Mostrar mensagens com a etiqueta Das personagens de verdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Das personagens de verdade. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Papel de alumínio

Uma rapariga senta-se no parque, em frente ao lago. Debruça-se sobre um embrulho em papel de alumínio. Procura pacientemente a ponta do papel alumínio, o princípio ou o final da folha.
Descobre-a.
Eis o embrulho desembrulhado.
É só uma sandes murcha. Pão escuro e com sementes, talvez seco, talvez insosso. Nhec. Avistamos uma folha de alface, uma fatia de tomate e talvez queijo.
A rapariga come a sandes sem pressa. Distrai a mão esquerda com a folha de papel de alumínio, que vai amachucando com os dedos. No final aperta o papel de alumínio com as duas mãos.
A folha de alumínio é agora uma esfera perfeita. A rapariga aprecia a sua rotação, gira a esfera na palma da mão.
Um pequeno mundo na palma da mão.
O que fazer com um pequeno mundo?
Destruí-lo.
A mão encontra novamente a ponta do papel, o princípio ou o final da folha. A esfera rebola desazendo-se. A rapariga estica a folha de papel de alumínio, olha para ela, para o reflexo torcido do seu rosto na folha de papel. Espelho meu, espelho meu.
A rapariga embrulha agora a mão esquerda na folha de papel de alumínio como se embrulhasse uma sandes ou um presente. Dobra uma ponta e depois outra.
Contempla a mão embrulhada e estica os dedos até furar o papel. A mão liberta-se.
A rapariga interessa-se pela folha de alumínio, que tem uma face cintilante e outra face opaca.
É maleável e resistente. Além disso, é um bom isolante térmico.
A rapariga pensa no seu coração embrulhado numa folha de papel de alumínio. A isolar o calor. O seu coração como um pequeno embrulho.
A rapariga levanta-se. Antes mesmo de abandonar o parque, atira a folha de alumínio para o caixote do lixo.
A rapariga pensa no seu pequeno mundo. No seu reflexo torcido.
Também a rapariga tinha uma face cintilante e uma face opaca.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um céu estrelado

Da esquina do corredor emerge um ser humano do sexo masculino que vem finalmente assentar a poeira cósmica dos dias. Leva as mãos atadas a uma pasta azul que ostenta as estrelinhas da União Europeia, mas os meus olhos miópes e imaginativos não veem nada disso. Os meus olhos veem um homem profundo que traz ao peito um céu estrelado. Um homem com um céu por dentro, que afinal não veio assentar poeira cósmica nenhuma. É um homem como outros, a resvalar nos corredores sem metafísica nem transcedência. Tem um metro e oitenta, mais coisa menos coisa, e o sexo masculino possivelmente entediado. Adivinho olhinhos igualmente míopes, sem grandes voos, já que passam os dias trancados num edifício aos quadradinhos com vista para outro edifício aos quadradinhos, ambos pertencentes à União Europeia.
Ora, isto permite-nos concluir que, a bloquear a vista dos eurocratas, está precisamente o céu estrelado da burocracia.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Uma senhora olha para o chão

Uma senhora olha para o chão e vê o passeio, pedrinhas e o tronco de uma árvore, os pés dos outros, o asfalto, uns saltos altos de verniz, folhas secas, um canteiro de flores mortas, um copo de plástico, uma caneta. A senhora abranda, olha para a caneta. É uma esferográfica azul-escura, tem uma tampa muito mordida. A senhora não pega na caneta, tem nojo da saliva dos outros, segue caminho. Também ela mordia canetas. Agora já não. Olha para o chão e vê uns sapatos velhos que passam, uma criança de gorro, um cão farfalhudo, pedras, pedrinhas, uma garrafa de plástico, folhas espezinhadas, escadas. A senhora desce as escadas, entra na boca do metro, está na plataforma. Vê um cão preto arfando, as sapatilhas sujas de um sujeito, os atacadores desapertados, um lenço de papel, nojo. A senhora entra na terceira carruagem. Olha para o chão, mas não vê o chão da carruagem, vê mãos e cotovelos, anéis, luvas de cabedal, um casaco puído, unhas bonitas, escarlates. Sai duas paragens depois, botas altas, botas curtas, collants roxos, escadas rolantes. Sobe as escadas, está na rua, vento, frio. Olha para o chão e vê um bilhete de metro, uma, duas, quatro, sete beatas de cigarros. De repente, uma caneta no chão. A senhora abranda. Não é a mesma caneta de há pouco. É uma caneta prateada, cintilante, com um botão na ponta de fazer clic-clic. A senhora baixa-se com dificuldade e apanha a caneta. Empurra o botão (clic-clic) e a ponta da caneta aparece, tcharam! É uma ponta fina, 0.3, tinta azul, nada mau. A senhora empurra o botão (clic-clic) e a ponta da caneta desaparece. Guarda a caneta no bolso e segue caminho. Dentro do bolso vai matutando sobre a caneta e empurrando o botão (clic-clic, clic-clic). O que fazer com a caneta prateada? Se a beijasse, talvez se transformasse num príncipe encantado. Se a mordesse, talvez se transformasse num poema. Ou numa epopeia. Se a atirasse, talvez ela voasse. A senhora dobra a esquina e sobe a rua. Dentro do seu bolso, clic-clic, clic-clic. De repente, no meio do passeio, surge a lamparina do Aladino, mas a senhora não a vê, passa por cima da lamparina, porque neste momento não olha para o chão, olha em frente, para as pessoas infortunadas que não encontraram uma caneta prateada como ela.
E a isto se chama desperdício de oportunidades.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Funções alternativas para objectos que cumprem uma só função: A borracha Pelikan

