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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A pessoa

Ler também "A personagem".

A pessoa que queria ser personagem entrou no gabinete sem bater à porta e sentou-se antes mesmo de o escritor lhe indicar a cadeira. Apercebendo-se da existência do aquário das personagens mínimas, a pessoa bateu no vidro, assustando-as. O escritor tossiu incomodado e esticou o peito ao mesmo tempo para ganhar em altura, abanou as pernas nervosas, quase gritou:
- Diga!
O outro tirou calmamente o cachecol como quem se instala no consultório do doutor.
- Vim aqui para dizer que gostava de ser uma das suas personagens.
O escritor tirou desenvolto um bloco de notas da primeira gaveta à sua esquerda. Era um bloco de capa negra e por dentro tinha apontamentos vários que apontavam várias direcções, escritos a várias cores e presumivelmente em dias diferentes. O autor apressou-se a encontrar uma folha em branco e, de repente, lá estava ela, muito direita, muito virgem.
- Uma biografia, certo? E para quando queria o trabalho?
O escritor escreveu ao centro "Biografia" e à direita: "Para sair em". Ficou de caneta em punho à espera da resposta.
- Não, uma biografia não. Já me chega a minha vida. Queria passar para um livro.
O escritor encolheu os ombros, era uma espécie de tique nervoso perante o capricho dos clientes.
- Uma ficção sobre a sua biografia, é isso?
O outro demorou a decifrar o género de trabalho que o outro lhe propunha e depois pôs-se a abanar a cabeça, as mãos, o corpo, a alma.
- Não, nada disso! Esqueça a minha existência. Eu queria ser uma personagem sua, ponto final. Uma daquelas que tem no aquário, pronto, só isso. Deixar de ser isto e passar a ser aquilo.
- Uma personagem minha?
- Sim, uma personagem sua. Gostava de passar para os seus livros. Mas não aos bocadinhos, percebe? Gostava de passar para o papel completamente, na íntegra, de um lado para o outro, em harmonia. Gostava de ser o que você quiser.
- Desculpe, mas isso não faz sentido nenhum!
- Não faz mal! Há uma altura na vida em que nos estamos a marimbar para o sentido, percebe?
- Não, não percebo! E você também não! Vejamos: eu não posso fazer de si uma personagem!
- Ora essa! Então fez dos outros todos personagens e de mim não pode?
- As minhas personagens são inventadas, não existem.
- E como as inventou você?
- Olhe, inventando! Mas não vou buscar pessoas para fazer delas personagens. Não sou nenhum ilusionista.
- Pois digo-lhe eu, que conheço todo o seu trabalho - todo o seu trabalho, percebe? - que há muita gente por aí que podia ser bem as personagens dos seus livros.
- Só que não são!
- Pois não! Falta-lhes aquele toque artístico que você dá à vida!
- Justamente!
- Daí que eu queira ser uma personagem sua!
O escritor riu-se e no seu riso havia um misto de ironia e deleite. Recostou-se na cadeira almofadada e ficou a contemplar a pessoa que queria ser personagem. Disse:
- Para ser personagem e não pessoa, teria de o matar.
- Evidentemente! Força!
O escritor riu-se novamente. Sentia-se subitamente todo-poderoso, era incrível que alguém quisesse morrer por ele. Disse de si para si: "Sou eu que mando na vida!". O outro interrompeu-lhe inesperadamente o pensamento.
- Não, você não manda em nada! É uma pessoa como outra qualquer!
- Como outra qualquer? Você acabou de dizer que morria por mim!
- Por si, não! Pelas suas personagens!
- É o mesmo! Eu sou as minhas personagens! Aliás, sou mais do que elas, porque sou o criador!
- Que disparate! Você é uma pessoa como outra qualquer.
- Sou o criador!
- Mas falta-lhe na sua vida aquele toque artístico que você dá às personagens.
- E esse toque é meu! E é tão bom que você morria por ele!
- Exacto! Eu posso dar-me ao luxo de ser uma personagem sua. Você é que não!
O escritor ficou confuso, expulsou a pessoa do seu gabinete e decidiu não a matar. Nessa noite bebeu toda a vida num só trago, teve uma crise de fígado e outra existencial, pegou na pistola e matou-se.
Era um dia histórico: ficção e realidade uniam-se em plenitude.
E as personagens saíram à rua para festejar a vitória.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A personagem

