terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade a subir a rua

A liberdade a subir a rua. Com as suas ancas visionárias, os pés intensos. A mascar pastilha. À escuta. A dobrar a esquina. Sem pressa. Sem frio. Talvez com fome. A liberdade de mochila às costas. De auscultadores nos ouvidos. Com aquele seu ar afogueado de pessoa enlouquecida. A ouvir música. A devorar medos e angústias. A pensar em queijo parmesão. Em manjericão. A liberdade a passar em frente às lojas. Em frente aos bancos e aos pedintes. Em frente às putas. A liberdade parada em frente a uma vitrine. Estática e inteira. Como um manequim. Como uma pessoa de verdade. A liberdade a ver-se ao espelho. A hesitar num pensamento. A tropeçar no passeio. Num sentimento de culpa. A liberdade à espera. A espreitar o horizonte com os seus olhos em chamas. A liberdade a entrar no autocarro. A enviar mensagens no WhatsApp. A ouvir um podcast. A rir sozinha. Às dez da manhã. Ao meio dia. A toda a hora. Permanentemente. A liberdade sempre. Em qualquer caso. Em qualquer lado. A qualquer custo. A liberdade flamejante. Obstinada. Omnisciente. Frágil. Cheia de soltura e de graça. A andar pela vida como se fosse a verdade. Permanente. Constante. Sozinha. Total. Livre.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Feira do Livro Infanto-juvenil de Bolonha

A convite do Hay Festival, estive na Feira do Livro Infanto-juvenil de Bolonha com a diretora da programação infanto-juvenil do Hay Festival, Julia Eccleshare, o editor e tradutor britânico Daniel Hahn e a escritora norueguesa Nina Elisabeth Grøntvedt, no evento "Hay Festival's Aarhus 39 list - a collection of the best emerging writers for young people from across Europe".
Foram dois dedos de conversa bem boa sobre escrita, viagens, tradução e literatura infanto-juvenil.




À tarde passei pelo belíssimo stand da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, da autoria de João Fazenda, vencedor do Prémio Nacional de Ilustração.




E pousei várias vezes no Planeta Tangerina.



Felizmente ainda deu tempo para dar um abraço a Grace Silva da El Naranjo, editora mexicana do Supergigante.


Mamma mia!
Foi belíssimo!

quarta-feira, 29 de março de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Crianças com soldadinho