Para se distrair, o senhor Barata pensava em funções alternativas para objectos que cumprissem uma só função.
Hoje, por exemplo, escolheu para objecto da sua reflexão a borracha Pelikan que estava mesmo à sua esquerda, em cima da escrivaninha.
A borracha Pelikan cumpria a única função de apagar traços de lápis. (Algumas borrachas também apagavam traços de caneta, mas este não era o caso daquela borracha Pelikan.) Para se distrair, o senhor Barata pegou no paralelepípedo branco e magicou funções alternativas para ele.
A primeira função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de amuleto. Com efeito, era muito melhor apertar uma borracha na mão do que amuletos de madeira ou de porcelana ou de osso, porque a borracha Pelikan tinha uma consistência elástica que era agradável ao toque. O senhor Barata olhou para o seu paralelepípedo branco e acreditou, de imediato, que ele o protegeria do mal e o ajudaria nos momentos decisivos. O facto de a função real da borracha Pelikan ser apagar traços conferia a este amuleto de látex uma conotação figurativa que os outros amuletos não tinham.
A segunda função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de pedra. Era, efectivamente, muito mais amigável atirar uma borracha a um colega do que uma pedra, além de que a probabilidade de o colega sair lesado era mínima. Se as pessoas fossem apedrejadas na praça pública com borrachas e não com pedras, aprenderiam, certamente, a lição e não teriam de morrer. O senhor Barata decidiu que, se alguma vez precisasse de atirar uma pedra, atiraria a sua borracha Pelikan.
A terceira função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de vítima de maus-tratos. Era muito mais sensato descarregar as energias negativas na borracha Pelikan do que nos estagiários ou na mulher. Além disso, o senhor Barata podia maltratar a borracha Pelikan de maneiras extremamente mórbidas, a que jamais poderia recorrer quando maltratava os estagiários ou a mulher, com o acréscimo de que essas práticas não eram puníveis. A borracha Pelikan podia ser, por exemplo, esventrada com a ponta de um clipe ou esquartejada com o x-acto ou simplesmente dilacerada com os dentes.
O senhor Barata riu-se. Tinha agora mais confiança na humanidade em geral e na sua vida em particular.
Graças à borracha Pelikan.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O aprendiz de guitarrista

O vizinho de cima toca guitarra. Não, não toca guitarra, está a aprender. Dedilha as cordas, nota ante nota. Anda há meses nisto. Chamemos-lhe aprendiz de guitarrista.
Felizmente, toca guitarra clássica e o seu quarto fica por cima da sala de estar e não do quarto de dormir. A vizinha senta-se no sofá a ler uma revista e gosta de ouvir aquela guitarra, aprendeu a ouvir aquela guitarra, já sabe distinguir, por exemplo, os acordes novos dos antigos.
É verdade que aqueles sons ainda não são música, mas a vontade do aprendiz cativa-a. A vizinha de baixo gosta do aprendiz de guitarrista como quem gosta de um pássaro ou de um eléctrico repetido ao fundo da rua: o som conhecido sossega-a. Também a sossega a vontade do aprendiz de guitarrista, a sua perseverança, o seu entusiasmo.
O aprendiz de guitarrista fá-la pensar que talvez o mundo avance.
Por mais estranho que pareça, não conhece o aprendiz de guitarrista. Conhece, no entanto, a mãe e sabe que o aprendiz é adolescente, tendo em conta a idade previsível da senhora que disfarça a idade e o instrumento musical escolhido. Se fosse criança, o aprendiz tocaria flauta ou xilofone. Se fosse adulto, um instrumento qualquer que não guitarra clássica. (Os únicos adultos que tocam guitarra clássica aprenderam a tocá-la na adolescência. Nenhum adulto é aprendiz de guitarrista. Talvez seja aprendiz de clarinete. De piano. Ou de canto. Mas não de guitarra clássica.)
Esta não é, portanto, uma história de amor. A vizinha de baixo não tem idade para se apaixonar por aprendizes de guitarrista e tem o coração mais ou menos limitado ao homem ilimitado. Esta é uma história sobre música, muito embora aqueles acordes ainda não fossem nada ou quase nada ou, pelo menos, não propriamente música.
É que ontem, às 10 da noite, o aprendiz de guitarrista tocou um conjunto de notas seguidas que, juntas e compassadas, formavam, de facto, uma tímida melodia. O aprendiz de guitarrista repetiu aquele conjunto de notas e a vizinha de baixo parou de ler para ouvir. A vizinha de baixo e o vizinho de cima assitiam juntos e separados, com os olhos, os ouvidos e os dedos, à primeira de todas as melodias. Chegava, nas pontas dos pés, quase imperceptível, e atravessava os tímpanos, o coração, a boca e pousava quase nada no mundo.
O aprendiz de guitarrista repetiu a mesma combinação de notas vezes sem conta até que a melodia se tornou inegável e existiu naquelas paredes para sempre. A vizinha de baixo parou definitivamente de ler. Pousou os óculos e levantou-se. Foi, antes, regar as plantas.
Voltava a preenchê-la aquela esperança de que talvez o mundo avançasse.
Na arte, tudo era possível.
Depois voltou a sentar-se no sofá e ligou a televisão.
O aprendiz de guitarrista continuou a tocar a mesma melodia. Devagarinho. Igual ao mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não obstante as brumas

Aquela rapariga anda de sandálias brancas não obstante as brumas e a inevitabilidade da chuva. Anda contente de pés ao léu, ostentando as suas unhas lindíssimas, pintadas de fresco.
A rapariga de sandálias brancas acredita piamente no Verão, mesmo que daqui a pouco ande a chapinhar em poças de água.
Outras raparigas acreditam noutras coisas. Aquela acredita no Verão. (As raparigas arabescas, por exemplo, que andam por aí encarapuçadas como criminosas acreditam em coisas mais invernais e, portanto, menos iluminadas.)
A rapariga de sandálias brancas e unhas pintadas de fresco atravessa a rua e polvilha a estrada de Verão, qual Sininho na terra do sempre.
Quase desejamos que chova para a ver chapinhar na água.
Em Bruxelas, o Verão é assim. Uma questão de atitude. De crença. E não uma estação.
O autor e o narrador converteram-se. E vão pintar as unhas dos pés.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A ideia incomum de V. Moreira

