Comecei o ano a abrir envelopes em grande estilo. Com um só golpe incisivo e rigoroso.
Zás.
É uma experiência aguçada.
O meu objeto cortante é belo e cruel ao mesmo tempo.
Não é um canivete suíço. Não é uma faca de aço inoxidável. Não é uma espada cintilante nem uma tesoura de poda ou das unhas. Nem uma navalha ou uma serra ou um punhal.
Esqueçam.
O meu objeto cortante é um pássaro. Pequenino e sofisticado. Como outros passarinhos.
Baloiça de um lado para o outro e roda sobre si próprio. Anda pela casa em ligeiros voos e assobios.
Mas atenção: a sua cauda é terrível. Cativa e corta ao mesmo tempo.
É um pássaro afiado nas pontas.
Os envelopes, coitados, ficam boquiabertos.
O Birdie foi desenhado pelas mãos apuradas de Yohei Oki.
A embalagem inclui umas palavras do designer japonês. Um inglês carente que diz, entre outras coisas:
Quando foi a última vez que escreveu uma carta?
Ui!
Palavras lancinantes. Especialmente quando ditas por um pássaro.
Fui a correr escrever um postal.
Até piei fininho.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Amor ortográfico: Times New Roman
É impossível não sentir abstruso enfado quando se lê um texto em Times New Roman. Tudo perde o encanto e o sentido quando escrito neste tipo de letra. Até os textos do Valério Romão ficariam desengraçados se andassem por aí nessa figura.
Ouçam bem: a fonte Times New Roman há de ser responsável por muitos males do mundo.
É que as palavras, quando se metem com esse tipo, parecem umas solteironas de cabelo atado. Sentam-se muito direitas à mesa, cheias de tiques e traços, e nunca falam de boca cheia, nunca dão um arroto ou um pum. São palavras chatas. Muito bem sentadas e alinhadas. Raramente pensam. Raramente pecam. São umas tristes.
Nenhum leitor as quer assim. Nenhum leitor lhes vai dirigir os olhos ou a alma. As palavras vestidas de Times New Roman morrem virgens.
E este poderá ser um grande mal do mundo: o asco do ser humano por este tipo rígido.
As letras, quando se vestem de Times New Roman, não sentem paixão pela vida e sugam a motivação dos leitores mais vulneráveis.
A narradora deste texto, por exemplo, fica logo murcha e incapaz.
Antes o Comic Sans que, apesar de velho e desajeitado, é só um tipo sem ambição nem grande noção das coisas. Coitado.
Ouçam bem: a fonte Times New Roman há de ser responsável por muitos males do mundo.
É que as palavras, quando se metem com esse tipo, parecem umas solteironas de cabelo atado. Sentam-se muito direitas à mesa, cheias de tiques e traços, e nunca falam de boca cheia, nunca dão um arroto ou um pum. São palavras chatas. Muito bem sentadas e alinhadas. Raramente pensam. Raramente pecam. São umas tristes.
Nenhum leitor as quer assim. Nenhum leitor lhes vai dirigir os olhos ou a alma. As palavras vestidas de Times New Roman morrem virgens.
E este poderá ser um grande mal do mundo: o asco do ser humano por este tipo rígido.
As letras, quando se vestem de Times New Roman, não sentem paixão pela vida e sugam a motivação dos leitores mais vulneráveis.
A narradora deste texto, por exemplo, fica logo murcha e incapaz.
Antes o Comic Sans que, apesar de velho e desajeitado, é só um tipo sem ambição nem grande noção das coisas. Coitado.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Amor ortográfico: Canetas mágicas
Ando com duas canetas extraordinárias na mala.
E para quê andar com as duas?
Não sei.
Se uma falhar, sempre tenho a outra.
É que as minhas canetas extraordinárias têm um poder especial: apagam a tinta sem magoar o papel e não deixam quaisquer vestígios.
São canetas mágicas, claro!
Corrigem o passado. Reescrevem a história.
