Mostrar mensagens com a etiqueta Da música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Da música. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de maio de 2020

10 álbuns

A Ana Biscaia desafiou-me (no Facebook) a publicar as capas dos 10 álbuns que mais influenciaram o meu gosto musical. Fiquei toda feliz e melodiosa com o desafio. Não que eu perceba alguma coisa de música. Não percebo puto. Na adolescência andei na guitarra e odiava o solfejo. Os ditados agoniavam-me. Nunca percebia se aquilo (aquilo, o quê?) ia para baixo ou para cima, não tinha ouvido nenhum. Mas gostava de tocar guitarra e de desenhar claves de sol. 
De resto não sou muito eclética, não sigo artistas, não me atualizo. Hoje em dia até ouço pouca música, mas durante a maior parte da minha vida ouvi muito e muito alto e de qualquer maneira: no computador, na rádio, nos auscultadores, nas colunas gigantes que entretanto instalámos na sala. Há canções que sei de cor, há canções que me fazem voar e sonhar, há outras que me tiram o chão e outras que me tiram o céu.
Já fiz várias listas. Numas estava o Nick Cave, noutras estava o Elvis Presley. Mas sinto-me sempre perdida a meio. As lacunas são grandes. Há rock a mais, pop a menos. Então e a bossa nova? A música portuguesa? Simplifiquei a coisa. Escolhi 10 álbuns que transformaram a minha relação com a música, que trouxeram algo novo aos meus ouvidos e ao meu sistema nervoso. Aproveitei para viajar pelas diferentes fases da minha vida. Há revelações que associo à infância e outras à adolescência e outras a esta vida adulta em Bruxelas.
Olho para a minha lista e acho tudo muito previsível e, ao mesmo tempo, inesperado. Como se estivesse a ouvir isto tudo pela primeira vez, embora já conheça bem esta banda sonora.
O meu primeiro ídolo musical foi o Michael Jackson. Eu tinha 9 anos e tudo nesse homem me encantava. O corpo, a voz, os gritos, a coreografia, aquele moon walk, as luvas brancas, a criança que ele tinha sido e que continuava a ser. Cheguei a este Rei do Pop com o álbum Dangerous, em 1991. A escola inteira andava a ouvir esta cassete. E todos os dias havia coreografias novas para o Black Or White.

Na pré-adolescência surgiu na minha vida um álbum que eu conseguia ouvir do princípio ao fim sem interrupções. Era o meu primeiro álbum em língua portuguesa, mas o álbum em si não tinha nada a ver com música portuguesa. Falo do “Viagens” do Pedro Abrunhosa & os Bandemónio. Eu tinha 12 anos e tudo nesse álbum me parecia mais que perfeito. O título (Viagens!), a capa colorida e abstrata, as letras, aquele saxofone capaz de melodias às curvas, a voz insuficiente do Pedro Abrunhosa, aquele jazz meio pop. O que era aquilo? Não sei. Mas era lindo.

O rock propriamente dito apareceu na minha vida com os Dire Straits. Todas as guitarras elétricas e acústicas ganham um novo fôlego nas mãos do Mark Knoffler. No outro dia ouvi uma entrevista com ele, em que ele falava das várias guitarras. Pegava nelas, tocava uns acordes e explicava as diferenças. Havia guitarras que produziam “thicker sounds” ou “thinner sounds”. Sons mais espessos, sons mais finos. Nas palavras dele, “eu quero que a guitarra fale por si”. Caramba, é que falam mesmo.

E música brasileira? Cadê?
Hoje em dia gosto muito de bossa nova e ando numa fase João Gilberto, mas a minha perdição sempre foi o Caetano Veloso. A delicadeza inteligente da voz, da música, das letras. Chamo para aqui o álbum “Prenda Minha” (1998). Já conhecia Caetano Veloso antes, mas este álbum foi o primeiro que eu tive e é um dos álbuns ao vivo que eu mais gosto de ouvir. Ainda hoje.


Já que falei de álbuns ao vivo, não dá para passar por cima do Dave Matthews Band. Lembro-me de o ouvir pela primeira vez. Um rock e uma voz sempre a subir numa mistura de jam session e requinte. Aquele Crash Into Me, numa gravação ao vivo, era ao mesmo tempo natural e intrincado. Tive fases em que só me apetecia ouvir Dave Matthews Band. O meu coração não aguentava mais nada e já não se contentava com menos.

