sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sexta-feira santa

Isto está a descambar mas não muito. Substituí a mala por um saco de pano. Quase nunca me penteio. Saio de casa de cabelo molhado. 
Leio no telemóvel. Falo no telemóvel. Escrevo no telemóvel. Emails, textos, mensagens.
Deixei de usar óculos porque enfim, não há nada para ver. 
Visto uma roupa híbrida, que não é pijama mas também não é roupa de rua. Ando sempre com um casaco de malha muito velho e amarrotado. São vários casacos de malha, todos velhos e amarrotados. Um amarelo, outro rosa, outro cinza, outro azul, outro preto.
Continuo a usar brincos. Continuo a tomar as vitaminas. Continuo a embalar os bebés.
Durmo aos bochechos. Gosto muito desta expressão: aos bochechos. E também desta: às pinguinhas. Às mijinhas. Aos pedaços.
Bebo cerveja todos os dias. Como chocolate todos os dias. Tomo banho todos os dias.
Tenho sonhos muito estranhos. Hoje sonhei com um barco enorme. Aconteciam muitas coisas nesse barco, mas já não sei bem o quê. Havia uma tempestade a certa altura e também um lençol muito branco e muito grande.
Estou sempre com pouca bateria no telemóvel. 20%. 10%. Nunca sei do carregador.
Já não posso com o corona nem com as piadas sobre o corona. Os vídeos, as fotos.
O Instagram diz-me que esta semana gostei de vários posts com a hashtag #staythefuckhome. Gosto mais da hashtag portuguesa #euficoemcasa, mas toda a gente usa a outra.
Por acaso hoje não fico em casa. É sexta-feira santa. Fomos andar de bicicleta. 


Há quatro anos que não andava de bicicleta. 
Primeiro foi o inverno, depois foi a gravidez, depois foi o bebé, depois foi o inverno outra vez, depois foi a outra gravidez, depois mais dois bebés, e depois por aí fora até hoje, sexta-feira santa. 
Jesus Cristo na cruz e eu na bicicleta.
Gorda, feia e feliz na bicicleta.
Jesus a morrer por mim. Coitado. E eu naquelas descidas sempre em frente. Uma pessoa nem precisa de pedalar. Vento, sol e liberdade. 
E aquele vislumbre muito breve e fugidio da nossa própria infância.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A luz é grande

(As primeiras frases do meu filho mais velho.)


A luz é grande.
O céu está longe.
A estrela é alta.
O buraco é escuro.
O chão está sujo.
A mamã já vem.
Não está ninguém.
A folha caiu.
O carro subiu.
A porta abriu.
A nuvem fechou.
É o chapéu do avô.
É o carro da garagem.
É a garagem do carro.
O peixe é um peixe.
O leite é o leite.
É o camião do lixo.
É uma flor amarela.
É uma cancela.
É um menino.
Está triste.
Está contente.
Está quente.
Está frio.
Está vazio.
Está escondido.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Assim ou Assado no Sapo

“Assim ou Assado” em grande estilo no Lifestyle da Sapo. Sim ou não, laranja ou limão!

Seleção de 12 livros para os mais novos: https://lifestyle.sapo.pt/vida-e-carreira/noticias-vida-e-carreira/artigos/paginas-onde-se-fazem-amigos-12-livros-que-os-mais-pequenos-vao-adorar

Postal “Baixo ou alto, corrida ou salto” do livro “Assim ou Assado”, Yara Kono.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Hoje sonhei com portais para outras dimensões

Um dos gémeos parece-me quente. Tiro-lhe a febre. Não tem.
Nas últimas 24 horas morreram 183 pessoas na Bélgica. 93% das vítimas tinham mais de 65 anos.
Hoje é dia internacional do livro infantil. Parabéns ao livro infantil.
Dói-me a cabeça. Às vezes parece que me dói a garganta, mas depois passa.
O meu filho mais velho quer fazer desenhos. Faço um acordeão. Fico contente com o resultado. Ele também.
Hoje sonhei com portais para outras dimensões. Os portais não eram portas nem portões. Eram objetos absolutamente normais: um par de óculos, um guarda-chuva, um colar. Uma pessoa abria o guarda-chuva e mudava de cenário.
Um dos minorcas tosse e o outro espirra três vezes seguidas. O mais velho imita-o. Atchim atchim atchim.
A ONU considera esta pandemia a crise mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial.
O meu filho mais velho adora o Into the Mood do Glenn Miller.


