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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Dois quilos de literatura da pesada

A senhora disse que eu tinha peso a mais.
De início indignei-me (Granda patega!), mas depois dignei-me.
A senhora referia-se à mala de viagem, claro, claro, claro.
Tirei três livros da mala e enfiei-os no saco.
Foi suficiente: os três livros, juntinhos, pesavam dois quilos. (Ganhei!)
A senhora desejou-me boa viagem e eu encolhi a barriga.
Durante o voo, para passar o tempo e o espaço, pensei nos três livros.
Eram literatura da pesada.
E, no entanto, quem olhasse para eles, jamais diria.
Eram textos desocupados. Pareciam três pedaços de prosa inócua.
Um falava sobre o vazio, outro sobre a desumanização e outro sobre ninguém.
Sempre tive esta atração pelo vácuo.
Sou oca e inconsistente.
Pareço uma aeronave a deslizar como se fosse levezinha.
Tenho a cabeça no ar.
(Literalmente no ar.)
Olho pela janela.
As casinhas lá em baixo. Tão banais e desabitadas.
Está a chover em Bruxelas.
São gotas mirradas, mas fazem mossa.
Não há nada mais pesado do que o vazio.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A minha mala de viagem

A minha mala de viagem não gosta de viajar, mas viaja na mesma. É mole e quadradona. Tem quatro rodinhas e pelo macio. Para onde eu vou, ela roda também. Às vezes rosna. Leva um tabefe.
A minha mala de viagem é malandra. Às vezes muda as minhas coisas de sítio e ri-se de mim no escuro. Tira de um bolso e põe no outro. Eu ralho, ela ri-se.
A minha mala de viagem gosta de andar no escorrega das malas. Quando aterra no tapete, dá um grito e bate palmas. Eu tenho vergonha, ela não.
A minha mala de viagem veio com um livro de instruções, tem uma personalidade complexa.
A minha mala de viagem adormece no comboio. Fica com um fio de baba pendurado no fecho. Quando acorda, desliza na direção certa e chega sempre ao destino.
A minha mala de viagem assobia nas filas e nas escadas rolantes. Nunca apressa as rodinhas. Tem tempo para tudo. E espaço para tudo. É gorda e tem as costas largas, nunca se queixa.
A minha mala de viagem anda comigo ao colo. Engole os sapos todos e também os meus sapatos. Às vezes não traz as minhas cuecas ou a escova de dentes. Ela ri-se. Eu não.
A minha mala de viagem anda de lado ou então às voltinhas. Vai sempre à minha frente e puxa por mim.
Eu sigo-a, porque sou mole e quadradona.
Vou para onde me levam.

domingo, 5 de agosto de 2012

O turista ocidental

O turista ocidental não é turista, é outra coisa. Não vai onde os turistas vão, não usa a piscina do hotel, não quer sequer um hotel com piscina. O turista ocidental é aberto e curioso, quer coisas simples. Dorme em hostels baratuchas e vai onde os autóctones vão. Os autóctones são diferentes e especiais de corrida. O turista ocidental, que é uma pessoa culta, observa-os e aprende. O turista ocidental é uma autêntica criança adulta. Tem a vida toda pela frente, é imaginativo. Traz uma mochila de 60 litros às costas com muitos bolsos e fechos. Dentro da mochila complicada traz um livro de um autor autóctone, roupa suja, roupa lavada, o guia do Lonely Planet, acessórios. O turista ocidental tem o mapa da cidade no bolso, não se perde, é escuteirinho. Senta-se num bar dos autóctones, é simpático e comunicativo, quem o viu e quem o vê. Diz Bom dia! e Obrigado! na língua dos autóctones, é uma pessoa interessada. Lê as dicas do Lonely Planet: o que ver, o que comer, a história dos autóctones, a cultura dos autóctones, a religião, o comportamento, tudo sobre os autóctones. O turista ocidental sabe tudo sobre os autóctones, é incrível. Passeia-se pelas ruas e olha para os edifícios, para as pessoas, para as montras, é uma criança adulta. Mete conversa com os vendedores, faz perguntas inesperadas, ri-se. Como se isso não bastasse, tira fotografias artísticas ao pôr-do-sol e às sombras das árvores, é uma pessoa criativa. Passadas três semanas, o turista ocidental está um autêntico autóctone. Come como os autóctones, bebe como os autóctones, faz tudo o que os autóctones fazem, é incrível. Quando volta para casa, sente-se diferente, único, especial de corrida, é finalmente uma parte do todo. Porém, engana-se, coitado. O turista ocidental não é especial de corrida. É igualzinho aos outros turistas ocidentais, sem tirar nem pôr. Faz tudo o que os outros fazem, come o que os outros comem, bebe o que os outros bebem. Não é um autóctone na terra dos autóctones, é um estranho, um estrangeiro, um turista ocidental. Está tão sozinho como os estrangeiros sozinhos, é tão diferente como eles, é arrogante. Não sabe nada sobre os autóctones e não é uma parte do todo, é um peixe fora de água. Um turista. Uma pessoa estranha ao serviço. Uma criança adulta sem imaginação.
O turista ocidental é um autóctone de outro mundo. Um autêntico Lonely Planet.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ir ou voltar

