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sábado, 11 de novembro de 2017

Eis um discurso extremamente sensato

Bom, não é bem assim. Não podemos ser simplistas. 
Até porque coiso e tal. Antes e depois. Ali e acolá. 
É uma questão extremamente complexa. 
A verdade é que. Trinta e um de boca. O diabo a quatro. 
Se, por um lado, isto, por outro, aquilo. 
Há que analisar os vários fatores. 
Uma vez que. Ainda que. A não ser que. 
Temos de separar as águas. Dar a mão à palmatória. 
E não podemos tirar conclusões precipitadas. 
Sejamos razoáveis. 
Não é por acaso que. 
Causa, efeito. Tiro e queda. São e salvo. 
A história já por várias vezes demonstrou que. 
Vai e vem. Vira e mexe. Leva e traz. 
O mundo atravessa momentos difíceis. 
Antes de mais. Acima de tudo. Além disso. 
E temos de admitir. 
O que der e vier. De mal a pior. É fazer a conta. 
No fundo. De facto. Com efeito. 
E não esqueçamos o seguinte. 
Sempre que. Salvo se. Se bem que. 
É esta a verdade nua e crua. Pura e dura. Curta e grossa. 
Por outro lado, a vontade política sim ou sopas. 
Cara ou coroa. Oito ou oitenta. 
Seja como for, o que está em causa é. 
Porque enfim. A fim de. Assim que. 
De maneira que não nos podemos limitar a. 
Volta e meia. Assim e assado. 
Repare no seguinte. 
Se é verdade isto, ainda é mais verdade aquilo. 
No sentido em que. Ao passo que. À medida que. 
E isso torna difícil, se não mesmo impossível. 
Mundos e fundos. Cobras e lagartos. 
Logo, é natural que. Alhos com bugalhos. Unhas e dentes. 
Há uma linha ténue entre tal e tal.
E de uma coisa tenho a certeza. 
O problema da sociedade atual é precisamente.
Bládiblá.  
Re-béu-béu, pardais ao ninho. 
Já se sabe que. Gregos e troianos. 
Quanto mais disto, menos daquilo. 
Ao contrário do que se previa, verificou-se que. 
Entretanto. No entanto. Porquanto. 
Não podemos ignorar que. 
Preto no branco. Ouro sobre azul. 
Em última análise, interessa saber se. 
Porém. Todavia. Contudo. 
Sem eira nem beira. Sem pai nem mãe. 
Sobretudo, não há respostas simples. 
Poucas e boas. Resmas e paletes. 
Vivemos numa época em que é extremamente difícil coiso. 
Por isso, é como te digo. 
Aguenta. Come e cala. Chuta para canto. 
E, entre uma coisa e outra, venha o diabo. 
Firme e hirto. A par e passo. 
Navegar na maionese. 
E isto não é dizer pouco.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Discurso sensorial

Diz-me qualquer coisa que não seja azul nem amarela, apetece-me algo um pouco mais dramático, irónico, brutal. Toca-me ao de leve para eu me arrepiar. Preciso de um cor-de-laranja com sabor a álcool, dá-me a provar desse fósforo, sabes bem que adoro o cheiro a madeira queimada.
Diz-me qualquer coisa em degradé que comece lilás e acabe roxa como as noites no castelo do drácula. Canta-me em si menor uma sílaba fugaz de asas negras. Bato com os pés no chão e sou vampiro, vou por aí cheirar as chaminés das casas. Pouso no final da noite e fico a ouvir o crepitar lento do sangue atrás da pele.
Vamos ficar aqui, nesta praça castanha, a ver os pombos passar. Senta-te comigo aos pés da estátua, somos a pedra azeda da calçada. Um pouco mais de branco e esta tarde era perfeita, as minhas mãos a traço grosso pousadas no colo, as tuas ao fundo, desfocadas, inconcebíveis.
Grita qualquer coisa com contraste, uma palavra definitiva, imprevista, acidental.
Um pouco mais de amarelo nos olhos, por favor, para que o feitiço funcione. Dá-me água à boca, quero ser um pouco mais elástica, maleável, transparente.
O eléctrico guincha no fundo da rua como um beijo imprevisto, gosto do sabor do ferro na língua, do sol repentino à flor da pele. Diz-me qualquer coisa no tom impossível do vinho tinto e desce comigo por esta escada, dois degraus de cada vez, quatro oitavas abaixo do chão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Discurso falacioso

Tenho pouco tempo. Tenho muitas ideias. Logo, tenho muitas ideias em pouco tempo. Tenho pouco tempo para as ideias que tenho. Tenho muitas ideias para o tempo que tenho. (Não tenho tempo, logo não tenho ideias.) Se tivesse metade do tempo, teria metade das ideias. Preciso de um quarto de tempo para um quarto das ideias. Quero apenas uma ideia. Quanto mais tempo, mais ideias tenho. O tempo que tenho é proporcional à quantidade de ideias. Tenho muitas ideias, logo tenho muito tempo. Preciso de limitar o tempo para limitar as ideias. Divido o tempo em unidades. Conto as ideias que tenho. Tenho uma ideia por cada 100 unidades de tempo. Tenho 100 unidades de tempo, logo tenho uma ideia. Tenho 50 unidades de tempo, logo tenho metade de uma ideia. Perco todo o tempo que tenho para uma ideia. Tenho poucas ideias porque demoro muito tempo a tê-las. Tive uma ideia. Logo, tenho muito tempo. Para ter duas ideias demoro o dobro do tempo. Quanto mais ideias tenho, mais tempo terei para elas. Preciso de ter ideias para criar tempo. (Não tenho ideias, logo não tenho tempo.) Tenho todo o tempo do mundo para as minhas ideias.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Discurso recursivo

Era um monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada amarela tinha quatro janelas de tamanhos diferentes das quais uma estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava sentada num sofá tricotando um longo novelo que a filha lhe oferecera a qual tinha pena da mãe cujo marido morrera há pouco tempo o qual era viticultor e bom bebedor o que não era mau nos dias de festa mas que não era bom para a saúde pela qual a mulher rezara todas as noites que eram sempre frias no alto do monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada azul tinha uma longa varanda onde se espreguiçava um gato que começou a lamber as patas que lambiam depois o rosto o qual era bonito e meigo à excepção dos olhos selvagens que eram cinzentos como o céu daquela tarde que descia devagar sobre aquele monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada vermelha tinha uma porta vermelha por cima da qual havia um telhado de barro por baixo do qual estava um ninho redondo dentro do qual dormiam as andorinhas mais jovens que tinham chegado há uns dias com as andorinhas-mãe que voavam agora à altura da janela amarela que estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava de pé acenando para as andorinhas que eram tão belas que a faziam esquecer a morte e agradecer a Deus o qual estava no céu acenando para o monte que tinha socalcos e que vendo toda a sua obra a considerou muito boa.