Recebo fotografias de uma amiga que fez anos ontem. Está a nevar na Bulgária.
No meu sonho há tantos portais para outras dimensões que chega a ser irritante. A certa altura estou a discutir com um velho a propósito de não sei quê, visto o casaco e pim!, vou parar a outro lugar, com a discussão a meio.
Consulto os dados oficiais. Neste momento já são 49160 as vítimas mortais.
O meu filho mais velho aponta para as flores da minha blusa. Diz: “Tanta flor”.
A convite da professora Ana Margarida Ramos, participo numa aula sobre literatura para a infância através do Instagram.

Composição da Ana Margarida Ramos. Aula através do Instagram com os vários participantes.

O meu filho enterra o nariz na minha blusa. Diz: “Cheira bem.”
Adoro o Nick Cave. Não ouço Nick Cave há meses, mas tenho lido as cartas que ele escreve aos fãs.
No meu sonho apercebo-me de que o casaco foi o portal para a nova dimensão. Volto a vestir o casaco para voltar atrás, mas o portal já não funciona.
Parece que os vizinhos de cima têm Covid ou estiveram com alguém que tinha. Estão em quarentena há quase duas semanas.
A vizinha de baixo ligou-me no outro dia. Tem 84 anos. Disse-me que nos devíamos concentrar nas coisas boas. Que a qualidade do ar estava a melhorar e que se calhar os meus filhos não iam ter bronquites no inverno.
Os gémeos já têm dentes. Ou melhor: cada um deles tem um dente.
Na última carta aos fãs, o Nick Cave diz que este não é um momento para criar. É um momento para prestar atenção.
No meu sonho, encontro uma caixa de biscoitos num comboio. Tenho a certeza de que a caixa é um portal, por isso vou direitinha a ela.
Os dentinhos dos meus filhos emocionam-me. Brotam das gengivas como plantas.
Segundo um especialista em doenças infecciosas, devemos usar máscara na rua. Mas no outro dia um perito qualquer em epidemias dizia que a máscara não fazia grande diferença. Opto por esta segunda opinião porque não me ajeito com a máscara.
No sonho, abro a caixa de biscoitos e acordo. Fico desiludida porque não queria acordar, mas comprovo que a minha intuição estava correta: a caixa era um portal para outra dimensão.
Gostava de saber se o Nick Cave usa máscara. Imagino-o em casa, sentado numa enorme poltrona. A prestar atenção.
No meu sonho, as máscaras poderiam ser portais, mas não me lembrei disso enquanto estava a sonhar.
O meu filho mais velho está a olhar para uma fotografia da creche. Fica nisto durante vários minutos. Olha para todas as caras. Não diz o nome de ninguém, não diz absolutamente nada. Fica só a olhar para a fotografia.
Leio num jornal belga que o número de doentes nos cuidados intensivos diminuiu ligeiramente.
Vou ao dicionário ver como se chamam os peritos que andam a falar deste vírus. Descubro que os especialistas em epidemias são epidemiólogos ou epidemiologistas, que os sabedores de viroses são virólogos ou virologistas e que os tipos das doenças infecciosas são infectologistas ou infecciologistas.
Saio de casa. Chamo o elevador. Imagino o vírus no meu dedo indicador. Uma bolinha a subir pelo meu braço como um inseto. Tenho comichão no nariz, mas não coço o nariz.
Na Bélgica os peritos dizem que o pico da epidemia ainda não está à vista. Olho para os gráficos no telemóvel. A curva parece sempre igual: é uma curva. Sinto-me sempre muito burra quando olho para estes gráficos.
Uma vizinha segura-me a porta do prédio para eu passar. Não quero quebrar as regras da boa educação, mas também não quero quebrar a regra do distanciamento social. Ficamos num impasse. A vizinha insiste. Quer dar-me passagem. Quebro a regra do distanciamento social e atravesso o portal.
Estou na rua. Tento prestar atenção, mas não consigo. Não há quase ninguém cá fora. Só eu, a minha sombra e meia dúzia de gatos pingados.
Na praça da igreja, ao verem-me chegar, os pombos estalam no ar. Encolho-me, mas não muito. Antes uma caganita de pombo que de covid.
Uma mulher passa por mim e tosse. Não lhe dou um sopapo por causa do distanciamento social.
Tiro uma fotografia à minha sombra.
Nunca percebi muito bem aquela expressão: “Não és sombra do que eras”.


