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terça-feira, 28 de abril de 2020

Os três porquinhos

Herdámos dos vizinhos do sétimo uns livros com histórias e canções em francês. Gostamos tanto desses livros que já adquirimos mais uns quantos. 



O mais velho deve andar com saudades da língua francesa. Volta e meia senta-se no chão e ouve as canções em silêncio. Ultimamente não larga os três porquinhos. O livro tem uns botõezinhos em baixo para ouvir os vários capítulos. Ele carrega no primeiro botão e a história começa: 

“Il était une fois
trois petits cochons
bien roses et bien ronds...”

O meu filho ri-se porque eu digo esta frase ao mesmo tempo que o narrador. Depois o narrador conta que chegou a hora de os três porquinhos saírem de casa dos pais e de construírem, cada um deles, a sua própria casa. “Au revoir, papa! Au revoir, maman !”, dizem os três porquinhos e lá vão eles à sua vidinha. O meu filho acena para mim, diz “Au revoir” e explica-me: “É francês”.
Olho para os meus três filhos, todos eles “bien roses et bien ronds”, e pergunto-me qual destes três leitões vai construir a casa de palha. A de madeira ainda vá, mas uma cabana de palha é de uma enorme irresponsabilidade. O mais velho escuta a história com imensa atenção, o segundo concentra-se nas palmas das mãos, o terceiro sacode as pernas e dá gritinhos.
Decidi que o infeliz idiota da casa de palha será este mesmo, o mais novo porque é o mais aluado. Grande otário, disse-lhe, devias levar já um par de estalos por antecipação para não seres tão preguiçoso.
Depois pensei nessa cabana feita às três pancadas e enterneci-me. Imaginei-o deitado numa cama de palha a tocar harmónica, sem grandes planos, sem grandes medos. Os olhos vivos e o riso fácil, uma certa infância ainda. Parece distraído, mas não está. Observa com atenção o movimento das nuvens e das árvores, qualquer coisa nele está em harmonia com o mundo. Hesito com o par de estalos. Se vier o lobo, há de ser devorado, mas a sua vida será mais intensa que a dos outros porquinhos, tão esforçados e cautelosos. Na verdade talvez seja ele a chave da história. Nem sempre o esforço compensa. Por vezes é preciso perder tempo para ganhar tempo. Para que interessa perder anos de vida a construir uma casa de pedra cheios de cuidados e de medos, se não compreendermos absolutamente nada sobre a vida e o mundo?
A bem dizer, talvez seja o porquinho da casa de palha o verdadeiro herói da história. Quando o lobo vier só ele vai prestar atenção. Só o porquinho da casa de palha vai antecipar a sua chegada. Vai parar de tocar harmónica, vai observar os rolos de palha, vai prestar atenção à mudança do vento e colocar hipóteses sobre o futuro. Só ele estará a olhar para o horizonte quando o lobo aparecer ao longe e vai ser ele a avisar os irmãos, que estarão nessa altura confortavelmente instalados nas suas casas.
Retirei então o par de estalos que tinha reservado para o mais novo. É ele que nos vai salvar. Com a sua harmónica e o seu poder de observação.
Olhei para ele emocionada. As pernas a dar a dar, aquele ar de quem não mora aqui. Tanto idealismo e expressividade.
Este mundo não precisa de mais gente acomodada e receosa. Este mundo precisa de pessoas sonhadoras e contemplativas.
Entretanto o mais velho já não está a ouvir a história dos três porquinhos. Está de roda dos legos, a construir uma torre muito direitinha.
Dou um caldo na cabeça do mais velho e mando abaixo a torre de legos com um pontapé. Grande otário, digo-lhe, vais ser tu o que vai construir a casa de pedra. Não percebeste nada de nada. Falhei em tudo.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A luz é grande

(As primeiras frases do meu filho mais velho.)


A luz é grande.
O céu está longe.
A estrela é alta.
O buraco é escuro.
O chão está sujo.
A mamã já vem.
Não está ninguém.
A folha caiu.
O carro subiu.
A porta abriu.
A nuvem fechou.
É o chapéu do avô.
É o carro da garagem.
É a garagem do carro.
O peixe é um peixe.
O leite é o leite.
É o camião do lixo.
É uma flor amarela.
É uma cancela.
É um menino.
Está triste.
Está contente.
Está quente.
Está frio.
Está vazio.
Está escondido.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Quem os fez que os ature