Hoje em dia ouço muito indie rock ou indie pop ou rock alternativo ou lá como se chama. Gosto sobretudo daquele rock mais pausado e melancólico que já não é bem rock. É o quê? Sei lá.
Quando cheguei a Bruxelas passei horas e horas, dias e noites, a ouvir Cat Power. Em 2007 já não comprava álbuns físicos. Tinha um iPod cor de laranja. Foi nele que ouvi obsessivamente The greatest. Não faço ideia quantas vezes ouvi este álbum, mas o iTunes deve saber. Coisa mais linda e solta e triste e delicada e tudo. De vez em quando volto a este álbum e gosto sempre.

Passei muitas horas a escrever ao som de M Ward. Há qualquer coisa no timbre e no ritmo do M Ward que me fazem voar e sonhar. É sempre difícil voltar a esta vida sem asas nem sonho. Gosto de todos os álbuns. Mas ouvi o Wasteland Companion em repeat horas e horas a fio. Na rua, no sofá, na sala, na cama. Muita companhia me fez este Companion em muitas noites de escrita.

Em 2008 a música portuguesa levou uma paulada na cachimónia. Tau! Foi o álbum de estreia dos Deolinda. Chamava-se Canção ao Lado, e não batia nada ao lado. Batia mesmo de frente. Eu ouvia a voz da Ana Bacalhau e as letras do Pedro da Silva Martins, e sentia-me ainda mais portuguesa, ainda mais eu própria. 

Pouco tempo depois descobri Mayra Andrade. Não me lembro bem como nem onde nem quando. Mas este Navega entrou por mim dentro e nunca mais saiu. A Mayra Andrade poderá ser a única mulher por quem eu e o meu marido nos apaixonámos ao mesmo tempo. Tínhamos bilhetes para o concerto que ela ia dar no Botanique na próxima semana. O vírus meteu-se no meio e já não vamos vê-la nem ouvi-la. Mas ia ser tão bom. Tão bom, tão bom, tão bom.

Há uns três anos tropecei e caí nos Future Islands. Uma palpitação eletrónica à la new wave com uma voz que traz tudo dentro: vigor, cansaço, dor, tristeza e uma catarse feita de resistência e angústia, tudo marcado por urros e grunhidos dentro de cada uma das canções. É preciso ouvir para crer. Ouçam. 

Nem acredito. Cheguei ao fim desta lista. Tão bom partilhar. Estou com os ouvidos cheios de som e emoção. Vou ouvir música. Ou então abrir a janela e dar um grito.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Lisa Hannigan

Ouçam: no outro dia vi a Lisa Hannigan. Estava mesmo à minha frente, em cima de um palco. Apareceu no escuro a dedilhar a essência das coisas e também a sua guitarra e, durante duas horas, não houve discórdias no mundo. Não houve amuos nem guerras nem fome. Só harmonia e comoção.
Primeiro a guitarra e logo a seguir a sua voz iluminada de criatura mitológica. A dizer qualquer coisa sobre as palavras, que boil away like steam. A cantar que I am empty as a promise. E uma pessoa fica cheia de esperança na vida, na música, na humanidade.
A Lisa Hannigan com o seu ar de elfa solitária. A dizer: I am lonely as a memory. E eu cá tive vontade de verter pieguices pelos olhos e também de escrever pelos dedos.

No final comprei um CD e também um caderninho de apontamentos. Fui para a fila de autógrafos, tirei-lhe fotografias. 
A Lisa escreveu no meu caderno: Happy writing! 
E eu desatei logo a escrever.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Deolinda

No outro dia fomos ver os Deolinda. Em plena Bruxelas.
Foi um grande fon fon fon.
Desta vez até havia bateria e as canções bateram mais forte.
Gosto da Ana Bacalhau. Do seu corpo pequeno. Da sua voz enorme.
Daquela sua maneira de estar em palco como se estivesse numa sala de estar.
Falou em inglês e português, because my French is pathetic.
O meu francês também é patético. Desolée.
A Ana Bacalhau não é pateta nenhuma, mas faz patetices em palco. Não tem medo do ridículo.
Gosto à farta de mulheres assim. E de homens também.
Sem medo. Sem entraves.
A Ana Bacalhau faz e acontece. Abana a cabeça e o corpo, arregaça as mangas, escarra para o lado. Ninguém a trava. Nem sequer a saia travada e muito curta. Ou os saltos muito altos. Ela diz: Agora sim, cantamos com vontade! E eu tenho ganas de me levantar e ir atrás dela. Fazer uma revolução qualquer num lugar qualquer.
A Ana Bacalhau canta: Eu não sei se tu sabes, mas fizeste o meu dia tão bem.
E o dia pôs-se logo bom.
As letras do Pedro Silva Martins são pequenos truques de magia. De repente ficamos carentes e abismados. A ouvir a história de um amor clandestino. A ver uma mariposa, bela e airosa.
As canções que tu farias é uma bela homenagem a António Variações. A Ana Bacalhau pergunta: Que espaço ocupam as canções que não cantaste? E somos nós que dizemos: Ó ai.
Um ó ai nostálgico.
Ligeiramente angustiado.

