segunda-feira, 23 de abril de 2018

Um encontro à maneira na Madeira!

Pessoal, não se está nada mal no Funchal!
Hoje, Dia Mundial do Livro, tive o privilégio de estar no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira com alunos do 7.º, 8.º e 9.º anos das escolas São Vicente, Santo António e Bartolomeu Perestrelo. Foi uma tagarelice pegada!

Tudo a postos para a sessão no auditório do Arquivo Regional e da Biblioteca Pública da Madeira

Ao longo deste ano letivo, uns alunos leram o Supergigante, mas a maioria leu a Karateca.
Em algumas das turmas, por iniciativa das professoras de Português, andaram a circular cadernos vermelhos, onde alguns alunos fizeram desenhos altamente:


Mas a maioria escreveu textos diarísticos muito fixes, que falam de tudo um pouco.



Os amigos, o amor e o desamor, a morte, uma égua chamada Quinas, um passeio à chuva, uma viagem de autocarro, um treino de vólei, um jogo de hóquei, um poema, a letra de uma canção, o Sporting, o ballet, as dificuldades nos estudos, as dificuldades em mostrar o “lado lamechas”, as dificuldades em escolher uma profissão, a nega a matemática, a passagem do tempo, etc.












Os alunos mais corajosos quiseram ler os seus textos em voz alta. A Sara leu sobre o seu primeiro dia na turma do 9.º 5. A Isabela, cheia de força, leu sobre a sua (falta de) autoconfiança. O Pedro leu sobre um dia em que não aconteceu nada. A Mónica leu o texto do amigo sobre a morte do avô. A Beatriz leu sobre os problemas da turma. E o Francisco leu um texto sobre o seu cão, que acabava assim: “I love this dog. Siga, siga!”.



Eu cá falei sobre cadernos, livros, criatividade e também sobre o período. Pelo meio, houve perguntas, claro. Por exemplo: O fim é mesmo o princípio de outra coisa qualquer? Como é que se escreve um livro? A karateca é a Ana Pessoa? E ainda: É solteira?
Acabei a sessão a ler um excerto da Mary John que acabava assim: “Bardamerda para o amor”. Depois sentei-me num canto a autografar os livros de muitos leitores, sobretudo de rapazes, não sei porquê. Foram momentos de grande partilha também. O Edgar contou-me que, à semelhança do Edgar do Supergigante, também perdeu o avô e também tem problemas de concentração. A Natasha disse que leu o Supergigante num só dia. O Guilherme, grande leitor de mangas e bandas desenhadas, leu os três livros e elegeu o Supergigante como o seu favorito. E o Rodrigo, com os seus cabelos aos caracóis, disse-me que gostou em especial das “partes de astronomia”.




À despedida, os alunos ofereceram-me os seus cadernos vermelhos e eu fui a correr para uma esplanada deleitar-me com estes textos.
Cá estou eu, no Dia Mundial do Livro, a comer bolo do caco ao som destas palavras lindas de jovens madeirenses cheios de fúria e pujança.
Nada disto teria acontecido sem o convite e o apoio do Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira, o entusiasmo da diretora Fátima Barros e sua equipa, e o empenho das professoras de português Carlota, Luísa e Sílvia.
Cum a breca. I love these kids. Viva a Madeira! Siga siga!

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pirulito Carrapito

Pirulito Carrapito
Pirueta Picareta
Piparote Laçarote
Aqueduto Cocuruto
Piquenique Tremelique
Beringela Varicela
Alfaiate Chocolate
Camarote Cachalote
Camarata Zaragata
Maçarico Periquito
Maçaroca Paparoca
Esferovite Estalactite
Estrogonofe Regabofe
Trocadilho Andarilho
Cotonete Sabonete
Holofote Sacerdote
Dinamite Faringite
Amarelo Cogumelo
Bicicleta Borboleta
Clarinete Bandolete
Aguarela Manivela
Calhambeque Pechibeque
Marionete Trotinete
Matraquilho Maltrapilho
Raspanete Ricochete
Perdigoto Gafanhoto

sábado, 7 de abril de 2018

Assim ou assado


Assim ou assado
Doce ou salgado

Cara ou coroa
Pão ou broa

Longe ou perto
Floresta ou deserto

Sim ou não
Laranja ou limão

Cão ou gato
Bota ou sapato

Mais ou menos
Grande ou pequeno

Mar ou rio
Quente ou frio

Oito ou oitenta
Sal ou pimenta

Agora ou nunca
Resposta ou pergunta

Anel ou luva
Sol ou chuva

Norte ou sul
Verde ou azul

Bruxa ou fada
Tudo ou nada

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Eu: a minha cabeça, os meus pés, os meus braços

