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terça-feira, 18 de agosto de 2015

A narradora ambulante

Lá vai a narradora deste texto. Sai de casa de mãos soltas.
Traz nos pés uma certeza qualquer sobre o mundo. Auscultadores enfiados nos ouvidos, uma introspeção enfiada nos olhos.
A narradora quase sorri por causa da canção alegre que traz nos ouvidos.
Só ela ouve aquela canção. Só ela vê aquele mundo.
O princípio do sol sobre as casas, as nuvens pequeninas a passear no céu.
A narradora estica a espinha dorsal e o dia começa.
Dobra a primeira esquina. Passa pelo quiosque de jornais onde nunca entrou, diz olá ao cão que leva o dono pela trela. Passa pela bruxa má que varre o chão, pelo ciclope que dorme sobre os sacos do lixo, pelo gato felpudo que está sempre sentado no parapeito.
Chega ao cruzamento, sinal vermelho para os peões. A narradora olha para o mural de banda desenhada, que representa precisamente um cruzamento.
Ficção e realidade cruzam-se. A narradora atravessa para o lado de lá.
Uma casa muito comprida debruça-se sobre ela. O bicho-papão cumprimenta-a da janela.
A narradora olha para os caminhos de ferro lá em baixo, sente-lhes o cheiro manhoso. Ao fundo, a Branca de Neve rega as plantas. A narradora acena-lhe ao longe.
Enquanto caminha, pensa nos seus próprios pés. Nos seus tornozelos. Nas unhas minúsculas na ponta dos dedos mindinhos. Enquanto caminha, a narradora pensa no ato de caminhar. Gosta de deambulações.
É uma narradora ambulante. E sente um certo domínio sobre a vida.
Sobre a física.
Sobre os pés.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O último narrador

Esta folha está em contagem decrescente. 
É a última folha do último caderno do último dia do ano. 
O narrador deste texto também é o último narrador do ano, por isso poupa no papel, encolhe as asas e as letras. Tem poucas linhas, poucas palavras, pouca terra, pouca terra. 
O narrador deste texto está num comboio. 
Vem sentado à janela, claro. É um narrador contemplativo e sensível. Observa os pinheiros que passam, as casas que passam e pensa precisamente nisso: que tudo passa, todas as coisas de todos os dias, incluindo aquele avião ao longe, estas duas galinhas ao perto, certas dores por dentro. As dores também passam, o corpo passa, a alma passa. Somos passageiros do tempo. Andamos sobre rodas sobre carris sobre terra. O narrador decide dedicar a última folha do último dia a esta sua reflexão medíocre, mas felizmente um homem interrompe-lhe o texto. Pergunta-lhe: Deseja tomar alguma coisa? O narrador abana a cabeça antes de perceber a pergunta. Não, não deseja tomar nada, deseja só narrar o seu texto, mas este seu desejo também passa. O narrador passageiro está sem palavras na ponta da língua nem na ponta dos dedos. Tudo passa, a literatura passa, as palavras passam. A última folha do último dia suspira. O narrador busca inspiração na sua garrafa de água mineral natural Luso e regressa à janela pendular. Uma família de oliveiras passa ao longe e ao perto. São oliveiras muito bem comportadas, parecem militares camuflados. De vez em quando, o sol lança raios e coriscos à cabeça do narrador. 
A ponta dos dedos aponta para a folha. 
Próxima estação: Coimbra B. As pessoas estão muito alinhadas na estação, muito quietas. Parecem bonecos disfarçados de pessoas. 
A nuvem de um cigarro passa, a nuvem do céu também passa. 
O narrador boceja e logo a seguir apressa-se para chegar ao fim da última folha do último dia. 
Apetece-lhe fazer outra coisa qualquer. 
Por exemplo, ler. 
Por exemplo, dormir. 
Ler e depois dormir. 
O narrador deste texto não é um narrador a sério. 
É um narrador a fingir. Está só de passagem por aqui.
A última folha do último caderno chegou ao fim.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A narradora desfasada

