terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um dia destes corto as unhas dos pés

Um dia destes corto as unhas dos pés. Agarro-as pelos ombros e tau! Corto-lhes a cabeça.
Há semanas que ando a magicar o golpe. O meu corpo a descer por aí abaixo até ao sopé de si próprio. As mãos ao encontro dos pés, com uma tesourinha em riste.
Uma tesourinha malvada e feminina, cheia de curvas e método.
E hei de usar a tesourinha mais antiga de todas, porque a tesourinha mais antiga de todas, apesar de enferrujada e desconjuntada, corta bem de um lado e do outro.
As tesouras mais jovens são todas umas falhadas. Andam por aí a transbordar design e elegância, mas são fracas de espírito.
É sempre assim. Os jovens não têm calo.
Já os meus pés, sim. Têm calo. E umas unhas muito grossas que estão cada vez mais compridas. Não sei por que razão as deixo crescer tanto. Todos os dias adio o golpe.
Talvez me tenha afeiçoado a elas. Às minhas unhas grossas.
Há uma beleza qualquer nas coisas feias. Carros sujos. Casas velhas. Unhas grossas.
Mas hei de cortá-las um dia. Prometo.
A dor na ponta dos pés chegará ao fim.
O meu corpo ficará mais leve.
E eu hei de voltar a calçar 39.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A tagarela

Lá vem ela. A tagarela.
A respondona. A linguaruda.
Conta. Canta. Chora. Jura.
Narra. Berra. Guincha. Uiva.
Não se cala. Não se cansa.
Nunca pede. Nunca cede.
Não admite. Não confessa.
Não afirma. Nunca nega.
É fofoqueira. É trapaceira.
Diz que fez. Diz que disse.
Ela exige. Ela insiste.
É só tanga. É só garganta.
Ela argumenta e acrescenta.
Ela declara. Ela declama.
Ela protesta e desconversa.
Ela discorda. Ela discursa.
Ela discute e barafusta.
Ela diz. Ela desdiz.
Ela põe. Ela dispõe.
Mas quando vê o tal gaiato,
chico-esperto,
fala-barato,
nem parece a tagarela.
Cala o bico. Perde o pio.
Não resmunga. Não respinga.
Não comenta. Não refila.
Já não urra. Só sussurra.
Não chateia. Não aleija.
Já não conta. Já não canta.

E se tenta, até gagueja.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A ideia, a paixão e a cria

E então reparo que a rua se chama Darwin, por isso fico a matutar nessa coisa da evolução das espécies. Na lei do mais forte. Na seleção natural.
O sol nas minhas costas, o carrinho à minha frente.
Olho para a minha cria, que dorme. Bochechas por todo o lado. Um queixo igual ao do pai, um nariz igual ao meu.

Ei-lo. 
O meu filho. O mais forte.

E há em tudo isto uma narrativa qualquer: o Darwin, o sol e a cria. Mas eu ainda não sei que narrativa é essa, por isso presto atenção. 
O café de esquina chama-se Ici. Abrando o passo. Gosto do nome. Gosto de esquinas. Gosto do menu. 
Aponto na cabeça: Aqui é um bom lugar.
Depois passamos na padaria de sempre, no Pain Quotidien, e damos com este letreiro à porta. Tiro uma fotografia. A ideia, a paixão e a cria.


Fazemos um desvio só para ver a montra do Typographe. Blocos, cartões, canetas, agrafadores. Tudo em tons de vermelho. Um postal de pé, a dizer Toi et moi. Um postal deitado, que diz Amour. Um caderno chamado Love. Um estojo vermelho. Letras douradas: Keep my secrets.
A minha cria acorda com fome, por isso vamos para casa.
Passamos por uma loja chamada inattendu. Passamos por uma mulher muito gorda, que vem a arfar na rua. Passamos por um homem muito sujo, que nos pede dinheiro, os dentes podres. Empurro o carrinho com mais força e acelero o passo. Quero fugir da pobreza e da sujidade. A seleção natural.
Penso no tal letreiro.
Não tenho grandes ideias, mas tenho paixão de sobra.
Eu sou do fogo. Do apego. Do afeto.
As árvores muito despidas de tudo. A minha sombra deitada no passeio, muito comprida. O sol atrás e a minha cria à frente. Toi et moi. Amour. Uma narrativa qualquer.
Tenho as costas quentes e as mãos frias.