Perfeitamente português.

Foi tão bom.
Foi tão bem.

Belo movimento perpétuo associativo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Para que serve uma canção?


Certas canções regressam aos ouvidos.
Estamos num bar, numa casa, numa loja e, de repente, lá vem ela: uma canção olvidada.
Inclinamos a cabeça.
Ah, que engraçado. Olha-me esta.
Um dos ouvidos fica muito atento e o outro ouvido deixa de ouvir, vai para outro lado qualquer, para um lugar secreto. O lugar da canção.
Sorrimos para ela, a canção olvidada. Como se uma fosse uma pessoa, um animal de estimação. Incrível. Esteve todo este tempo à nossa espera.
Nós conhecemo-la há muito, mas a canção também nos conhece de ginjeira. Umas vezes, insiste num instrumento e, outras vezes, puxa por este verso, prolonga aquela pausa. Transforma-se nisto ou naquilo. Faz truques de magia.
Durante o reencontro, só essa canção faz sentido. Estamos no tal bar, na tal casa e, de súbito, ficamos sozinhos. Mais ninguém nos entende, mais ninguém nos diz as coisas que a canção nos diz.
É um discurso antigo e também um discurso novo, um feitiço melodioso.
A canção olvidada também é maliciosa. Pelo menos, aos nossos ouvidos. Aparece no sítio errado à hora certa. Tem novos sentidos.
No outro dia, regressou-me aos ouvidos uma dessas canções olvidadas.
O meu ouvido direito concentrou-se e o outro ouvido foi passear. Os minutos arrastaram-se um pouco mais, houve um ligeiro atraso no mundo (nada de grave).
A voz da Sónia Tavares. The Gift. Já não me lembrava, acho. Fizeram 20 anos de carreira, vi o documentário (like!).
Misteriosamente, a canção olvidada, agora, não me larga. Vem atrás de mim pelas ruas, como um cãozinho zeloso. Desconfio que não me vai deixar tão cedo.
Porquê esta canção? Porquê aqui? Porquê agora?
Outra pergunta ainda: Para que serve uma canção?
É tão difícil explicar.
Mas é fácil de entender.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Rewind, stop, play

De vez em quando parece que engulo a cassete da nostalgia. Fico melancólica e carrancuda. Ando para a frente e para trás, para a frente e para trás.
Foi o que me aconteceu no outro dia, quando vi um leitor de cassetes: os botões volumosos e emperrados, a gaveta de plástico. Carreguei logo no Play e comecei a andar à roda.
Tenho saudades das minhas cassetes. De abrir as capas. De escrever nas etiquetas "R.E.M" ou "Mega mix". De colar canções com fita-cola.
De ficar a ver a música passar de um lado para o outro.
De carregar nos botões.
Rewind, stop, play.
A vida era quadrada e transparente como as cassetes.
O que enrolava de um lado, desenrolava do outro.
E tudo tinha um lado A e um lado B.
A música era para ouvir, ver e tocar.
Depois passou-me esta fita, claro.
As cassetes eram uma porcaria.
Algumas canções ficavam gastas.
E era preciso ter força nos dedos para ouvir música.
Tínhamos mãos desengonçadas como os botões.
Stop, eject.
Bendito século XXI.
É tudo muito mais sensível ao toque. Muito mais sofisticado e eficiente.
Neste momento, tenho centenas de canções no bolso.

Embora meta sempre a mesma cassete.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Anonanimal

Em novembro o meu cabelo cai com as folhas das árvores e só me apetece ter o pássaro Andrew Bird enfiado nas orelhas. As mãos doem-me em tons de amarelo e vermelho. Os ouvidos também. Fico um bocado Anonanimal.
Vale a pena ler a letra da canção.
É outra queda outonal.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Joan As Police Woman - The magic

