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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cores quentes

Não, não está sol, mas hoje é sexta-feira e estou rodeada de cores quentes. Por exemplo, o meu iPod é cor de laranja e os guindastes na rua também. Hoje não vi nenhum, mas sei que os elétricos são amarelos. E este autocarro tem uma risca cor de laranja em baixo. Aquelas barreiras de proteção são amarelas. As bananas da mercearia também. Aquele guarda-chuva ali à frente também. E os telhados desta rua são laranjas ou então vermelhos. O interior da minha carteira nova também é vermelho e o meu cartão multibanco é laranja. E hoje estou com uma bandolete cor de laranja que me aperta a cabeça e trago uma saia às bolinhas amarelas e o meu bálsamo para os lábios tem sabor a laranja, o meu creme das mãos cheira a limão e em casa tenho uma caneta fluorescente amarela, um lápis HB vermelho e um caderno cor de laranja. Por isso é verão na mesma. É verão quando eu quiser.
Chove praí que eu gosto.

É sexta-feira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A escrita de A a Z

Ana Banana Cigana
Declaradamente Em Furor
Gatafunhava Histórias Improvisadas
Jocosamente Kafkianas
Logrando Manufaturar
Narigudas Orações Prosaicas
Quando Resolveu Soletrar
Terminantemente
Um Verdadeiramente Wonderful
Xixi (Yááá!)
Ziguezagueante

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O céu serve para ter nuvens

O céu serve para ter nuvens. As nuvens servem para chover. A chuva faz barulho. Um saco de plástico também. Um balão pode subir. Um ovo pode cair. Cair nem sempre dói. Se dói, é para chorar. Chorar é chover no rosto. O rosto é para ter bochechas. As bochechas apertam-se. Os dedos servem para estalar. Os pés são para dar chutos. As árvores são para trepar. Uma estrada é para correr. A boca é para gritar. Um grito vai muito longe. Um barco também. A areia é para fazer castelos. Os castelos são para destruir. O mar vai sempre em frente. Uma onda é para mergulhar. Debaixo de água não se ouve.
É que não se ouve mesmo.
Eu, pelo menos, não ouço nada.
Tirem-me desta chuva.

domingo, 15 de janeiro de 2012

vil vendaval vertebrado

varrendo

vilas vales ventres

vozeando

viçoso

vocais vocábulos vocativos

verbos versos versículos

vira vigia venera

vigorosas valquírias

virgens venéreas

véus vestidos vaidades

vento valente vetusto

veloz voraz veraz

vem vai volta

vê vive vence

vigorosos veteranos

viúvas vindouras

vós vosselências vencidas

vulgares vassalos

vivendo vergados

vagares vigilantes

virtudes viciosas

valores virtuais

ventania vidente vacilante

veio vigorosa vasculhando

virilhas vaginas vísceras

veleiros vimeiros vitrais

varrida ventaneira vingativa

voejando verdes várzeas

vindicando veemente

vida

vanguarda

vitória

vaivém viandante

viagem vertical vulcânea

vidas vãs

ventres vazios

viravolta

vácuo

vice-versa

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Texto com monossílabos - Um mar sem fim

não tem
ar
nem pés
nem céu
é
só um mar
sem sal
nem
pôr
do
sol
que cai
em mim

um mar
de dor
e fé
que vai
de cá           pra lá
sem pé
sem ar
sem céu
e não tem
fim