A narradora deste texto anda desfasada. Até o cabelo se desalinha, coitado. Não há maneira de ir ao sítio. Se o empurra para um lado, vai para o outro. Se o hidrata, fica oleoso. Se o ignora, fica encrespado.
É um cabelo carente.
A narradora deste texto sacode os ombros e sai de casa. Se espera pelo elevador, ele não arranca. Se vai pelas escadas, tropeça. Se calça sandálias, molha-se. Se vai a pé, atrasa-se. Se corre para o elétrico, não o apanha. Se o apanha, não encontra o passe. Se tem frio, não tem casaco. Se leva o guarda-chuva, está sol. Se vai de botas, tem calor. Se quer cantarolar, não tem música. Se quer café, não tem trocos. Se tem tempo, não tem ideias. Se tem ideias, não tem caneta. Se tem caneta, não tem caderno. Se quer pagar, não tem carteira. Se está cansada, não descansa. Se descansa, aborrece-se.
E tudo isto - pensa a narradora deste texto - é uma grande canseira.
Antes ficar na cama a ouvir os passarinhos lá fora. E os belgas a celebrar a vitória ou então a derrota.
O que vale é que a narradora deste texto não tem sono. Porque se tivesse sono, não dormia. E se quisesse ler, adormecia.
Antes ficar a escrever um texto fictício sobre um mundo paralelo. Diferente deste mundo.

Completamente desfasado.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um livro qualquer

O narrador deste texto decidiu celebrar o dia mundial do livro comprando um livro qualquer. E quando dizemos qualquer, é mesmo qualquer: um livro desconhecido com um título bonito ou uma capa que apetecesse apertar. O narrador deste texto tinha saudades disso, de comprar um livro só porque lhe apetecia e não porque alguém lhe falara dele ou porque lera um artigo sobre o dito ou porque andava empolgado com um determinado autor ou porque a Amazon definira que o narrador também ia gostar disto se gostou daquilo. Todos diziam ao narrador que tinha de ler isto ou aquilo, era muito aborrecido. No entender do narrador, o pior da vida eram mesmo as listas de livros. As 5 autobiografias para mudar a sua vida. Os 10 livros policiais mais policiados. Os 100 livros sem limites. Os 40 livros para ler antes dos 40. Os narradores mais apetecidos. Os mais proibidos. Os mais amorosos. Os mais saborosos. Os mais risíveis. Os mais enervantes.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A narradora entrevada

A narradora entrevada foi ao osteopata. Gabinete amplo, secretária ao fundo, uma cadeira importante que afinal eram duas, maca a meio caminho com uma toalha deitada, jardim empoleirado na janela, homem robusto. Um aperto de mão, patas de osteopata.
O senhor disse: Deite-se e a narradora deitou-se.
As patinhas dedilharam as costas da narradora entrevada.
Primeira vértebra. Ao longe, toalhas enroladas numa prateleira.
Segunda vértebra. Um armário ali à frente, enorme, que estranho.
Terceira vértebra. Não há um único cartaz com ossos neste gabinete. Só um quadro assim-assim. Quarta vértebra. A vida seria diferente se não fossemos vertebrados.
As patas do osteopata dedilhavam contentes. Eram patas boas e justiceiras, e as vértebras da narradora eram más, mereciam ser castigadas.
O osteopata disse: Deixe-se ir e a narradora deixou-se ir.
Um braço para ali, o outro para acolá e, de súbito, a narradora estalou.
Estalou mesmo, eu ouvi. PUM!
A narradora desbloqueada endireitou as costas e saiu destravada para a rua.
A meio caminho abrandou o passo. Trazia uma desconfiança qualquer dentro do crânio.
Alguém se ria nas suas costas. Sim, alguém se ria. Ouvia-se bem. HAHAHA!
Eu também ouvia.
E não eram as pessoas que passavam. Não eram as patas do osteopata.
Eram as vértebras da narradora. Escondidas atrás das costas.
Eram vértebras más e velhacas.
A narradora caminhou direita, mas não segura.
Nada podia contra si própria. Mas às vezes não gostava nada dos seus bloqueios.
Nem da sua coluna vertebral.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A narradora ressequida