Isto quer dizer que posso finalmente corrigir todos os meus cadernos e ninguém vai dar por ela, a não ser que os metam no frigorífico.
No frigorífico?!
É verdade.
Pelos vistos, as duas utilizam a mesma tecnologia: tinta sensível à temperatura. Aparentemente, o esforço de investigação e desenvolvimento foi grande e o resultado é sobrenatural. O calor gerado pela fricção da borracha torna a tinta invisível!
Nem de propósito, a minha primeira caneta mágica chama-se FriXion e é fabricada pela Pilot. A outra é a erasable pen da Muji. São ambas canetas de gel, ambas Made in Japan, ambas azúis e com bicos perfeitos de 0,5 mm.
O senhor da papelaria onde comprei a FriXion mostrou-me outra possibilidade para apagar a tinta. O método impressiona os mais sensíveis à temperatura e, além de eficaz, é bastante estiloso. Basta agarrar num isqueiro e passar a chama pelo papel. A tinta desaparece.
São canetas de feiticeiro com design japonês. Daí ter duas. Para reescrever duas vezes.
No entanto, se tiver de escolher entre uma e outra caneta mágica, não vou hesitar: prefiro a caneta da FriXion. Dá mais fricção à escrita e inclui um apoio confortável para a ponta dos dedos, o que possibilita uma utilização prolongada.
Além disso, a borracha de tinta da FriXion é maior e, ao contrário da caneta da Muji, vem agarrada ao corpo da caneta e não à tampa. Isto permite-me mordiscar a tampa da caneta de forma contínua e sem remorsos, o que tem literalmente um impacto positivo no ato da escrita.
A caneta da FriXion tem ainda um corpo de plástico mais bonito do que a caneta da Muji. É menos cilíndrico, menos básico.
Por último, a caneta FriXion pertence a uma edição exclusiva dos Estúdios Ghibli. Além de poderes especiais e de um apoio para os dedos, contém três Totoros.
É um toque de magia para lá da magia.
Irresistível!
domingo, 25 de janeiro de 2015
Amor ortográfico: Eros tipo gráficos
Há falta de visão em Portugal.
Perdão.
Queria dizer revisão.
Há talfa de revisão em Portugal.
Eu pelo menos encontro gralhas a dar com um tau. E não é só em publicações diárias ou semanais. É em bons livros. De boas editoras. De boa gente. Que até estão bem escritos, bem traduzidos. É um apena. Eu pergunto-me: Porquê tantos eros tipo gráficos?
Não se percebes. Eu pelo menos não percebo. Dá a ideia de que os livros são feitos à pressssa. Às três pancadas, numa língua de trapos. É estranho. Até porque há muita gente a tratar a língua portuguesa com dedicado amor e carinho. Onde nadam os revisores?
Algumas gralhas voam rasteiras, é certo. Um gerúndio em vez de um particípio, por exemplo. Um erro irado sentando numa frase. Uma Maiúscula fora do sítio. Uma palavra a mais entra uma expressão. Por de exemplo um de. Ou palavras menos. Ou um acento aqui, uma virgula acolá, por vezes até falta um tonto final.
Qual é o mal? Acontece.
Mas certas gralhas são parovosas. São demasiado videntes. Palavras repetidas repetidas ouentãocoladas ou só esquisitas, porque não concordam em génera ou em números. O leitor fica com fuso, coitado. Não sabe se está perante um lapso ou um colapso. Fica com papas na língua. Ninguém leu o livro? Para quê publicá-lo?
Eu, pessoalmente, fico pelo cabelos. Já abondonei livros por causa das gralhas. Sinto-me uma namorada atraída.
Bem sei que tenho o vício dos eros tipo gráficos.
Li o aguardado Charlie Hebdo de lápis em punho e encontrei gralhas em franciú, a bem da liberdade de revisão. Sou doente.
Ainda assim, creio não estar a exagerar quando digo que há um desmalezo generalizado na edição em Portugal. Uma falta de brio e de exigência. É um problema sério. Há que apostar em bons revisores, em bons editores. É preciso apontar o dedo e calcar as gralhas. É a nossa língua. Cadê o amor à literapura?
