segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Palavras Andarilhas





Se puderem e quiserem, venham andarilhar em Beja. Vou lá estar no sábado com a Ana Saldanha a falar de literatura juvenil, "essa terra incógnita".

Programa completo aqui:
https://palavrasandarilhas.pt/palavras-andarilhas-2018/encontro/

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O nosso lifestyle newly revamped

Atenção: este blogue estreia-se finalmente nas últimas tendências do lifestyle. Espero que gostem deste espaço newly revamped, que brilha no escuro.

No comboio para Lille, folheio em alta-velocidade a revista da Eurostar, o gigante ferroviário que atravessa em regime de exclusividade o canal da Mancha e liga Londres às principais cidades dos Países Baixos, da Bélgica e da França. A revista chama-se Metropolitan, assume-se como publicação de lifestyle e é distribuída gratuitamente nos comboios que transportam mensalmente cerca de 800 mil passageiros. Na capa, a declaração de intenções: Food Culture Design & glow-in-the-dark ice-cream. A receita de sempre: futilidade ao mais baixo nível mascarada de requinte e sofisticação.
Passo os olhos pelos artigos. No início divirto-me com as expressões complicadas cheias de cores e texturas: sow cool, white hot, blue steal, cold comfort. Depois passa-me o conforto e instala-se de súbito o desconsolo da insatisfação, a angústia nervosa do consumismo.
É este o efeito das revistas lifestyle. A sensação de que algures na urban jungle há uma vida paralela muito melhor do que esta, com preocupações e necessidades muito mais refinadas. Os artigos publicitários e artificiosos vêm disfarçados de reportagens sobre as fashion boutiques e as concept stores. Gritam-me aos sentidos, dão-me ordens. Party like a Parisian, dizem-me. Grab a quick bite, smell the roses, join the locals. Don't miss. Don't let. Get ready. Pull up a deckchair. Uma pessoa apanha o comboio e sente-se logo em falta com a sua própria vida, porque não trouxe a manta de piquenique e não sabe onde ficam as culinary trends nem a vibrant nightlife. Além do modo Imperativo, os autores narram as suas descobertas fúteis quase sempre na primeira pessoa do plural. We love. We are crazy about. We kick up our heels. Nós: aquela entidade coletiva a que todos queremos pertencer, mas que ninguém sabe ao certo quem é. A experiência é comum a um grupo e, por isso, impõe-se. E é esta entidade coletiva não identificada que nos diz onde fica o buzz-worthy restaurant, onde devemos tomar um whisky-infused cocktail e onde podemos comprar statement socks, cool-kid jewellery e hipster-friendly gifts. Produtos disfarçados de conceitos. Conceitos disfarçados de coisas. Até as pessoas não são bem pessoas. São gourmet aficionados. São uma arty crowd. É difícil perceber a fronteira entre os artigos e a publicidade. Uma das secções chama-se Promotion e outra chama-se Publi-reportage. A linguagem é dazzling e cosmopolitan. Está repleta de hotspots, pit stops, pop-ups, start-ups, top-shops. Necessidades novas, soluções para problemas que desconhecíamos. Tudo isto pulverizado de vibrações e sensações. Um fresh spin, uma festive feel, uma viral sensation, um laid-back family vibe, etc.
Avanço pela revista vibrando de irritação e desânimo.
Em Amesterdão há uma professora de ioga que junta nas suas aulas uma manada de alunos e uma grupeta de cabras. A professora, inicialmente apreensiva em relação a este método, rapidamente percebeu os benefícios que resultam de abraçarmos uma cabra. Fica assim lançado o convite para hit the hay.
E tudo é cheerful, newly revamped, cosmopolitan, inspiring, outstanding, breath-taking e unforgettable.
Assim vai a sociedade ocidental. Caminhando elegantemente em sapatos de salto alto e com óculos escuros da Miu Miu para o precipício da superficialidade. Tudo going gaga com a latest craze. Cada vez mais obcecados com tendências e experiências. Todos tão sedentos de humanidade e pureza, mas cada vez mais sozinhos e infelizes. Afastados da vida, da natureza, dos outros e até de nós próprios.
No meio desta superficialidade a dar ares industrial-chic, o que importa perceber, julgo eu, é que a malta com dinheiro e poder nos media quer precisamente isso. Que nós, a entidade coletiva não identificada, continuemos a alta-velocidade, sentadinhos de preferência na classe turística, a sonhar com uma vida artificial cheia de brilhos e salamaleques, e a investir todo o nosso dinheiro e energia em coisinhas e eventos cheios de formas e sem qualquer conteúdo. Chego a Lille a sentir-me enganada e vazia de ideias.
Mas nem tudo é mau. Spice up your life, malta! Acabo de ler nesta revista que as Spice Girls poderão vir a juntar-se novamente. Zig-a-zig-ah! Eu não sou hipster-friendly nem gourmet aficionada, mas também não sou imune aos artifícios das tendências.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Seis vezes seis