Um bebé ao colo, outro à solta, outro na cadeirinha.
Uma claridade ao fundo. Finalmente a manhã. 
Mudo três fraldas. Preparo três biberões.
Ligo a máquina do café. O mais velho chora. Pouso o mais pequeno na outra cadeirinha. Pego no mais velho. Reparo que tem as unhas muito compridas. A ver se as corto hoje. 
Um corvo a crocitar algures. O meu marido no duche.
Faço café, faço torradas, faço festinhas. 
Voltamos para a sala. O mais velho bebe o biberão no sofá. Um dos minorcas chora. Deve ter fome. Dou-lhe o biberão. Não quer. Abano a cadeirinha com o pé. Pára de chorar. Fica só assim, especado a olhar. 
Bebo o café num trago. Queimo a língua. O mais velho chama-me. Está escondido na tenda. Vou ter com ele. Brincamos com os carros. Eu tenho um carro, ele tem outro. Passamos com os carros por baixo da ponte. Vrum, vruuuum. Ele grita de felicidade. Os minorcas choram. 
Saio da tenda com alguma dificuldade. Tenho a perna dormente e as costas feitas num oito. Pego num dos minorcas. Acalma-se imediatamente. O segundo continua a chorar. Abano a cadeirinha com o pé. Continua a chorar. Pouso o outro. Pego no mais pequeno. Tem cocó. Mudo-lhe a fralda ali mesmo, no sofá.
O mais velho vai buscar o livro com as canções do mar. Canto três vezes a canção dos peixinhos e mais umas três vezes a canção da baleia. 
O minorca que ficou na cadeirinha chora. Esfrega os olhos. Pouso o do cocó que já não tem cocó e embalo o outro no colo. O do cocó sem cocó choraminga mas aguenta-se.
O minorca que está ao colo adormece, mas acorda logo a seguir com os gritos do mais velho. Embalo-o outra vez. Adormece. Saio da sala a correr. Não quero que o mais velho venha atrás de mim. Sou uma mãe em fuga. Reparo que as minhas mãos tresandam a cocó. Pouso o bebé no berço. Acorda imediatamente. Espeto-lhe a chucha na boca. Adormece. Saio do quarto a correr. À saída ouço o início de um choro, mas fujo a tempo. Sou uma mãe em fuga. Lembro-me de súbito que o bebé não comeu. Vai dormir pouco. Paciência. 
Volto para a sala.
O mais velho quer brincar na cozinha dele. Diz: “Anda”. Eu vou. A meio do caminho pisa uma peça de lego e chora. Eu digo: “Pronto, pronto. Já passou.” A coisa passa.
Pomos a mesa para o Mickey e o urso azul. Dois pratos, dois copos e duas colheres. Fazemos massa com cebola e morangos. O meu filho ri-se à brava com a minha vozinha de Mickey. Reparo que fez cocó. Reparo também que debaixo da mesa de jantar está uma rodela de pepino que não é uma rodela de brincar, é uma rodela a sério. Está tão esparramada no chão que parece fazer parte do soalho.