Falta de revisão é falta de visão. É negligência. Não tem garça nenhuma.
Nós, leitores, devemos exigir mais e melhor. Eu cá tenho por hábito enviar emails aos editores. Aprendi com a minha avó, que telefonava às editoras para apontar erros. Normalmente recebo respostas. Por vezes até me agradecem, fazem-me promessas. Eu fico contente.
Sempre é uma gralha a menos. Um erro corrigido. Uma lacuna colmatada.
Não é cosia pouca.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Amor ortográfico: Le Typographe
Uma amiga ofereceu-me um
bloco de notas. É um bloco sofisticado. Traz uma abelha elegante no cume de todas as folhas.
Infelizmente ainda não me atrevi a tirá-lo da embalagem.
Tenho medo de abelhas e não sei usar notas que não sejam peganhentas.
O bloco-abelha é o meu animal de companhia. Bebe o néctar da minha gaveta e poliniza os dias.
O meu bloco-abelha diz atrás handmade in Brussels e eu gosto disso. De ser proprietária de um bloco feito à mão. De pensar em artesãos do papel a fazer este bloco de mel só para mim.
Gosto de adiar o encontro, acho. De evitar a escolha. De ficar a pensar naquele caderno (naquele caderno, naquele caderno).
A verdade é que tenho cadernos que chegue, não tenho?
Tenho.
Uma caixa apinhada de cadernos, muitos dos quais ainda por estrear. Cadernos para todos os gostos. Uns pequeninos de andar na mala, outros grandes de andar por casa, outros médios para ocasiões mais… medianas.
Azar.
Quero ter um caderno a dizer Le Typographe.
Até porque não sou de repetir cadernos.
(Nem perfumes nem cremes.) Gosto de variar. Farto-me da textura. Ou da capa cintilante ou então das argolas. Na maior parte das vezes, os cadernos acabam por me desiludir. Têm buracos de um
lado ou bonequinhos do outro; afinal são largos ou magrinhos;
não têm o peso correto; são chatos; são tacanhos; desinspiram-me.
Não posso adiar mais este encontro. (Aquele caderno, aquele caderno, aquele caderno.)
Vou entrar na loja e comprar o caderno cosido à mão, de folhas opacas e macias. Ou então o caderno quadrado, aberto ao mundo. Com uma capa de tecido ou de cartão e folhas removíveis, perfeitamente lisas ou às pintinhas. Nunca escrevi em folhas às pintinhas.
Amanhã fecham às 18h.
Tenho tempo.
A loja Le Typographe vai ser a minha ruína.
Infelizmente ainda não me atrevi a tirá-lo da embalagem.
Tenho medo de abelhas e não sei usar notas que não sejam peganhentas.
O bloco-abelha é o meu animal de companhia. Bebe o néctar da minha gaveta e poliniza os dias.
O meu bloco-abelha diz atrás handmade in Brussels e eu gosto disso. De ser proprietária de um bloco feito à mão. De pensar em artesãos do papel a fazer este bloco de mel só para mim.
A loja Le Typographe fica a 500 metros de casa, mas eu nunca lá entrei.
A sofisticação intimida-me.
Fico do lado de fora a ver os cadernos da
montra e também o meu reflexo por cima dos cadernos da montra. O meu cabelo está sempre torto.
Ando a namorar os cadernos Le Typographe
há semanas.Gosto de adiar o encontro, acho. De evitar a escolha. De ficar a pensar naquele caderno (naquele caderno, naquele caderno).
A verdade é que tenho cadernos que chegue, não tenho?
Tenho.
Uma caixa apinhada de cadernos, muitos dos quais ainda por estrear. Cadernos para todos os gostos. Uns pequeninos de andar na mala, outros grandes de andar por casa, outros médios para ocasiões mais… medianas.
Azar.
Quero ter um caderno a dizer Le Typographe.
Só um.
Um chega.
Um é bastante.