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um homem que era uma árvore

Um parque que não é bem um parque, que talvez tenha sido um parque porque há restos de árvores e bancos de jardim. Do céu cai agora mesmo o resto de uma chuva que não chega a molhar o chão. Um homem antigo caminha pela lama que já foi relva mas não vê nada disto: o parque, os bancos, o resto da chuva. É um homem magro, macilento, comprido, parece o tronco velho de uma árvore moribunda. Traz no alto da cabeça um emaranhado de cabelos que já não são bem cabelos, que talvez tenham sido cabelos, mas que agora são ervas daninhas ou o ninho abandonado de pássaros cruéis, um cabelo feito de caruma e lama e folhas pisadas de Inverno sujo. Aproxima-se cada vez mais do nosso banco de jardim e os seus olhos não olham para nós, têm outras coisas dentro. Olhos cheios de nuvens e água, uma luz que não passa. Olhos que olham para dentro.
Ficamos a observá-lo.
É impossível que este homem veja para fora. Talvez não veja de todo para fora e, nesse caso, não saiba que os seus braços são dois ramos vazios sem folhas nem flores nem frutos, só duas mãos que descobrem os dias, extremas e alvacentas como dois sóis de Inverno.
Passa pelo nosso banco de jardim, mas não nos vê ali, vive para dentro, a olhar para outro céu, numa outra Terra, sozinho, perdido, talvez feliz.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sete pés

Fujo a sete pés, literalmente a sete pés, porque vejo os meus pés e também outros pés correndo, os meus pés e outros cinco pés, olho para mim, sete olhos, e não reconheço o corpo, o meu próprio corpo que é o meu próprio corpo correndo à minha frente, vários corpos à minha frente, toda eu duplicada, toda eu triplicada, toda eu sete vezes, sete pés mas não sete cabeças, o casaco pela mão, só um casaco pela mão, e tenho apenas duas mãos, só duas mãos, apesar de ter sete pés e talvez sete corpos, apesar de a tarde estar fria e de ser só uma tarde, uma só tarde, um só casaco, só um casaco, o coração contando segundos, os segundos ao contrário, 10, 9, 8, o meu corpo ao contrário, o coração que é só um, contando os segundos, sete pés, sete vidas, sete mares, sete colinas, até ao fim do mundo, o meu coração como uma granada ou como a passagem de ano, 3, 2, 1 e eu oiço uma bomba ou uma rolha saltando, qualquer coisa que explode como nos dias de festa ou nos dias de guerra e eu corro ainda mais, por causa dos pés, por causa dos outros, os pés dos outros, que não são meus, que nunca foram meus, os pés dos outros, que me seguem, e não olho para trás, nunca olho para trás, atiro o casaco e corro ainda mais, porque balanço os braços, e toda eu sou velocidade, fujo do destino, para o destino, contra o destino, o casaco azul às pintinhas, o melhor casaco de todos, qual destino, sem destino, e eu fujo a sete pés e não sou um corpo, sou tantos corpos, tenho sete vidas, para quê as vidas, morrer sete vezes e sempre a mesma morte, atirar-me sete vezes, esborrachar-me sete vezes, sempre este terror, sempre este coração, nunca o destino, sempre o destino, que é uma granada e conta os segundos, o mundo ao contrário, até ao fim do mundo, sete colinas, sete mares, sete mortes sempre iguais.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Uma praia feia

De repente lembrei-me daquele lugar onde ninguém estava além de nós. Daquela praia deserta num dia de Inverno. Uma praia feia, aliás, cercada de prédios pardacentos, a ponta de uma cidade, o fim de qualquer coisa. Nem as gaivotas pousavam ali, só os nossos pés. Era uma praia tão triste. Lembras-te? Tanto frio, tanto vento, nem tinha trazido um gorro, doíam-me os ouvidos. Todas as razões para não estarmos ali e, no entanto, estávamos ali. Enrolei o cachecol à volta da cabeça, lembras-te? Não te ouvia, não te falava, não te beijava e, ainda assim, não queria estar noutro lugar. O sol ia tão alto: perfurava as nuvens como um milagre e só nós assistíamos àquilo, uma ilusão pateta de que talvez fossemos especiais. Tão parvinhos. As nossas pegadas na areia, só as nossas pegadas na areia, apesar de não estarmos em nenhum deserto, de nunca termos estado num deserto, de estarmos numa cidade feiíssima cheia de gente e de gaivotas que se escondiam noutro lugar qualquer que não aquele. Conheço tão bem as tuas pegadas. Conheço-as muito melhor do que as minhas. Porque sigo os teus passos e não os meus, claro. Conheço bem os teus ombros, o teu cabelo, as tuas costas, sigo-te. Quanto tempo terão ficado ali as nossas pegadas, já viste? Se calhar tempo nenhum, repara, porque as nuvens escureciam como os dias e é provável que tenha chovido nesse dia, não me lembro. O vento a correr como uma má notícia, o meu cabelo tão desgrenhado, cheio de areia e de sal, e eu feliz com qualquer coisa, distraída com qualquer coisa. Tão arrependida por não ter trazido o gorro. A seguir as tuas pegadas na praia feiíssima, os teus pés muito maiores do que os meus. E era o final da cidade, o final dos dias, onde ninguém estava além de nós.
Não sei por que razão me lembrei disto agora.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pastilhas elásticas