É quarta-feira. Hoje há mercado. E eu faço 36 anos.
Vou comprar ameixas. Alperces. Pepino. E azeitonas, pera abacate, queijo de cabra, húmus. Com sorte, ainda há pão com nozes e meloas doces. Eu sou feliz à quarta-feira. Especialmente hoje, que está mais fresquinho. A minha cria odeia calor e eu preciso de arejar as ideias. Talvez aprenda qualquer coisa hoje. A mulher dos legumes, que parece um homem, dá-me sempre bons conselhos. As mãos duras e calejadas, uma espécie de luvas nos pulsos. Espero que o senhor dos queijos me faça um elogio. Passa a vida a amanteigar-me. "Esse vestido fica-lhe tão bem." Vou almoçar àquele sítio novo aqui ao lado. Tem um bom terraço. O meu filho fica sentado na mesa a brincar com o guardanapo. Depois havemos de ir ao parque ver as árvores e os pássaros. Eu vou beber café, ele vai comer relva. Pelas 16h convém estarmos em casa para lhe dar a fruta. Eu faço planos dentro da cabeça e também faço 36 anos. Sou um seis ao quadrado. Um seis vezes seis na tabuada da vida. Nada mau. Um dia talvez venha a ser um sete vezes sete, um oito vezes oito. Eu olho para o meu filho, este pé descalço que só sabe pôr terra à boca, e penso que ele ainda nem chegou ao início da tabuada. Ao um vezes um. E penso também que talvez um dia ele chegue aqui, ao seis vezes seis. E que nessa altura talvez saiba que o tempo e o espaço continuarão depois dele. Que, na melhor das hipóteses, gostará de estar entre os vivos e chegará ao fim da tabuada. Ao dez vezes dez. Que a história da vida é feita das histórias dos dias. Das nossas paixões, das nossas zangas. Das nossas idas ao mercado, dos nossos passeios no parque. Que a maior parte dos dias acabam da mesma maneira. Com um certo cansaço. Que não é nada mau regressar a casa. Que o amor existe. Que o amor pode. Que o amor ordena. E que, depois do seis vezes seis, ainda há muita tabuada pela frente. Eu, que sempre fui uma nostálgica debruçada sobre o passado, chego aos 36 a pensar nos próximos 36 anos. Oxalá cheguemos a esse futuro. Oxalá a minha tabuada ainda não vá a meio. Gostava que me restasse mais tempo com este menino, pé descalço, do que o tempo que vivi sem ele.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A experiência física da leitura

Quando gosta de um livro, agarra nele de qualquer maneira e abana-o. Depois grita-lhe aos ouvidos e bate-lhe. Dá-lhe umas belas chapadas na capa e no traseiro. Só então abre o livro em qualquer página e fecha-o logo a seguir. Repete o movimento vezes sem conta. Abre e fecha. Abre e fecha. Abre e fecha. Por vezes detém-se numa passagem e amachuca a folha, dobra-a, rasga-a. Brinca com o pedaço de papel, mete-o na boca. Depois atira o livro para o lado e agarra-o outra vez. Roda-o de um lado para o outro com as duas mãos e, quando o apanha a jeito, morde-lhe a lombada com grande convicção. Pimba, bem feito. Às vezes aleija-se, coitado. Alguns livros são duros de roer.
A leitura, para o meu filho, é uma experiência física e não uma experiência intelectual.
À noite, quando me deito com o meu Kindle, sinto-me uma leitora menor. Os livros eletrónicos não são livros a sério. Não têm cheiro. Não têm sabor. Estou para ali largada a ler os diálogos epifânicos da Rachel Cusk e só me apetece metê-los na boca. Aaah, penso, quem dera morder as lombadas da Rachel Cusk.
Falta-me a experiência física da leitura. Não sinto o tato dos livros. Em contrapartida, posso consultar o dicionário num clique e procurar passagens específicas. Ainda assim, a minha boca sofre. Chora por mais.
Ontem à noite lambi o Kindle, mas não gostei da experiência. O Kindle é o fast food dos livros. Sabe a plástico.
Por causa do meu filho, ando aqui cheia de ganas de devorar livros. Não consigo ignorar este desejo.
Hoje à noite vou atacar as estantes de cima.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

A última sílaba

Não percebo grande coisa de francês, mas aprecio o idioma. Sou sobretudo sensível aos seus malabarismos fonéticos. De todas as delícias da língua francesa, o que mais me atrai é mesmo o acento tónico. Cai quase sempre na última sílaba, a marcar o compasso.
Bonjour. Rendez-vous. Merci beaucoup.
É bonito.
As palavras terminam no auge da sua existência, altas e sonoras, cheias de expectativa e juventude.
Liberté. Égalité. Fraternité.
Em português também existem as chamadas palavras agudas, mas a nossa língua é mais dada a palavras graves.
É pena. As palavras graves não têm tanta graça. São mais discretas e resignadas. O acento cai-lhes na penúltima sílaba. Não encorajam o sonho nem o sorriso. Sobem e descem logo a seguir. São palavras decepcionantes.
Em francês, passa-se o oposto. As palavras têm um final feliz. Saem para o mundo com grande exuberância e positivismo, de rabinho empinado. Estou aqui a pensar que talvez por isso a língua francesa esteja tão associada ao romance e à sensualidade. Bougies. Bijoux. Bisous.
Fico com vontade de utilizar mais palavras agudas no meu discurso em português. A bem da minha felicidade e autoconfiança.
Por exemplo: canapé tornedó frenesi. Ou então: cafuné quiçá aqui. Chuchu rodapé querubim.
Chega de palavras graves na minha vida. As agudas têm um efeito positivo no meu bem-estar.
Bambu duplex Bogotá. Aliás canguru javali.
Uh là là. Um dó li tá. Estou a adorar este parlapiê.
Jacaré paletó croché. Sofá chulé assim.
E agora as minhas preferidas: sururu dominó abacaxi.




terça-feira, 17 de julho de 2018

"Eu Sou, Eu Sei" no Plano Nacional de Leitura

As listas do PNL já foram atualizadas. "Eu Sou, Eu Sei" vem recomendado para bebés dos 0 aos 2 anos. Baril!
Eu sim, eu plim.




sábado, 23 de junho de 2018

Ser - eis a questão!

"Eu Sou, Eu Sei" no blogue Prateleira-de-baixo:

"Um livro para bebés? Talvez sim, mas arriscaria a dizer que é o primeiro livro de filosofia para bebés."
in Ser - eis a questão! (texto integral aqui).

Estou aqui com ar platónico a filosofar sobre isto!