A personagem que queria ser pessoa saltou furiosa da folha de papel e foi aterrar em cima da secretária. O escritor assustou-se com a sua aparição repentina mas, como coleccionava protagonistas de romances, ficou contente com aquela visita.
Para caberem nos livros, as personagens eram extremamente pequenas. Na verdade eram uma espécie de polegarezinhos, mais pareciam os duendes de que nos falavam na infância. A colecção de personagens daquele escritor era absolutamente fantástica: cabia toda dentro de um aquário e era preciosíssima.
O autor agarrou gentilmente na caneca do seu chá e preparava-se para apanhar o protagonista do seu novo romance em pleno voo, quando este lhe interrompeu o movimento da mão. Tudo porque a personagem falou e a sua voz era muito grave. O escritor ficou espantado e queixou-se:
– Mas a voz desta personagem não é assim.
– É assim, sim! A minha voz, a partir de hoje, é extremamente grossa.
– Mas que estupidez! É por teres uma voz fina que este romance existe.
– Pois, precisamente! Saí do livro e vim até aqui para dizer que gostaria de sair deste romance!
O escritor não reagiu logo, era a primeira vez que uma personagem se revoltava com o seu papel. Mas a seguir, já recomposto, desatou a rir e a personagem caiu para trás com a força da gargalhada.
– Isso é ridículo! Se abandonasses o romance, deixavas de ser uma personagem!
– Precisamente! É que gostava mais de ser uma pessoa! Isto de ser um protagonista é uma seca, é muito previsível!
O escritor ofendeu-se. Previsível?! Optou por uma estratégia mais pedagógica.
– Garanto-te, protagonista, que a vida de uma personagem é muito mais interessante do que a vida de uma pessoa.
– Mas eu quero ser de carne e osso. Quero ser eu a decidir o que faço e o que vou fazer!
– Ora agora! Tu és uma invenção minha, terás sempre de fazer o que eu quero.
A personagem alarmou-se, abriu muito a boca por a indignação não lhe caber no peito. Reclamou:
- Acaso um filho é invenção dos pais? Eu sou o fruto da tua imaginação e exijo ser tratado como tal. Sou sangue do teu sangue.
O escritor estava estupefacto, não era nada daquilo que tinha previsto para a sua personagem. Tornou-se mais autoritário.
– Tu aqui não és nada, caríssima personagem! No meu livro quem manda sou eu!
– Mas eu já disse que não quero fazer parte desse livro! Quero ser uma pessoa como outra qualquer!
O escritor ergueu o manuscrito colérico, abanou-o no ar, gritou:
– As personagens dos meus livros são pessoas! São iguais a elas! São melhores do que elas!
- Melhores? Como podes ter a presunção de que fazes cópias melhores do que o original?
O escritor não respondeu logo, estava mudo de raiva. A personagem repetia:
– Como? Como? Como?
- Eu não sou copista! – gritou ainda o escritor.
Depois, no exacto segundo em que a personagem acabara de dizer: "Detesto pessoas que se comparam a Deus!", o manuscrito caiu-lhe com toda a força na cabeça e o protagonista morreu esmagado contra a última página.
O escritor repetiu:
– No meu livro quem manda sou eu!
Mas estava enganado. Estava tão enganado que dava pena.
O livro é que mandava nele. O livro e as personagens.
O escritor só fazia o que elas lhe diziam. E o protagonista desta história queria claramente morrer.