Acabaram-se-me as pastilhas elásticas. Detesto quando isto acontece, sinto-me carente. Como se me faltasse o mimo ou o ânimo ou água ou coisa que o valha. Adoro pastilhas elásticas: entretêm-me a boca e ajudam-me a marcar o compasso das horas. Na falta de pastilhas elásticas, ponho-me a chuchar no dedo ou a tirar macaquinhos do nariz ou a roer as unhas, o que é extremamente deselegante. Há quem considere mais deselegante mascar pastilhas elásticas, principalmente quando a pessoa em causa faz barulho ou gira a boca como um animal ruminante. Não sei se faço barulho ou se giro a boca como um animal ruminante, nunca reparei. Gosto de fazer balões e de espalmar as pastilhas no céu-da-boca como se fossem massa ou plasticina. Costumo ter uns dois ou três pacotes de pastilhas no gabinete. Para variar de sabor. Na verdade, não são bem pacotes, mas sim caixotes de pastilhas. Este último caixote da Mentos, por exemplo, tinha quarenta e cinco "soft cubes". O caixote tinha a forma de um cubo e as pastilhas também. Gosto das pastilhas Mentos. Um caixotinho de pastilhas dá-me para imenso tempo, porque vou debicando de vários. No entanto, nestas últimas semanas distraí-me e agora acabaram-se-me as pastilhas de repente. Costumo comer entre uma e três pastilhas por dia. Felizmente tenho bons dentes. Pelo menos é o que diz o meu dentista, que tem ar de menino bom por causa da tez muito fina e do sorriso ebúrneo. O meu dentista seria incapaz de mentir. Até há bem pouco tempo só comia pastilhas de mentol. Não gostava do sabor das outras, tudo me parecia artificial e nenhuma pastilha me deixava na boca a mesma sensação de frescura. Gosto da sensação de frescura. Ao contrário do que possam estar a pensar, não masco pastilhas para lavar os dentes. Tenho o hábito de lavar os dentes várias vezes por dia, porque também gosto da sensação de frescura das pastas de dentes. Hoje em dia, como tudo o que é pastilha, gosto de variar. Alcancei uma certa maturidade no que diz respeito a pastilhas elásticas. Quando era miúda as minhas pastilhas preferidas eram as Gorila. Gostava do formato do paralelepípedo, do invólucro de papel, do som do papel a rasgar, da textura macia dos desenhos que vinham por dentro. Ficava com dores nos maxilares porque as pastilhas Gorila eram grandes e duras de roer. Mas não havia nada na vida como as pastilhas Gorila. Era um prazer ficar com dores nos maxilares. Depois vieram as pastilhas do gelado Epá. Era difícil dominar aquelas bolas enormes. Como todos os outros miúdos, comia o gelado Epá por causa da pastilha e não por causa do gelado. Tudo isto se passou depois da pré-primária. Lembro-me muitas vezes da pré-primária. Tinha quatro ou cinco anos, não mais. A minha melhor amiga chamava-se Diana, eu gostava muito da Diana. Andávamos de bata azul e de chapéu vermelho, lembro-me disso. Ríamo-nos muito, ainda me lembro das gargalhadas efusivas da Diana. A Diana tinha os dentes podres e muito tortos por causa da chucha, segundo consta. Certa vez enquanto esperávamos que as nossas mães nos viessem buscar à escola, pintámos os lábios com um batom vermelho e demos um beijo na boca. Éramos crianças como as outras, acho, e, como todas as outras crianças, não podíamos comer pastilhas elásticas. Eu e a Diana tínhamos uma frustração enorme por não podermos comer pastilhas elásticas. Falávamos disso, de como era injusto não podermos comer pastilhas elásticas. Até que uma de nós teve uma ideia fantástica, que era tão legítima como a de pintar os lábios de vermelho e dar um beijo na boca. Essa ideia consistia no seguinte: Por que não comer as pastilhas que os outros deitavam para o chão? Era uma ideia tão simples e, no entanto, genial. Ficámos tão entusiasmadas com a nossa descoberta que passávamos, provavelmente, horas à procura de pastilhas. Recuperávamos as pastilhas abandonadas no asfalto ou esmagadas nos bancos da escola, nas portas da casa de banho, nos ferros dos baloiços, nas balizas do campo de futebol, nas mesas do refeitório. Havia pastilhas elásticas por todo o lado, era uma excitação. Guardávamos as pastilhas nos bolsos das batas, não contávamos a ninguém. Como éramos extremamente limpas, lavávamos as pastilhas antes de as metermos à boca. Algumas dessas pastilhas vinham em forma de bola, outras vinham muito prensadas. Umas eram duras, outras rugosas por trazerem pedrinhas ou areia dentro. Havia pastilhas amarelas, verdes, cor-de-rosa, brancas, azúis. Mascávamos as pastilhas pacientemente. Trocávamos sorrisos misteriosos enquanto o fazíamos, não dizíamos nada. Depois, quando a massa ficava mole, engolíamos as pastilhas recuperadas. Tínhamos quatro ou cinco anos, não mais. Nessa altura já sabíamos que aquelas pastilhas elásticas vinham de outras bocas, mas isso não nos chocava. Lembro-me tantas vezes disto.
Não sei o que é feito da Diana.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