Sinto alguém atrás de mim na rua, mas não olho para trás. Acelero o passo e toco na sobrancelha.
No sonho as pessoas andam muito afogueadas, de portal em portal. Parecem estar à procura de uma dimensão que ficou há muito para trás. Eu também ando afogueada e não sei porquê.
Um homem aproxima-se. Tem mesmo tromba de Covid. Pede-me uma moeda e eu acelero ainda mais o passo. Penso: “Coitado do homem”. Penso: “Coitada de mim”.
Apercebo-me de que toquei no nariz.
Recebo um email de uma amiga que diz no assunto “long email”. Nesse longo email conta-me que ensinou o avô a usar o Skype. Imagino-a a falar com o avô através do Skype.
Chego a casa e começo a tossir. Uma tosse seca. Toco na boca antes de lavar as mãos.
Tenho falado com os meus pais quase todos os dias. Antes da pandemia não falávamos tanto.
As palavras pandemia e epidemia rimam. As palavras confinamento e isolamento também.
Lavo as mãos e penso na falta de precisão terminológica. As pessoas falam de isolamento, de quarentena e de confinamento como se fossem a mesma coisa, mas não são a mesma coisa.
Olho para a água a correr e penso que a torneira também podia ser um portal. Fecho a torneira, mas nada acontece. Não mudo de cenário, não acordo, não nada.

