sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A senhora Madalena

Hoje à tardinha a senhora Madalena sentou-se no sofá. Era uma coisa que raramente fazia, mas hoje assim foi: sentou-se. É que, apesar de o sol ainda estar alto, a senhora Madalena já tinha a sopa feita e a roupa passada a ferro, já tinha lavado o chão da cozinha e mudado os tapetes da casa de banho.

E portanto, estava livre a senhora Madalena. Completamente livre. Tão livre, que a senhora Madalena chegou até a considerar ir à missa das seis, mas logo afastou essa ideia da cabeça porque não era dada a eucaristias e não gostava das beatas da igreja.

Em alternativa, podia ir às compras, mas realmente a senhora Madalena detestava as filas àquela hora e o frigorífico estava cheio. Além de que não conduzia à noite, via mal e tinha medo do escuro. Para o jantar tinha os restos do empadão. Para depois do jantar uma cama feita de lavado. Para a manhã seguinte o comprimido na mesinha de cabeceira e pão fatiado no armário. E portanto a senhora Madalena, naquela tarde, não tinha absolutamente nada para fazer.

Absolutamente nada. Por isso, fez o que nunca fazia: sentou-se.

A senhora Madalena entusiasmou-se: tinha finalmente tempo para bordar a tal toalha ou para ler o tal livro ou para ligar à tal prima ou para pregar os botões do tal casaco ou para ver uma coisa qualquer na televisão. A escolha era tanta que a senhora ficou indecisa, não sabia o que fazer com o tempo. E, em vez de fazer fosse o que fosse, a senhora Madalena ficou para ali especada a olhar.

É que passou tanto tempo assim que, a certa altura, era hora de jantar. A senhora Madalena apercebeu-se disso porque o estômago falou. E então, a senhora levantou-se e foi comer a sopa. Pôs também o empadão a aquecer no microondas. No entretanto cortou um tomate fresco para acompanhar, temperou-o com oregãos, azeite, sal e vinagre. Comeu tudo com enorme gosto, bebeu um copo água e descascou uma maçã.

Quando acabou de comer o último quarto da maçã, reuniu a loiça num tabuleiro e foi pousá-lo no lavatório. A senhora Madalena tinha uma máquina de lavar loiça, mas nunca a usava, porque preferia lavar tudo à mão. E nessa noite, enquanto calçava as luvas, a senhora Madalena sentiu-se deveras aliviada.

Tinha sujado imensa loiça.

4 comentários:

uxa disse...

E o que é pena, para a senhora Madalena, é que ela se calhar nem sabe que inspirou uma história tão bem esgalhada.
Vidas ...

Magui disse...

O que mais admiro nesta temática é a capacidade que tens de descrever em pormenor sentimentos e estados de alma de personagens tão distantes do teu quotodiano, da tua época.
Lembras-me o Eça de Queirós. Parece que estamos dentro do cenário, ou melhor, que estamos a comtemplar a cena e a fazer juízos de valor.

Hoje, nós as mulheres, temos que ser boas esposas, boas mães, boas donas de casa, boas amantes, boas profissionais, boas... que temo passarmos de Marias Madalenas para Marias das Dores ou Marias do Suplício ou "simplesmente Marias".

Parabéns

OrCa disse...

Uma Madalena que não se arrepende... ;-)

Beijos.

Sara disse...

Gostei.
Essa Senhora Madalena parece que sabe descomplicar a vida, viver com serenidade.
Gostei, muito bem conseguido!