A narradora ressequida decidiu hidratar as suas mãos murchas e a boca árida. Vai daí, entrou na Body Shop. Nada como saciar a sede dos lábios e das mãos na Loja do Corpo, sobretudo em esperançosa época de saldos, poupando dinheiro a gastar. Por três euros, um gel duche Love Etc 60 ml. Não estava nada mal para quem precisasse de amor e também de um banho. Não era o caso da narradora ressequida, que se mantinha mais ou menos asseada e tinha muito Love Etc para dar.
Dirigiu-se à secção Mãos & Pés, porque tinha mais pena das mãos murchas que da boca árida. Passou os olhos enxutos pelas prateleiras.
Creme hidratante, loção de limpeza, sabão líquido, leite apaziguador, óleo para as unhas, não sei quê intenso, manteiga purificadora com sabor a absinto. Como?
Sabor, não. Cheiro.
Aaaah, que giro.
A narradora ressequida pegou na manteiga purificadora ao colo e refletiu enquanto farejava.
Em que momento se devem amanteigar as mãos? À noite? A menina da loja devia saber. O creme de absinto cheirava bem. De manhã? O creme de amêndoa também não era nada mau. Ia esborratar os auscultadores e o passe de metro. À noite não era grande ideia. O de cacau cheirava melhor ainda. Os livros iam escorregar-lhe das mãos. Noz de côco, délice de cannerberg. Iam ficar a cheirar a rosas silvestres ou a gengibre, a baunilha gourmande. E isso era mau? O que significa canneberg? No trabalho? Só se fosse para hidratar o teclado.
A narradora desidratou-se de ideias porque, além de ressequida, era impaciente.
À saída, passou por um castelo de boiões pequeninos. Leu: Lèvres à croquer. Que expressão fofinha. Com sabor a manga ou a mel. Ou a manteiga de karaté. Perdão?
Não.
Beurre de karité. Não de karaté.
O que significa karité? Para quê sujar o dedo indicador para meter bâton nos lábios?
A narradora mirrou um pouco mais e saiu da loja. Ia de mãos a abanar e espírito gretado. Pensou: Que se lixe a securaTinha mãos secas e um coração hidratado.
No nariz levava uma memória engraçada.
A manteiga purificadora com sabor a absinto.
Sabor, não.
Cheiro.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Calçadeira

A narradora deste texto chegou a casa e foi dar com uma calçadeira no quarto. Estava refastelada em cima da cómoda e a narradora ficou uns bons segundos a olhar para ela. A calçadeira: Nunca viste, ó? E realmente não, a narradora nunca tinha visto uma calçadeira assim, a puxar o pé para a chinela. Além disso, não gostava que lhe pisassem os calcanhares, portanto descalçou a bota. Gritou-lhe: Calça-me. E a calçadeira obedeceu.
Aaaaaah, maravilha! Há mais ingratos que sapatos, de facto.
Como foi possível perder tantos anos a calçar botas sozinha, a esmagar o dedo indicador contra a bota? Que vida triste, aquela.
Agora, com a sua calçadeira, até dava gosto calçar-se. E quem calça por gosto, não descalça.
O dedo indicador também ficou logo mais solto. Olha para isto: até se pôs a escrever. Coitado, é que andava mesmo condoído.
 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Narrador omnisciente

O narrador omnisciente andava amuado com aquela coisa da literatura. Ultimamente até ler livros o aborrecia. Começava a ler um texto com a perspetiva de que ia chegar a meio do texto e depois ao fim do texto para poder começar a ler outro texto. De tão previsível, a leitura começou a dar-lhe muito sono e o narrador omnisciente acordava a meio da tarde com um fio de baba que ia do lábio inferior até ao sofá.

E depois não era só isso. Escrever, verdade seja dita, também não era propriamente um desporto radical, nem sequer uma viagem pelo desconhecido. Escrever era só uma atividade de ficar sentado muitas horas a entrelaçar uma coisa que nem era a sério. Era como fazer tricô, embora de uma forma menos verdadeira, porque no final não ficava com um cachecol para o proteger do frio.

Acresce a isto que o narrador omnisciente já sabia tudo e mais alguma sobre as suas personagens e candidatos a personagens. Se comiam pão com queijo, se dobravam as meias assim ou assado, se gostavam de falar ao telefone, se alguma vez tinham atropelado um gato, se transpiravam das mãos, se tinham um tique nervoso, etc, etc, aquelas coisas dos seres humanos. Tudo sabia o narrador omnisciente e isto, apesar de extremamente valioso para a sua posição confortável de domínio psicológico sobre as personagens, a certa altura tornava-se um bocado entediante e a paixão pela coisa literária esmorecia, ficava assim pequenina e muitas vezes nem se dava por ela, era só um pesar incomodativo como, por exemplo, uma dor no rabo.