Nem sempre o homem de nome V. Moreira fazia coisas esdrúxulas como naquele dia. Mas certas manhãs havia em que uma ideia incomum caía sobre a sua cabeça tão misteriosamente como o pó sobre as mobílias. E naquele dia assim fora:
Às dez horas da manhã desse tal dia V. Moreira estava na Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António a preencher uma declaração para alterar a morada da sua residência permanente. Isto porque o homem de nome V. Moreira se tinha reformado há uns meses e, ganhando consciência de que estava permanentemente de férias, decidira trocar a sua casa de Setúbal pela sua casa no Algarve. Enquanto o senhor Moreira preenchia a declaração, espreitámos por cima do seu ombro e foi nessa altura que aprendemos o último nome deste homem, mas não o primeiro, por falta de oportunidade para uma segunda espreitadela. Estamos, no entanto, convictos de que a primeira letra do seu primeiro nome era V.
A declaração pedia ao homem de nome V. Moreira que indicasse o seu endereço antigo e o senhor Moreira obedeceu. Escreveu Avenida Soeiro Pereira Gomes e antes mesmo de escrever o número, o andar e o código postal, o homem parou de escrever e demorou-se a olhar para o papel. Isto preocupou-nos por motivos óbvios: talvez o homem de nome V. Moreira tivesse esquecido a sua morada em Setúbal ou talvez tivesse saudades dela. Estas hipóteses comprovaram-se, no entanto, erradas, porque o senhor Moreira pensava, não na sua morada, não na sua cidade, mas no próprio Soeiro Pereira Gomes.
É que o homem de nome V. Moreira tinha morado 20 anos na Avenida Soeiro Pereira Gomes, em Setúbal, e há 20 anos que prometia a si mesmo ler um livro daquele escritor. Era, no mínimo, um exercício sensato, dado que conviviam tão intimamente. E, no entanto, finalizadas duas décadas, não só o senhor Moreira não tinha lido um único livro do Soeiro Pereira Gomes, como nunca tinha comprado sequer um exemplar. Na verdade – apercebia-se o homem agora – desconhecia por completo a capa e a contracapa de qualquer um dos livros, nunca lhes tinha sentido o cheiro nem o peso.
Este pensamento transtornava-o. E o homem de nome V. Moreira teve então a ideia incomum de regressar a Setúbal imediatamente. No seu entender, não podia mudar oficialmente de residência enquanto não lesse um livro de Soeiro Pereira Gomes. Sentia-se em falta consigo próprio, com a sua rua, com o escritor.
O homem de nome V. Moreira saiu da Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António, mas nós, infelizmente, perdemo-lo de vista logo na primeira esquina, tal era a sua pressa de chegar a casa.
Anos mais tarde, encontrámos o senhor Moreira vagueando pelo Parque do Bonfim. Pelo seu meio-sorriso esclarecido percebemos que tinha lido os Esteiros, bem como todos os outros livros de Soeiro Pereira Gomes. Nunca tinha chegado a mudar de morada e raramente ia até Vila Real de Santo António.
Estava-se bem em Setúbal.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã

Uma senhora de 73 anos de idade entrou na repartição de finanças do Concelho de Pinhel para reclamar uns dinheiros, não para ela, mas para a associação recreativa de Cerejo a propósito das festas em honra de Santa Maria Madalena do ano passado. Esta senhora chamava-se Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã, um nome razoável à excepção do sobrenome, que saltava sobressaltado sobre os outros, graças às suas pernas de anfíbio. Infelizmente a senhora Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã não conseguiu entregar os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa de Cerejo. Isto porque a sua hora da morte chegou precisamente no momento em que entrou na repartição de finanças: o corpo caiu entrondoso para a frente e os papéis ficaram quietos dentro da mala. Algumas pessoas assustaram-se, outras não. Uma das senhoras atrás do balcão nem se levantou com o sucedido: agarrou no telefone e chamou a ambulância.
O sobrenome Rã era do marido, que havia falecido há uns quinze anos por causa de um cancro nos intestinos. A senhora Eugénia, que preferia aliás o nome Adelaide mas nada podia contra a vontade do povo da freguesia de Cerejo que toda a vida a tratara por Eugénia, continuava a usar o nome Rã porque a ele se habituara, mas aos vizinhos dizia que a razão era outra, mais poética, mais respeitosa, mais leal. Dizia: "Continuo a utilizar o nome Rã para que a memória do meu marido não se perca pelo caminho" e os outros comoviam-se com as palavras da mulher que usava um nome feio em memória de um homem. Não que o senhor José Marco dos Santos Rã tivesse sido um grande homem nem um homem grande, nem sequer um bom homem (na verdade já ninguém na freguesia se lembrava dele), mas o senhor José Marco era o seu homem e isso bastava para que fosse lembrado. Tudo isto era uma maneira de dizer, porque a senhora Eugénia tinha a sua vida tão ocupada com a associação recreativa de Cerejo, que mal se lembrava do José Marco, coitado. O rosto do dito já se tinha dissipado da memória, restando apenas o sorriso torto e o cabelo bem penteado do dia do casamento. À senhora da mercearia dizia a senhora Eugénia em ar de graça: "Beijei a rã em vez do sapo" e a verdade era essa.
A senhora Eugénia tinha a certeza disso. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, nunca teria vivido nem morrido assim. Logo a seguir ao casamento, o seu marido sapo e não rã teria mandado construir um castelo no centro de Cerejo, onde ela e o seu príncipe encantado viveriam com a sua família e os seus muitos empregados. No interior desse castelo se realizariam as festas em honra de Santa Maria Madalena, que muito trabalho dariam à senhora Eugénia, e todas as pessoas de Pinhel ali marcariam presença no dia 31 de Julho. Ou, se calhar, todas as pessoas da Beira Interior. Ou até mesmo todas as pessoas de Portugal.
Isto pensava a senhora de 73 anos na hora da morte.
A mania da grandeza de Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã só não ia além de Portugal por não haver na sua geografia nenhum mundo além daquele. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, pensava ainda, jamais entraria na repartição das finanças para morrer. Disso tinha ela a certeza absoluta.
Os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa encaminharam-se despreocupados para o lixo. Os vizinhos trocaram umas palavras nem boas nem más sobre a senhora Eugénia. Os velhos da associação recreativa foram ao velório, ao funeral e à missa do sétimo dia.
E ao oitavo dia a senhora Eugénia caiu no esquecimento. E o José Marco, que culpa nenhuma tinha de ter nascido rã, perdeu-se finalmente pelo caminho.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O homem que lia Jean-Paul Sartre