Dezoito e quarenta e cinco, lá estão os ecrãs gigantes, TAP Portugal, números, letras. Malas grandes e coloridas, pequenos mistérios. Turistas de boné, rostos escarlates, pessoas com ar importante, óculos escuros, missão impossível. Arrasto as minhas rodinhas para a fila. Olho para o meu BI, estava com o cabelo diferente naquela altura, foi naquele cabeleireiro da Flagey. Felizmente, o drop off tem pouca gente, vai ser num instante. Sorriso chapa cinco, boa viagem. Quando é que voltas? A pergunta confunde-me, não sei se estou a ir ou a voltar. Como? Por ser bonita e formosinha, tenho direito à fila prioritária da segurança, o que é ótimo, dá para choramingar mais rápido. Olho para trás, adeus, adeus, sorriso chapa cinco, vou. Um segurança bem-parecido. Computador? Líquidos? Um cremezinho para as mãos, se calhar? Uma garrafinha de água? Digo Não quatro vezes, tiro o relógio. Nunca sei se é para tirar o relógio. Uns dizem que sim, outros dizem que não, não é coerente. Passo no raio-x, não apito, yeeeah, ninguém apalpa o meu terreno hoje. Tenho tempo. Caminho devagar, devagarinho, o mais devagarinho possível, estou quase parada, sou uma tartaruga. Passo na Alma Lusa. Nunca compro nada na Alma Lusa, mas gosto de ver os turistas escarlates a comprarem canequinhas do 28, carteiras de cortiça, um pin do Santo António, um azulejo. Turistas felizes em Lissabon, ridículos. Porta de embarque 22, vou andando. Compro uma água Luso no café, 50 centilitros. Não tem 65 cêntimos ou 15 cêntimos? Faço-me difícil, Não, não tenho (preciso de trocos para a máquina dos chocolates). Nunca percebi o problema dos trocos em Portugal. Onde andam as moedas? Penso na piscina do tio Patinhas, grandes mergulhos que eu dei no mar. Porta 22, cá estamos. Afinal não, é um voo para Porto Santo. Pergunto à farda da TAP, muito composta atrás do balcão. O voo para Bruxelas é na 23, mudaram de porta. Aaaaaah, a praia de Porto Santo. Fico indecisa, era bem bom. Passageiros para o voo TAP Portugal com destino a Milão, por favor, queiram embarcar na porta Y. Porquê embarcar se já não há caminhos marítimos por descobrir? Devíamos dizer aviar, por exemplo. Passageiros para o voo X queiram aviar na porta Y. Assim é que era. Chego à porta 23, pessoas sentadas. Olho para o chão, vou super-mega-rápido até a um banquinho vazio e sento-me sossegadinha. Abro uma revista, espeto o nariz lá dentro. O meu objetivo é nunca olhar à minha volta, para não dar de caras com caras conhecidas, porque depois tenho de participar num diálogo monossilábico muito chato e eu não sei assim tantos monossílabos como isso: Olá, olá. Já vai pra lá, né? Pois, tem de ser. Com o sol que tá por cá… Pois é. Cruzes canhoto, que neura, não me apetece. Leio um artigo sobre qualquer coisa. Uma criancinha aproxima-se de mim com um balão vermelho, não dá para ignorar. Tiro os olhos da revista, sorriso chapa cinco. A criancinha atira-me o balão desajeitado, levo com ele no trombil, sensação agradável. Os pais riem-se, que filhote tão atrevido. Brinco um bocadinho com a criancinha e depois dou uma pancadita mais forte no balão para me livrar dos dois (do balão e da criança, sorry). Espeto o nariz na revista. Senhores passageiros, não-sei-quê, problema na aeronave, temos pena, atraso e tal, voo previsto para as dez e cinco. A moça à minha frente desata num pranto daqueles, até tira os óculos para chorar melhor, tinha provavelmente um compromisso importante em Bruxelas ou então só uma birra de sono, não sei. De qualquer forma, merecia um abracinho, mas ninguém lhe dá um abracinho, pessoas insensíveis. Os turistas escarlates em Lissabon ainda não sabem de nada, porque não falam português, continuam felizes e ridículos. Aí vem a versão em inglês, ladies and gentlemen, mega suspense. Fico a olhar para os turistas, I see you baby, a ver o pôr-do-sol nos seus rostos, sou cruel. Os passageiros frequentes vão logo para a filinha indiana, têm direito a um voucher de 16 euros para comerem uma pizza ou um hambúrguer enquanto esperam, bem bom. Olha, sempre dá para ver a final. Espanha ou Itália? Não consigo escolher, é aborrecido não torcer por ninguém. Atiro mentalmente uma moeda ao ar, Espanha cara, Itália coroa, e sai-me Itália, o que até faz sentido, porque inventaram o tagliolini e o fettuccine e eu gosto das duas coisas. Também quero comer e ver o jogo, mas a fila dos índios nunca mais anda, é sempre assim. Já não há lugares em frente às televisões e não me apetece ficar de pé. Fico então de costas e peço um hambúrguer com molho à café ou lá como se chama, come-se. As pessoas aplaudem cada vez que os espanhóis marcam golo, parecem contentes. Os portugueses contentam-se com pouco. Misteriosa alma lusa. Levanto-me, vou à casa de banho. A utilizadora anterior da sanita que me calha na rifa não puxou o autoclismo, primorosa menina. Lavo as mãos e saio. O ecrã diz-me que afinal o voo é só às vinte e três horas. Uma senhora atrás de mim repete umas vinte e três vezes: Vingt-trois heures, vingt-trois heures, vingt-trois heures. Não tarda, leva uma lambada. Concentro-me, faço contas: um pacote de maltesers deve ter praí uns 10 maltesers. Se eu comer uma bolinha de 12 em 12 minutos, tenho maltesers para duas horas, pensei, nada mau. Vou então comprar maltesers na máquina, sento-me algures e ponho-me a escrever este texto da treta. Também compro um café para não me dar o sono antes de entrar no avião. Entretanto reparo que já não tenho maltesers. Devo ter comido um malteser por segundo, não faz mal, estava distraída. Os espanhóis ganharam 4-0, surreal. O resultado lembra-me as cabazadas que eu levava do meu irmão naqueles jogos de computador. O ecrã diz-me que o voo vai sair a horas, salvo seja. Finalmente, o embarque começa, é a aviar. Entro no avião e sento-me no meu cantinho à janela: 13 A. Bem-vindos a bordo. A sua segurança é muito importante para a TAP. Continuo a escrever este texto da treta, porque não me apetece inventar coisas novas, estou muito bem assim, nesta história de verdade, eu gosto. Neste avião, existem 8 saídas de emergência, dá sempre jeito saber. De repente, apagam-se as luzes, fico às escuras com o meu caderninho. Eu bem queria escrever este texto da treta, mas assim não dá. Nos lavabos também existem máscaras de oxigénio, também é bom saber. Descolamos a horas, quer dizer, às vingt-trois heures. Lá em baixo, a cidade com luzinhas. Lá em baixo, dava para escrever, penso. Cá em cima, não dá. Isto de estar às escuras dá-me um sono incrível. Aviei.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Do voo e da queda

