quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Estou grávida até dizer chega

Estou grávida até dizer chega. Trago aqui dentro um parasita, que não é uma lombriga nem um cuco. É um segredo humano, muito bem guardado. Escondi-o no meu baú reprodutor há uns meses e trato-o com grande sigilo por causa dos predadores e dos espíritos maus. Nunca se sabe. 
Ssshhhiu! É o meu fruto secreto. 
E nunca sonho com ele. Nunca escrevo sobre ele. 
Mas penso nele o tempo todo.
O meu esboço de gente. Ainda sem rosto, sem nome, sem trejeitos.
Ninguém o conhece. Ninguém sabe ao que vem. Mesmo eu, nunca o vi mais gordo. 
Para já, rebola e dá pontapés. É o meu hóspede clandestino. E acho que gosta de viver aqui dentro.
De manhã, olho-me ao espelho e observo a minha barriga toda emproada, o meu umbigo do avesso. Sou um pequeno astro.
As pessoas sorriem para mim na rua, fazem-me perguntas: É o primeiro filho? É menino ou menina? Está para breve?
As perguntas surpreendem-me. Como é que eles sabem? Quem lhes contou o meu segredo de Estado? Agarro-me à barriga, respondo a bichanar. Bshiu, bshiu, bshiu!
Para a semana revela-se o mistério. Acabam-se os segredinhos. E eu, por acaso, tenho pena. Voltarei a ser uma pessoa muito sozinha e este fruto humano será quem ele quiser ou puder ser. Passará a existir pelo seu próprio pé. E terá o nariz Pessoa, os olhos Bandarra, o feitio do pai, a energia das avós. Será muito parecido comigo, muito parecido com o Homem Ilimitado. Será uma versão melhorada, uma cópia barata, o completo oposto, o que for.
Aí vem ele. O forasteiro. A mergulhar de cabeça no mundo. Igualzinho a todos os outros. Diferente de todos os outros.
Uma pessoa a sério.

Não dá para esconder mais esta verdade.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A-ma-re-lo

Curioso! Os últimos livros que entraram cá em casa são todos amarelos. Começo a achar que os comprei por causa das capas. Sei lá. O amarelo dá-me pica e vontade de rir.
A-ma-re-lo. Sempre gostei da palavra e da cor.
De resto, esteve um belo dia de outono, deixem-me que vos diga. O sol pousou torrado na varanda e eu sentei-me por ali a permanecer. Aproveitei e tirei uma foto aos livros amarelados. Assim:


Nisto topei o vaso das ervas daninhas, onde nasceu uma flor amarela muito pequena. Deve ser uma florzinha lixada para nascer assim, no meio do frio e das plantas beras. Se calhar ela própria é uma espécie invasora. Não sei.
Ao longe, o outono. As folhas das árvores por todo o lado: no chão, nos ramos, a esvoaçarem por aí. Delicadas e amarelas a dar com pau.
Uma amiga tem um casaco amarelo lindo. Eu nunca tive um casaco amarelo, mas tenho um caderno amarelo que tem uma banana na capa. Gosto da expressão francesa "avoir la banane". Nunca usei esta expressão. Algumas pessoas tratam-me por Ana Banana.
Há uns anos fui vacinada contra a febre amarela. Lembrei-me agora. Tenho saudades das páginas amarelas.
E mais nada.
Gostava barés de ter um casaco amarelo.