As coisas crescem sem fazer barulho.

Deitou-se agora mesmo no sofá. Desdobrou a mantinha preta que estava muito bem dobrada no outro lado do sofá. E cobre-se. Não conseguimos ver a sala inteira daqui, só um pedaço de sala. Primeiro a janela. Depois as plantas.
Dois caules de orquídeas sem orquídeas.
Vasos de várias cores. Molduras ao contrário. Não sabemos o que mostram. Uma escrivaninha do lado esquerdo da sala, um ecrã de computador que parece outra janela por ser tão grande. O sofá à direita. A rapariga está deitada, mas não dorme. Uma mesinha quadrada e branca, talvez do IKEA, provavelmente do IKEA. Envelopes, revistas, cartas, postais, comandos, jornais, canetas, tantas coisas em cima da mesinha quadrada e branca. A rapariga tem um livro na mão, não tínhamos dado por isso. Está a ler. Estica neste preciso momento os braços para cima, não parece estar uma posição confortável.
O livro pesa sobre ela como uma rocha. É um livro robusto. A rapariga está a meio do livro.
Atrás do sofá, uma mesa de jantar sem centro de mesa, quatro cadeiras arrumadíssimas, um candeeiro por cima, quadros coloridos nas paredes. Um desenho abstracto com formas geométricas, uma menina com os pés muitos juntos e as mãos muito juntas, outros quadros imperceptíveis. É o que vemos através da janela.
A trepadeira do parapeito está cada vez maior. Há poucas semanas tinha só uma perninha, agora já tem várias.
As coisas crescem sem fazer barulho. É o que se pode concluir.
Estamos neste silêncio e as plantas crescem, o dia cresce, a rapariga cresce e o livro é cada vez mais pesado, cada vez maior.
Dois caules de orquídeas sem orquídeas. Há tanto tempo sem orquídeas. Um projecto de orquídeas dentro do vaso à janela. E, no entanto, este silêncio. Talvez um relógio de parede a contar os segundos, talvez o computador cogitando, mas nada mais.
Tantas cores na sala. Cortinas amarelas. Almofadas com flores, almofadas com riscas, um tapete vermelho. Porquê uma manta preta? Por que se cobre a rapariga com uma manta preta? Uma rapariga sempre tão calada, crescendo em silêncio, cada vez maior.
O livro enorme, cada vez pesado, igual a uma rocha.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A rua segundo o cão do vizinho polaco