Isto da dor no rabo vem a propósito porque o narrador deste texto andava precisamente com uma dor no rabo de tanto estar sentado. Certo dia, o narrador omnisciente, cansado de viver dentro de palavras enclausuradas em textos, desamuou, saiu da casca e foi para a rua passear, coisa que já não fazia há bastante tempo. Caminhava de mãos atrás nas costas como se estivesse de asas recolhidas e a certa altura, precisamente por não ter asas, tropeçou, estatelou-se no chão e partiu um dos últimos dentes, os lábios incharam como balõezinhos. Mas pronto, já se sabe que os narradores omniscientes, justamente por estarem convencidos de que a sabem toda, são desavisados. O narrador voltou para casa com os seus lábios-balão e tirou o Guerra e Paz da prateleira de cima. 

Era um livro bem grande.

Sempre dava para exercitar os braços.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um homem caminha com as mãos atrás das costas

Aquele homem caminha com as mãos atrás das costas. Aproxima-se das pessoas e elas agitam-se como pombos, claro, têm medo. Não sabem o que o homem traz atrás das costas e o desconhecimento é terrível. Pode muito bem trazer uma bomba ou uma arma atrás das costas. Que arma?, questionam-se as pessoas dentro das suas cabeças. Qualquer tipo de arma! Uma pistola, uma faca, uma metralhadora. O homem que caminha com as mãos atrás das costas pode ser um terrorista ou um agente secreto ou mesmo um louco. Sim, um louco. Bem, também pode ser só um polícia. Pode trazer um bastão atrás das costas, por exemplo. E nesse caso, está a zelar pela segurança dos cidadãos. De repente, as pessoas apaziguam-se. Não é nada mau estar perto de um polícia, pode dar jeito. Quando se fala de armas, o sentimento de segurança e o sentimento de insegurança confundem-se. As pessoas tanto se sentem seguras como se sentem inseguras. Pensam: Sinto-me seguro. E logo a seguir: Sinto-me inseguro. É extremamente difícil sentir um só sentimento de cada vez. A verdade é que o homem que caminha com as mãos atrás das costas pode nem trazer nada atrás das costas. Pode só estar de mãos dadas atrás das costas, há muita gente que caminha assim, em especial homens de meia-idade como este senhor. Sim, é um senhor, não é só um homem. Tem a barba feita e exala um cheiro sofisticado que é bom para as narinas. Além disso tem um ar saudável e simpático. Deve beber sumo de laranja todas as manhãs e abrir a porta do carro às senhoras. Ainda assim, as pessoas agitam-se, não estão convencidas. Um homem com ar de cavalheiro nem sempre convence, porque no geral é difícil convencer as pessoas. O que traz o homem atrás das costas, afinal? O narrador deste texto sente esta tensão no ar e sorri divertido, porque o narrador não tem nada a temer. Não que estejamos perante um narrador corajoso e temerário, nada disso. Este narrador é cobarde até dizer chega, é um autêntico menino da mamã. Só que o narrador, na sua qualidade de narrador, não existe propriamente, não tem carne nem osso, portanto não corre perigo de vida. Já se sabe que, tanto na realidade como na ficção, não é possível matar uma pessoa sem corpo. Um narrador só tem alma. Acresce a isto que o narrador está numa posição estratégica em relação ao homem e às pessoas, porque vem precisamente atrás do senhor que cheira bem e vê perfeitamente o que o homem transporta atrás das costas. Bom, acabe-se com este mistério: o homem traz um guarda-chuva atrás das costas. Esta é a verdade. Sim, um mero guarda-chuva, daqueles que aumentam e encolhem consoante a necessidade. Neste momento, o guarda-chuva vem encolhido, porque não está a chover, até porque estamos na plataforma do metro e, por norma, não chove debaixo de terra. O narrador ri-se das pessoas inquietas e agora distrai-se da sua personagem principal. Está a pensar nesta característica interessante e invejável de os guarda-chuvas aumentarem e encolherem consoante a necessidade. Seria bom aplicar esta característica a outras coisas. Aos carros, por exemplo. Às estátuas, às praças, às igrejas e também às pizzarias, às tascas, aos quiosques de jornais, às lojas de roupa, aos supermercados, às máquinas de lavar loiça, às máquinas de cortar relva, a todo o tipo de máquinas aliás. Às alterações climáticas, ao mercado único, à política comum das pescas. Aos livros. Ou mesmo às pessoas, porque não? Aumentá-las e encolhê-las consoante a necessidade. Preciso de ti: aumenta. Agora já não preciso de ti: encolhe. Contabilistas, tradutores, escritores, arquitetos, astrónomos, padres, mães, pais, padrinhos. Ocuparia tudo muito menos espaço. Poderíamos meter tudo e mais alguma dentro de gavetas e teríamos um mundo limpo e arrumado. Seria muito melhor viver num mundo assim. O narrador vai enumerando as vantagens dentro da cabeça, mas logo se depara com as desvantagens. Por exemplo, o sentimento de insegurança é uma desvantagem, porque esse seria porventura maior num mundo repleto de coisas que aumentam e encolhem. Nada seria previsível! Tudo caberia dentro de uma mala ou de um bolso. Seria possível trazer um prédio atrás das costas ou mesmo um comboio ou até a própria União Europeia, consoante a necessidade. As pessoas seriam como mágicos, mas sem a parte da magia. Cada um transportaria o que quisesse dentro da sua cartola. O narrador pensa em tudo isto e esquece-se do protagonista desta história. O que trazer dentro de uma cartola? No caso de um narrador, histórias e personagens, metáforas, diálogos, expressões idiomáticas.
O metro chega e o homem do guarda-chuva entra na primeira carruagem, desaparece no meio dos outros. É uma pessoa como as outras. Vai encolhido a um canto, já ninguém o vê.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O narrador desajeitado