Massa com cebola e morangos

O mais velho espirra. Atchim: um jato de ranho verde até ao queixo. O minorca que está na cadeirinha assusta-se com o espirro e chora. Verifico que a caixa dos lenços está vazia. Tiro um toalhete húmido. O minorca está inconsolável. Pego nele e ando atrás do mais velho para lhe limpar o ranho. Ele foge, diz: “não, não, não”. Roubo parte do ranho quando passa por mim mas não consigo tirar tudo. 
O mais novo chora nos meus braços. Está todo bolçado. Limpo-o com uma fralda de tecido muito suja. 
O mais velho brinca na sua cozinha. Bate na porta do microondas “Truz truz, quem é?” Eu rio-me e, por um momento, reparo que está tudo bem. Por um momento, um deles brinca, outro observa e o outro dorme. Mas sei que é só um momento. O mais velho tem cocó. Quando pousar o minorca, é possível que ele chore. O mais velho vai gritar e espernear quando lhe mudar a fralda. Em resultado de tudo isto, o bebé que está no berço vai certamente acordar.
Olho para o relógio. São oito e meia da manhã. O dia ainda é uma criança. Ou melhor: o dia ainda é um bebé de colo.
Penso naquela frase que as pessoas dizem: “Quem os fez que os ature.”
É bem verdade. Adoro a sabedoria popular. Quem tudo quer, tudo perde. Quem anda à chuva, molha-se. E sim, quem os fez que os ature. Mas estamos tão sozinhos nisto.
Penso nas mães que me dizem: “Aproveita agora.” Que me garantem: “Vais ter saudades.” Que lamentam: “Passa tudo tão depressa.”
Será que passa? Não parece. 
Neste momento são oito e meia da manhã. E as noites nunca foram tão longas. 
Estou sempre à espreita. Sempre alerta. Sempre à espera. 
À espera que adormeçam, à espera que acordem, à espera que comam, à espera que arrotem, à espera que cresçam.
Ainda assim, o tempo passa.
Os minorcas fazem hoje seis meses. Não tarda, gatinham. Não tarda, vão pelo pé deles. 
Quem não anda, desanda. Quem espera, desespera.
Acho que não vou ter saudades nenhumas disto. Destas noites de vigília, deste cheiro a cocó.
O mais velho vem ter comigo. Ainda tem a cara cheia de ranho. Quer que eu coma da colher. Eu como. Digo: “Mmmmmhh!”
Ainda não é hoje que lhe corto as unhas.
O minorca que está ao colo chora. Apercebo-me de que ainda não lhe dei o biberão. 
Quem não chora, não mama.
Penso na rodela de pepino esparramada no chão. Penso na canção dos peixinhos. Penso neste tempo de espera.
Quem faz uma vez, faz duas e três.
Sou uma mãe em fuga. Tenho as costas feitas num oito. As minhas mãos cheiram a cocó. Mas enfim. Cá estamos. À espera que o inverno acabe. À espera que o tempo passe.
Não vou ter saudades nenhumas disto. Juro.
Nenhumas, nenhumas, nenhumas.
Estou aqui a tentar escolher um daqueles provérbios para acabar o texto. 
Tenho este aqui: Quem mais jura, mais mente. E também este: Quem sai aos seus não degenera. 
Mas acho que vou acabar assim: Quem muito ama, muito sofre. Ou então assim: Quem não se sente, não é filho de boa gente.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Tempestade Ciara

Sigo os conselhos dos bombeiros. Fecho as janelas, tiro tudo da varanda: os vasos, a bicicleta, os sacos de lixo, a piscina insuflável que não cheguei a esvaziar.
Lá fora, o pinheiro gigante abana. As árvores lá atrás também.
O vento assobia e urra. Folhas e sacos pelo ar. Os meus filhos agitados, como se também eles estivessem para aí largados ao vento. As ruas desertas. Agora nem sequer passam carros.
Na sala, a janela treme, velha e fraca. O vidro fino e sujo. Eu gorda e frágil. Fico deste lado a ver o espetáculo.
Dentro de mim uma certa esperança.
É sempre assim. O vento atrai-me.
Na Boca do Inferno tinha medo de não resistir à ventania, de me atirar a ela num impulso de exaltação e descontrolo. E nunca tive medo do lobo mau, que manda tudo abaixo com a força de um sopro. Acho esse sopro bonito. Gostaria de levar com ele. De ir pelos ares.
A culpa deve ser do Feiticeiro de Oz. Aquele furacão espantoso que leva a menina e a casa para uma terra de fantasia.
Além disso sou do Guincho. Sou do oceano. Sou da Boca do Inferno. Sou feita de vento e rocha.
Estou aqui em frente à janela fraca. Trago calçados não os sapatos mágicos da Dorothy mas umas pantufas da Serra da Estrela. Ainda assim, tenho esperança neste vendaval. Talvez ele me leve para uma outra dimensão. Talvez seja melhor que esta.

Nunca se sabe.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Amor e outono

Anda aos saltos no bosque. Corre atrás dos pombos. Vai sempre em frente. Eu fico a vê-lo ir. 
Ele corre e grita. Nunca olha para trás.
Afasta-se cada vez mais, é cada vez mais pequeno.
Já não corre atrás dos pombos. Corre só por correr. 


Chamo-o. Não reage. 
Chamo outra vez. Não reage. 
O meu filho corre sempre em frente e eu corro atrás dele.
A certa altura tropeça e cai. Fica no chão a chorar.
Eu pego nele ao colo. Ele pára de chorar. Quer ir para o chão outra vez. 
Desata novamente a correr. E eu fico a vê-lo ir. O meu filho sempre em frente. 
Aos gritos. Às gargalhadas. Aos tombos.
E eu cá atrás. A chamar por ele. A correr atrás dele. 
Amor e outono por todo o lado.
E sempre aquela esperança. De que não tropece. De que não caia. De que olhe para trás.

sábado, 28 de setembro de 2019

Trinta e um dias

Os meus bebés cheiram mal. Tenho de lhes dar banho. Coitados.
Fazem hoje um mês de idade. Trinta e um dias a habitar o mundo.
Eu poderia dizer: Passou tudo muito rápido. Mas também poderia dizer o contrário: Passou tudo muito devagar. 
Os dias são tão curtos. As noites são tão longas.


