domingo, 12 de junho de 2022

Fósforo - 2a tiragem!

O meu Fósforo esteve à beira da extinção, mas a segunda tiragem voltou a atear a chama.

É o meu primeiro e, para já, único poema. Fala de fêmeas mamíferas e de bebés na barriga, fala de partos e de abortos e também dos nomes que damos aos filhos, dos filhos que damos ao mundo. Fala de passado presente futuro, reino animal, reino de Portugal. Fala da minha infância, do meu útero patego, do meu rosto raça raiz.

É um poema que me faz sentir nua largada estendida, mulher madame inflamável e, não sei porquê, quero muito que todos o leiam. 

O livro abre com esta dedicatória (em baixo), que estendo agora ao editor João Pedro Azul, à Flan de Tal e a todos os leitores que ajudaram a extinguir a primeira tiragem.

https://www.flanzine.com/product/fosforo-ana-pessoa/








sábado, 11 de junho de 2022

A Luz é Grande

Há uns tempos, numa certa tarde de inverno, o meu filho mais velho apontou para o candeeiro da sala, que estava aceso, e disse: “A luz é grande”.

Virei-me para ele mas nem o vi, encandeada que estava com a luz e também com aquelas palavras. 

O meu filho tinha dois anos e aquela era a sua primeira frase.

Comecei então a tomar nota dessas construções iniciais e diverti-me a compor um texto: O buraco é escuro. O chão está sujo. Não está ninguém. 

Algumas frases eram mais longas que outras. Algumas até rimavam: É uma flor amarela. É uma cancela. 

Passados vários invernos e vários verões, estas frases foram parar ao colo da Joana Estrela, que escolheu trabalhá-las em guache, essa tinta macia e espontânea que irrompe diretamente da infância.

O resultado é um álbum muito meloso e sincero, sem malícia nem artifícios, mas cheio de mundo e promessa. Tal como as primeiras frases.

https://www.planetatangerina.com/pt-pt/loja/a-luz-e-grande










quarta-feira, 8 de junho de 2022

Mulher Cão


Não há muito tempo ouvi um podcast com a Paula Rego. Era uma conversa já antiga, conduzida pela Inês Meneses para o Fala com Ela, em setembro de 2010. 

Depois de falar do medo, da infância, da morte, dos contos populares portugueses, dos seus professores e da sua ida para Londres, Paula Rego falava do marido, Victor Willing, que - vejo agora - falecera 22 anos antes, em 1988. Contava ela que os quadros de Willing, por terem tanta presença, a lembravam da sua vida com ele e que isso a emocionava, porque essa vida - “a nossa vida”, dizia ela - continuava viva nesses quadros. Acrescentava: “Viva, viva, viva, como uma lagosta”. E explicava de seguida a necessidade de atar as lagostas antes de as enfiar na panela, “senão elas saltam para fora”. Concluía: “Assim são os quadros dele. Estão ali como se estivessem amarrados” e “por um triz” não pulam para fora. 


Ao longo deste ano, por várias razões que não interessam agora, tenho voltado a essa ideia do pulo iminente e desesperado, a essa possibilidade de a vida pular para fora da arte, de a arte pular para dentro do real, de o sonho pular para fora do espelho. A ideia bela e aterradora de tudo estar a um quase-nada de ser outra coisa.


Hei de voltar à sua Casa das Histórias, para ver outra vez esta Mulher Cão, na esperança de que ela ladre e continue louca, feroz, combativa. E viva, viva, viva, como uma lagosta.



quarta-feira, 18 de maio de 2022

O globo

O mais velho começou a fazer perguntas sobre os países e as cidades. Se estão longe ou perto, se são grandes, se podemos lá ir de comboio ou de avião, se as pessoas desse lugar falam português, francês ou inglês.

Vai daí, há umas semanas compramos um globo terrestre para os três rapazes. É um globo pequeno, não muito bonito, os países todos encavalitados por baixo de uns animais nada a ver. 

Os miúdos gostam do globo, não por causa dos continentes ou dos oceanos, mas porque ele roda muito rápido e durante bastante tempo. O mundo parece um pião, mas não é um pião. Um dos rapazes diz que é uma máquina, outro diz que é uma bola azul. Só o mais velho chama mundo ao mundo.

O pai não os deixa brincar com o globo. Por um lado, sinto pena deles, por outro, acho bem aprenderem quanto antes que este mundo não é para brincadeiras.



