que o meu Nokia azul não tem saldo nem bateria. Entrar numa cabine telefónica. Ligar para a minha companheira de casa a partir de uma cabine telefónica.

Ser estrangeira. Não gostar de ser estrangeira e, logo a seguir, aprender a gostar de ser estrangeira. Não querer ser outra coisa.

Escrever sobre isso. Escrever sobre qualquer coisa. Criar um blogue. Chamá-lo Belgavista.

Assinar um contrato de trabalho. Assinar um contrato de arrendamento. Beber cerveja belga, fazer amigos, também eles estrangeiros. Admirá-los, ouvi-los, rir-me com eles, chorar com eles. Aprender línguas novas. Tropeçar no português. Cair na neve. Fazer o que me apetece. Não fazer absolutamente nada. Comer um gaufre, comprar uma novela gráfica. Ir ao mercado. Escrever de madrugada, ir a pé para o trabalho. Ter tempo e espaço em Bruxelas. Andar de bicicleta no bosque. Dormir cada vez menos, ler cada vez mais. Ler na cama. Ler no sofá. Ler na varanda.

Viver apaixonada pelo Homem Ilimitado. Sempre.

Ir a Portugal. Chorar quando o avião aterra. Nunca perceber porquê.

Ser turista em Lisboa. Ser imigrante em Bruxelas. Ser tão absolutamente estrangeira em toda a parte. Não pertencer a lado nenhum.

Pensar que Bruxelas não é de ninguém. Que somos todos estrangeiros aqui. Os meus amigos, os meus colegas. A minha cabeleireira, o dentista, o osteopata.

Pensar que o meu mundo é feito de imigrantes. Aceitar que este mundo não é o mundo de toda a gente. Não perceber o Brexit nem o Trump nem a Marine Le Pen.

Andar de elétrico. Lembrar-me daquela rapariga do início. A rapariga à porta de casa. Saber que eu fui essa rapariga à espera. Que eu sou essa rapariga à espera. Que serei sempre.

Compreender o inverno, ter frio no inverno, escrever no inverno.

Ter saudades de qualquer coisa que não é bem um lugar. Que não é bem um tempo. Que também não é uma pessoa.

Olhar para esta década e ver uma paisagem, um autorretrato ou outra coisa assim muito quieta e antiga, com tendência para a eternidade. Perceber que nada é eterno, que tudo muda, até a memória que temos de nós próprios.

Escrever sobre isso. Escrever sobre qualquer coisa. Escrever imediatamente.

Contra o tempo. Contra o inverno.

Contra o esquecimento.