O meu filho olha para os seus pés com devoção e expectativa. Em breve, esses triângulos de ossos e articulações serão capazes de o levar onde ele quiser.
Hoje, enquanto observava o meu filho, que observava os seus pés, lembrei-me de uma epifania da minha infância que tem tudo a ver com o corpo, em geral, e com os pés, em particular.
Foi num dia de chuva. Eu deambulava pelos corredores escuros do colégio completamente sozinha. Não era uma coisa que acontecesse com frequência. Era o fim do dia e os outros miúdos talvez já tivessem ido embora. Não sei. Mas eu estava rodeada por sombras e pelo som dos meus passos. Uma experiência aterradora e, ao mesmo tempo, fascinante. Eu sentia uma miúfa pequenina, nada de especial. E de súbito, qual intervenção divina, surgiu dentro da minha cabeça uma constatação que era, afinal, uma epifania: só eu estava ali, na escuridão. Só eu estava a viver aquela experiência naquele dia. Mais ninguém tinha acesso àquela escuridão por fora e àquela miúfa por dentro. Só eu. Porque só eu vivia dentro da minha cabeça e do meu corpo. E ninguém além de mim poderia ser a minha pessoa.
E aí, sim, senti um desconforto que já não era uma pequena miúfa. Era um medo crescido, a maior angústia de todas, a mais longa: eu estava completamente sozinha dentro do meu corpo e da minha cabeça. E isto queria dizer que ninguém podia pensar os meus pensamentos nem sentir as minhas emoções. Da mesma forma que eu não podia pensar ou sentir o que as outras pessoas pensavam e sentiam. Eu caminhava pelos corredores escuros do colégio com pena de mim própria, com pena de todos nós. Estávamos condenados a uma prisão perpétua dentro dos nossos corpos. A nossa perceção do mundo era um corredor escuro. E essa talvez tenha sido a primeira vez que eu pensei verdadeiramente na minha existência. Eu: a minha cabeça, os meus pés, os meus braços.
O meu corpo era uma parte insignificante do mundo. Era insuficiente. Era incrivelmente limitado. Nunca me poderia proporcionar todas as experiências terrestres. Por exemplo, eu nunca poderia voar como as gaivotas nem correr como os leopardos. Nunca haveria de respirar debaixo de água nem mudar de cor ou saltar como um sapo. Triste fado, este, de ter apenas dois pés, para andar para a frente e para trás.
Eu observo o meu filho a observar os seus pés e penso nesta epifania da infância.
Mais tarde, nas aulas de português, o aspeto gramatical que mais me inquietava eram as conjunções disjuntivas. Ou ou, quer quer, seja seja. Eram palavras más. Serviam para revelar outra limitação da minha existência: eu não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Das duas uma: ou saltava à corda ou ao elástico; ou brincava ou estudava. Tudo o que eu fizesse e não fizesse seria sempre o resultado de uma escolha.
A vida era, afinal de contas, uma sequência bastante longa de decisões e escolhas.
Um dos manuais escolares (5.º ano? 6.º ano?) incluía um poema da Cecília Meireles que eu lia repetidamente. Chamava-se "Ou isto ou aquilo".
Este texto acompanhou-me toda a vida. Dizia assim: "Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!"
No inverno, quando ponho as luvas, penso neste poema e sinto sempre uma vitória infantil, porque eu uso sempre um anel e as luvas ao mesmo tempo.
Nunca serei verdadeiramente livre, claro, mas a minha cabeça, de vez em quando, liberta-me.
Eu penso em tudo isto e o meu filho olha para os seus pequenos pés, que um dia deixarão admiráveis pegadas na areia. A vida não é nada curta. É tão longa.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Encontros mágicos em Vila Nova de Gaia

Como falar da magia real? Ontem estive em Vila Nova de Gaia e agora estou para aqui cheia de ganas de viver. A culpa é dos alunos que conheci nas escolas Soares dos Reis e Teixeira Lopes. Garotada muito fixe e inspirada, com a vida toda pela frente.


Alguns tinham lido a Karateca, outros o Supergigante, outros ainda a Mary John. Alguns tinham lido os três livros ou então dois.
Na escola Soares dos Reis, havia um mostrador e uma parede da biblioteca decorados com as frases favoritas dos alunos. Frases que eu nem sabia que tinha escrito! Por exemplo: "Um olhar que olha." Ou: "O fim é o início de outra coisa qualquer." Ou ainda: "E tudo faz sentido, mesmo quando nada faz sentido."



O encontro com os alunos do 9.o ano começou com uma leitura do Miguel e da Joana. Leram um excerto da Mary John que fala, entre outras coisas, do sentido da vida e de "almas perdidas".





A conversa andou em torno das perguntas dos alunos, muitas delas nunca antes "perguntadas". Por exemplo esta: o que é para si uma "alma perdida"? A karateca queria realmente ser freira? Por que razão a Mary John continua a escrever ao Júlio depois de confessar que já o esqueceu? Quais as vantagens de escrever à mão?
Pergunta puxa resposta, lá fui falando dos livros e do processo de escrita de todos eles. A certa altura disse-lhes que transpirei bastante enquanto escrevia o Supergigante. Perguntei-lhes se tinham transpirado durante a leitura. A Catarina disse que tinha "transpirado dos olhos". A Leonor perguntou-me se os meus encontros com alunos também serviam de inspiração para escrever. Eu disse que sim e fixei logo aquele nome: Leonor. Like it very much! A Sofia quis saber se eu considerava a possibilidade de escrever para adolescentes partindo de personagens que não fossem adolescentes. E esta, hein?