A Joan não apareceu vestida de polícia. Vinha com um par de calças cintilantes e um casaquinho muito composto, mas meio amarrotado. Disse que tinha medo de passar a ferro e que talvez as pessoas a respeitassem mais se aparecesse cheia de rugas. A Joan tem um tique qualquer na língua, lambe-se um bocado. Fica com um certo ar de cat woman. A Joan tem 43 anos e usa um risco ao meio com uns ganchos infantis de um lado e do outro. Quando canta, parece muito mais velha, não por causa das rugas, mas por causa da voz que entra dentro da pele como uma raiz.
No final do concerto, comprei o álbum novo. Chama-se Classic, é dourado e preto. Tem um autocolante em cima a dizer não sei quê. Depois fui ter com a Joan, que estava mesmo ali, do lado de lá do balcão. Ela disse Hello! Eu disse aquelas coisas de sempre, que o concerto isto e que o álbum aquilo. A Joan pegou no CD e disse que não gostava nada do autocolante em cima do álbum, mas que era muito difícil tirá-lo. Ai é? É. Vou tentar. Fiquei ali ao pé da Joan a tirar o autocolante enquanto ela dava outros autógrafos. As minhas unhas abrutalhadas não me deixaram mal: o autocolante morreu e a Joan ficou feliz. Até disse I love you e foi mesmo uma coisa sentida, porque eu lancei-lhe um truque de magia, zás! A Joan perguntou-me se queria que escrevesse alguma coisa especial no autógrafo. Eu disse que estava só à procura da magia. A Joan abriu muito os olhos e escreveu a dourado: Ana, For your magic! Depois fez um coraçãozinho e assinou por baixo.
Fiquei logo a magicar.
Sou mega fã.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Here I am

Credo! Here I am é um título chato e parolo como o dia dos namorados. Promete logo uma canção acústica e a duas vozes, que é uma coisa duplamente pindérica. Como se não bastasse, a voz da Binki Shapiro combina na perfeição com a do Adam Green e isto provoca-me irritação e ciumeira nos ouvidos.
(Binki Shapiro é um nome chato e parolo como o dia dos namorados.)
 
 
Vou fingir que sou antes eu a cantar.
Here I am meet me as before and more again.
Ah, muito melhor, nem se compara!
 
De resto, abomino o dia dos namorados. Blargh!
Vou ficar no sofá a ver Big Bang Theory. E a dar beijinhos.

Um programa chato e parolo como o dia dos namorados.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Emiliana Torrini

Se eu pudesse, também havia de cantar assim, a sacudir a cabeça, deve ser tão bom. A Emiliana tem nome de italiana, mas canta com sotaque islandês. Estive mesmo à frente dela um dia destes:


Emiliana Torrini, Botanique, Bruxelas

Dava para lhe agarrar as pernas, mas eu não lhe agarrei as pernas, não sou uma fã enlouquecida. 
Não sou, pois não? 
Claro que não. 
A Emiliana estava mesmo à minha frente e era muito mais alta do que eu, porque é maior do que os comuns mortais e também porque estava em cima de um palco. A Emiliana canta de olhos fechados e a sorrir, acho que está noutro lado qualquer. Eu gostava de ir a esse lugar secreto com a Emiliana Torrini, mas acho que ela não leva lá ninguém, precisamente porque é um lugar secreto.
Ainda não fui à Islândia, mas hei de ir.
Para já vou ler o último do Valter Hugo Mãe.
É o que há.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Seasick Steve

Gostava de andar de trator.
De trator?!
Sim, de trator.
De preferência, com o Seasick Steve.
Ou então ao som de Seasick Steve, que toca guitarra e bate com o pé no chão.
Gosto.


O Seasick Steve, quando era pequeno, levava porrada do padrasto.
Um dia fugiu de casa e nunca mais voltou.
Bem feito.
Já passou dos 70 e ainda está aí para as curvas.
Antes tocava guitarra no metro.
Agora toca guitarra no palco.
Usa boné e barba longa.

É um americano como outros, mas não é um americano como outros.

Começou com nada e ainda lhe sobra quase tudo.
Em dias azulados (blues), ouço Seasick Steve e também bato com o pé no chão.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Música a fingir que não é

Gosto de música a fingir que não é, de vozes que quase não são. De música mascarada de história contada ou assim. 
Como é óbvio, não percebo nada de música, o que deve fazer de mim uma pessoa ainda mais pobre de espírito. Mas cada um é como cada qual e eu sempre fui dura de ouvido e bruta de voz.
Aparte comprido: Lembro-me bem dos dias passados na escola de música. Até gostava das aulas práticas, de aprender os acordes novos e de decifrar as músicas dos outros, mas as aulas de solfejo eram um martírio. A professora dava-nos música e nós tínhamos de distinguir o si bemol de outra coisa qualquer e fazer contas às semi-colcheias. Os ditados de figuras e pausas eram uma arte da adivinhação. Era como jogar à batalha naval, mas sem perceber se tínhamos acertado ou não no porta-aviões. Não tinha a semínima piada. Além disso, era impossível copiar pelos colegas do lado, porque os colegas do lado eram bons de ouvido mas maus de coração. 
Felizmente, não é preciso perceber de pautas musicais para gostar de música. Sou dura de ouvido, mas ando pela rua com headphones na cabeça. Uns headphones grandes, que também servem de bandolete. 
Gosto de ter uma banda sonora para os meus dias.
Uma boa banda sonora para os meus dias é a do filme Juno, porque as canções deste álbum induzem em erro, fingem que são outra coisa. Gosto em particular da canção fofinha dos Moldy Peaches, porque os Moldy Peaches têm o Adam Green lá dentro e o Adam Green é sempre uma boa coisa. 
Gosto das canções do Adam Green, da sua voz muito grave e muito fácil ao mesmo tempo (nada é grave e fácil ao mesmo tempo). Gosto dos caracóis do Adam Green, das suas maluquices. O Adam Green é um músico a fingir que não é. 
Gosto à brava do Adam Green. 
Eu e o Adam Green.
We sure are cute for two ugly people. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Sting - Mensagem numa garrafa