Cinco toalhas de banho penduradas na porta.


Estou a sangrar há um mês. Trinta e um dias a verter sangue, tecido e muco. 
A barriga toda agrafada. A pele amarrotada e dormente. 
Tenho um recém-nascido grande e um recém-nascido pequenino. 
Às vezes ando com os dois ao colo, um em cada braço. Quando estou com os dois ao colo, tenho comichão no nariz. 
É muito difícil ter comichão no nariz quando não dá para coçar o nariz.
Eis um método eficaz de tortura: cócegas no nariz. Imagino um instrumento bizarro para afagar levemente o narigão de políticos e banqueiros corruptos. Eu, se soubesse alguma informação importante, algum segredo de Estado, chibava-me logo toda. Felizmente não sei nada. Ou então esqueci-me. 
Agora esqueço-me de tudo.
No outro dia esqueci-me da consulta com a osteopata. Esqueci-me também de outras coisas, mas já não sei de quê. 
Às vezes não me lembro como se chamam os meus filhos. Outras vezes confundo-os. Acho que este é aquele e aquele é aqueloutro.
Ontem deixei queimar um estrugido de brócolos. Hoje queimei os dedos no esterilizador.
Tenho um torcicolo. Tenho prisão de ventre. Tenho uma lista de coisas para fazer. Não faço nada.
Durmo pouco. Uma hora, duas horas, três horas. 
Trinta e um dias sem dormir nada de jeito.
Estou cheia de borbulhas nas pernas. Uma alergia a não sei o quê. Coço-me a toda a hora.
Neste momento tenho um bebé ao colo e outro aos meus pés, na cadeirinha de baloiço. Eles dormem e eu escrevo. Assim é que está certo.
As pessoas dizem-me: “Dorme quando eles dormem”.
Que estupidez.
As pessoas dizem com cada coisa. 
O meu filho mais velho ouve mal. O mais pequeno foi internado. O outro caiu da cadeirinha de baloiço.
A maternidade não dá sono. Dá cagufa. Dá comichão no nariz. Mas sono, realmente, não dá.
Por vezes sinto-me sozinha. Outras vezes quero estar ainda mais só.
Estou constipada. 
Dói-me o nariz de tanto me assoar. Dói-me a garganta. Dói-me a cabeça. Doem-me os braços.
Um dos gémeos dorme duas horas seguidas. O outro vai dormitando aqui e ali. Um fica bem no berço, o outro não. Primeiro come um, depois come outro. Às vezes choram ao mesmo tempo. 
Naqueles livros sobre gémeos, os especialistas dizem-me que não devo fazer comparações.
Que estupidez. 
Os especialistas dizem com cada coisa. 
Os gémeos existem em conjunto. Eu olho para um, olho para outro e descubro as diferenças: um tem o nariz mais empinado. Um tem mais borbulhas. Um é maior que o outro.
Eu vou conhecendo estas criaturas através da comparação. Eu vou conhecendo a vida e o mundo através da comparação.
Esta democracia já foi mais democrática. A justiça também já foi mais justa. Em Bruxelas está mais frio do que em Lisboa. Há dias tão escuros como a noite.
Sempre gostei dos graus de comparação dos adjetivos. 
Grau comparativo de igualdade: este filho é tão querido como o outro. 
Grau superlativo absoluto sintético: os meus filhos são lindíssimos.
Eu passo a vida a comparar e a superlativar.
Sou, entre outras coisas, mãe de três meninos que, um dia, hão de ser rapazes e depois homens a sério. 
O mais velho há de ser sempre o mais velho. Algum deles há de ser o mais alto. Espero que todos eles sejam tão extraordinários como o pai. E que nenhum deles seja tão lamechas como a mãe. 
Eu olho para o passado, olho para o presente e descubro as diferenças: somos agora melhores, maiores e muitos mais.
Somos cinco. Antes éramos três. Antes disso éramos dois. No início éramos um. E antes disso, enfim, não éramos nada. Grau superlativo relativo de superioridade: os meus filhos são os mais maiores melhores filhos de todos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Três letras

Outra coisa: nas palavras cruzadas há sempre palavras com apenas três letras.

Um sinónimo de “família” com três letras. Um sinónimo de “insignificância”. 
Um sinónimo de “benéfico”. 
Um sinónimo de “recitar”. 
Uma “grande porção”. 
Uma “fileira”. 
A primeira de todas as mulheres. 

Tudo palavras com apenas três letras. 
Aqui vão elas por ordem de chegada: lar, avo, bom, ler, ror, ala, Eva.