Aqui é um bom lugar. 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Supergigante nos Estados Unidos!

Great stuff! Mais uma notícia Supergigante. O Edgar corre até aos United States. Yeah!
A Fundação Cuatrogatos de Miami publica anualmente uma lista de obras recomendadas para crianças e jovens em língua espanhola
O Supergigante foi um dos 10 finalistas na edição de 2018! Caso para dizer: Miaaaaau!


sábado, 27 de janeiro de 2018

Supergigante no Chile!

¡Qué fuerte! No Chile, a Fundacíon La Fuente considera o Supergigante um dos livros "imprescindíveis" de 2017!
Fico emocionada. Só me apetece correr!

http://www.vivaleercopec.cl/2018/01/22/supergigante-correr-para-encontrarse/





sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Come chocolate, pequena

O que me vale é o chocolate belga. Com toda a sua verdade e corpulência. Com toda a sua pompa e fartura.
Uma lambarice de cacau e açúcar.
Neste momento, cá em casa, há de tudo. Trufas do Pierre Marcolini. Bombons da Neuhaus. Quadradinhos da Zaabär. Minibarras da Galler.
Estou para aqui a lambiscar trufas de champanhe, compenetrada na minha gula, e apercebo-me agora mesmo de que nunca visitei uma fábrica de chocolate.
Gostava à farta de visitar uma fábrica de chocolate.
Para amansar a curiosidade, continuo a comer trufas e leio as biografias dos chocolateiros belgas, esses chefes do cacau. Fico desiludida, claro, por isso como mais um pitéu adocicado. É que os chocolateiros belgas não têm um ar nada doce. E também não parecem lambões nem roliços. A bem dizer, têm percursos de vida normais: licenciaram-se em pastelaria, confeitaria e chocolate, abriram uma lojinha aqui, depois outra ali. São autênticos merceeiros do cacau. E são todos homens, entradotes e muito bem penteados.
C'est dommage, não?
Preferia que fossem chalupas e esgazeados como o Willy Wonka, mas não duvido da sua genialidade.
Come chocolate, pequena, como dizia o outro. E eu como. Não sou pequena, mas como.
O miúdo chora e eu devoro um coração negro com crosta estaladiça. O miúdo adormece e eu tufas nas trufas de pistácio. Ou nas de caramelo e sal. Ou nos biscoitos de chocolate de leite recheados à mão com creme de baunilha. (À mão, ouviram?)
O miúdo acorda e eu engulo um bombom com pedaços de coco. Ou com espuma de maracujá. Ou barras de chocolate branco recheadas com mousse de café e pedaços de avelã. Ou quadradinhos de chocolate preto recheados com espuma de framboesa. Ou com praliné crocante.
No outro dia saímos de casa contra a chuva só para comprar chocolate com especiarias. Foi um festim de sabores. Chocolate preto com coentros, por exemplo. Chocolate de leite com tomilho. Chocolate branco com pimenta rosa. Ou com cardamomo.
De facto, para que serve a metafísica? Que parvoíce.
E a reflexão e a poesia e o entendimento, para que servem?
Perante um bombom, tudo perde sentido. A única maneira útil de passar o tempo é a comer docinhos. E eu cá sou feliz na minha imbecilidade.
Abro os papelinhos delicados e devoro os bombons com exaltada violência. Sou uma besta do chocolate. Não há nada a fazer.
Nunca fui comedida. Nem razoável. Nem moderada. Sou assanhada por natureza. E tenho um apetite voraz.
Ainda assim, sou um doce de pessoa.
Juro.
A sério.
Sou mesmo.
(Pudera.)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Mary John em Montemor-o-Novo

Levar a literatura aos leitores mais novos: esta tem sido a difícil e louvável batalha de Andreia Brites, mediadora de leitura em escolas e bibliotecas. No seu blogue "O Bicho dos Livros" fala-nos, entre outras coisas, dos seus encontros e desencontros com leitores.
Neste início de 2018, conta-nos a história da Mary John em escolas de Montemor-o-Novo.
Ano novo, leitores novos!