Quando chego ao fim de um
caderno, chego mesmo ao fim: ponho-o de lado, faço tabula rasa.
A folha perfeita, aliás, é uma tabula rasa e, por isso, os meus
cadernos são lisos. Não têm margens nem linhas nem quadrados.
Não gosto de limites. Gosto de escrever torto, de desalinhar.
Os meus cadernos têm capa dura para resistirem a
quedas e empurrões. Sou desajeitada e também algo bronca, não sei cuidar. Apesar da minha indelicadeza, sempre fui picky com
cadernos. Gosto de os ver por dentro e por fora, de ouvir o que dizem quando se abrem, de lhes sentir o cheiro e o toque.
Há semanas que ando a namorar os cadernos
Le Typographe. Os que são assim e os que são assado. Não posso adiar mais este encontro. (Aquele caderno, aquele caderno, aquele caderno.)
Vou entrar na loja e comprar o caderno cosido à mão, de folhas opacas e macias. Ou então o caderno quadrado, aberto ao mundo. Com uma capa de tecido ou de cartão e folhas removíveis, perfeitamente lisas ou às pintinhas. Nunca escrevi em folhas às pintinhas.
Amanhã fecham às 18h.
Tenho tempo.
A loja Le Typographe vai ser a minha ruína.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Amor ortográfico: Notas peganhentas
A propósito da proteção de dados pessoais, gostava de escrever umas notinhas sobre notinhas. Há gente que usa notinhas para isto e para aquilo, daqueles post-it de colar na testa dos armários, é um hábito algo desconcertante. Lembretes e recados, números de telefone, listas de compras ou de ideias, sticky notes de todas as cores e feitios que acabam enroladas a um canto quando perdem o norte e também a cena sticky. Eu sou dessas pessoas desconcertantes que usam notas peganhentas para tudo e mais alguma coisa e tenho este tique nervoso de arranjar bloquinhos novos a toda a hora, porque aquele é roxo e este aqui é redondo e hei de guardar as minhas notas até ao fim, mesmo as que ficarem por escrever. É óbvio que na era da técnica, as minhas notas peganhentas não valem um, porque são uma coisa do passado. Eu sei disso perfeitamente, mas a verdade é que gosto mais das minhas notas do passado do que da era da técnica. Quando encontro uma nota enrolada no bolso é como se ganhasse uma memória na rifa, fico cheia de esperança e expectativa. O que estará dentro desta nota? Talvez o nome de uma pessoa sublinhado três vezes ou um grito: Marcar dentista!, um pedido: responder mail 30/10, uma ordem: Ligar pais. Felizmente sou uma pessoa do futuro e já me habituei às Sticky Notes do Windows 7. Tenho umas quantas no Desktop e até dá para mudar de cor e de tipo de letra. Neste momento tenho uma nota pequenina verde, outra grande e azul e outra intermédia e cor-de-rosa. Eu bem tento brincar com as cores e os tamanhos, mas as notas do futuro não têm piada nenhuma. Além de não se pegarem aqui e ali, também não se perdem e isto é muito aborrecido. As sticky notes verdadeiramente sticky agarram-se ao que não devem e andam por aí descoladas e perdidas. Eu gosto de encontrar uma nota no fundo de uma gaveta: Reservar, 5 pessoas, 20h.
Tenho pelo menos dois blocos clássicos de post-it amarelos e dois blocos a imitar rolos de fotografia, vários bloquinhos pequeninos com setinhas, seis blocos a imitar balões de diálogo, um conjunto de oito blocos da Lotta Jansdotter com folhinhas de árvore e mochos, e tenho ainda um outro redondo com o Ampelmann parado, tipo sinal vermelho para os peões. Gosto aos montes das minhas notas peganhentas. E também gosto de notas peganhentas aos montes. No outro dia vi mesmo um monte de notas peganhentas. Não era um bloco, mas sim uma torre de post- it: ia do chão até à minha cintura, não estou a brincar. Ainda não tinha visto o preço e já estava disposta a pagar montes de notinhas pelo monte de notinhas, mas depois pensei no tamanho do meu rabo e achei que a torre de notas adesivas ia passar os dias a cair ao chão. Então contornei o tique nervoso e decidi que a torre merecia outro destino.