sábado, 11 de novembro de 2017

Eis um discurso extremamente sensato

Bom, não é bem assim. Não podemos ser simplistas. 
Até porque coiso e tal. Antes e depois. Ali e acolá. 
É uma questão extremamente complexa. 
A verdade é que. Trinta e um de boca. O diabo a quatro. 
Se, por um lado, isto, por outro, aquilo. 
Há que analisar os vários fatores. 
Uma vez que. Ainda que. A não ser que. 
Temos de separar as águas. Dar a mão à palmatória. 
E não podemos tirar conclusões precipitadas. 
Sejamos razoáveis. 
Não é por acaso que. 
Causa, efeito. Tiro e queda. São e salvo. 
A história já por várias vezes demonstrou que. 
Vai e vem. Vira e mexe. Leva e traz. 
O mundo atravessa momentos difíceis. 
Antes de mais. Acima de tudo. Além disso. 
E temos de admitir. 
O que der e vier. De mal a pior. É fazer a conta. 
No fundo. De facto. Com efeito. 
E não esqueçamos o seguinte. 
Sempre que. Salvo se. Se bem que. 
É esta a verdade nua e crua. Pura e dura. Curta e grossa. 
Por outro lado, a vontade política sim ou sopas. 
Cara ou coroa. Oito ou oitenta. 
Seja como for, o que está em causa é. 
Porque enfim. A fim de. Assim que. 
De maneira que não nos podemos limitar a. 
Volta e meia. Assim e assado. 
Repare no seguinte. 
Se é verdade isto, ainda é mais verdade aquilo. 
No sentido em que. Ao passo que. À medida que. 
E isso torna difícil, se não mesmo impossível. 
Mundos e fundos. Cobras e lagartos. 
Logo, é natural que. Alhos com bugalhos. Unhas e dentes. 
Há uma linha ténue entre tal e tal.
E de uma coisa tenho a certeza. 
O problema da sociedade atual é precisamente.
Bládiblá.  
Re-béu-béu, pardais ao ninho. 
Já se sabe que. Gregos e troianos. 
Quanto mais disto, menos daquilo. 
Ao contrário do que se previa, verificou-se que. 
Entretanto. No entanto. Porquanto. 
Não podemos ignorar que. 
Preto no branco. Ouro sobre azul. 
Em última análise, interessa saber se. 
Porém. Todavia. Contudo. 
Sem eira nem beira. Sem pai nem mãe. 
Sobretudo, não há respostas simples. 
Poucas e boas. Resmas e paletes. 
Vivemos numa época em que é extremamente difícil coiso. 
Por isso, é como te digo. 
Aguenta. Come e cala. Chuta para canto. 
E, entre uma coisa e outra, venha o diabo. 
Firme e hirto. A par e passo. 
Navegar na maionese. 
E isto não é dizer pouco.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Tem e não tem

Tem corpo. Tem fogo. Tem fome. Tem cheiro. 
Tem bicho carpinteiro. Tem mau feitio. Tem sangue-frio. 
Tem vistas curtas. Tem costas largas.
Tem mau perder. Tem mau olhado. Tem mau génio.
Não tem troco. Não tem remédio. Não tem razão. 
Tem ambição. Tem frustração. Tem alergia.
Não tem culpa. Não tem cura. Não tem vergonha.
Não tem medo. Não tem emprego. Tem fezada.
Não tem sal. Não tem sol. Não tem tempo. 
Tem bom senso. Tem maus hábitos. 
Não tem jeito. Não tem juízo. Não tem futuro. 
Tem boa boca. Boa onda. Bom humor.
Tem curso superior. Tem amor próprio.
Tem histórias. Tem insónias.
Tem dúvidas. Tem dívidas.
Tem saúde. Tem saudade.
Tem potencial. Tem número de identificação fiscal.
Tem cara de cu. Tem cara de pau.  
Não tem ilusões. Não tem soluções.
Não tem cabeça. Não tem paciência.
Não tem Norte. Não tem sorte.
Não tem certeza. 
Tem personalidade. Tem força de vontade.
Tem enxaquecas. Tem estaleca.
Tem telhados de vidro. Tem sexto sentido.
Tem macacos no sótão. Não tem noção. 
Tem lata. Tem graça. Tem garra. Tem asma.
Não tem papas na língua. 
Tem pelo na venta. Tem problemas.
Não tem pena. Não tem pila. Não tem pinta. 
Não tem ponta por onde se lhe pegue.
Tem corte de cabelo. Tem animal doméstico.
Tem idade para ser tua mãe.

domingo, 29 de outubro de 2017

Aarhus 39 - Festival Internacional de Literatura Infantojuvenil

Ui! Passei uns dias bem bons no Festival Internacional de Literatura Infantojuvenil.
Volto da Dinamarca cheia de pujança e apetite.
Foi assim: dezenas de autores de toda a Europa, uma biblioteca pública de fazer cair o queixo, salas repletas de crianças e adolescentes, debates interessantes sobre inspiração e escrita, leituras ilustradas ao vivo e muitas outras coisas. Segue uma pequena reportagem fotográfica:
Tudo se passou no edifício Dokk1, uma biblioteca upa-upa debruçada sobre o rio.