A avó disse que não gostava nada de andar de avião, mas que sempre desejou fazer parapente. Depois falou da diferença entre as duas coisas. Fazer parapente estava mais perto de voar. Concordei. Estávamos de mãos dadas, no velório do avô.

Antes disso, pela primeira vez, não tinha chorado ao sobrevoar Lisboa. A cidade surgia inteira e ela não quis saber do rio escuríssimo nem das luzes à beira das estradas. Estava visivelmente preocupada com outras coisas. Desapertou o cinto de segurança antes de ser seguro desapertar o cinto de segurança e pôs a mala a tiracolo para assegurar uma saída de rompante, sem obstáculos. (É preciso um certo vagar para a saudade.)

Não é impossível ficar e voar. Isto segundo Ed Asner, o velhote rezingão que decidiu, justamente, ficar e voar. O último filme da Pixar chama-se Up e fala, mais ou menos, de um homem que decide ficar em casa e voar. Ed Asner tem uma cara quadrada e óculos quadrados: é um homem aos quadradinhos. Ed Asner não existe, por isso teve de ser inventado. Ed Asner é parecido com o meu avô, mas o meu avô existe.

Bruxelas é uma cidade mais profunda e tenebrosa do que a Gotham City do Batman, mas tem mais portas e janelas do que Gotham City. É uma cidade real.

O último livro do Agualusa começa com uma mulher a cair do céu durante uma tempestade tropical. Caiu – veio caindo, nua, negra, de braços abertos – quase ao mesmo tempo que o raio. Era uma boa imagem aquela, da mulher caindo, de braços abertos.