Fico aqui a pensar que podemos dizer muitas coisas com apenas três letras. Tantas coisas.

Uma. Dez. Cem. Mil.
Mar. Céu. Sol. Lua.
Olá. Até. Sai. Rua.
Vai. Asa. Voo. Cai.
Noz. Mel. Chá. Uva.
Ovo. Oco. Eco. Ego.
Ana. Ivo. Rui. Ema.
Ele. Ela. Nós. Sós. 
Tio. Tia. Avô. Avó.
Meu. Teu. Tão. Tal.
Eis. Que. Bom. Mau.
Ufa. Ora. Bué. Uau.
Paz. Pau. Etc. Xau.

Textinho escrito à toa, na boa vai ela (três palavras com três letras).

sábado, 7 de setembro de 2019

Palavras cruzadas

Cortaram-me a barriga ao meio. Depois cortaram um cordão umbilical e depois outro.
Quarto de hospital. Um silêncio branco à minha volta.
Estou deitada numa maca. 
Já fiz dois sudokus e duas sopas de letras. Também fiz dois bebés. Estão num berço ao meu lado. 
Todas as coisas quietas e desinfetadas.
Passo os olhos pelas palavras cruzadas, também elas quietas e desinfetadas.
Nunca gostei de palavras cruzadas. A ideia de preencher quadrados com letras não me entusiasma. Mas hoje (ontem? anteontem? na semana passada?), não sei porquê, apeteceu-me. Talvez tenha sido a trovoada que caiu sobre a cidade. Talvez tenha sido a maternidade triplicada que caiu sobre mim.
As palavras salvam-me. Os substantivos, as preposições, os advérbios. A semântica, a fonética, a sinonímia. 
Interesso-me por vocábulos da mesma maneira com que me interesso por pessoas. Quero saber de onde vêm, o que pensam, para onde vão. 
Os meus filhos acabaram de chegar e eu faço palavras cruzadas. As minhas primeiríssimas palavras cruzadas, e não as segundas ou as terceiras. 
Salto de quadrado em quadrado e, de repente, plim: chego ao fim. O quadro todo preenchido com letras.
Senti um orgulho tão infantil, que tirei uma fotografia (esta fotografia).




É verdade que fiz batota: perguntei coisas ao Google, consultei o dicionário de sinónimos. Mas nunca na vida tinha preenchido o quadro todo com letras. E estas palavras existem. Deram-me a mão. Fizeram-me companhia. No sentido literal e no sentido figurado.
A parteira pesava os gémeos e eu projetava palavras na horizontal e na vertical. Imaginava pradarias tropicais, aves de rapina, conchas fusiformes.
O pediatra explicava-me como desinfetar o umbigo dos gémeos e eu perguntava-me se um umbigo também podia ser fusiforme. Eu pensava em coisas como: Que bonita é a palavra “fusiforme”. Que bonitos são os favos de mel. Quantas letras tem a palavra “honra”?
Eu olhava para os meus filhos recém-chegados, com os seus dois dias de idade, os seus dois dedos de testa, e matutava em sinónimos de “derivar”, “ligar”, “ladrar”. O obstetra fazia previsões sobre a contração do meu útero e eu perguntava-me que palavra a começar por “z” poderia ser sinónimo de “idiota”.
A vida acontecia dentro e fora de mim e eu pegava nos meus filhos ao colo, fazia palavras cruzadas e escrevia sobre tudo isso.
É sempre assim. 
Na minha vida tudo se cruza e liga e mistura: as palavras, as pessoas, a semântica. A maternidade, a trovoada, a divagação.
A minha alma é fusiforme. Parece um búzio, uma orelha, um umbigo. 
A minha alma é um remoinho de poeira. Uma espiral de vento que engole todas as letras, todos os quadrados. A vida toda.
Há palavras lindas. Há dias fusiformes. Há uma primeira vez para tudo.
E esta poderá ser a primeira lição de vida para estes pequenos seres humanos. 
Há sempre maneira de dar a volta a isto. Façam palavras cruzadas, filhotes. Façam birras. Façam figuras. Façam figas. Façam qualquer coisa.
Só não fiquem para aí a queixar-se do destino. A chatear cada um.
Façam-se à vida, pequenos seres. Não sejam zotes (sinónimo de “idiota” a começar por “z”).

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Ele e ele. Este e aquele. Um e outro.