As pessoas passam pelo narrador deste texto e abanam a cabeça, porque o narrador deste texto é claramente desajeitado, caminha de pernas e braços afastados, escorrega aqui e ali, torce o nariz e os pés. Parece um urso a caminhar na neve, mas não é um urso, porque um urso saberia caminhar na neve e, se calhar, nem precisaria de provar isso a ninguém, estaria a hibernar ou assim. O narrador, se pudesse, também hibernaria, mas não pode, coitado, porque, além de não ser um urso, nem sequer dorme bem à noite, é ansioso, não sabe ausentar-se das coisas. Não havendo comparação melhor, o narrador parece um urso desajeitado. Tem os dedos gelados, porque as suas luvinhas de algodão estão completamente encharcadas e já se sabe que um narrador com os dedos gelados não serve para nada, já que não consegue escrever e, portanto, não cumpre, não narra. As pessoas sabem disso e abanam a cabeça. Param durante uns segundos no meio da rua e ficam a observar o narrador com um sorrisinho no canto dos olhos, na esperança de que ele caia de vez e parta o cotovelo ou o cóccix. As pessoas mais cruéis esperam, aliás, que ele parta o cóccix e não o cotovelo, porque partir o cóccix é mais humilhante. Infelizmente, o narrador não chega a partir o cóccix nem a estatelar-se no chão, desaparece atrás de uma porta. A neve continua a cair devagarinho como se não caísse, e é branca, imaculada, pura, não há nada mais bonito do que a neve. Aaaaah!, exclamam as pessoas com cara de inverno. Depois seguem caminho, já esquecidas do narrador e da candura da neve. São pessoas cruéis e egoístas. No fundo, só queriam uma boa história para contar. Na falta de um entretém, o narrador deste texto bem pode morrer. De bate-cu ou de pneumonia. É indiferente.
Ninguém gosta do narrador deste texto.
Esta é a mais pura das verdades.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A queda de um ovo

Uma mulher tira do frigorífico uma caixa de seis ovos com quatro ovos lá dentro. Data de validade: 15/12, não há tempo a perder. Pega no primeiro ovo que é, infelizmente, de natureza irrequieta: foge da mão e cai. A mulher insulta-o (Ovo estúpido!). Logo a seguir, ainda o ovo não chegou ao chão, desiste dele, parte para outro. Mas-eis-senão-quando, o improvável acontece: o ovo não atinge logo o chão, demora-se um bom bocado com a ajuda das suas asas inexperientes e, antes de completar a queda, percorre metade da queda e, antes disso, metade da metade da queda e, antes disso, metade dessa metade e logo o pequeno ovo se distrai e assobia, porque não há fim para aquela matemática de cair a metade da metade da metade. O desenlace é ainda mais extraordinário, porque o ovo pousa inteiro e direitinho no chão. A mulher espanta-se, qual é coisa qual é ela. Quando pega no ovo, há nos seus dedos um outro respeito, um outro cuidado, uma outra dedicação. A mulher pensa em várias coisas ao mesmo tempo: na galinha dos ovos de ouro, no ovo de Colombo, no Kinder Surpresa. Decide, depois, não partir o ovo. Para adiar a queda, talvez. Para acreditar num milagre, certamente.
O narrador deste texto encolhe os ombros, acha tudo isto extremamente patético. Por ele, atirava o ovo contra a parede. Só para ver o que está lá dentro.
A mulher guarda o ovo milagroso no frigorífico. Parte o segundo o ovo com uma só mão e esse lá cai redondo e amarelo na frigideira. Infelizmente, amanhã o ovo milagroso já passou da validade, será um ovo podre como os outros. Mas disso não se lembra a mulher, que nunca sabe a quantas anda.
Exaltado, o narrador entra pelo texto adentro, abre o frigorífico e atira o ovo contra a parede. Mistério resolvido: era um ovo como os outros, só que mais resistente. O narrador sai do texto, satisfeito.
A vida, afinal, prosseguia como antes.
Sem mistério, sem romance. Sem milagres.
Aaaah, pensou o narrador, muito melhor assim.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Senhor repetido