O que eu mais gosto nas minhas notas peganhentas é a certeza de que elas não vão ser lidas pelos serviços secretos americanos, a não ser que os senhores venham enfiar as mãos nos meus bolsos, o que até pode vir a acontecer, encontrar um americano no bolso do meu casaco. Na era da técnica tudo é possível. Quando olho para as minhas notinhas, fico logo com uma nostalgia de pessoa velha e meto as mãos no bolso. Eu também sou uma coisa do passado.
Agarro-me ao que não devo e também ando por aí descolada e perdida.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Amor ortográfico: Caneta vibratória
A propósito de tudo isto, descobri aqui há uns dias mais um desenvolvimento prodigioso da era da técnica:
uma caneta vibratória.
O tema interessou-me, porque no geral gosto de vibrar com as novidades. Fui ver.
Era isto:
Imagem e artigo aqui (em inglês).
O conceito é mais ou menos simples, embora a solução técnica seja para mim um mistério. Trata-se basicamente de uma varinha de condão da escrita, que vibra quando deteta erros ortográficos.
Bem, não é bem uma varinha de condão, porque só deteta erros, não realiza os nossos desejos mais desejados. Mas se pensarmos bem, detetar erros ortográficos já é um dos três desejos mais desejados de muita gente, ou não? Uma pessoa está muito bem a escrever um recado para a mãe a dizer: «A mousse estava óptima» e, quando vai a desenhar o «p», a caneta estremece irritadinha. Fica talvez por realizar o desejo de corrigir o erro, mas a dúvida já é meio caminho andado.
Por mim, nada contra, eles que tremam para aí. Há de certeza quem goste de levar reguadas vibratórias. E as reguadas vibratórias, além de não aleijarem ninguém, devem ser inspiradoras. Além disso, percebo a utilidade do instrumento para pessoas imaturas, iletradas, inseguras.
No entanto, fico com pena dos erros ortográficos. Por este andar, vão ser coisa do passado, mesmo entre os alunos da primária. E eu gosto bastante de erros ortográficos. E também de gralhas, falhas, fífias, fendas. É como jogar às escondidas com o texto. Quando apanho um erro, grito contente: Tcharam, apanhado! E muitas vezes acontece-me gostar mais do erro do que da palavra aperaltada.
Por exemplo, enquanto estava à escrever este texto à mão, em vez de «erros ortográficos», escrevi «eros ortográficos». Exclamei: «Ai, que giro!», porque realmente eros é um erro amoroso. Fiquei a pensar no deus grego e cheguei rapidamente ao amor, daí ter apelidado estas minhas «postas» de «Amor Ortográfico». Pronto, não é assim uma expressão tão inovadora como «caneta vibratória», mas é um título válido e tem a particularidade de homenagear o erro.
Eu saúdo os erros. Fazem-me sentir mais carne e osso, não sei.
O Neil Gaiman, vibratório autor British, diz que a ideia de chamar a sua famosa personagem Coraline surgiu precisamente quando se enganou a escrever o nome Caroline. Para os que falam estrangeiro, vale a pena ouvir o seu discurso, que é também uma varinha de condão.
De resto, reconheço que uma caneta vibratória pode ajudar os mais pequenos nesta difícil e interminável tarefa de aprender a escrever. E, mais importante do que isso, vai com certeza gerar boas vibrações ortográficas no intelecto dos mais afetados.
De resto, reconheço que uma caneta vibratória pode ajudar os mais pequenos nesta difícil e interminável tarefa de aprender a escrever. E, mais importante do que isso, vai com certeza gerar boas vibrações ortográficas no intelecto dos mais afetados.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Amor ortográfico: Canetas
Tenho uma certa obsessão por canetas. Passo a vida a comprar canetas novas, porque também passo a vida a perdê-las. Prefiro canetas baratuxas, claro, até porque não as trato com grande dignidade, e compro sempre uma mão cheia de cada vez. Quando gosto de qualquer coisa, quero logo uma mão cheia, é sempre assim. Hoje em dia, já sei de que canetas gosto, mas antes andava para aí perdida nos corredores do consumismo e o caminho da descoberta foi longo e íngreme.