Soubéssemos nós a verdade e morreríamos. Isto dizia o filósofo, que nada sabia da verdade nem da morte por ser humano. Chamava-se este homem Vasco Mouro Louro, um péssimo nome para um filósofo, daí que não o fosse verdadeiramente, pois não tinha obra publicada nem teorias sobre o universo nem sobre o homem nem sobre os deuses ou o amor ou o ódio ou a razão. A bem dizer, nem sequer tinha estudado filosofia aquele homem e o seu autor preferido era, nem mais nem menos, Jean-Paul Sartre, o tal existencialista cheio de náuseas a cair em desuso. Mesmo assim, Vasco Mouro Louro levava o seu ofício a sério e sentava-se no banco espadaúdo do Jardim de Torel para pensar sobre as pessoas e a cidade, sobre as pessoas na cidade, sobre o ser humano no interior do ser urbano. Pensava tão profundamente sobre todas estas coisas que a cidade lhe parecia um pouco mais humana às cinco da tarde. E naquele preciso dia, 17 de Abril de 1995, quando o sol desceu para beijar a cidade, os prédios ganharam outro volume por causa das sombras. O filósofo assustou-se. Disse: Soubéssemos nós a verdade e morreríamos. Vasco Mouro Louro deu por concluído aquele dia de trabalho, levantou-se e desceu a calçada do Lavra a pé. Trazia as mãos nos bolsos e um chapéu esquisito na cabeça. O seu assobio, que era agudo e bonito, ecoava pelas paredes, batia nos candeeiros, caía pelas escadas abaixo. Vinha contente o senhor Vasco Mouro Louro, muitíssimo contente com aquela frase de final do dia. Isto apesar de não saber nada da verdade nem da morte. De não ser um filósofo verdadeiro. E de ter um nome ridículo.
Vivia noutro mundo o senhor Vasco Mouro Louro. Ainda bem para ele.
De outra maneira, alguém morreria.
Ou nós. Ou ele.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Senhora Ausência

A Senhora Ausência tinha dúvidas. Sentava-se no seu sofá (que era mais uma cadeira almofadada do que um sofá), cruzava as pernas e tinha dúvidas. Enquanto as tinha, bebia chá de jasmim. Gostava mais do cheiro a jasmim do que do sabor, mas nunca lhe ocorrera comprar incenso de jasmim ou óleo de jasmim ou champô de jasmim ou sabonetes de jasmim. Por isso, bebia chá para sentir o cheiro. A Senhora Ausência tinha muitas dúvidas sobre coisas abstractas e também outras tantas sobre coisas mais concretas. Algumas das suas dúvidas relacionavam-se, por exemplo, com a domesticação dos animais, a selecção artificial conduzida pelo Homem. A Senhora Ausência não tinha animais domésticos, não tinha particular interesse por eles, pensava na domesticação enquanto conceito. Bebia chá de jasmim e reflectia sobre coisas deste género. Era, por natureza, uma mulher interrogativa, desconfiada, céptica, metida consigo própria, ausente dos outros, sem grande tacto para as pessoas nem talento para nada. A sua actividade preferida era, sem sombra de dúvida, ter dúvidas. E enterrar-se nelas, ausentar-se nelas. As dúvidas da Senhora Ausência nem sempre chegavam à superfície, não ganhavam voz nem forma nem contornos nem entoação. E, portanto, não chegavam a ser perguntas, adoptavam antes a forma de nuvens ou de vulcões profundos que flutuavam na cabeça da Senhora Ausência para sempre. Não, para sempre não, porque nada durava para sempre. Este facto - o de nada durar para sempre - também atormentava a Senhora Ausência. Por outro lado, a eternidade de Deus e o conceito matemático de infinito tiravam-lhe o sono, o apetite, a vontade, davam origem a outras perguntas, a outras ansiedades. Bebia chá de jasmim e pensava. Seria o Homem domesticável. Um vulcão. Domesticado. Outro vulcão. A chaleira era demasiado pesada para os ossos fracos, seria melhor investir numa daquelas coisas de plástico. Levantou-se com dificuldade e foi até à porta de entrada (ou de saída). Nessa porta, ao centro, estava espetado um prego. Nesse prego estava pendurado um casaco, um só casaco. De um castanho um pouco perdido. A Senhora Ausência vestiu o casaco e ausentou-se. Enquanto descia a rua teve dúvidas sobre a vida, sobre o sentido dela, sobre a consistência do corpo e da alma. A Senhora Ausência não ia comprar pão nem leite nem uma chaleira de plástico. Também não ia visitar ninguém nem ia a nenhum serviço camarário. Ia só. Rua abaixo. À margem das coisas reais, quotidianas, vitais. Daí as suas dúvidas. A sua angústia. A sua ausência.
Temos pena da Senhora Ausência. Gostávamos de a ajudar, mas não podemos.
Somos demasiado concretos. Quietos. Domesticados.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mulher magríssima