Um senhor sobe a rua. É um daqueles senhores repetidos que vestem fato e gravata e bebem vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. O senhor repetido usa por cima da gravata o cartão de identificação do Parlamento Europeu ou da Comissão Europeia ou do Conselho da União Europeia ou de outra instituição a acabar em –eu ou –eia, com a sua fotografia e com estrelinhas, acho (não dá para ver daqui). O senhor repetido não está a beber vinho branco, está só a subir a rua. A narradora deste texto, que está aborrecida, fica a vê-lo subir. De repente, assim do nada, o senhor repetido cai, o que é muito incómodo para quem vê e para quem cai, porque o senhor é elegante e não devia ter caído. Além disso, não tinha propriamente razão para cair, porque não escorregou nem tropeçou. Ainda assim, cai. E o mais curioso é que nunca mais se levanta, porque também nunca mais aparece. O senhor, pura e simplesmente, desapareceu. Tipo Tcharam!, um truque de magia. É possível até que não tenha chegado a cair. A narradora espera, espera e nada acontece. Conclui: Só pode ter sido um qualquer truque de magia. Isso ou o senhor caiu efetivamente num buraco muito fundo, coitado. Nesse caso, talvez esteja vivo ainda e deve estar muito aflito, enfiado naquele buraco. Fica preocupada, a narradora, quer ajudar o senhor repetido. Mas eis se não quando aparece, no fundo da rua, um outro senhor repetido. Não será, com certeza, o mesmo (descubra as diferenças), mas também deve beber vinho branco na Place Lux a partir das cinco e meia. Fica a vê-lo da janela, a narradora. Infelizmente, este senhor não cai nem desaparece. Deve ser o suplente.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rapariga com saquinho de pano

O narrador deste texto anda interessado em raparigas muito magras que não sorriem e têm dentro da mala um saquinho de pano que utilizam para ir às compras. Há muitas raparigas assim nesta cidade, por isso o narrador coloca-se estrategicamente na porta de saída do supermercado para as ver passar.
Não precisa de esperar muito tempo, porque já ali vem uma a dobrar a esquina.
Descreve-a no seu bloco de notas: uma certa falta de cadência nas ancas, um rosto desinteressante como um sinal de trânsito.
A rapariga passa pelo narrador e não deixa nenhum rastro, nenhuma pegada, nenhum perfume. Entra agora no supermercado com o mesmo que ar com que entraria numa repartição de finanças, sem especial interesse. Deambula pelos corredores sem olhar para as prateleiras, sabe exactamente o que quer. Tira cinco coisas para o cestinho, não mais, e encaminha-se agora para as caixas. Respeita a fila educadamente, o rosto igual a um sinal de trânsito, o corpo muito magro, exibindo ossos. A alma escondida atrás de tudo isto a fazer não se sabe o quê.
Tira cinco coisas do cesto: um pacote de quatro iogurtes magros, uma alface, um saco transparente com cinco cenouras lá dentro, uma caixinha com três fatias de queijo e uma pasta de dentes. Não fica muito tempo à procura do seu saquinho de compras, sabe exactamente onde está. As cinco coisas cabem perfeitamente no saquinho de pano que traz dentro da mala. Os seus dedinhos mexem-se com sonolência, sem apetite.
Sai do supermercado, ainda o mesmo ar de repartição de finanças.
O narrador deste texto continua a tirar notas, mas está tão interessado nesta rapariga muito magra que acaba de ter uma erecção ao vê-la passar.
Este fenómeno é único, porque nenhum outro homem tem erecções quando vê esta rapariga passar.
Ora, o narrador deste texto é, claramente, muito mais interessante do que a rapariga com saquinho de pano.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Três desejos

Brevemente neste blogue, um dos três desejos.

Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Estes eram os três desejos do narrador que, apesar de minúsculo, comia Kinder Surpresa como gente grande. Os desejos eram também maiores do que ele próprio, como certos sonhos de infância. Queria, urgentemente, uma história, uma personagem, um discurso diarístico. Na verdade, queria qualquer coisa que não aquele silêncio. Urgentemente.
Nos tempos livres, o narrador costumava brincar com as retroexcavadoras cor-de-laranja que descobria dentro dos ovinhos, mas ultimamente só tem comido o ovo de chocolate e deita fora os brinquedos.
O autor é mais maduro do que o narrador. Além de nada desejar, veste uma misteriosa gabardina preta para o proteger da chuva, do vento e dos outros. Comporta-se, aliás, como os gatos: senta-se contemplativo no parapeito da janela, mas o narrador não tem a certeza se o autor contempla alguma coisa, porque não mexe a cabeça nem as orelhas nem os olhos nem as patas. Ninguém contempla imóvel.
Era a opinião do narrador. À falta de metafísica naquela casa, come chocolates, mas não brinca. Tem três desejos mais fortes do que ele próprio.
Diz em voz alta: Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Repete: Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.
Depois grita, chora, esperneia.
O autor está virado para a janela, por isso não lhe vemos o rosto. Está tão quieto que mais parece uma estátua. Há quatro semanas que não se mexe (na verdade, o narrador tem medo que o autor tenha morrido à janela).
Por vezes, aproxima-se devagar do parapeito, põe-se em bicos dos pés para tocar na cauda longuíssima do autor, mas depois arrepende-se. Regressa ao seu cantinho, mais pequeno do que antes.
Hoje, no entanto, pela hora de almoço, algo acontece:
Belgavista é nome de peixe.
É o que diz, de repente, o autor. Depois salta para o chão e começa a lamber as próprias patas. É previsível que, além da vontade de escrever, tenha uma pontinha de fome. Daí a alucinação.
O narrador dá um pulo de contente, mas continua a comer chocolate. Na sua modesta opinião, Belgavista não é nome de peixe.
Mas isso, agora, pouco importa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não obstante as brumas

Aquela rapariga anda de sandálias brancas não obstante as brumas e a inevitabilidade da chuva. Anda contente de pés ao léu, ostentando as suas unhas lindíssimas, pintadas de fresco.
A rapariga de sandálias brancas acredita piamente no Verão, mesmo que daqui a pouco ande a chapinhar em poças de água.
Outras raparigas acreditam noutras coisas. Aquela acredita no Verão. (As raparigas arabescas, por exemplo, que andam por aí encarapuçadas como criminosas acreditam em coisas mais invernais e, portanto, menos iluminadas.)
A rapariga de sandálias brancas e unhas pintadas de fresco atravessa a rua e polvilha a estrada de Verão, qual Sininho na terra do sempre.
Quase desejamos que chova para a ver chapinhar na água.
Em Bruxelas, o Verão é assim. Uma questão de atitude. De crença. E não uma estação.
O autor e o narrador converteram-se. E vão pintar as unhas dos pés.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os que escrevem

Os que escrevem nem sempre escrevem. Às vezes fazem outras coisas. Por norma fazem outras coisas. O autor e o narrador deste texto supõem que os outros, que fazem outras coisas, também escrevem. Os que escrevem nem sempre escrevem. Por vezes mascam pastilhas elásticas. Andam de comboio. Vão ao mercado. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. O autor deste texto, na verdade, prefere comer chocolate a escrever. O narrador não, gosta mais de escrever. Por vezes nem o autor nem o narrador escrevem, ficam a meio, entre o pensamento e a escrita. Por vezes a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Por norma a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Às vezes os que escrevem lêem o que os outros escrevem. Gostam do que os outros escrevem. Têm inveja do que os outros escrevem. Às vezes têm medo.
Uns escrevem mais que os outros, melhor que os outros, mais forte que os outros, mais opaco. Os que escrevem só têm isso em comum: escrevem. Nem todos os que escrevem são escritores. A maioria é outra coisa. Alguns são tradutores. Ou medíocres. Ou as duas coisas. Os que traduzem põem noutra língua o que os outros escrevem. Os que escrevem também viajam. Também compram pão. Também vão à livraria Galileu em Cascais comprar o último romance do José Eduardo Agualusa. Também vão à praia. E a Aveiro. No comboio. Alfa pendular. Os que escrevem nem sempre escrevem no comboio. Às vezes ouvem música. Ou lêem o que os outros escrevem. Ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Outras vezes não fazem nada. Mascam pastilhas elásticas. Ou olham para a capa do último romance do José Eduardo Agualusa.
Os que escrevem têm medo. Da noite. Do dia. Do lobo mau. Dos cabelos negros do Agualusa. De Angola. Os que escrevem compram livros, mas nem sempre os lêem. Os que escrevem são iguais aos outros. Medíocres, pequeninos, invejosos. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. Só isso.
Tenho medo do José Eduardo Agualusa.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Das raízes

