quarta-feira, 21 de março de 2018

Encontros mágicos em Vila Nova de Gaia

Como falar da magia real? Ontem estive em Vila Nova de Gaia e agora estou para aqui cheia de ganas de viver. A culpa é dos alunos que conheci nas escolas Soares dos Reis e Teixeira Lopes. Garotada muito fixe e inspirada, com a vida toda pela frente.


Alguns tinham lido a Karateca, outros o Supergigante, outros ainda a Mary John. Alguns tinham lido os três livros ou então dois.
Na escola Soares dos Reis, havia um mostrador e uma parede da biblioteca decorados com as frases favoritas dos alunos. Frases que eu nem sabia que tinha escrito! Por exemplo: "Um olhar que olha." Ou: "O fim é o início de outra coisa qualquer." Ou ainda: "E tudo faz sentido, mesmo quando nada faz sentido."



O encontro com os alunos do 9.o ano começou com uma leitura do Miguel e da Joana. Leram um excerto da Mary John que fala, entre outras coisas, do sentido da vida e de "almas perdidas".





A conversa andou em torno das perguntas dos alunos, muitas delas nunca antes "perguntadas". Por exemplo esta: o que é para si uma "alma perdida"? A karateca queria realmente ser freira? Por que razão a Mary John continua a escrever ao Júlio depois de confessar que já o esqueceu? Quais as vantagens de escrever à mão?
Pergunta puxa resposta, lá fui falando dos livros e do processo de escrita de todos eles. A certa altura disse-lhes que transpirei bastante enquanto escrevia o Supergigante. Perguntei-lhes se tinham transpirado durante a leitura. A Catarina disse que tinha "transpirado dos olhos". A Leonor perguntou-me se os meus encontros com alunos também serviam de inspiração para escrever. Eu disse que sim e fixei logo aquele nome: Leonor. Like it very much! A Sofia quis saber se eu considerava a possibilidade de escrever para adolescentes partindo de personagens que não fossem adolescentes. E esta, hein?






O Alexandre mostrou-me os textos que ele escreveu e ilustrou a partir de frases do Supergigante. O primeiro poema tinha como título: "Eu corro e não avanço".
No final da sessão na escola Soares dos Reis, o Gonçalo - vestido de carteiro dos CTT - entregou-me um molho de cartas e uma prenda dos alunos.





Foi uma surpresa e tanto! Vim no alfa pendular pendurada nestas memoráveis epístolas.





Umas vinham escritas em folhas de caderno, outras em papel de carta com enfeites diversos: borboletas, folhas de árvore, Snoopys. Uma das alunas dizia que a Maria João, o Raul, a karateca, o Daniel, o Edgar e a Joana eram os seus "amigos novos". Uma outra leitora dizia que estava a aplicar o método científico da karateca a todas as áreas da sua vida. Uma das cartas mais longas e bonitas falava-me da morte e do amor a partir da leitura do Supergigante. E uma moça dizia que a Mary John contava a história da sua vida.
Depois de ler as cartas, abri o meu presente da escola Soares dos Reis.






Era um caderno novinho em folha: a prenda ideal para quem estava mesmo a precisar de desabafar. Escrevi assim: "Hoje conheci uns alunos que não são almas perdidas!"
Resta-me agradecer o empenho e a boa onda das professoras bibliotecárias e dos professores de Português das duas escolas. Agradeço em especial ao Pedro Carvalho da fantástica livraria Velhotes (onde habitam umas fanzines upa-upa) que organizou estes magníficos encontros. Estou para aqui a transbordar emoção, esperança e inspiração.








quarta-feira, 14 de março de 2018

Dias felizes em Esposende!

A convite da Câmara Municipal de Esposende, passei dois dias felizes em terras esposendenses. Nas cinco sessões em cinco escolas com turmas dos 7.os e 8.os anos, houve tempo para a literatura e ainda para um teatro de sombras e para um fado! Cabe-me agradecer o entusiasmo e o apoio de todas as professoras bibliotecárias, em especial da professora Fernanda Vilarinho, que organizou esta maratona literária.





Os alunos nas várias sessões em Esposende, Forjães e Apúlia.



O teatro de sombras sobre a karateca na escola António Correia de Oliveira.



Alguns trabalhos dos alunos da escola António Rodrigues Sampaio.


quinta-feira, 8 de março de 2018

Uma eternidade pequenina

Passaram três meses e picos. Uma eternidade pequenina.
O meu filho já não cabe na banheira. E o meu corpo não cabe em lado nenhum.
Esta barriga não tem explicação. Continuo a vestir roupa de grávida. 
Às vezes não tomo banho. Às vezes penteio o cabelo.
Estou sempre com fome. Estou sempre com sono.
Quando ele dorme, fico a vê-lo dormir. Se me deito, ele acorda.
Passo a vida a inventar palavras. Também invento musiquinhas. Canto as musiquinhas inventadas mesmo quando não estou com ele.
Tenho saudades de qualquer coisa. Não sei bem de quê.
Um dia destes saí de casa e deixei a panela de pressão ao lume. Uns dias mais tarde deixei a mala no elevador. Ando meio confusa. Durmo pouco. Sonho muito.
Mas estou a gostar disto, apesar de andar com pouca paciência para o mundo. Não me apetece ler notícias. Também não me apetece ler sobre bebés. Perdoem-me. Gostava de ser uma pessoa melhor. Uma mãezinha melhor. Mas acho que não vai dar.
A ideia generalizada de que a maternidade é o cúmulo do sacrifício chateia-me a potes. Coitadas das mães. Mereciam melhor. Gostava que a imagem da maternidade fosse a de mulheres emancipadas e não a de pobres coitadas, condenadas ao suplício. Silhuetas discretas que dão tudo e não recebem nada. Que se esquecem de si próprias. Que vêm em segundo plano ou mesmo em terceiro.
Neste dia da mulher, em que estou descabelada e mal-cheirosa, rejeito a narrativa do sacrifício. Nunca tive queda para mártir nem para heroína. O que é o sacrifício da maternidade? Deixar de fazer todas as coisas que nos dão prazer para cuidar de alguém? Não foi esta precisamente a escolha que fizemos?
Do alto da minha total falta de noção e de higiene, afirmo que ser mãe é, antes de mais, um privilégio. Não é um sacrifício, ainda que implique sacrifícios. Já se sabe que não há recompensa sem esforço. Tudo o que fiz de jeito na vida implicou sacrifício pessoal. Acho que não passei a sofrer mais por causa disso. E também não passei a existir menos. Pelo contrário.
Neste dia da mulher, penso nas mulheres da minha vida que não são pobres coitadas. Que não pedem nada em troca. Que lutam todos os dias por serem elas próprias. E são muitas.
De resto sinto um amor estúpido. Um amor brutal. O meu filho aponta-me os seus olhinhos boquiabertos e eu parto-me a rir. Mas hoje, o que tenho para lhe dizer, com todo o amor do mundo, é isto: meu querido filho, tu vive e deixa viver. A mamã já cá estava antes. Entendes?