Andam imensas mulheres no mercado da Flagey, mas hoje só nos interessa aquela ali ao fundo, muito magra e direita. Tem cabelos cinza, muito esticados e enrolados para dentro. Caem por cima dos ombros como cortinas. Os lábios são gretados e o queixo também. A testa também. Na verdade, o rosto todo. (Vista ao perto, a cara desta mulher mais parece um puzzle de mil peças, de dez mil peças.)
Magríssima. Pele a mais para os ossos salientes. Pena não termos qualquer interesse pelo corpo humano, porque se tivéssemos poderíamos até estudar anatomia a partir do corpo desta mulher: na anca, depois do cinto teso de cabedal, avistamos o extremo do fémur, o grande trocanter, e mais abaixo a rótula e depois a tíbia, muito saliente e comprida, o mais longo dos ossos. Virou-nos as costas a mulher magra, está a pagar ao vendedor. Daqui se vêm as omoplatas e as costelas. Uma mulher magríssima com uma certa força na pose. Deve fazer yoga ou stretching, uma dessas aulas modernas, pois tem a coluna direitíssima e a pélvis bem centrada. Vem ao mercado comprar mangas.
Está a subir agora a Rue Malibran com a caixa ao colo. Uma caixa de cartão. Uns três quilos de mangas, se não mais. Tem o carro estacionado a meio da rua, um renault twingo azul escuro, com três portas. Abre o porta-bagagens, atira com a caixa lá para dentro, fecha o porta-bagagens, contorna o carro, entra no carro. Parece satisfeita.
A mulher magríssima vem todos os domingos ao mercado comprar mangas. A destreza dos movimentos denunciam-lhe o hábito. Se viesse comprar laranjas, ou cebolas, ou batatas, ou maçãs, ou café, ou cigarros, ou revistas cor-de-rosa, seria uma mulher normal. Mas não, esta mulher não quer nada disso.
É louca por mangas. Come mangas desenfreadamente.
Um vício, no mínimo, esquisito.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O senhor do chapéu II

Eu e o narrador voltámos ao parque no sábado. Eram onze horas da manhã e o sol fraquejava por causa das nuvens feias que povoavam o céu. O frio não nos desviou do nosso objectivo: o senhor do chapéu.
Não tardámos a encontrá-lo.
Hoje estava sentado num banco de jardim. A cauda do fraque descia pelo banco até ao chão e a cartola descansava na bengala, que estava, por sua vez, apoiada nas costas do banco. Um quadro engraçado de se ver. O senhor tinha as costas muito direitas e lia uma banda desenhada com o respeito de quem lê o novo testamento: os braços elevados e uma concentração muito séria. Quando passámos em frente ao banco, pudemos ver a capa do livro: Objectif Lune.
Sentámo-nos mais longe, a uns cinquenta metros, num banco de jardim que tinha vista para o seu. Ali ficámos muito tempo e, a certa altura, deixámos mesmo de escrever as nossas preciosas notas por já nos doerem todos os ossos das mãos. Estava frio, imenso frio. A esta altura já as nuvens do céu eram agora iguais às que saíam da boca. O senhor do chapéu continuava sem chapéu, concentrado na leitura.
Uma rapariga corajosa passa. Além das previsíveis calças de ganga e das botas de salto raso, traz um gorro enfiado na cabeça, luvas grossas, casaco almofadado, cachecol e uma trela colorida, a que vem preso um cão. O cão é branco, tem imenso pêlo, não parece ter frio.
Passam agora em frente ao senhor do chapéu que levanta os olhos do seu objectivo lunático para contemplar a dona e o domesticado.
A moça é bonita, é certo, quer para um mágico, quer para um cientista, mas o que nos surpreende, o que verdadeiramente nos ataca o peito como coisa jamais vista é o facto de o homem se ter levantado repentinamente para agarrar no cão e o enfiar pela goela abaixo da cartola. Isto aconteceu num só segundo, não mais. O cão nem teve tempo para ganir, subitamente já não estava. Com o choque, a rapariga nem gritou, dir-se-ia que tinha assistido ao desaparecimento do cão quase serenamente, não fosse ter começado a correr desenfreada pelo parque, com uns guinchos na voz que mais pareciam o latir de um cão.
Eu e o narrador decidimos agir imediatamente. Cinquenta metros depois estávamos em frente ao senhor do chapéu.
- Desculpe, você acabou de roubar um cão!
- Sim, o Milu! – e mostrou-nos uma imagem do Milu ao lado do Tintim.
- Você não pode roubar cães!
- Ai não?! Peço imensa desculpa.
- Onde está o cão?
- Na cartola, não se preocupem. Algum de vocês já foi à lua?
- Não, nunca fomos. E você?
- Também não, mas gostava. Sabem onde posso encontrar o professor Girassol?
- Não, não sabemos.
- E o Tintim?
- Também não. Desculpe, mas vai ter de devolver o cão. Onde está ele?
- Na cartola, já vos disse.
- Tem de devolvê-lo imediatamente. Não pode andar aí a roubar cães às pessoas. Além de que esse cão não é o Milu. É parecido com o Milu, mas não é o Milu.
- Ai não?!
- Não. Esses cães chamam-se Fox Terrier de pêlo duro.
- Pêlo duro é apelido?
- Não. É a raça. Fox Terrier de pêlo duro é a raça. O tipo de cão, percebe?
- Ah, ok. Não haverá outros de pêlo mole?
- Sim, claro.
- Então queria antes um desses. Ter pêlo duro é desagradável para quem dá festinhas, não acha?
- Acho!
- Sabe onde posso encontrar um cão de pêlo mole?
- Sim, sei. Eu levo-o ali a um canil para você escolher o cão que quiser.
- Obrigadíssimo. Vou então tirar o Milu da cartola.
O senhor meteu a mão no chapéu brilhante, mas, em vez de um Fox Terrier, tirou de lá outro animal, nomeadamente um coelho. No primeiro momento nenhum dos três disse nada, ficámos apenas a olhar para o roedor desconhecido. O senhor parecia muito desiludido, abanava a cabeça repetidamente. A única coisa que o cão e aquele coelho tinham em comum era a cor.
- Peço-vos imensa desculpa. De vez em quando acontece-me isto: as coisas que entram na cartola transformam-se em coelhos.
- A sério?! Então porquê?
- Não sei. Deve ser um erro no software.
- No software?
- Sim, no software.
- No software da cartola?
- Sim.
- Você é mágico?
- Não.
- Ah, então a nossa hipótese preferida comprova-se! Essa cartola é uma máquina do tempo.
- Sim, é verdade!
- Você vem do passado?
- Não, venho do futuro.
- Do futuro?!
- Sim, do futuro.
- Assim vestido?!
- Sim.
- Você é cientista?
- Não.
- Então é o quê?!
- Sou informático.
Em silêncio, eu e o narrador acompanhámos o senhor ao canil. Depois viemos para casa. Estávamos deveras tristes por a nossa personagem ser, afinal, um informático.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O senhor de chapéu I