Ora bem, eu nunca fui grande fã do Sting. Não gosto lá muito de homens com mente e corpo sãos, parecem-me bonecos de brincar e não meninos de verdade. Além disso, os gritinhos do Sting sempre me incomodaram um pouco, porque tenho tímpanos muito sensíveis e não associo gritinhos aos homens de verdade. A juntar a isto devo dizer que, se a canção do Desert Rose fosse uma coisa de verdade, já a tinha atirado pela sanita abaixo porque acho a canção um bocado parola e pretensiosa, de English man em Nova Iorque que quer muito ser um cidadão do world music. É claro que na minha pré-adolescência suburbana e pobre de espírito achava a letra da canção Every Breath You Take absolutamente genial, mas isso depois passou.

Tudo isto para dizer que, quando me anunciaram que o Sting vinha a Bruxelas, bocejei e pedi uma bica cheia, porque me deu um sono incrível. Mas passados estes meses, como sou uma verdadeira Ana-vai-com-as-outras, acabei mesmo por ir ver o Sting ontem à noite numa sala acolhedora e muito redondinha, a uns 30 metros do senhor.

E a verdade é que até me deu uma aguda parolice no peito quando o vi entrar. O Sting ali estava, mente e corpo sãos, a dizer umas patacoadas em francês e neerlandês e eu fiquei nervosinha como um passarinho, porque nunca pensei ver o Sting logo ali à mão de semear e apalpar para ver se é de carne e osso. O Sting afinal existia e mexia as pernitas enquanto tocava no baixo. Era um bonequinho de brincar, mas afinal o Sting não é um boneco de brincar, é um homem a sério, uma voz a sério, uns braços e pernas que, aos 60 anos de idade, upa-upa, são de facto um assunto de grande seriedade.

Os outros músicos também eram pessoas a sério: uma tipa loura que não precisava dos seus saltos de 10 centímetros para se fazer ver e ouvir, um baterista brutalíssimo bate-bate-coração, dois guitarristas irrepreensíveis e um violinista com muita pinta, saído de um Spaghetti Western.

A voz do Sting não envelheceu, o que é outro assunto sério. E os gritinhos do Sting, afinal, não incomodam nada, são bem queridinhos. Fez-se então luz no meu coração suburbano e pobre de espírito, porque andava a negar um amor antigo e o Sting - mente e corpo sãos - é um amor de verdade.

No final, cantei o Message in a Bottle como se não houvesse canção mais bonita. E hoje apeteceu-me escrever sobre isto, no estilo SOS to the world, porque sou sensível e parola como uma autêntica rosa do deserto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ana Bacalhau



Simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela, por exemplo, não cantasse. Se não tivesse uma voz arremessada e não irrompesse pelas casas e pelos ouvidos, chamando por nós. Se não fosse tão circular nem consolada como as coisas verdadeiramente completas. No fundo e à superfície, simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela fosse outra pessoa: por exemplo, uma mulher taciturna como um cemitério ou uma criança com necessidades especiais. Uma coitadinha, por exemplo. Ou então uma mulher voluntariosa que ajudasse os coitadinhos. Mas, agora e objectivamente, vendo e ouvindo a pessoa que Ana Bacalhau aparenta ser, não. Não simpatizamos com a Ana Bacalhau, nem com a sua voz esmerada. Estamos em crer que a voz da Ana Bacalhau é um verdadeiro insulto a todas as vozes de todas as outras mulheres e tememos por elas, por nós e pelos respectivos maridos, pelas respectivas casas. Depois da Ana Bacalhau, nada mais soa como dantes e as vozes que outrora eram belas são agora grasnos, guinchos e uivos. Por esta razão, rogamos muitas pragas à Ana Bacalhau e ao tom pérfido e inteligente da sua voz, atiramos-lhe pedras enraivecidas dentro das nossas cabeças e desejamos secretamente que um dia, ao partir na sua longa viagem para Ítaca ou para a Índia ou para o Brasil, caia borda fora da caravela ou do iate ou do veleiro e se transforme em sereia por efeito de uma estranha e momentânea reacção alérgica a cloreto de sódio e seja acolhida por Neptuno e este a leve para a Ilha dos Amores, onde a mulher-agora-sereia se veja obrigada a prostituir o corpo, a alma, o muco e a voz por muitos anos. Desejamos também que, por inveja do seu canto ardiloso, as outras ninfas a matem durante o sono, que atirem o seu corpo ao mar e que Hades a receba no reino dos mortos, lhe arranque a voz e as tripas e a envie muda e compungida de regresso à vida, qual pequena sereia repetida, mas muito mais ridícula, muito mais feia, muito mais burra. Desejamos também que Zeus apague a memória dos homens e estes se esqueçam daquele canto da Ilha dos Amores que todos amaram nos sonhos mas nunca sonharam escutar, que a Ana Bacalhau viva calada e contristada uma longa vida sem música nem sentimento, cheia de dores nas costas e nos dentes, lavrando a terra e comendo batatas cozidas. Desejamos tudo isto enquanto ouvimos religiosamente os Deolinda. Enquanto as casas saem de si próprias para a rua, alvoroçadas. Todos andam apaixonados pela Ana Bacalhau, pela sua voz imaginada que todos continuarão a amar depois do tempo. Todos, menos nós.
Que caia borda fora e regresse feia e caladinha. Para bem dos homens, das mulheres e das nossas casas.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

The Death of Bunny Munro ou o Nick Cave e as suas más sementes ou más intenções or something

O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação, por causa das pernas muito magras, demasiado longas, das suas más sementes e dos olhos profundíssimos como poços (no fundo dos quais cantamos para o céu que vemos ao fundo) e da testa montanhosa (no cimo da qual vive um pastor que talvez seja um ciclope). O Nick Cave bem podia ser uma personagem de um filme de animação de Tim Burton (e a ideia nem sequer é do autor nem do narrador deste texto), porque é branquíssimo e se veste de preto e tem um ar meio fúnebre ou maquiavélico ou infernal, próprio de quem emergiu das profundezas de um vulcão ou das Brumas de Avalon ou de Gotham City ou de um qualquer sítio desconhecido dos comuns mortais ou dos imortais mais puros, por estes não saberem o mal que habita por baixo da superfície, no centro da terra ou no fundo do mar. A propósito disto, o narrador e o autor deste texto dão-se conta de que ouvem Nick Cave preferencialmente por baixo da terra, quando andam de metro pela Gotham City e não de eléctrico nem de autocarro. Curiosamente, Nick Cave escreveu The Death of Bunny Munro num autocarro ou, pelo menos, parte do livro. Estava em digressão na Europa e escreveu esta tal morte de Bunny Munro em 6 semanas, no seu iPhone, cujo teclado exige mais precisão aos dedos do que um piano ou uma flauta ou uma máquina de calcular or something. O Nick Cave emerge do seu vulcão e traz metáforas desse outro mundo, acrescentando, quase sempre, qualquer coisa or something: Her face is the purple colour of an aubergine or something. Isto pensa, por exemplo, Bunny Munro sobre o rosto arroxeado da mulher. Bunny Munro pensa sobre várias coisas, entre elas sobre a sua mulher e também sobre todas as outras mulheres, especialmente nos possíveis formatos das suas vaginas. Bunny Munro é, naturalmente, um tarado sexual que, além de alcóolico, é, possivelmente, a pior pessoa do mundo. Isto no entender de Nick Cave, que apresentou o seu livro também no Arenbergschouwburg, um lugar impossível com nome inefável em Antuérpia, onde a pessoana, o homem ilimitado e a capuchinho vermelho estiveram numa certa noite de Outubro, só para o ver cantar, tocar e ler certos excertos de certos capítulos do seu livro. (A certa altura, Bunny takes a deep breath and allows himself to open up to her vibes like a medium or spiritualist or something.) O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação do Tim Burton, é certo, mas o Tim Burton, que tem sete cabeças e sete vidas para a sétima arte e uma criatividade que mais parece uma cascata or something, jamais poderia ter criado o Nick Cave, a não ser que os homens criassem deuses ou os rios parissem mares, o que até pode ser o caso. O Nick Cave é maior do que Tim Burton. Ou seja, Nick Cave até podia ter criado Tim Burton, mas nunca o contrário, a não ser que a arte seja maior do que o criador, o que até pode ser o caso. E nesse caso, Nick Cave é, de facto, uma personagem de ficção, um produto imaginário, uma criação sem corpo, o que não é verdade, porque o autor e o narrador deste texto viram-no ali à frente, a cerca de 30 metros, em carne e osso, a tocar e a cantar Hold on to yourself e a ler pedaços da tal morte de Bunny Munro. Desculpem a interrupção, mas o narrador deste texto tem, dentro da cabeça, uma outra cabeça que o censura e critica e recrimina como uma madrasta má. Diz-lhe insistentemente: "Não és nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave". A outra cabeça do narrador, que é blogueira nas horas livres como outros são palhaços, concorda com a cabeça madrasta. Ambas presenciaram o concerto intimista do Nick Cave, que apresentou o seu livro e leu o seu livro e tocou e cantou e falou como se estivesse na sua sala de estar ou de ser. Respondeu também a todas as perguntas. Aproximava-se do público, perguntava: Any questions? e as pessoas falavam alto, tratavam-no por Mr. Cave, perguntavam-lhe tudo e mais alguma coisa. (A pessoana e companhia ficaram caladinhas que nem uns ratos. Os olhos sem fundo do Mr. Cave, as suas mãos soltas, desarticuladas, independentes, o compasso irónico das pernas, o timbre acertado, de quem já tudo fez e tudo ganhou e perdeu, e tudo provou e conheceu, como só o Diabo terá provado e conhecido: tudo isso assustou pessoana e companhia.) O Nick Cave escreveu um livro sobre vaginas e outros mistérios em 6 semanas, usando para o efeito o teclado do seu iPhone enquanto atravessava a Europa de autocarro. A pessoana, que é boa pessoa mas não é nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave, anda a ouvir e a ler Nick Cave. De momento, não precisa de mais nada, não deseja mais nada, não lhe apetece mais nada. Nem mesmo para o Natal. (Ainda assim, se alguém lhe der como prenda o saco de pano que a FNAC anda a oferecer na compra do livro, ficará extremamente feliz, como se, de facto, o desejasse.)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Derramada por Chico Buarque