segunda-feira, 30 de março de 2020

O horizonte temporal

Isto continua a parecer um episódio do Twilight Zone (não vi o Black Mirror). Ou uma temporada mesmo.
Pena não dar para avançar rapidamente até ao fim do último episódio. Não que eu queira saber exatamente como é que isto acaba. Não quero saber se vamos morrer, enlouquecer, embrutecer ou despertar para uma nova humanidade. Isso depois logo se vê. Mas gostava muito de saber ao certo quando é que isto acaba. Em que mês. Mais precisamente em que dia. Se vai ser antes do verão, depois do verão, no inverno ou para o ano que vem. Na verdade acho que estou um pouco obcecada com este horizonte temporal.
No meu círculo ninguém parece muito incomodado com isto. Dizem-me que esta temporada há de chegar ao fim, que há de durar o tempo que durar. O melhor talvez seja não pensar muito nisso. É ir vivendo o dia a dia. Não é melhor assim? Se pensarmos bem, talvez não chegue a haver propriamente um fim. É possível que seja tudo muito gradual. Se calhar as escolas abrem, mas a malta continua a trabalhar em casa. Se calhar os cafés abrem, mas a regra do distanciamento social mantém-se. Se calhar vamos passar a andar de luvas e de máscara. Se calhar vira moda andarmos por aí todos desinfetados e distantes. Possivelmente vamos deixar de dar beijinhos e abraços, qual é o mal? Mas ainda é muito cedo para saber, não vale a pena especular. Um dia de cada vez. 
Algumas pessoas arriscam uma data: lá para junho ou julho. Talvez setembro. Talvez 2021. Uma coisa é certa: isto vai demorar.
A mim ajudava-me barés ter um prazo em vista, uma meta. O tal horizonte temporal.
Sempre dava para ir riscando os dias num calendário, contar os dias que faltam. Sempre dava para ver se estamos no início ou já a meio.
Reparo agora que sou uma pessoa que olha bastante para o calendário. Não só para saber dos compromissos do dia ou da semana. Mas para antecipar as cenas dos próximos episódios. Neste momento estamos no final de março. Ora, deixa cá ver o que vai acontecer em abril e em maio.
Reparo também que, em quase todas as fases da minha vida, me orientei pelo fim de cada uma dessas fases. O fim de um ano letivo, por exemplo. O fim de um estágio. O fim da bolsa de estudos.
Não que aguardasse esse final com entusiasmo ou impaciência. Às vezes sim, porque esse futuro próximo seria melhor do que o presente. O fim da época de exames, por exemplo. O final de um dia de trabalho. O fim de semana. Mas outras vezes, não. Não queria nada chegar ao fim das férias do verão, não queria nada voltar da Eurodisney. Mas a noção de que esse fim haveria de chegar ajudava-me a apreciar o presente, a aproveitar todos os minutos.
Em qualquer dos casos, há sempre uma contagem decrescente a acontecer na minha cabeça, nem que seja no meu inconsciente. 
Quantas horas até ao nascer do sol. Quantas semanas até ao fim da gravidez.
Quantas páginas até ao final do livro.
O fim é sempre o resultado de um esforço, de uma espera, de uma experiência.
A noção de que tudo acaba é o que me ajuda a valorizar o presente. No extremo, aprecio a vida por saber que ela acaba e que é feita de muitos fins. (Ia escrever “A vida passa a vida a acabar”, mas depois arrependi-me.)
Ora, neste caso em concreto, é impossível prever um desfecho, um final feliz, uma data-limite. Quando vamos voltar a ver os nossos amigos e familiares? Quando vamos poder entrar num café? Quando vamos voltar a viajar? Quando vamos regressar ao nosso local de trabalho? Quando vão abrir as escolas?
Eu olho para o calendário e sinto falta desse horizonte temporal. Se soubesse em que dia acaba este pesadelo, conseguia olhar para esta clausura de outra maneira. Isto não passaria de uma fase, de uma etapa, de um período. Talvez conseguisse até tirar algum partido disto. No entanto, sem essa luz ao fundo do túnel, fica só mesmo o túnel e a escuridão. Sinto-me um pouco à deriva. Eu olho para o calendário e não sei dizer se esta temporada ainda vai durar muito tempo. Desconfio que sim, mas gostava de saber ao certo. Para ficar a aguardar esse fim com enorme expectativa.
Se eu não fizesse parte desta série, não ia perder tempo com ela. É tipo um Lost com toque de Desperate Housewives sem Office nem Friends nem Prison Break à vista.
Pensando bem, o Twilight Zone era exatamente isto. Se calhar estamos mesmo na tal quinta dimensão. Se calhar ainda estamos no primeiro episódio.


Por curiosidade e nostalgia, andei na net à procura da primeira temporada do Twilight Zone. O primeiro episódio chama-se “Where is everybody?” (“Onde está toda a gente?”) e começa com aquela mítica narração que passo a citar e a traduzir para terminar este texto:

“There is a fifth dimension beyond that which is known to man. It is a dimension as vast as space and timeless as infinity. It is the middle ground between light and shadow, between science and superstition, and it lies between the pit of man's fears and the summit of his knowledge. This is the dimension of imagination. It is an area we call the Twilight Zone.”

[Há uma quinta dimensão para lá do que é conhecido pelo ser humano. É uma dimensão vasta como o espaço e intemporal como o infinito. Fica a meio caminho entre a luz e a escuridão, entre a ciência e a superstição, e situa-se entre o abismo dos medos do ser humano e o cume do seu conhecimento. Esta é a dimensão da imaginação. É uma área a que chamamos zona do crepúsculo.]