O senhor que passeia no parque traz um chapéu na cabeça. Ao longe, e apesar de ser preto, brilha. O chapéu, não o senhor.
(O senhor não é preto, é branco.)
O chapéu, que é preto, brilha sempre. Com ou sem sol. Brilha.
Hoje, por exemplo, não está sol. Há nuvens escuras no céu, quase chove, e no entanto o chapéu deste senhor brilha. Ao longe e ao perto.
Além de preto, é alto, magro, bem parecido, tem umas asas curtas. Perdão, abas: o chapéu tem abas curtas.
Trata-se evidentemente de uma cartola. Insisto: o senhor que passeia no parque traz uma cartola na cabeça. Isto provoca em nós (em mim e no narrador) tal estranheza que gostaríamos de o seguir. Infelizmente nenhum dos dois tem tempo e ficamos só a observar.
O senhor anda muito devagar. De vez em quando pára, fica a olhar as árvores e as pessoas, tira um relógio do bolso, consulta as horas.
Para ajudar no lento compassar do passo, traz uma bengala, embora não se apoie nela. Em vez disso, empurra-a para a frente com força, poisa-a assertivamente no chão - os movimentos são largos e perigosos. De vez em quando gira a bengala no ar.
O senhor que passeia no parque vem vestido de fraque. O peito é inchado e a cauda comprida: parece um melro. O senhor que passeia no parque parece um melro. De facto.
Tem também um lenço de seda ao pescoço.
(Um homem de se lhe tirar o chapéu.)
Quero saber de onde vem este homem, para onde vai, qual a sua profissão, intenção, confusão. O narrador diz-me: Louco não é. Realmente, não é. Actor também não.*
Portanto, das duas, uma: o senhor que passeia no parque ou é mágico, ou é cientista. E nunca os dois ao mesmo tempo.
Se for mágico, tira coelhinhos brancos da cartola.
Se for cientista, descobriu a máquina do tempo e anda a passear no futuro.
Qualquer uma das hipóteses nos parece plausível, por isso, colocamos as duas.
Eu e o narrador voltamos para casa. Para investigar o caso.

*O narrador desta história não é omnisciente, mas reserva-se o direito de saber certas coisas. Uma delas é esta: o senhor que se passeia no parque não é louco nem actor.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Roupão sem fim

Hoje tinha uma personagem no bolso. Dei por ela quando estava à procura das chaves de casa. Tirei-a cuidadosamente, mas ela não acabava de sair. Pensei: "É uma personagem sem fim", mas depois percebi que era o roupão.
Muito azul. E sem fim.
A personagem era mínima: tinha braços e pernas curtíssimos. Para não a magoar, pousei-a na bancada da cozinha e continuei a tirar roupão do bolso. Enquanto isso, a personagem começou a andar pelo lavatório. A pobre coitada tropeçava a cada passo, metia dó. Sentei-a numa cadeira para ela comer a sopa mas a personagem não conseguia agarrar na colher, tive de lhe arregaçar as mangas durante horas. Como não havia um fim para aquele roupão, despi a personagem e devolvi o roupão azul ao bolso.
Anunciei: "Pronto, acabou-se o roupão".
A personagem assustou-se. Depois enervou-se. Depois gritou: "Quero o meu roupão". Expliquei-lhe que aquele roupão era impossível, que tinha de a vestir com uma roupa normal. A personagem estrebuchou, atirou-me pedras, chamou-me nomes. Pacientemente, calcei-a com umas pequenas pantufas farfalhudas e vesti-a com um pijama de algodão. A personagem, enraivecida, cuspiu-me. Na cara. Gritou novamente: "Quero o meu roupão". E depois começou a chorar. Desesperadamente.
Passados dez minutos, perdi a paciência: agarrei na personagem pelos colarinhos, enfiei-a na boca e engoli-a. Pronto, já não havia personagem para ninguém.
Ri-me, aliviada: o roupão sem fim, agora, era só meu.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