Concluiu que tinha uma certa obsessão por quedas e não por voos. Preferia, por exemplo, o bungee jumping ao parapente. Também gostaria mais de cair na toca do coelho do que de voar para a Terra do Nunca. Não sabia se isto dizia alguma coisa sobre a sua personalidade. Estava-se nas tintas para a sua personalidade.
A Cat Woman caiu da janela, perdeu uma vida. O Batman voa. E ela gostava mil vezes mais da Cat Woman do que do Batman. Também tinha uma queda para a Cat Power, que tinha, por seu turno, uma certa queda para cair.

Por vezes, achava que tinha caído em Bruxelas. De braços abertos. Mas hoje não achava nada disso. Tinha de ir ao supermercado, antes que fechasse.
(Como aqui se disse, é preciso um certo vagar para a saudade.)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Hoje é o dia

A rapariga recém-chegada a Santa Apolónia entra num café e pede uma bica. Diz realmente: "Era uma bica!".
Fica de pé ao balcão: os cotovelos apoiados no vidro. Se fumasse, fumaria. Se escarrasse, escarraria. Mas a rapariga não faz nada disso, espera só. A bica chega, recém-chegada como ela e a rapariga parece feliz com o encontro. Agita no ar um pacote amarelo, rasga-o num só gesto, começa a despejá-lo.
E nesse instante, nesse preciso instante e exactamente ali (aos pés de Alfama e na boca do rio que ria sempre), a rapariga recém-chegada olha para o pacote já rasgado e lê: Um dia serei turista na minha cidade. Era um pacote de açúcar igual aos outros: da Nicola e de pontas enrugadas, um rectângulo quase quadrado, um amarelo de Verão que se prolonga. Com uma frase no ventre. Um dia serei turista na minha cidade.
A rapariga fica a ver o açúcar cair como quem vê o tempo a passar. E de repente não há nada, só o pacote vazio. Prende-o na mão esquerda, os cinco dedos a segurá-lo. Bebe finalmente o café e o amargo da boca coincide com outro amargo qualquer. Não sabe identificar qual.
Regressa ao papel amarelo, vira-o do avesso, roda-o nos dedos. Lê no verso do pacote: Hoje é o dia. Do outro lado a mesma frase inicial. Deste lado: Hoje é o dia.
Amachuca-o de repente (o pacote e o dia), deita-o fora, paga. Sai dali apressada (da boca do rio, dos pés de Alfama) e entra pela cidade dentro.
Depois perde-se, claro. Como os turistas.
E os lisboetas.
Era portanto uma rapariga com dois versos.
Igual ao pacote de açúcar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Na porta de embarque

Um passageiro lê um jornal. A senhora do lado não faz nada: está de mãos dadas com a bagagem de mão. Pergunta:
- Tem horas?
- Não se preocupe com as horas. Quando for, eles chamam.
- Estou muito nervosa, sabe?
- Com quê? Não gosta de andar de avião?
- Não, detesto! Mas também não tenho medo. É aquela coisa de voltar a casa!
- De voltar a casa? Pois, isso pode dar cabo dos nervos!
- Sim, mas é óptimo! São nervos bons! Adoro a minha casa, sabe?
- Portanto, a senhora volta agora para lá, é isso?
- Sim, o senhor não?
- Não, eu vou só.
- Aaaah, já não volta?
- Sim, claro! Depois volto para aqui. Mas agora vou.
- Pois, eu já vim para cá, mas agora volto para lá.
- Portanto, você mora lá.
- Não, eu moro aqui. E volto para lá agora.
- E já não vem para cá mais?
- Sim, claro! Depois vou para aqui. Mas agora volto.
- Então, se a senhora mora aqui, a volta é sempre neste sentido: de lá para cá.
- Não, não, eu moro aqui mas venho de lá, logo volto para lá.
- Mas a senhora está sempre aqui, portanto quando vai para lá, vai só.
- Não, eu volto sempre para lá!
- Repare: eu tenho casa aqui. Logo, se vou daqui para ali, vou só! E quando volto, volto para aqui.
- Mas eu tenho casa lá também. Aliás, comprei essa casa antes de vir para aqui. Logo, quando vou para lá, volto.
- Depende de qual das casas pensa ser a sua casa.
- São as duas!
- As duas? Então tanto dá, pode dizer que vai ou que volta.
- Justamente. E hoje apetece-me dizer que volto!
- Porquê?
- É uma questão de perspectiva.
- Você deve estar realmente nervosa.
- Sim, estou! É porque estou a voltar! Se fosse só ir, não custava nada!