Aí vêm eles. Os gémeos. Os dois.
Ele e ele. Este e aquele. Um e outro.
Dizem-me: é a maternidade ao quadrado, é o amor em dose dupla, é o júbilo duplicado.
Eu penso: será a angústia vezes dois, o dobro das dificuldades, a multiplicação do cansaço. 
São as duas faces da mesma moeda, as duas versões da história.
Dupont et Dupond. Tico e Teco. Ego e alterego.
Sempre as mesmas perguntas: se são verdadeiros ou falsos, se são meninos ou meninas, se a gravidez foi espontânea, se há gémeos na família, se tenho mais filhos, se tenho ajuda.
Abstraio-me. Penso noutra coisa. Penso em duas coisas. Penso em tudo e no seu contrário.
Dois pesos. Duas medidas.
No fundo estava-se mesmo a ver. Os sinais estiveram sempre lá. 
A dualidade, o duplo sentido.


Um brinquedo cá de casa

A verdade é que tenho uma alma gémea: um homem duplicado que vale por dois.
A minha avó materna teve gémeos falsos.
Um dos meus amigos mais próximos tem um irmão gémeo.
Gosto de dormir em beliches. Em camas duplas, em twin beds. 
Acho uma certa piada a casas geminadas. E a duplexes.
Tenho duas amigas que trato por “gémea”. Ambas se chamam Joana.
A maternidade, para mim, sempre foi dose dupla. Dois abortos, duas gravidezes ectópicas, duas gravidezes de jeito.
Guerra e paz. Crime e castigo.
O signo do homem duplicado: gémeos.
O meu ascendente: gémeos.
O meu chocolate: Twix.
E sempre gostei de duetos. Sempre gostei de parelhas, de casalinhos, de dicotomias.
Frente e verso. Ponto e vírgula.
O que mais me marcou na literatura alemã foi a noção de Doppelgänger, o duplo presente ou então ausente. O homem que vendeu a alma, o homem que vendeu a sombra, o homem que matou o seu duplo.
Durante anos tentei escrever sobre um autor que andava à procura do narrador e também sobre um homem que perdia o seu reflexo, mas não cheguei a lado nenhum.
Sujeito e predicado. Pessoa e seu heterónimo.
Portanto, olhem, estava-se mesmo a ver. Um mais um, igual a dois.
Noite e dia. Yin e yang.
E depois não é só isso. 
Tenho dois olhos. Dois ovários. Duas narinas. Duas mamas. Eu própria sou uma dupla maravilha.
Venham eles. Os gémeos. Ambos os dois. Tu e eu. Tuta e meia.
Venham como vierem. Verdadeiros ou falsos. Para cima ou para baixo. Muito parecidos. Completamente diferentes.
Água e sal. Coiso e tal. Tanto faz.
Hão de ter duas bochechas. Duas orelhas. Dois pés. 
Hão de ser inseparáveis. Insuportáveis. Dois amores. Dois estupores. 
Duas pessoas.
Ele e ele. Eu e eles. Nós e eles.
Os dois da vida airada.
As duas metades que faltavam.

sábado, 11 de maio de 2019

Aqui estou


Aponta em frente. Diz: “Aqui”.
Aponta para cima. Para baixo. Para o lado. “Aqui.”
Aponta com o dedo indicador.
Mão esquerda, mão direita, tanto faz.
Aqui.
Aqui, o pombo, o cão, o céu.
Aqui, campainha, árvore, quadro.
Aqui, teto, porta, pai.
Aqui, noite, colher, bolacha.
Aqui, colo. Aqui, mais. Aqui, água.
Aqui, silêncio, chuva, nada.
Aqui.
Primeira palavra. Primeiro tudo.
Mundo inteiro.
Aqui estou.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Dez quilos de identidade

O meu filho com um ano de idade. Com os seus caracóis. Com aquele ar compenetrado de quem tem uma opinião sobre o assunto. O meu filho a franzir o sobrolho. A olhar para um livro. A comer pão. A pigarrear como um velhinho. Um entendimento qualquer nos olhos. Uma certa paz nos gestos. Como se já tivesse cá estado antes. O meu filho a esfregar o olho. A puxar os botões do casaco. A rasgar uma folha. A morder o sofá. A gatinhar. A estrebuchar. A rir. A dormir. A gritar. A chorar. A bater no espelho. A bater na máquina de lavar roupa. A enfiar-se no alguidar.
O meu filho cada vez mais real. A existir cada vez mais. Tão grande. Tão pequeno. Com ranho no nariz. Com a chupeta ao contrário. Com o macaquinho pela mão. Com cócegas nos pés.
O meu filho, com dez quilos de identidade. Que eu compreendo cada vez mais, mas não conheço nada bem. 
Tão íntimo. Tão nosso. Tão meu.
Tão daqui e dali. E ao mesmo tempo tão misterioso. Tão ele. Tão desconhecido.
O meu filho a existir neste mundo, mas ainda não completamente. Não anda, não desanda, não fala. 