História sem acção

Havia no fundo da sala um relógio de parede que respirava segundos.
Três mil segundos. (É o tempo que dura esta história.)
Um rapaz está deitado no sofá. Não sabemos há quanto tempo, mas está.
O rapaz permanece deitado.
Aparentemente para sempre. Eternamente. Até ao fim do mundo. Mas na verdade não, porque esta história só dura três mil segundos.
Durante este tempo (equivalente a cinquenta minutos) o rapaz não adormece. Os olhos dele estão abertos para uma outra dimensão, não seguem os ponteiros do relógio.
Também não fuma, não lê, não come. Tem aliás as mãos presas atrás da nuca, os cotovelos apontados para o tecto. E para que conste, também não fala nem assobia nem tosse.
Perguntam-me: Esse rapaz está triste? Profundamente triste? Irremediavelmente triste? E eu digo: Não, não está.
(Mas também não está alegre.)
O rapaz está. Só isso.
Está.
No final dos três mil segundos, o rapaz ainda está assim. Deitado.
Perguntam-me: O que estará ele a fazer? E eu digo: Nada. O rapaz não faz nada, rigorosamente nada. Digo mais ainda: Se uma mosca passasse, ele não olharia para ela. E se ela pousasse no seu nariz, ele não a sacudiria.
Nenhuma mosca passa, é claro. Mas se passasse, aconteceria o que vos digo.
E tudo porque o rapaz está deitado no sofá. De cotovelos apontados para o tecto. É essa a sua prioridade. O seu objectivo.
E vendo bem os factos, temos de confessar o seguinte: estar deitado é uma ocupação como qualquer outra.
Um pouco menos querida, é certo. Menos badalada. Menos perfeita.
Mas nem por isso diferente das restantes.
É aliás, se me permitem, uma ocupação mais elevada do que outras. Por ser mais digna. Mais útil. E verdadeira.
É, por exemplo, mais útil estar deitado do que escrever sobre alguém que está deitado. Do que ler sobre alguém que está deitado. Do que não estar deitado.
Deixemos portanto o rapaz.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Senhora de saltos altos

Aquela senhora de saltos altos vai sempre a pé para casa. Sabemos isto porque já nos cruzámos com ela na place Jourdan várias vezes. Avistamo-la lá ao fundo, à saída do parque e ficamos a vê-la desembocar na praça. Tem um passo solto e as costas muito direitas. As pernas parecem fortes e o rosto vem sempre com aquele ar liberto, a baloiçar no dia, como quem regressa a algum lado.
Estamos certos de que vai para casa. 
A senhora dos saltos altos não vem cansada. Daí acharmos que, ou gosta muito do que faz ou não se chateia com pormenores. Dá uns saltinhos pela rua, a cabeça abana imprevisível. Sabemos que a senhora trabalha, porque passa por aqui quase sempre às seis da tarde. Por vezes mais tarde, outras vezes mais cedo, mas por norma durante aquela parte indefinida do dia, entre a tarde e a noite. Deve portanto trabalhar num escritório ali perto. Talvez numa agência de viagens, num consultório médico, provavelmente num banco. Sim, certamente. Num banco.
Agora que a vemos de perfil, não há dúvida: é uma mulher das economias. Goza a vida no concreto, tem um corte de cabelo prático, não olha para as pessoas nas esplanadas. Não é uma pessoa sozinha, pelo contrário. Tem família, amigos, inimigos, tem olhos acompanhados. Imaginamos que se despeça dos colegas com um adeus sempre risonho. Simpático, cordial, correcto.  
A senhora não vem a rir pelo caminho, seria estranho que o fizesse. Mas adivinhamos-lhe aquelas pequenas rugas de riso nos cantos da boca e tiramos ilações: tem gostos musicais, vai ao cinema. 
Olha atentamente para os carros antes de atravessar a rua, agradece com um pequeno aceno a quem a deixa passar. Segue depois pelo parque de estacionamento e sobe aquela rua, à esquerda. Depois não sabemos para onde vai, porque a perdemos de vista, mas deve morar ali perto. Sabemos isto pela maneira como apressa o passo e levanta a cabeça: a apanhar balanço. 
Apetece-nos conhecer a senhora dos saltos altos, percebê-la, acompanhá-la. Mas, à falta de pretexto, não fazemos nada disto. Ficamos a vê-la passar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A senhora Madalena

Hoje à tardinha a senhora Madalena sentou-se no sofá. Era uma coisa que raramente fazia, mas hoje assim foi: sentou-se. É que, apesar de o sol ainda estar alto, a senhora Madalena já tinha a sopa feita e a roupa passada a ferro, já tinha lavado o chão da cozinha e mudado os tapetes da casa de banho.

E portanto, estava livre a senhora Madalena. Completamente livre. Tão livre, que a senhora Madalena chegou até a considerar ir à missa das seis, mas logo afastou essa ideia da cabeça porque não era dada a eucaristias e não gostava das beatas da igreja.

Em alternativa, podia ir às compras, mas realmente a senhora Madalena detestava as filas àquela hora e o frigorífico estava cheio. Além de que não conduzia à noite, via mal e tinha medo do escuro. Para o jantar tinha os restos do empadão. Para depois do jantar uma cama feita de lavado. Para a manhã seguinte o comprimido na mesinha de cabeceira e pão fatiado no armário. E portanto a senhora Madalena, naquela tarde, não tinha absolutamente nada para fazer.

Absolutamente nada. Por isso, fez o que nunca fazia: sentou-se.

A senhora Madalena entusiasmou-se: tinha finalmente tempo para bordar a tal toalha ou para ler o tal livro ou para ligar à tal prima ou para pregar os botões do tal casaco ou para ver uma coisa qualquer na televisão. A escolha era tanta que a senhora ficou indecisa, não sabia o que fazer com o tempo. E, em vez de fazer fosse o que fosse, a senhora Madalena ficou para ali especada a olhar.

É que passou tanto tempo assim que, a certa altura, era hora de jantar. A senhora Madalena apercebeu-se disso porque o estômago falou. E então, a senhora levantou-se e foi comer a sopa. Pôs também o empadão a aquecer no microondas. No entretanto cortou um tomate fresco para acompanhar, temperou-o com oregãos, azeite, sal e vinagre. Comeu tudo com enorme gosto, bebeu um copo água e descascou uma maçã.