A cerimónia de abertura contou com a presença de centenas de crianças e da Princesa Mary da Dinamarca.

A seleção de jovens europeus que escrevem para os mais novos coube a
Kim Fupz Aakeson (DK), Matt Haig (UK) e Ana Cristina Herreros (ES).
O jornal dinamarquês "Information" publicou um suplemento literário
dedicado quase exclusivamente ao Hay Festival de Aarhus.
As autoras Aline Sax (BE) e Anna Woltz (NL) discutem identidade e família com o público; Salla Simukka (FI), Cornelia Travnicek (AT) e Endre Lund Eriksen (NO) debatem questões de género e homossexualidade; Michaela Holzinger (AT), Elisabeth Steinkellner (AT) e Cathy Clement (LU) falam sobre férias, liberdade e tédio; David Machado (PT) e Maria Parr (NO) refletem sobre o poder das palavras e das histórias.
Na universidade de Aarhus teve lugar um seminário que incluiu uma divertida sessão com o ilustrador dinarmarquês Cato Thao-Jensen; uma leitura da Maria Turtschaninoff (FI); e uma troca de ideias entre as autoras dinamarquesas Sarah Engell e Sanne Munk Jensen sobre o tema: "Que histórias devem ser hoje contadas às crianças?"

Desta foto constam duas leituras que contaram com ilustrações ao vivo pelo ilustrador dinamarquês Soren Jessen a partir do meu conto e das histórias de Aline Sax (BE), Cornelia Travnicek (AT) and Annette Münch (NO).

As estrelas do festival - Chris Riddell, Cressida Cowell e Meg Rosoff - encantaram e conquistaram.
Na última noite tivemos direito a um jantar à luz das velas. Em cima: eu, Sandrine Kao (FR), Aline Sax (BE), Elisabeth Steinkellner (AT), Annelise Heurtier (FR), Cornelia Travnicek (AT) and Michaela Holzinger (AT). Em baixo, à direita: a equipa portuguesa, constituída pelo David Machado e esta minha pessoa.

domingo, 22 de outubro de 2017

No Institut Saint Jean Baptiste de la Salle, em Bruxelas

Uh là là! Ontem passámos uma bela tarde no Institut Saint Jean Baptiste de la Salle, em Bruxelas. Eu, a Karateca, o Supergigante, a Mary John e este pequeno-grande ser dentro de mim estivemos à conversa com a malta do 6.º, 7.º e 8.º anos. Eram mais de 40 alunos, entre os 11 e os 14 anos, cada um com o seu percurso. Lusodescendentes, emigrantes, portugueses da Silva, todos têm em comum a identidade secreta de quem é de lá e de cá. Por causa disso, têm aulas de português ao sábado! À pergunta: "O português é a vossa língua materna?" responderam quase todos que sim.


No ano passado uns leram a Karateca, outros o Supergigante. A Mary John era novidade para as três turmas, menos para a Wendy que, com o seu ar de Terra do Nunca, já vinha com uma Mary John debaixo do braço. 
As perguntas mais divertidas foram sobre as personagens femininas. Porque é que a karateca é tão complicada? Porque é que ela diz e desdiz? Porque é que a Joana diz uma coisa e faz outra? Porque é que ela não diz o que sente? Serão estas personagens tão diferentes de nós? Não seremos todos complicados? Umas vezes de uma maneira, outras vezes de outra? Não temos sempre dúvidas? O que ganhamos com isso? O que perdemos?





Acabámos o encontro com uma leitura da Mary John. Tinha pensado ler só uma página, mas acabei por ler umas cinco. O silêncio ia alto e concentrado!
Resta-me agradecer às professoras Sílvia e Maria Franquilina o convite e a simpática receção. Foi um dia em cheio!


