quinta-feira, 26 de junho de 2014

A narradora desfasada

A narradora deste texto anda desfasada. Até o cabelo se desalinha, coitado. Não há maneira de ir ao sítio. Se o empurra para um lado, vai para o outro. Se o hidrata, fica oleoso. Se o ignora, fica encrespado.
É um cabelo carente.
A narradora deste texto sacode os ombros e sai de casa. Se espera pelo elevador, ele não arranca. Se vai pelas escadas, tropeça. Se calça sandálias, molha-se. Se vai a pé, atrasa-se. Se corre para o elétrico, não o apanha. Se o apanha, não encontra o passe. Se tem frio, não tem casaco. Se leva o guarda-chuva, está sol. Se vai de botas, tem calor. Se quer cantarolar, não tem música. Se quer café, não tem trocos. Se tem tempo, não tem ideias. Se tem ideias, não tem caneta. Se tem caneta, não tem caderno. Se quer pagar, não tem carteira. Se está cansada, não descansa. Se descansa, aborrece-se.
E tudo isto - pensa a narradora deste texto - é uma grande canseira.
Antes ficar na cama a ouvir os passarinhos lá fora. E os belgas a celebrar a vitória ou então a derrota.
O que vale é que a narradora deste texto não tem sono. Porque se tivesse sono, não dormia. E se quisesse ler, adormecia.
Antes ficar a escrever um texto fictício sobre um mundo paralelo. Diferente deste mundo.

Completamente desfasado.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A estrofe redonda

A narradora deste texto pensou então que, se os seres humanos olhassem para um poema com a mesma exaltação com que olham para uma bola de futebol, haveriam de andar por aí inspirados e sentimentais, a correr atrás de uma estrofe redonda que nunca mais é real, a agarrar rimas pelo braço, a cabecear sonetos. Passariam os dias e as noites de lira ao colo a declamar poesia. E nunca perderiam a voz. Nem o Norte. Nem as estribeiras.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.

E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O sangue na guelra

O jogo de ontem dá para pensar na vida e não em futebol. 
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se. 
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É. 
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates. 
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.

Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.

Que grande tédio.

Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

Michael Cunnigham

Estive à frente do Michael Cunnigham. Era preciso esticar o pescoço para o ver como deve ser, mas o esforço fez-me bem à coluna. Acho que estou mais alta. A certa altura perdi a vergonha e agarrei no microfone. Fiz-lhe perguntas e ele respondeu.
No final pedi-lhe um autógrafo no meu exemplar fora de horas.
Ele perguntou: "E escrevo o quê?" Eu: "Um conselho para jovens escritores".
Ele escreveu:

To Ana,
Don't panic.
(really)
Michael Cunnigham

Depois pedi-lhe outro autógrafo noutro livro. Ele escreveu:

To Ana,
Never stop.
Michael Cunnigham

quinta-feira, 5 de junho de 2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

À conversa com o Planeta Tangerina

Eu sou multitasking. No outro dia estive à conversa com o Planeta Tangerina por e-mail enquanto passeava por Bruxelas. Foi giro!
Falámos sobre a escrita, a vontade de rir, o chocolate belga e o amor na adolescência.

http://planeta-tangerina.blogspot.be/2014/06/ana-pessoa-quase-em-direto-de-bruxelas_2.html

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Segunda de manhã na capital da Europa