Mostro-lhes a Bélgica e Portugal, o Japão, o Brasil. Digo-lhes aquelas coisas parvas: que há cangurus na Austrália e pinguins no Pólo Sul. Eles fingem que se interessam. Pousam as mãos na bola azul. Sempre que podem, dão-lhe uma lambada e a bola gira. Riem-se à gargalhada, babam-se para cima do mundo.

Estão-se nas tintas para o mapa, claro. As crianças querem lá saber de geografia. Eu, para falar a verdade, também pouco apreço tenho pela disciplina. A expressão “crosta terrestre” sempre me deu vontade de rir e continuo sem saber para que lado é o Norte. 

No outro dia lá arranjaram maneira de atirar o mundo ao ar. Deram cabo dele, como é óbvio. O globo partiu-se ao meio, já não se aguenta nas canetas. Os três olharam para o mundo pesarosos e partiram para outra.

Penso em Deus, com a Terra nas mãos. Coloco então a hipótese de este Nosso Senhor ser afinal uma criança a brincar com uma bola azul, as unhas muito sujas, o nariz cheio de ranho. 

A ideia dá-me algum alento. Não serve certamente para explicar a condição estapafúrdia da nossa existência, mas por um momento ajuda-me a aceitar o absurdo estado do mundo. Talvez uma divindade pouco experiente nos tenha dado um pontapé. Só isso. Talvez nos caiba a nós perdoar o tal Salvador, e não o contrário.

Na minha infância também tive um globo terrestre, mas o meu era bem grande e dava luz. Era um globo a sério. Recebi-o quando tinha uns nove anos. A ver pela sucessão dos acontecimentos, há de ter sido em 1991, talvez no Natal. Mal o desembrulhei, o meu pai disse-me que o mundo entretanto tinha mudado. Que aquele país chamado URSS já não existia. 

Que estranho esse conceito de um país deixar de ser. Ainda hoje, quando penso na URSS, lembro-me dessa enorme mancha no meu globo terrestre, de súbito extinta, inexistente. Na minha cabeça sonhadora de menina, a URSS parecia ser um país imaginado, impossível, inacessível, ao estilo Terra do Nunca ou Terra de Oz, habitado quiçá por fadas, feiticeiros, elfos, bruxas, coelhos, monarcas, chapeleiros, crianças, piratas, gnomos.

Vejo o nosso globo terrestre atirado ao chão, partido, estragado, estilhaçado. Penso em Peter Pan e no Capitão Gancho, penso num Deus imaturo com a sua bola azul e de repente já não sei de que lado estou. Talvez este mundo de verdade seja afinal a Terra do Nunca e, nesse caso, todos nós sejamos os meninos perdidos sem salvação à vista.

Pelo sim, pelo não, apanhei os cacos do globo terrestre e guardei-os. Apesar da pandemia e da guerra, apesar da inflação e da crise económica, energética e humanitária que se agrava, devo confessar que me custa bastante pôr o mundo no lixo.

domingo, 15 de maio de 2022

Mary John finalista dos Premi Llibreter

A edição catalã da “Mary John” (tradução de Mercè Ubach; edição de L’Altra Tribu) é finalista do Premi Llibreter na categoria Literatura infantil e juvenil - outras literaturas.

Estou feliz, encantada, enternecida com esta nomeação porque esta seleção é feita pelos próprios livreiros!

Yuhuuu!


terça-feira, 26 de abril de 2022

"Está a chover!" nos Hipopótamos na Lua

Olha, olha. O Gnu e o Texugo encontraram uns Hipopótamos na Lua.

Belo texto de análise da blogger, livreira e dinamizadora Nazaré de Sousa no seu blogue "Hipopótamos na Lua":

https://hipopomatosnalua.blogspot.com/2022/04/o-gnu-e-o-texugo-esta-chover.html

Copio para aqui este excerto muito vrim, vram, vrum:

"Tal como no primeiro livro, a simplicidade e o humor do texto de Pessoa voltam a encantar-nos. A dose de ingenuidade e até o seu quê de nonsense  desconcertam o leitor várias vezes. Gostamos dos vrim, vram, vrum, dos snif, snaf, snuf... Gostamos e precisamos de histórias que nos fazem rir. Só porque sim. Na esteira das anteriores, as ilustrações de Matoso são um regalo para os olhos de miúdos e graúdos. Mesmo à chuva, este é um livro que continua a poder virar-se de cabeça para baixo, permitindo ler a história ao contrário. E que história! Sic, sac, suc."





segunda-feira, 25 de abril de 2022

Porventura acaso talvez - 25 de abril sempre!

 25 de abril sempre!


"porventura acaso talvez

uma hipótese entre outras hipóteses”



no meu “Fósforo”, Flan de Tal, 2021