Está vento no mundo e também em Bruxelas. Uma fúria invisível a soprar a existência. Está tudo tão emaranhado. Não dá para ler nem escrever. Eu cá pareço uma planta enfiada na terra e não é nada mau ser uma planta enfiada na terra. As plantas estão tão bonitas agora. Olha para elas. Neste momento não vejo nenhuma planta, porque estou precisamente debaixo da terra. À espera do metro. Hoje é dia 21 de março.
Dei o meu primeiro beijo no dia 21 de março, por acaso. É mesmo verdade. Tenho jeito para datas. Sempre tive jeito para datas. Uma vez plantei uma árvore no dia 21 de março, Dia Mundial das Florestas.
O metro chega abespinhado. Gosto deste adjetivo: abespinhado.
Entro numa carruagem que vem cheia de crianças. Falam muito alto. Não percebo o que dizem, mas rio-me na mesma. Toda a gente se ri, menos a professora, coitada. A professora é macambúzia a dar com um pau. Dá ordens o tempo todo. Senta-te. Vira-te. Agarra-te. De vez em quando exalta-se. Grita: Michel, calme-toi!
As portas abrem-se. No dia 21 de março, Dia Universal do Teatro.
Um soldado entra. Vem muito bem armado e apessoado, a farda verde e castanha, uma boina no toutiço. As crianças param de falar e olham para ele, até mesmo o tal Michel, que agora só tem olhos para o militar. Na perspetiva das crianças, o soldado é enorme. Parece um penedo visto de baixo. As crianças sorriem para o soldado gigante e o soldado sorri para elas. Um momento de silêncio para a professora, que agora também sorri e agita a cabeça para endireitar o cabelo. Uma criança pergunta: O que tem dentro desse bolso? O soldado balbucia qualquer coisa, mas eu não percebo o que diz. Talvez diga: Neste bolso trago munições para a minha metralhadora. Uma criança pergunta: E naquele bolso? Não percebo a resposta, mas imagino: Neste aqui trago umas granadas. Uma das meninas toca no soldado com a ponta dos dedos. A professora diz: Deixa o senhor em paz. A menina sorri, o soldado sorri. Uma criança pergunta: E isso aí pendurado no cinto? É outra arma? O soldado explica: É um bastão. A professora acrescenta: Como o dos polícias de verdade. Uma criança pergunta: O senhor não é um polícia de verdade? O soldado diz: Não. Sou um soldado. Uma criança pergunta: Quem é que vale mais: um polícia ou um soldado? O soldado ri-se. Uma criança tenta adivinhar: É um polícia! E outra diz: É um soldado! Os adultos ficam atentos, porque também querem saber a resposta. Mas o soldado não responde e a professora também não, porque também não devem saber a resposta. As crianças fazem mais perguntas. O que é essa coisa esquisita em cima da arma? O soldado mexe na coisa esquisita. Diz: É um apoio para o ombro, para ser mais confortável. Uma criança pergunta: Para ser mais fácil transportar? Ele diz: Para ser mais fácil disparar. Uma criança finge disparar com o dedo indicador. Pum!
De repente uma travagem brusca. As pessoas abanam, mas não caem. As crianças gritam, como se estivessem na montanha-russa. Os adultos riem-se muito, à exceção do militar. Está muito concentrado na sua missão ao serviço do exército. No dia 21 de março de 2017, véspera do aniversário dos atentados em Bruxelas.
A professora diz: Meninos, temos de sair aqui. Os meninos dizem bem alto: Ooooooooooooh! A professora diz: Digam adeus ao soldado. Os meninos dizem adeus ao soldado. Eu também digo adeus ao soldado.
As crianças saem da carruagem e fazem uma fila indiana. Vão duas a duas, de mão dada. Estão muito concentradas e bem comportadas. Parecem soldadinhos de chumbo.
Hoje é dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia. E não há nada de poético nisto. Acho eu.

Mary John na Antena 3

No fim de semana, a Mary John passou também pelo programa "Domínio Público" da Antena 3.
A conversa com Sandy Gageiro passou logo a seguir ao "Elixir da Eterna Juventude" do Sérgio Godinho (minuto 27) e imediatamente antes das "Dunas" dos GNR: http://www.rtp.pt/play/p2023/
Ui! Bateu logo aqui uma nostalgia.

domingo, 19 de março de 2017

Mary John na TSF

A Mary John passou hoje à tarde pela TSF, onde esteve em amena conversa com a jornalista Joana Reis.
No programa "Pais e Filhos" deste domingo há espaço para psicologia e literatura. Fala-se do papel do pai na família, do valor da adolescência na construção de uma identidade e da importância da poesia nos transportes públicos!
Tudo isto acontece em pouco mais do que trinta minutos, porque enfim... "tudo o que se passa, passa na TSF".

quinta-feira, 16 de março de 2017

Aarhus 39 - "Celebrating Europe's Best Emerging Writers for Young People"

Olhem que baril!
Ontem, na Feira do Livro de Londres, foi divulgada a lista dos 39 escritores europeus de literatura infanto-juvenil com menos de 40 anos considerados mais promissores. É uma lista, toda ela, promissora, repleta de autores tenrinhos que vêm todos os cantos da Europa.
E agora espantem-se! A representar Portugal estamos eu e o David Machado.
Até fiquei com soluços.
A lista completa dos 39 autores mora aqui.




A iniciativa, lançada pelo Hay Festival e pela Capital Europeia da Cultura 2017, inclui a edição de duas antologias de contos em inglês e dinamarquês e a realização do festival Aarhus 39, o primeiro Festival Internacional de Literatura Infanto-juvenil, que terá lugar em outubro em Aarhus (Capital Europeia da Cultura), na Dinamarca.
Yupiiii!
Estou feliz até mais não.