Quando sair daqui, vou comprar música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque.
Tinha acabado de ouvir o Leite Derramado, quando pensou nisto, mas só dias mais tarde se lembrou dessa decisão. Disse: Saio daqui, reentro na chuva, apanho o metro e compro música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque.
Não tem uma única música do Chico Buarque e tem pena, vergonha, raiva de si mesma, porque aprendeu a dançar samba no Rio de Janeiro e canta Caetano Veloso no duche. Não sabe porquê, tenta perceber porquê.
Observa: há qualquer coisa de profundamente inquietante na voz de Chico Buarque, nos seus lábios, nos seus cabelos. Uma certa manha de rapousa, uma astúcia de cavalo de Tróia e ela não gosta disso. Dança samba despreocupadamente, "como se pulasse corda", igual à Matilde que derrama o leite.
Preocupa-se em arranjar desculpas: O próprio nome Chico Buarque é estrondoso e a canção do Chico Fininho assenta-lhe que nem uma luva. Não consegue levar a sério aquela voz. O seu rosto é certinho, bonitinho, direitinho, tem um certo ar intelectual e as letras das canções são complicadas. Tudo isto a incomoda.
Tudo isto estava prestes a mudar, porque tinha acabado de ler o Leite Derramado e apercebera-se do seguinte: os olhos de Chico Buarque, a sua voz, o seu perfil, todo ele tinha alguma coisa de profundamente feminino. E isso era, de facto, inquietante. Com Caetano também era assim, mas Chico Buarque emanava, de facto, um entendimento feminino do mundo, era conhecedor da mulher por fora e por dentro.
Sim, isto inquieta-a. O conhecimento dos outros de um pedaço de si própria é sempre inquietante. Está derramada por Chico Buarque, quer ouvir a sua voz. Tinha lido o romance anterior há coisa de três anos, quando estava, precisamente, em Budapeste. Só o lera por isso mesmo, porque estava em Budapeste e o livro tinha o nome da cidade. Mais nada. É verdade que tinha gostado do livro, mas apreciou mais a viagem e esqueceu o Chico Buarque ainda durante a estadia: o seu amor era outro, a leitura era acessória. Guardou, contudo, aquele livro na memória e revisitou-o.
Comprou o Leite Derramado porque sim. Lê da mesma maneira como samba e era costume comprar livros porque sim. Também comprava livros por outras razões (por vezes pensava que os livros podiam desaparecer de repente de todas as estantes de todas as livrarias e isto assustava-a).
Além de tudo isso, também gosta das capas da Dom Quixote, os relevos das letras atraem as pontas dos dedos e dos olhos. Era branca, a capa. O Chico Buarque estava mais bonito com a idade, uma injustiça para os outros, que ficam, por norma, mais feios. Trouxe o livro para outro lugar e leu-o em três tempos: o primeiro tempo passou-se num quarto de hotel, o segundo tempo no comboio, o terceiro tempo no avião. Na verdade, talvez nada disto tenha acontecido, porque a sua sensação era a de que ouvira o Leite Derramado e não que o lera.
Quando pensa no livro, lembra-se da voz de Chico Buarque contando a história de um homem centenário que conta, por sua vez, a sua história para não se esquecer dela. Também conta a sua história para não ser esquecido. Nessa história fala da sua obsessão por Matilde, uma mulher "quase castanha" que colhe conchas na praia e ouve "maxixe e samba na vitrola". O homem centenário revive aquele amor, regressa àquele amor, repete esse amor. Também repete outras histórias. Conta tudo isto à enfermeira que se ocupa dele, à filha que o visita, ao neto, a toda a gente, a si próprio, a ninguém. Fala do Brasil, de escravos, de "mil oitocentos e lá vai fumaça", de mangas, capelas, portugueses, franceses, putas, vestidos, droga, religião e de outras coisas. Também fala das suas dúvidas, das suas angústias e convicções.
Um discurso tão real como a voz de Chico Buarque dentro dele.
Ouviu o livro e ficou derramada por Chico Buarque. Queria ouvir mais aquela voz e, enquanto não era hora de sair, vai ao Youtube. Ouve a Construção como se fosse a última canção.
O Chico Buarque inquieta-a. E ela gosta.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Bebel Gilberto