Não sei como é nas outras ruas, mas na minha rua vivem mais pessoas do que cães. Ando mais na minha rua do que nas outras. Quando fico pela minha rua, não tenho de usar trela. Quando ando noutras ruas, tenho. Gosto mais de andar sem trela, por isso gosto mais de ficar na minha rua do que andar nas outras ruas. Gosto mais de cães do que de pessoas, por isso tenho pena que haja mais pessoas do que cães na minha rua. Vou à rua três vezes por dia. Gosto muito de ir à rua. Outros cães vão à rua mais vezes por dia, mas a maioria vai à rua duas vezes. Há outros cães que só vão uma vez. Por isso, não me queixo. O meu dono vai à rua mais vezes do que eu. Algumas vezes sai com a minha dona de carro, mas normalmente sai sozinho e desce a rua a pé. Não sei para onde vai. Saio três vezes com o meu dono. É raro sair com a minha dona. Só saio com a minha dona, quando o meu dono não está. O meu dono não é daqui, é de outro sítio. A minha dona é daqui. Eu também sou daqui, acho. Os meus donos têm filhos. As pessoas têm mais filhos do que os cães, parece-me. Também têm mais filhos do que cães. O meu dono não me deixa parar na rua para falar com outros cães. Também não me deixa cheirá-los nem lambê-los. No entanto, pára muitas vezes para falar com outras pessoas, mas não as cheira nem as lambe. Não sei porquê. Também não sei por que não me deixa falar com os outros cães. Os meus dias preferidos são as segundas-feiras e as quintas-feiras, porque às segundas-feiras e às quintas-feiras as pessoas põem os sacos do lixo na rua e há muitos cheiros misteriosos no ar. O meu dono deixa-me olhar para os sacos e cheirá-los, mas não me deixa abri-los. Gostava de poder abrir os sacos do lixo e provar todas as coisas misteriosas que vivem dentro deles. Os sacos têm três cores: branco, azul e amarelo. Os sacos brancos guardam mais cheiros do que os sacos amarelos e azuis. Normalmente os sacos amarelos trazem jornais e caixas de cartão. Os sacos azuis trazem muitas embalagens de muitos formatos e feitios. Não percebo a razão de ser destes sacos nem por que motivo os não posso abrir. Os sacos desaparecem às terças-feiras e às sextas-feiras de manhã. Por vezes, eu e o meu dono encontramos o enorme camião do lixo no nosso passeio matinal. Há duas pessoas que vêm agarradas à traseira do camião. São elas que recolhem o lixo. Essas pessoas e o camião fazem muito barulho. Não gosto do camião do lixo nem das pessoas do lixo, tenho medo deles. No geral, também tenho medo dos carros, mas só quando os vejo de fora. Não tenho medo de andar de carro, até gosto de ver as outras ruas através da janela, as outras pessoas, os outros cães. Por vezes também vejo gatos às janelas das casas, mas não na minha rua. Gosto quando o meu dono abre a janela do carro e me deixa morder o ar. Gosto de correr pelas escadas do prédio. O meu dono nunca é tão rápido como eu a subir as escadas nem a descê-las. Gosto de comer. Tenho uma caixa para a comida e outra para a água. Também tenho uma cama e muitos brinquedos. O meu brinquedo preferido é uma bola que faz barulho quando a mordo. Gosto do meu dono e da minha dona. Também gosto da minha rua. Principalmente às segundas-feiras e às quintas-feiras. Sonho muitas vezes com os sacos do lixo.