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um homem massaja-lhe os pés

Um homem massaja-lhe os pés e ela concentra-se nele. Um rosto muito pequeno e frágil. Os olhos em bico, a tez escura. Talvez seja vietnamita ou cambojano. Os dedos do homem nos seus tornozelos e ela pensa em Marguerite Duras e no seu amante chinês, tão intensamente mole, de causar dó e asco ao mesmo tempo.
Fecha os olhos, mas não relaxa. Está sentada num cadeirão muito burguês e balofo e apercebe-se agora mesmo da sua existência igualmente burguesa e balofa. Neste momento, reflete sobre a quantidade de toalhas que o massagista oriental usa durante a massagem. Seis quilos de toalhas, talvez oito. Uma máquina de roupa.
Abre os olhos e observa. Só então lhe ocorre que nem fizera a depilação. Que chato. Há semanas que não olha para as pernas. Contempla as suas patas descuidadas mesmo em frente àquele rosto delicado. As unhas dos pés com vestígios de um verniz fossilizado. Coitado do homem caído a seus pés. Se lhe der um pontapé, ele cai e parte-se aos pedaços.
Jamais teria um amante chinês, pensa. Ou vietnamita. Ou cambojano. Eram homens demasiado pequenos para a sua existência. Eis um pensamento tacanho e desidratado, igualzinho aos seus pés. É uma mulherzinha burguesa, balofa e também muito racista no amor e no sexo. Ainda assim, gosta de um bom amasso.
No final da massagem, sai do salão aos pulinhos, os pés de súbito muito leves, levezinhos. Na primeira esquina, encontra um pequeno milagre: uma vontade ansiosa de escrever com as mãos e com as patas traseiras. Começa a escrever logo ali, a caminho de casa. As patas e as ideias muito hidratadas.
Por vezes fazia-lhe bem pôr a vida de molho. Enfiar o pé na argola.
Levar um bom apertão.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ela escreve e o país arde

Ela escreve e o país arde. A culpa logo ali, na ponta dos dedos. E então pára de escrever. Faz outra coisa qualquer. Por exemplo, rega as plantas. As suas mãos em brasa.
O país arde e ela caminha para o elétrico. Lê um artigo sobre amamentação. Aponta a expressão "breast friend". No Facebook, algumas mulheres falam de assédio sexual. Só as mulheres falam de assédio sexual. Os homens estão-se a flamejar para isso.
O país arde e ela pensa naquele padre da sua infância. Aquele homem místico a pousar-lhe a mão no joelho. A falar-lhe da beleza por dentro e da beleza por fora. A capela compenetrada naquela coisa do divino, Jesus muito crucificado. Não se percebe se estará morto ou vivo. A menina muito bem sentada no banco da capela, a ouvir o Senhor Padre, pronta a confessar os seus pecados. Mas aquela mão desconcentra-a. A mão divina pousada no joelho. Tomara que aquela mão saia dali, pensa. Porque o seu joelho não tem vocação nenhuma para o sobrenatural. É um joelho muito feio e peludo, cheio de cicatrizes. Ainda hoje, quando pensa no seu joelho, pensa em todos os seus pecados e também naquela mão divina, que afinal era a mais humana de todas as mãos, a mais feia de todas as mãos.
O elétrico chega ao seu destino e ela pensa no seu país a arder, naquela memória em chamas e coloca então a hipótese de esse padre morrer num incêndio. O homem carbonizado, extremamente morto. Depois arrepende-se desse pensamento, claro. Faz outra coisa qualquer. Por exemplo, escreve um texto. Sempre é uma pequena fogueira para a alma. Talvez qualquer coisa aconteça. Um certo ardor por dentro, quem sabe. Mas está difícil escrever neste mundo. Está difícil viver.
Um certo vazio em todas as coisas.
O país arde e ela passa pela livraria bonita. Os livros muito bem sentados na montra. Não se percebe se estarão mortos ou vivos. Lembra-se então daquele livro enigmático, que falava de um futuro inventado em que os bombeiros queimavam livros. Fahrenheit 451, a temperatura a que o papel arde. Diz que o autor escreveu o livro em duas semanas. Uma autêntica combustão criativa.
Há qualquer coisa inspiradora nessa ideia, de facto.
A literatura no meio das chamas. Esturricada. Fulgurante.
Reduzida a cinzas.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Mary John no catálogo White Ravens 2017