Apetecia-lhe
uma manhã de algodão
um pássaro na ponta dos braços
um acordar lento
branco
de nuvem contra o céu

Apetecia-lhe
asas
vento
o Homem na Lua

Apetecia-lhe
Claude Monet
fotossíntese
nenúfares à flor da pele
um salto de anfíbio
o lago dos cisnes

E no entanto
a manhã era outra e o corpo limitado

Escolheu Bebel Gilberto
para o horizonte da alma

e foi

uma outra terra
uma outra manhã
um outro corpo

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dança africana

A negra bate com o pé no chão e nasce poeira dos seus pés descalços, nasce vida e ar (na verdade nascemos todos juntos por baixo dos pés da negra, muito pequenos, insignificantes, desnecessários). Batem batuques e já não sabemos quem chegou primeiro, se o pé da negra ou os batuques porque estão em perfeita sintonia. É enorme esta negra mas é como se não fosse, pois a sua leveza é própria dos que habitam as nuvens. Fazemos-lhe uma vénia, daí ela parecer maior ainda. Bate com o pé no chão e o outro pé bate de seguida, muito irmãos, e o corpo vibra com as ondas invisíveis dos batuques. A negra abana avolumada as ancas aveludadas, bem-aventuradas e sai-lhe música do ventre. É a própria terra que canta através dela e o que parecia um caos é agora ordem, por o seu corpo ser a origem de todas as coisas. A negra tem um tambor por dentro e quando bate o pé no chão, temos a certeza de que esse é o primeiro batuque do mundo, o primeiro som, a palavra de ordem. Lembramo-nos: "No princípio era o Verbo" e vemos nesta negra o corpo e a alma do início. Queremos comunicar. Por isso levantamo-nos e batemos com o pé no chão. A negra leva-nos pela mão e estamos em perfeita sintonia. Pensamos: "Um pouco mais de inocência para sermos autênticos" e tentamos esquecer-nos de nós próprios. A certa altura conseguimos e abrimos os braços para o mundo. Somos apenas poeira por baixo dos pés da negra.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A fadista

Há uma rua com poucos carros que separa as duas margens. De um lado um prédio baixo, do outro uma paragem de autocarro. No prédio baixo há uma janela com vista para a rua. A janela e a paragem estão frente a frente. Do lado de lá da janela há uma senhora reformada que se senta todas as tardes em frente à janela. Vista da paragem, a senhora mais parece um quadro e a janela uma moldura. A senhora reformada era fadista mas deixou de o ser por causa da vida e não da voz. Há meses que vem pousar à janela esperando as pessoas que esperam o autocarro. Curiosamente, o tempo pára todas as tardes e a senhora fica parada a ver as pessoas pararem na paragem. Certo dia, a solidão da senhora comoveu a própria senhora e saltou um choro da ponta da voz. O nó na garganta lembrou-a do fado, por isso pegou nas cordas vocais e tocou-as para dentro como já não fazia há muito. A senhora era viúva, portanto já estava vestida de negro. Abriu a janela e cumprimentou o público do lado de lá da rua com um sorriso. Encheu o peito de ar, esperou o primeiro acorde, fechou os olhos e pôs-se a cantar. Nesse momento o tempo acordou e fez-se ao caminho, ou seja, voltou para trás.