sexta-feira, 2 de março de 2018

O mundo real e o mundo eletrónico

Não compro livros desde o Natal. E ofereci tudo o que comprei. 
Por acaso não é bem verdade. Adquiri uma coletânea de contos no Kindle através de um clique, mas esse livro não é bem um livro. É um documento eletrónico sem consistência física, que comprei na amazónica Amazon.
Tenho lido pouco. À segunda página adormeço. E logo a seguir acordo estremunhada e releio a mesma página. Só então adormeço de vez, exatamente no mesmo parágrafo. 
No outro dia entrei na Candide só porque sim. É uma das livrarias aqui do bairro, onde moram pedaços de sol e pequenas preciosidades. Foi o meu objetivo do dia: ir até à Candide ver as vistas.
Além de não ter comprado nada, bati com o carrinho em várias pilhas de livros. Fui dizendo Desolée nas curvas e contracurvas. Ainda peguei naquele livro noturno da Kitty Crowther. No Natal comprei dois exemplares e não ficou nenhum cá em casa. Quero um exemplar só para mim, mas não tenho pressa. 
Quando saí da Candide disse Au revoir, mas devia ter dito DesoléeÉ uma afronta sair da Candide de mãos a abanar. 
Foi o senhor da Candide que me apresentou Annie Ernaux. Foi na Candide que descobri Julie Delporte. O senhor da Candide dá-me marcadores de livros e bons conselhos. Pergunta-me se prefiro a edição de bolso, que é mais barata. Demora-se nos embrulhos. Entusiasma-se: Se gosta desse, então vai gostar deste. Um pouco ao estilo da Amazon, mas nada a ver com a Amazon. Eu sou feliz na Candide por causa do senhor da Candide, que fala um francês muito delicado e me pergunta quantos meses tem a cria. 
Eu não vou à Candide comprar livros. Eu vou à Candide respirar, interromper o dia. Interagir, vasculhar. Eu vou à Candide viver.
Moro num bairro onde o comércio tradicional persiste. Há mercearias, padarias, cafés, sapateiros, talhos, queijarias, livrarias. Neste inverno tão duro, em que dou os primeiros passos no mundo contraditório da maternidade - que é uma solidão a dois - são estas lojas que me salvam. As pessoas das lojas, as vitrines onde paro, os diálogos curtos. 
A senhora da farmácia ri-se porque me esqueci da carteira. Digo Desolée. Ela responde-me que as mães também precisam de descanso. Durma quando ele dorme. Eu digo: Mas ele não dorme. Ela dá-me conselhos. Faça assim, faça assado. Compro café aqui e pão ali. Vou à senhora das tartes. E depois vou até ao parque ouvir os pássaros. A cria ri-se muito com o barulho dos pássaros. Pio pio, pio pio. 
Sento-me num banco de jardim. Respondo às mensagens do WhatsApp, envio fotografias aos avós, vou ao Facebook, escrevo no blogue. Porque o mundo da tecnologia e da comunicação também me salva. Quero ler os textos da Ana Cássio Rebelo sobre a Índia e os da Maria João Lopes sobre a Maria Rita. Ouço a Biblioteca de Bolso através do iTunes. Eu quero viver no mundo real do meu bairro e também neste outro mundo das apps e das hiperligações. Não são mundos inconciliáveis. Mas são antagónicos.
O mundo real é humano. É carente. Precisa de mimos. Precisa de tempo. Precisa de mim. 
Cada vez que uma livraria fecha, sinto que a culpa é minha. E é mesmo.
Se a Candide fechar, atiro-me a um poço. Ou a Ptyx. Ou a livraria da Flagey das bandas desenhadas. A propósito, ainda não fui à livraria portuguesa que abriu há umas semanas. 
O que será deste mundo sem livrarias nem mercearias? Ruas sem lojas, sem caras, sem diálogos, sem filas.
Andamos cada vez mais sozinhos com os nossos botões eletrónicos. 
Olho para a minha cria e apetece-me pedir-lhe desculpa. Desolée, pequeno ser humano. O mundo está cada vez mais próximo. Mas as pessoas estão cada vez mais distantes.
E de quem é a culpa?
É minha, claro.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Catálogo 2018 do Planeta Tangerina

Há novidades, malta! O catálogo 2018 do Planeta Tangerina traz lá dentro, entre outras coisas, uma orquestra, um atlas, um poema de gatas e um final feliz!

Clicar aqui!