Uau! Que boa notícia!
A Mary John foi incluída no catálogo White Ravens 2017, uma seleção de 200 livros infantojuvenis de todo o mundo publicada anualmente pela Biblioteca Internacional de Literatura Infantojuvenil em Munique.
A edição de 2017 conta com obras em 38 línguas de 56 países.
Portugal está representado pelos livros "O convidador de pirilampos" (Ondjaki e António Jorge Gonçalves), "A cidade dos animais" (Joan Negrescolor), "Onde moram as coisas" (Pedro Ferrão e Marc Parchow) e "Mary John" (com ilustrações magníficas do Bernardo P. Carvalho).
Eis as palavras mui generosas que o júri escreveu sobre a "Mary John":

"In contemporary Portuguese young adult literature, the novels of Ana Pessoa (b. 1982) take up an exceptional place. The author is masterfully adept at describing the cosmos of maturing teens, with its challenges and dramas, turbulences, moments of happiness, disappointments, and catastrophes. She writes in an authentic language that captures the protagonists’ sense of life and closely orients itself to their pulse. In an astonishing way, her newest book does all this and more. “Mary John” sets itself apart from the author’s previous novels by its even more coherent storytelling, its undisguised, intense language, and the deep insight it offers into the emotional world of the protagonist and first-person narrator. Maria João, called Mary John, writes a single, long letter to Júlio “Pirata”, her first, unrequited love. She openly writes of friendship, longing, desire, and sexuality and the painful process of dealing with feelings such as rejection and loneliness. (Age: 14+)"

Texto disponível em: http://whiteravens.ijb.de/book/774
É possível pesquisar os catálogos White Ravens por língua, país, título, etc.: http://whiteravens.ijb.de/list

domingo, 3 de setembro de 2017

4.a edição da Karateca!

Tau, granda golpe!
A 4.a edição da rapariga karateca já anda por aí aos pontapés. Depois não digam que eu não avisei. Yáááá!







segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Um caderno vermelho

Recebi por correio uma prenda primorosa e rúbea.
Trata-se de um caderno vermelho com uma capa em feltro, em homenagem à rapariga karateca.
O trabalho é da autora do blogue Feltro nas Mãos.



É caderno vermelho liso, com um marcador de tecido e 240 páginas lisas, ao estilo da rapariga karateca.



Fico emocionada e mui corada. Pareço um autêntico caderno vermelho!
Hoje revisitei o meu caderno novo e também o meu primeiro livro. Às páginas tantas:

"Quando cheguei a casa, folheei o caderno: 240 páginas em branco, 240 metros, 240 quilómetros. Uma capa grossa, resistente, um elástico vermelho à volta, um marcador de tecido, novinho em folha.
Depois fui para o Karaté e passei o tempo todo a lutar com o Raul e a pensar no que fazer com este caderno.
Gosto das páginas em branco. Do coelho branco.
Um caminho à espera.
240 páginas.
Qualquer coisa por ser."

A ficção e a realidade cruzam-se. É muito fixe quando isto acontece.

sábado, 19 de agosto de 2017

Nova edição do Supergigante!

Atenção: o Edgar já anda a correr outra vez pelas lojas de norte a sul do país!
Nova edição esbaforida!

GIF mimoso preparado pela sempre mimosa Yara Kono
a partir das ilustrações aceleradas do Bernardo Carvalho.
Dá logo vontade de correr (mais ou menos)!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O meu primeiro texto em estrangeiro English e dinamarquês!

Eh carapau!

Já tenho em mãos as coletâneas de contos Aarhus 39! São duas coletâneas em duas línguas: inglês e dinamarquês. Cheiram a papel e sabem a viagens.


Nunca tinha publicado um texto em estrangeiro English e dinamarquês! Like!

Um obrigada empolgado ao editor Daniel Hahn, que tornou este projeto possível, à ilustradora Helen Stephens, pelas ilustrações delicadas, e aos tradutores Alison Entrekin e Tine Lykke Prado, pelo inestimável trabalho de tradução.