Até à data, experimentei de tudo um pouco, incluindo as famosas canetas de tinta permanente, que acabavam (permanentemente) por me sujar os dedos. Além disso, a tinta passava para a folha seguinte, era uma atrapalhação. Também era necessário andar com os tubinhos atrás, tirar um, pôr outro, mexer um pouco para a tinta chegar ao bico. Concluí que era demasiada areia para a minha carruagem.
Até à data, experimentei de tudo um pouco, incluindo as famosas canetas de tinta permanente, que acabavam (permanentemente) por me sujar os dedos. Além disso, a tinta passava para a folha seguinte, era uma atrapalhação. Também era necessário andar com os tubinhos atrás, tirar um, pôr outro, mexer um pouco para a tinta chegar ao bico. Concluí que era demasiada areia para a minha carruagem.
Uma vez comprei uma caneta prateada XPTO, mas não era fácil comunicar com ela. A caneta XPTO tratava-me com frieza, não havia intimidade entre nós. Era uma caneta demasiado sofisticada para mim, por isso, quando a perdi, senti um certo alívio.
Certo dia, comprei uma caneta ergonómica com dois buracos específicos: um para o dedo indicador e outro para o polegar. Era uma Stabilo Easy Original, um nível mais avançado q.b. Pensei: “Uau, a ergonomia!”, até porque a caneta tinha assim uma espécie de cauda a afunilar para o lado e eu quis experimentar. Trinquei e meti-a na cesta.
A primeira desilusão foi a tampa. Sem tampa, não há caneta, claro, e é preciso guardar a tampa num lado qualquer enquanto usamos o instrumento. Sou um bocado quadrada, mas assim de repente estou em crer que não há nada melhor do que enfiar a tampa no cocuruto da caneta. Parece-me suficientemente prático e ergonómico. Ora, para meu grande espanto, não consegui enfiar a tampa no cocuruto da minha Stabilo Easy Original. Pensei: Very original! A tampa caía o tempo todo, parecia um chapéu demasiado pequeno ou demasiado grande. Ainda assim, usei a caneta durante uns tempos, mas depois percebi que de ergonómico a caneta tinha muito pouco, porque não podia mudá-la de posição. Não dava para rodar a caneta nos dedos, por exemplo, exatamente por causa dos dois buraquinhos. E eu gosto de rodar a caneta nos dedos, de mudar de posição. Cansei e arrumei-a num canto.
Pouco depois, rendi-me às evidências: as minhas canetas de eleição são mesmo as canetas de gel 0.5 mm. São fáceis de manusear, não fazem muito estardalhaço e a tinta chega-lhes logo ao nariz. A coleção da Muji é bem simpática, especialmente por causa das cores originais, mas falta-lhes o apoio de borracha para os dedos. Agora, no site, descobri as promissoras smooth writing gel ink pens, vou encomendar.
Por enquanto, dou-me por satisfeita com as Lyreco Gel Premium 0.5 mm que fui desencantar lá no escritório. Primeiro porque gosto do nome Lyreco e depois porque são transparentes e uma pessoa vê logo a quantas anda: se tem muita ou pouca tinta, se a caneta aguenta uma semana ou só um dia. A outra vantagem é o tal apoio de borracha para os dedos, que é uma grande ajuda para as minhas mãos de alicate, já que tenho esta tendência de mamífero bruto para apertar o pescoço às canetas.
De facto, deve ser um grande sufoco trabalhar como caneta para mim. Faço tanta força contra o papel, que a certa altura as moças perdem mesmo o fôlego e morrem. Em alguns casos, especialmente as Stabilo hexagonais 0.4, engolem a sua própria língua. A isto se chama não passar da letra morta.