E eu fico aqui assim, a vê-lo existir, com a certeza pasmada de que ainda não sei quem ele é, de que nunca vou saber. O meu filho ri-se e bate palmas. É um ser humano de carne e osso.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A vida não é uma mãe e um filho

O nosso tempo chegou ao fim. Eu e ele desunidos, desenlaçados, desconjuntados. Partidos ao meio. 
Ele vai por ali, eu vou por aqui. Ele vai para sul e eu para norte. 
Cada um no seu canto. Cada um na sua. E não está nada mal assim. 
A vida não é uma mãe e um filho. A vida não é um colo e uma chupeta. A vida são as mães, os filhos, as chupetas e tudo o resto. Buzinadelas, constipações, antibióticos. Balões, bigodes, guindastes. Quartos de banho, quartos de hotel. Salas de cinema, salas de reunião. Dores de cabeça, dores de dentes. Lentes progressivas, ovos mexidos. A vida é uma confusão do caneco. 
Estou no café de sempre a comer precisamente ovos mexidos e sei que vou ter saudades desta solidão a dois. Vou ter saudades deste bebé que ele é, que ele foi, que ele será sempre. Do interesse eufórico por este mundo tão grande. Da alegria simples de estar vivo entre as coisas vivas. Da bisbilhotice espontânea: abrir uma gaveta, rasgar uma folha. Da sua felicidade a olhar para o espelho, a lamber uma parede, a enfiar a mão na sopa. 
Estou aqui feita mãezinha de cotovelos apoiados no parapeito da vida, a contemplar o passado e a projetar o futuro. Eu penso na alegria fácil do meu filho e pergunto-me em que momento é que isto acaba. Em que momento acabou para todos nós. Em que momento nos transformamos nestes macambúzios muito crescidos, que já não se riem para o espelho, já não lambem as paredes, ficam só assim muito parados e circunspectos, tão fartos da vida e do mundo, tão cansados, tão chatos, tão convencidos de que já vimos tudo, já sentimos tudo e nada nos move, nada nos abana. Montanhas, praias, cidades. Comboios, bicicletas, telhados, varandas. Farmácias, hotéis, garagens. Jurisprudência, concorrência, orçamento de Estado. Normas de segurança, regras de trânsito, cartões de crédito. 
Em que momento acaba a alegria e começa o cinismo. 
Eu penso no meu filho e só espero que este mundo venha devagarinho, a gatinhar. Cachecóis, faturas, parquímetros. Anexos, certidões, imóveis. Manuais escolares, recibos verdes, vinho branco. Sacos de plástico, calças de ganga, portas de embarque.
Acima de tudo, espero que não lhe falte o colo da mãe sempre que lhe bater o cansaço e o tédio, porque lhe vai bater o cansaço e o tédio. E o colo da mãe pode dar jeito.
Nunca mais vamos andar pendurados um no outro horas a fio. Dias a fio. Meses a fio. Isso é claro. É certo. É indubitável. 
Mas esta vida também é feita de ternura e miminhos. Este mundo às vezes esquece-se disto. Que a vida também é uma mãe e um filho. 
Se calhar estamos só a precisar de um abraço.
Eu cá estou.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A experiência física da leitura

Quando gosta de um livro, agarra nele de qualquer maneira e abana-o. Depois grita-lhe aos ouvidos e bate-lhe. Dá-lhe umas belas chapadas na capa e no traseiro. Só então abre o livro em qualquer página e fecha-o logo a seguir. Repete o movimento vezes sem conta. Abre e fecha. Abre e fecha. Abre e fecha. Por vezes detém-se numa passagem e amachuca a folha, dobra-a, rasga-a. Brinca com o pedaço de papel, mete-o na boca. Depois atira o livro para o lado e agarra-o outra vez. Roda-o de um lado para o outro com as duas mãos e, quando o apanha a jeito, morde-lhe a lombada com grande convicção. Pimba, bem feito. Às vezes aleija-se, coitado. Alguns livros são duros de roer.
A leitura, para o meu filho, é uma experiência física e não uma experiência intelectual.
À noite, quando me deito com o meu Kindle, sinto-me uma leitora menor. Os livros eletrónicos não são livros a sério. Não têm cheiro. Não têm sabor. Estou para ali largada a ler os diálogos epifânicos da Rachel Cusk e só me apetece metê-los na boca. Aaah, penso, quem dera morder as lombadas da Rachel Cusk.
Falta-me a experiência física da leitura. Não sinto o tato dos livros. Em contrapartida, posso consultar o dicionário num clique e procurar passagens específicas. Ainda assim, a minha boca sofre. Chora por mais.
Ontem à noite lambi o Kindle, mas não gostei da experiência. O Kindle é o fast food dos livros. Sabe a plástico.
Por causa do meu filho, ando aqui cheia de ganas de devorar livros. Não consigo ignorar este desejo.
Hoje à noite vou atacar as estantes de cima.