O meu texto ("O Poço Azul") na coletânea inglesa "Odyssey" ("Odisseia").


O meu texto na coletânea dinamarquesa "Lige nu" ("Agora mesmo").


Já falei sobre o promissor Aarhus 39 aquiaqui e aqui, e receio bem que falarei muito mais vezes sobre este festival europeu de literatura infanto-juvenil.

Tudo sobre o Hay Festival Aarhus 39:
https://www.hayfestival.com/aarhus39/

domingo, 9 de julho de 2017

Belgavista, a minha praia

Cruzes canhoto! Este blogue fez 10 anos e eu nem dei por isso.
1 ano + 2 + 3 + 4.
Pequenos recortes dos dias que eu vou colando aqui.
Estávamos em 2007.
Era verão. Os parques estavam bonitos. Os patos andavam contentes. E eu criei este blogue.
De vez em quando chovia. Acho eu. Não me lembro.
No início escrevia todos os dias. Com exultação e fúria. Contos muito curtos, quase fábulas. Depois passou-me a urgência. Comecei a escrever menos. Uma vez por semana, uma vez por mês. Textos sobre o céu, sobre o chão. Sobre o choro e a sede. A neve, o nevoeiro, a chuva. Uma praia feia, uma floresta mística. Os meus longos passeios em Bruxelas. A minha narradora ambulante, sempre de mãos nos bolsos. Os livros que leio, as canções que ouço. A felicidade das coisas menores. Por exemplo, beber cerveja. Descascar batatas. Escrever à mão.
Este blogue não é um diário. Acho eu. Não sei bem. É um espaço sentimental onde moram criaturas frágeis, personagens impossíveis.
Tenho sido feliz aqui. No meu parapeito lírico. A magicar feitiços. A cochichar segredos.
Sempre à coca de um sentido para a passagem dos dias.
Belgavista, a minha praia. Cheia de vento e melancolia.
Uma década inteira de folias breves.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Feria del Libro de Madrid

¡Estupendo! Passei o domingo à tarde na Feria del Libro de Madrid con mi hermana Joana Estrelahablando de literatura infanto-juvenil para miúdos e graúdos. 
¡Qué bueno!

Eu e a Joana Estrela no pavilhão infantil na Feira do Livro de Madrid, onde Portugal foi o país convidado.

Livros belíssimos no stand da Ler Devagar na Feira do Livro de Madrid.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Aarhus 39 - "Stories of journeys from around Europe"

Que grande viagem!
Ontem, no Hay Festival, algures no País de Gales, foram lançadas as coletâneas dos autores Aarhus 39. Intituladas Quest e Odyssey, as duas coletâneas de contos infanto-juvenis foram publicadas em língua inglesa pela editora Alma Books.


A minha história ("O Poço Azul") está incluída na coletânea Odyssey. Conta com ilustrações fofinhas de Helen Stephens e uma tradução atenta de Alison Entrekin. 
Para mim e para muitos destes 39 autores europeus, é a primeira vez que publicamos em língua inglesa! Lançamo-nos ao mundo com histórias sobre viagens, ao melhor estilo europeu.
Já tinha falado desta nossa odisseia aqui e aqui
A todos os escritores, ilustradores e leitores, uma boa viagem!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Uma carta do Brasil!

Que legal! Recebi uma carta do Brasil. Na verdade chegou por email, em formato jpg, mas é uma carta a sério. Enviou-ma a professora bibliotecária Solange Rosati da escola SESI-SP CE123 de Sorocaba.
Onde fica Sorocaba?
Fui ver.
No Estado de São Paulo. A mais de 9 mil quilómetros de distância.
Maria Eduarda, menina empolgada de 12 anos, escreveu esta carta em nome dos seus colegas do 7.º ano.
Deste primeiro contacto resultará em breve um encontro virtual entre mim e alguns alunos de Sorocaba.
Estou aqui em brasas. A 9 mil quilómetros de distância. Cheia de vontade de atravessar o oceano a nado!
[Transcrição em baixo]


Transcrição:

Ana Pessoa
Que honra poder estar mandando uma carta para a rapariga karateca! Acredito que seja você! Imagina só!!! Ana Pessoa, [há-de?] morrer de amor .
De onde sai tanta imaginação? E essas personagens? São as melhores, com certeza!
É uma mistura de passado e presente, sentimentos, gostos e medos. Tudo isso resumido em personagens. São as personagens o que diferencia você! Você é única! Afinal, quem é N? As histórias são verdadeiras? Você escreve o que sonha? Tantas perguntas. Não dá nem para selecionar algumas. DEVE haver uma resposta para cada uma, e eu sei qual é. Tudo isso vem desse maravilhoso poço de vida! Que nos [traz] as terríveis dúvidas durante toda leitura, esse suspense sobre o que vai acontecer. É isso, é essa essência que você tem e que nunca irá faltar, sua imaginação, a minúscula observação que pode mudar totalmente a história, e até mesmo a vida da personagem. Edgar deixa tantas coisas para trás, está à procura da essência da vida, de sua própria essência.
Bom, acho que já escrevi bastante! Vou ficar por aqui! Nós, alunos do 7.º A, estamos à sua espera entre os dias 19 e 23 de junho.
Você será recebida de braços abertos!!!
Beijos♡

Maria Eduarda

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Em Condeixa!

É tão bom entrar numa escola secundária! Atravessar a porta, regressar ao passado: o cheiro dos corredores, as mesas do bar, a biblioteca. Na semana passada estive na Escola secundária Fernando Namora em Condeixa. O sol em chamas a incendiar as ideias e nós enfiados na biblioteca. Falei com alunos do 9.º e 10.º anos, eles espalhados pelo chão e eu um pouco mais acima, sentada numa cadeira.



Alguns tinham lido a Karateca, outros o Supergigante ou a Mary John.





Alguns também gostavam de escrever. Outros havia que não gostavam de ler nem escrever. Ainda assim, aguentaram-se à bronca.
As perguntas foram muitas. Por que razão escreve literatura juvenil? Inspira-se na sua vida? As personagens são reais? Expliquei que tudo na vida era autobiografia e ficção. Que as personagens existiam sempre de alguma maneira. Que eu tinha uma relação empática com todas elas. A Ana Beatriz deu um pulo exaltado. Disse-me que não era possível sentir empatia pela Liliana. Que ela nunca seria amiga de uma pessoa assim. Depois entregou-me um texto muito bonito que escreveu, não sobre a Liliana, mas sobre a Joana Mendes do Supergigante.
Demorei tempo a perceber que as duas raparigas que falavam da Karateca e do Supergigante eram gémeas idênticas. Tentei distingui-las. Não consegui. Foi um momento ao estilo Uma Aventura.
Alguns rapazes tinham lido a Mary John por obrigação e acabaram por gostar. Um deles disse que tinha sempre pena de deixar a Mary John à noite, quando lhe dava o sono. Perguntei a um dos leitores rapazes se tinha sido esquisito ler sobre a menstruação. Ele riu-se e depois ficou sério. A seguir riu-se outra vez. Começou por dizer que não, não era esquisito. Depois acrescentou: "Foi muito enriquecedor." Gargalhadas em coro.
O André Rosa, estudante universitário de visita à escola, leu um texto da sua autoria. Era a carta de resposta do Júlio. Não seria interessante se ele respondesse? Debatemos esta hipótese. O que diria ele? Quem era o Júlio afinal? Quais as suas intenções?
Numa das sessões achei boa ideia ler uma passagem da Mary John. Já ia a meio da leitura quando me dei conta de que estava a ler em voz alta palavras como “clitóris”, “passaroca” e “pelos púbicos”. A consequência desta leitura foi uma inspiradora histeria hormonal.
Já se sabe que a literatura é um espaço selvagem!
No final ainda houve tempo para uma entrevista a sério com os repórteres da escola. Uma câmara aqui e outra ali para terem vários planos. Era um grupo de rapazes muito fixes!



Depois deste dia em grande resta-me agradecer à professora bibliotecária Ana Rita Amorim, que me recebeu de braços abertos e me lançou este desafio de forma tão entusiasmada.
Eu cá gosto à brava de desafios! E também de escarpiadas, o doce regional de Condeixa. Conhecem? É uma deleitosa histeria de açúcar!