Auscultadores nos ouvidos, lenço ao pescoço. As segundas-feiras começam no elevador. Primeira porta, segunda porta, terceira porta. Afinal não está frio nem quente, está assim assim. Os dois sem-abrigo não pedem dinheiro, estão distraídos. Andam à procura de qualquer coisa por baixo das mantas. Estou a ouvir Austra. Um pai apressado empurra um carrinho de bebé. O miúdo traz um helicóptero ao colo e fala pelos cotovelos. Olho para trás, para o helicóptero e para os sem-abrigo, que ainda não encontraram o que procuram. O café de esquina está sempre cheio. Não percebo. São caros, antipáticos e vendem sandes esquisitas. Com pasta de atum. Ou tomate e bacon. Acho que nunca comi uma sandes de tomate e bacon. O elétrico passa, guincha na curva. Além disso, vêm dentro de sacos de plástico. As sandes. Passo por uma montra de pains au chocolat, vejo pessoas na montra a beberem café, nunca entrei aqui. Um dia destes. Tenho saudades dos cafés portugueses, das pessoas ao balcão, de uma meia de leite, de bolos de arroz. Passo por uma escola secundária. Alguns miúdos estão cá fora a olhar para o seu próprio reflexo nos carros e a partilhar auscultadores e cigarros. Uma mulher ultrapassa-me, parece determinada. Vai mudar o mundo ainda hoje, sem falta. Traz uma saia travada, mas a saia não a trava. Um cão enorme passeia um senhor franzino pela rua. Uma bicicleta passa por mim e logo a seguir outra. A última bicicleta faz triiiiiim. É um ex-colega por baixo de um capacete foleiro. Está tudo bem? Sim. E contigo? Tanta tecnologia, tanto design e ainda não inventaram um capacete de jeito. Uma senhora faz-me uma pergunta. Os olhos parecem perdidos, traz um mapa na mão. Tiro os auscultadores, pergunto: Como? A senhora balbucia qualquer coisa e eu aponto para o mapa. O meu francês é melhor que o dela. O cabelo dela é melhor que o meu. Tem sotaque nórdico. A florista da praceta tem sempre umas plantas sofisticadas cá fora. Qualquer dia compro uma planta nesta florista. Passo pelo homem que fuma à porta de casa. Está sempre no mesmo sítio à mesma hora, de cigarro em punho e chinelos nos pés. Sustenho a respiração. Não me apetece inalar tabaco. Uma mercearia marroquina já tem a fruta cá fora. Também nunca entrei aqui. Passo pelo cão velho, que ocupa o passeio todo. No outro dia, ladrou-me. Não sei porquê. Ao longe, os edifícios do Parlamento Europeu. Ficam sempre bem nas fotos. De qualquer ângulo, de qualquer maneira. A luz faz sempre ricochete nos vidros. Os edifícios do Parlamento Europeu parecem frágeis e robustos ao mesmo tempo. A extrema direita vai para o Parlamento Europeu trabalhar contra a Europa. Logo agora, que precisávamos tanto do contrário. Felizmente, o cartaz absurdo das eleições europeias já não está em cima da Avenue Belliard a olhar para mim e a dizer Use your power. Passei estranhos momentos em frente àquele cartaz enquanto esperava que o sinal mudasse. Um dos tipos estava com um chapéu de cowboy, à faroeste. Afinal ando farta dos Austra, vou mudar. Percorro a lista. Grande parte dos europeus não quer saber e a Europa vai avançando a meio gás, com pouco power. Escolho Real Estate. Devíamos ter mais aulas de História na escola. Era uma vez a Europa. A educação é uma competência exclusiva dos Estados-Membros. A Europa só dá bitaites; não mete o bedelho na educação. Cada um trabalha para o seu lado. Os únicos que me escreveram cartas a apelar ao meu voto foram os belgas. Eu não sou belga. Sou portuguesa. O consulado de Portugal não me passa cartão. Vejo o meu edifício ao longe e também vejo estrelas. É por causa da bandeirinha. Tem mesmo estrelas. Entro no elevador. Já lá estão duas mulheres, uma nova, outra menos nova. Nenhuma responde quando digo: Bonjour. Devem estar a ter um dia péssimo ou então são eslavas. Os eslavos não gostam de dizer: Bonjour. Foi um polaco que me disse. É estúpido dizer bom dia. Não me conhecem de lado nenhum. Não sei se isto é verdade. Se calhar é um daqueles mitos. Como aquele de as mulheres portuguesas terem bigode. Eu sou mais europeia do que outra coisa. Olho para o meu reflexo no espelho. Tenho de ir fazer este buço. É urgente. Tenho saudades de casa. Estamos muito melhor unidos do que separados. Ainda que cada um trabalhe para seu lado. Penso na mulher da saia travada, na que vai mudar o mundo ainda hoje. Desejo-lhe um bom dia. Embora não a conheça de lado nenhum. Depois tiro os auscultadores. Acabou-se a música.