sábado, 2 de junho de 2018

Um muro até ao ponto de fuga


E então virámos a esquina - eu, os meus óculos escuros e o meu filho - e fomos dar a um muro vermelho, aos quadradinhos. Um muro de tijolo que era uma rua inteira. 
Uma linha sempre em frente até ao ponto de fuga.
Passou-nos logo a leveza. 
Um muro é um assunto sério. Especialmente aquele, tão completo, tão alto, tão longo. As dimensões soube-as depois, na net: seis metros de altura e quase um quilómetro de comprimento.
Era o muro da prisão de Saint-Gilles.
Do lado de lá, os prisioneiros. Do lado de cá, eu, os meus óculos escuros e o meu filho.
Um silêncio estranho naquela rua que era um muro. Só os meus passos e as rodas do carrinho.
Depois, devagar, um clamor de vozes. Urros ao longe, do lado de lá.
Eram os prisioneiros. Estavam no espaço exterior, a fazer não sei bem o quê. Talvez desporto. Um pensamento esquisito: os tempos livres dos homens sem liberdade.
Eu e os meus óculos escuros ficámos a ouvi-los. O meu filho não. O meu filho dormia à sombra do muro que era uma rua. Uma sombra fresca, é bem verdade. 
Eu e o meu filho cá fora, os prisioneiros lá dentro. Nós livres, eles presos. Todos nós vigiados, monitorizados, condenados. Mas não da mesma maneira.
O sol lá em cima, desinteressado destas coisas da justiça e liberdade. O sol boçal e selvagem, sem cultura, sem cortesia. Não muito diferente deste meu filho, ignorante da sua liberdade. O meu filho analfabeto e inexperiente, de chupeta amarela.
E então eu e os meus óculos escuros pensámos neles. Nos homens punidos. Atrás do muro, atrás das grades. Porque também eles eram filhos de alguém. Também eles eram amados. Um dia também os criminosos terão sido meninos. E antes disso, bebés. Teriam, todos eles, uma mãe. E essa mãe, durante uma época, terá cantado canções de embalar e batido palminhas sempre que eles faziam cocó. Um cocó muito bonito, aliás, amarelo-mostarda, cheio de esperança e fantasia. Um cocó que nem cheirava a cocó. E essa mãe limpava o rabinho do filho e encontrava satisfação naquela tarefa de limpar aquelas nádegas minúsculas, que eram do seu filho, claro, mas também eram suas. Conhecia os esconderijos da pele. Era preciso levantar os pequenos testículos para limpar o cocó amarelo-mostarda. 
Nessa época, mãe e filho eram ignorantes e patetas. Desconheciam o futuro. Mãe e filho não sabiam que a vida lhes traria um muro até ao ponto de fuga.
Eu e os meus óculos escuros pensávamos nisto e perguntávamo-nos se um dia esta minha cria, de chupeta amarela, haveria de cometer um crime imperdoável. Se haveria de sofrer um castigo daqueles. E considerámos que sim, era possível. Imaginei-o colérico, revoltado. 
No início estranhei-o um pouco. O meu filho desobediente. Usurpador. Corrupto. Violador. Mas logo a seguir continuei a amá-lo. Porque não? O meu filho imperfeito. Delinquente. Assassino. Pedófilo. E achei que todos os seus crimes também eram meus. Porque o seu rabinho de bebé também era meu. E todo ele era meu. Por isso, aceitei aqueles delitos.
Fiquei a imaginar esse criminoso. 
De todas as transgressões, prefiro o crime político, claro. O meu filho idealista, visionário, mártir. A acreditar em qualquer coisa. Sempre.
Já a mãe de um criminoso não deve acreditar em grande coisa. Ainda assim, acreditará certamente no seu filho, o pequeno analfabeto de chupeta amarela.
Deve ser isto o amor de mãe.
Uma prisão perpétua de anuência e devoção.
Um muro de tijolo e carinho até ao ponto de fuga.