sábado, 28 de março de 2020

Arco-íris

O que dá cabo de mim não é bem este distanciamento surreal. Não é a minha casa. Não é a minha família. Não é a minha vidinha com os seus mini dramas. O que dá cabo de mim é ver o número de mortes aumentar e a solidariedade diminuir. É olhar para os gráficos e já não sentir grande coisa. É ver aqueles arco-irís que as famílias andam a pôr nas janelas e pensar que não, não vamos todos ficar bem. É ver a União Europeia cada vez mais desunida. É ver a discussão acabar sempre no dinheiro. É não me sentir inspirada por um nenhum dirigente. É perceber que isto nos vai transformar para sempre. É pensar que vamos sair deste isolamento ainda mais isolados. 
É acima de tudo não ter um fim em vista. Não saber em que momento este pesadelo vai acabar. Não saber se este pesadelo vai acabar de facto.
É não me reconhecer no meio deste negrume. É sentir que eu já não sou bem a mesma pessoa. É olhar para as árvores e achar que elas andam contentes. É pensar que o Covid-19 pode ser o herói do ambiente. É pensar que nós somos o inimigo.
Mas depois às oito da noite ouço as palmas lá fora e isso salva-me. Largo o que estiver a fazer. Abro a persiana à bruta, abro a janela e grito, urro, bato palmas. O meu marido vai buscar o xilofone, o nosso mais velho guincha de entusiasmo. Diz: “palminhas”. Ficamos os três à janela a fazer barulho. Vejo a vizinha do lado que é italiana. Vejo a família do quarto andar, ele espanhol, ela italiana, os dois filhos a bater nas pandeiretas. Vejo mais uns vizinhos à frente, em baixo e em cima, não sei quem eles são. Acenamos uns aos outros. A vizinha do lado diz qualquer coisa que eu não percebo. Ela repete, eu não percebo. Rimo-nos, batemos palmas. A nossa ovação é uma oração. Eu bato palmas para os profissionais da saúde, claro, mas também para os que recolhem o lixo, para os que asseguram que os supermercados continuam a funcionar, para os polícias, para os bombeiros, para os professores. Eu bato palmas para os teletrabalhadores, para os independentes que não sabem como vão pagar a renda no próximo mês, para os artistas que andam a disponibilizar a sua arte para nos salvarem e para se salvarem a eles. Eu bato palmas para todos os doentes que estão no hospital, para os que morreram, para os que sobreviveram e também bato palmas para todos os que batem palmas, para os que ficam em casa e não perdem o Norte. Eu bato palmas para os meus filhos, para as crianças de todo o lado, para os pais, para os avós, para os que estão sozinhos, para todos os homens e mulheres e todos os que não estão nesta lista e deviam estar. 
Eu bato palmas e tenho vontade de abraçar os meus vizinhos, de abraçar o mundo inteiro. Eu bato palmas e tenho vontade de desenhar um arco-íris e de escrever por baixo desse arco-íris “vamos todos ficar bem”. Porque de repente também acredito nisso e não há nada mais humano do que esta esperança, esta vontade. Esta salva de palmas.

O arco-íris dos meus sobrinhos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Mãe e filho

Se calhar não devia dar tantos beijos aos meus filhos. Não sei. Se eu tiver o bicharoco, hão de estar todos infetadinhos. 
Penso nisto sempre que lhes beijo as bochechas e as pernocas e as covinhas das mãos e o duplo queixo e aquelas cabecinhas mornas, mas o meu instinto é burro que nem uma porta, a minha boca vai direitinha a eles e beija-os não sei quantas vezes seguidas, xuac xuac, xuac xuac, grande estúpida. Eu beijo-os e penso que este poderá ser o beijo fatal, por isso apresso-me a dar mais um e mais este e este ainda. Muitas vezes mordo-os também. Mas eles não se ficam. Puxam-me o cabelo, dão-me unhadas e tabefes. Beliscam-me, arranham-me, mordem-me. 
Se o isolamento me der para a loucura, vou acabar por comer os meus filhos. Sempre fui um bom garfo. E não sou a única mãezinha doente.
Parece que a natureza está cheia de mães que ingerem as suas crias. Insetos, anfíbios, répteis, felinos, roedores.
Na mitologia grega há vários deuses que comem os filhos, mas também há filhos que matam os pais.


A bem dizer, se este isolamento durar muito tempo, é possível que venham a ser os meus filhos a devorar a progenitora. São fortes, ingratos e mais que as mães.
Também disto tem a natureza aos montes. Entre as aranhas, os escorpiões, as minhocas e novamente alguns insetos e anfíbios há muita cria que se alimenta das mamãs.
A relação entre mãe e filho está cheia de contrassensos. Afeto e sacrifício. Devoção e delírio.
Entre mãe e filho não há barreiras. Não há espaço. Não há etiqueta.
Entre mãe e filho não há cá distanciamento social.
É pena.
São eles que vão dar cabo disto tudo: as mãezinhas e os seus filhos. 
Amor e gula. Apego e desejo. 
Carícia e contágio.