Quando acabou de comer o último quarto da maçã, reuniu a loiça num tabuleiro e foi pousá-lo no lavatório. A senhora Madalena tinha uma máquina de lavar loiça, mas nunca a usava, porque preferia lavar tudo à mão. E nessa noite, enquanto calçava as luvas, a senhora Madalena sentiu-se deveras aliviada.

Tinha sujado imensa loiça.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

And now for something completely different

Aquele artista em específico era diferente dos outros.
Era. Não haja dúvida.
Não só dos artistas, mas dos seres humanos em geral. Isto era aliás visível aos olhos de todos: a sua pose era diferente, o seu andar, as suas sobrancelhas. Aquele artista (sexo masculino, nacionalidade russa) era diferente no tacto, no verbo, no cabelo, nas covinhas da bochecha, na barba, reza a história que era diferente nas unhas dos pés e das mãos. (Isto não vimos nós, mas acreditamos. Pi-a-men-te.)
Diz-se que eram unhas de fibra de vidro e não de fibra orgânica como as nossas. Eram, digamos, uma espécie de cascos que não se cortavam à tesoura, mas que se partiam ao meio!
Bom, mas nem sequer é preciso irmos por aí, porque não eram só as características físicas que distinguiam aquele artista. Definitivamente, não eram. Muito pelo contrário. As características físicas eram irrelevantes ao pé das outras.
Porque o que era realmente diferente naquele artista não era tanto a sua diferença, mas sim e sobretudo o facto de a sua pessoa, a sua arte, o seu modo fazerem a diferença. Toda a diferença. Do MUNDO.
Para comprovar isto, basta recordarmo-nos do dia da sua morte: realmente é indiscutível que, no dia em que aquele artista morreu, todos sentiram a diferença. Não haja dúvida. Todos. Sem excepção.
Depois, voltou tudo ao normal, mas no momento da morte, naquele preciso segundo, todos sentiram.

Nota: Por outro lado, no dia do seu nascimento ninguém sentiu a diferença, mas isto deve-se ao facto de, naquela época, as pessoas não estarem habituadas a pessoas verdadeiramente diferentes.
A propósito, Liev Tolstói nasceu exactamente no dia 9 de Setembro há 180 anos, mas ninguém deu por ela. Pelos mesmos motivos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vontade

Em dias como aquele, tinha vontade de não ser. A frase saiu-lhe quase espontânea, não fosse o olhar assumido de coisa pensada. Explicou: não propriamente de morrer, que nunca fora de desistir das coisas, mas simplesmente de não ser, de não estar, de sair do mundo com consciência e contemplar as nuvens.
Não ser.
Só isso.
Do ponto de vista técnico, fisiológico e emocional, "ter vontade de não ser" podia ser confundido com "não ter vontade de ser". E no entanto, no seu entender, que era um entender especializado dado que só ela sentia e exprimia o sentimento, as duas expressões não traduziam o mesmo. Calou-se por alguns momentos, bebeu um pouco de água. Revelou: a vontade existia sempre. Repetiu: Sempre. Aquela vontade intrínseca, própria, apropriada, incondicional: essa existia sempre, daí que a vida fosse. Seria injusto não ter vontade, concluiu. Absurdo. Estranho. Inútil. Próprio de uma pessoa morta antes de tempo. Esbracejou indignada. Daí que optasse por "não ser". E em dias como aquele, tinha realmente vontade de não ser. Encolheu os ombros. Disse: para ver as nuvens passar.
Era uma mulher impressionante.
Cheia de vontade.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A pessoa normal

Era uma vez uma pessoa normal. Os outros (os menos normais) classificavam-na assim.
A pessoa normal não era querida pelos outros nem tão pouco odiada. Digamos que era alguém com quem se coexistia sem dificuldade. Isto trazia uma sensação de normalidade a todos os que conheciam a pessoa normal.
Tinha aliás uma voz agradável (normal para os ouvidos), nem muito aguda nem muito grave e o tom era correcto: nem alto nem baixo. Uma pessoa audível.
A pessoa normal talvez não fosse muito inteligente nem especialmente perspicaz nem surpreendente na resposta nem pertinente nas suas intervenções. Mas participava na vida com os outros, tinha uma opinião normal sobre o mundo, exercia o direito de voto. Não era uma pessoa estúpida, era aliás inovadora no trato com as pessoas (tinha sempre uma expressão divertida para finalizar as conversas) e falava de assuntos quotidianos como o preço do combustível, as alterações climáticas, as eleições americanas e a agricultura biológica. Tinha até alguns interesses específicos: música country, ténis e romances policiais. Gostava também de nadar.
Era também e sobretudo uma pessoa simpática, cumprimentava os colegas de sorriso estendido, era prestável para com os superiores, bebia sumo de laranja ao almoço e quase não jantava. Via televisão. Não em demasia. Quando fazia viagens mais longas em transportes públicos comprava o jornal.
A pessoa normal não se achava merecedora de nada. Não por modéstia nem por medo dos outros. Realmente não esperava prémios nem recompensas da vida, ficava verdadeiramente surpreendida quando recebia um convite ou um elogio ou uma prenda de aniversário. Porque, no fundo, achava que não fizera nada para ser acarinhada.
Tendo isto em conta, a pessoa normal muito menos esperaria que alguém lhe escrevesse fosse o que fosse. Não costumava receber postais de amigos quando estes iam para fora, nunca recebera uma carta de amor e também nunca tinha escrito nenhum tipo de redacção além de relatórios para a faculdade e actas de reuniões.
Ora, a pessoa normal jamais esperaria que alguém escrevesse uma história sobre ela. Nem sequer uma "mini-história" como esta. Na sua modesta (e normal) opinião, não havia nada de extraordinário para dizer sobre a sua pessoa.
E, na verdade, tinha toda a razão.