O Alexandre mostrou-me os textos que ele escreveu e ilustrou a partir de frases do Supergigante. O primeiro poema tinha como título: "Eu corro e não avanço".
No final da sessão na escola Soares dos Reis, o Gonçalo - vestido de carteiro dos CTT - entregou-me um molho de cartas e uma prenda dos alunos.





Foi uma surpresa e tanto! Vim no alfa pendular pendurada nestas memoráveis epístolas.





Umas vinham escritas em folhas de caderno, outras em papel de carta com enfeites diversos: borboletas, folhas de árvore, Snoopys. Uma das alunas dizia que a Maria João, o Raul, a karateca, o Daniel, o Edgar e a Joana eram os seus "amigos novos". Uma outra leitora dizia que estava a aplicar o método científico da karateca a todas as áreas da sua vida. Uma das cartas mais longas e bonitas falava-me da morte e do amor a partir da leitura do Supergigante. E uma moça dizia que a Mary John contava a história da sua vida.
Depois de ler as cartas, abri o meu presente da escola Soares dos Reis.






Era um caderno novinho em folha: a prenda ideal para quem estava mesmo a precisar de desabafar. Escrevi assim: "Hoje conheci uns alunos que não são almas perdidas!"
Resta-me agradecer o empenho e a boa onda das professoras bibliotecárias e dos professores de Português das duas escolas. Agradeço em especial ao Pedro Carvalho da fantástica livraria Velhotes (onde habitam umas fanzines upa-upa) que organizou estes magníficos encontros. Estou para aqui a transbordar emoção, esperança e inspiração.








quarta-feira, 14 de março de 2018

Dias felizes em Esposende!

A convite da Câmara Municipal de Esposende, passei dois dias felizes em terras esposendenses. Nas cinco sessões em cinco escolas com turmas dos 7.os e 8.os anos, houve tempo para a literatura e ainda para um teatro de sombras e para um fado! Cabe-me agradecer o entusiasmo e o apoio de todas as professoras bibliotecárias, em especial da professora Fernanda Vilarinho, que organizou esta maratona literária.





Os alunos nas várias sessões em Esposende, Forjães e Apúlia.



O teatro de sombras sobre a karateca na escola António Correia de Oliveira.



Alguns trabalhos dos alunos da escola António Rodrigues Sampaio.


quinta-feira, 8 de março de 2018

Uma eternidade pequenina

Passaram três meses e picos. Uma eternidade pequenina.
O meu filho já não cabe na banheira. E o meu corpo não cabe em lado nenhum.
Esta barriga não tem explicação. Continuo a vestir roupa de grávida. 
Às vezes não tomo banho. Às vezes penteio o cabelo.
Estou sempre com fome. Estou sempre com sono.
Quando ele dorme, fico a vê-lo dormir. Se me deito, ele acorda.
Passo a vida a inventar palavras. Também invento musiquinhas. Canto as musiquinhas inventadas mesmo quando não estou com ele.
Tenho saudades de qualquer coisa. Não sei bem de quê.
Um dia destes saí de casa e deixei a panela de pressão ao lume. Uns dias mais tarde deixei a mala no elevador. Ando meio confusa. Durmo pouco. Sonho muito.
Mas estou a gostar disto, apesar de andar com pouca paciência para o mundo. Não me apetece ler notícias. Também não me apetece ler sobre bebés. Perdoem-me. Gostava de ser uma pessoa melhor. Uma mãezinha melhor. Mas acho que não vai dar.
A ideia generalizada de que a maternidade é o cúmulo do sacrifício chateia-me a potes. Coitadas das mães. Mereciam melhor. Gostava que a imagem da maternidade fosse a de mulheres emancipadas e não a de pobres coitadas, condenadas ao suplício. Silhuetas discretas que dão tudo e não recebem nada. Que se esquecem de si próprias. Que vêm em segundo plano ou mesmo em terceiro.
Neste dia da mulher, em que estou descabelada e mal-cheirosa, rejeito a narrativa do sacrifício. Nunca tive queda para mártir nem para heroína. O que é o sacrifício da maternidade? Deixar de fazer todas as coisas que nos dão prazer para cuidar de alguém? Não foi esta precisamente a escolha que fizemos?
Do alto da minha total falta de noção e de higiene, afirmo que ser mãe é, antes de mais, um privilégio. Não é um sacrifício, ainda que implique sacrifícios. Já se sabe que não há recompensa sem esforço. Tudo o que fiz de jeito na vida implicou sacrifício pessoal. Acho que não passei a sofrer mais por causa disso. E também não passei a existir menos. Pelo contrário.
Neste dia da mulher, penso nas mulheres da minha vida que não são pobres coitadas. Que não pedem nada em troca. Que lutam todos os dias por serem elas próprias. E são muitas.
De resto sinto um amor estúpido. Um amor brutal. O meu filho aponta-me os seus olhinhos boquiabertos e eu parto-me a rir. Mas hoje, o que tenho para lhe dizer, com todo o amor do mundo, é isto: meu querido filho, tu vive e deixa viver. A mamã já cá estava antes. Entendes?