Quando isto acontece, encolho os ombros e passo para a caneta seguinte.
Antes, na época da escola, tinha vergonha desta minha violência a escrever. Quando estávamos a fazer um teste, a minha caneta gemia sempre mais alto do que as outras e o meu estojo tremia, o enunciado tremia, a própria escrivaninha tremia. O ato da escrita era uma turbulência constante e todos os objetos tinham medo das minhas mãos.
Hoje em dia já não tenho vergonha nenhuma de ser o bisonte da escrita à mão. Na verdade, até gosto. Imagino que tenho assim uns chifres virados para a frente e uma bossa na coluna. Com esta ideia na cabeça, até escrevo melhor. Sinto-me mais forte, mais obstinada. E gosto de trazer pela mão uma caneta robusta, que esteja à altura do desafio e dê luta aos meus cascos.
A Lyreco Gel Premium 0.5 mm ainda não morreu.
É uma caneta e pêras.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Amor ortográfico: Escrever à mão
Sim, gosto de escrever à mão.
As pessoas da era da técnica ficam um bocado surpreendidas com esta minha ineficiência, até porque eu tenho um certo ar de pessoa eficiente, uma vez que uso óculos de massa. As pessoas da era da técnica falam-me então dos benefícios do computador, blá-blá-blá edição de texto, mas eu já conheço os benefícios do computador. Além de óculos de massa, tenho várias máquinas à minha volta para tudo e mais alguma coisa. Tenho um computador portátil e um computador não portátil em casa e outro não portátil no gabinete, tenho televisão digital, um iPod pequenino, um iPod touch e um smartphone. Além disso, tenho também um homem-máquina em casa que, além de ilimitado, é informático, por isso penso que conheço relativamente bem os benefícios da era da técnica. Mas os meus interlocutores insistem, pegam-me pelo braço, explicam-me que escrever à mão é perder tempo.
Não gosto muito que me peguem pelo braço, mas isto é só mesmo um aparte. Não sabendo o que dizer, ajeito os óculos de massa e invento desculpas. Digo que sou mais livre a escrever à mão, que posso ir sempre em frente e depois riscar o que me apetece. As pessoas da era da técnica sorriem condescendentes. Dizem-me que o computador é muito melhor, que o computador me dá muito mais liberdade, e têm razão, porque os processadores de texto apagam, não riscam. E apagar é muito melhor do que riscar, claro, claro, claro. Eu concordo: um processador de texto é muito melhor do que papel e caneta, podemos procurar texto perdido e organizar documentos em pastas, mas continuo a preferir escrever à mão. “Pronto, gosto mais assim”. As pessoas da era da técnica, finalmente, desistem.
E a verdade é mesmo essa, gosto mais assim. Gosto mais de desenhar as letrinhas todas, de descurar a técnica. E não há nada de romântico nisto. Escrever à mão é, na realidade, um bocado violento. Às vezes ficam-me a doer os cascos e as articulações. Também fico com dores de cabeça e no cachaço. Escrever à mão é como uma prova de resistência, é preciso ignorar a dor.
No final, uns manuscritos até saem bonitos, outros são absolutamente horríveis, mas isso não importa. Só a natureza interessa quando se escreve à mão e, quando digo natureza, quero dizer conteúdo. Só o conteúdo é importante e às vezes nem isso, porque perco o fio à meada e deixo de conseguir perceber o que escrevi.
E sim, não perceber o que se escreveu pode ser chato. Mas o mistério também faz parte da coisa e o que está escrito já pertence ao passado, não é para ser relido nem revivido, já saiu, já existe. Quando se escreve à mão, há que seguir em frente. E eu sigo em frente, a toda a velocidade.
Este exercício implica um certo desrespeito pela técnica e pela ordem. Sou bastante mais rude quando escrevo à mão, gosto de escrever e de riscar o que escrevi, gosto de cair pelas margens. Sou um autêntico bisonte da escrita à mão, na verdade.
Gosto desta imagem do bisonte a escrever à mão. Depois explico.
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