A propósito de um post da Pitucha sobre esta notícia.

Uma mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes que trazia nos pés. Ora, não era costume as pessoas andarem por aí a cortar as raízes dos pés, na verdade nunca se tinha ouvido falar de tal prática. Diga-se que a mulher de nome Maria também não gostava propriamente de cortar: parecia-lhe um verbo demasiado definitivo e tinha medo do arrependimento. Contudo, a mulher de nome Maria estava muito habituada a usar a tesoura no seu dia-a-dia e não via nenhum problema em cortar também as raízes.
Tinha, por exemplo, o hábito de cortar as unhas das mãos. Outras mulheres e outros homens também cortavam as unhas das mãos, mas algumas pessoas roíam-nas simplesmente e outras deixavam-nas crescer até que elas se partissem.
A mulher de nome Maria preferia cortar as unhas das mãos e fazia-o com alguma regularidade. Também não se importava de cortar as unhas dos pés, embora tal implicasse um esforço físico maior que exigia desenterrar as pernas, lavar os dedos, cortar as unhas onduladas e voltar a enterrar as pernas até aos joelhos. Ora, isto era extremamente custoso, além de que ninguém via as unhas dos pés da mulher de nome Maria por estarem precisamente enterradas com os ditos pés.
Em dias especiais cortava também os cabelos. Nessas alturas não cortava o cabelo a si própria: ia ao cabeleireiro e uma outra pessoa cortava o seu cabelo. Outros seres humanos também iam ao cabeleireiro cortar o cabelo, mas também havia quem cortasse o cabelo em casa, em frente ao espelho.
Naquele dia, porém, a mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes. E sem dramatismos, agarrou na tesoura e cortou.
O corte em si não foi doloroso, porque não implicava nenhuma cirurgia, apenas uma manobra parecida com a poda, porque as raízes, como todos sabemos, são como os cabelos e as unhas: voltam a crescer indefinidamente e, em excesso, não fazem falta.
A mulher de nome Maria disse ainda: "Já não pertenço a esta terra" e deitou a terra fora. Como não podia sobreviver sem terra, escolheu uma terra nova para passar o tempo. Escolheu também um vaso novo, de terracota. Deitou o antigo fora, que era da Vista Alegre. Empurrou o vaso novo até à janela, para apanhar mais sol.
Depois atirou-se para dentro do vaso e enterrou-se até aos joelhos.
As outras mulheres e os outros homens ficaram muito indignados. Disseram que ninguém podia cortar as raízes, por isso, esquecendo-se das suas outras raízes católicas, atiraram pedras à mulher de nome Maria, que se estava profundamente nas tintas, porque o seu lugar ao sol estava longe dos seres humanos indignados e as pedras não a alcançavam.
Ora, o narrador e o autor deste texto jamais cortariam as suas raízes, apesar de terem mudado de terra há cerca de cinco anos. Gostam de ter as mesmas raízes do início. A mulher de nome Maria não. Nós - autor e narrador - não vemos problema nisso.
Até porque a pátria, como disse um certo mestre desta pátria, é a nossa língua e a mulher de nome Maria, falando português, gostava mais de ser brasileira. Por causa do samba, imaginamos. Nós compreendemos e aceitamos.
Pena a mulher de nome Maria estar enterrada até aos joelhos. Senão, até podia sambar como os brasileiros.
Mas assim, enterrada como está, não pode. Deve ser estranho uma pessoa ser estrangeira na sua própria terra.
O que vale à mulher de nome Maria é o piano.
E a ortografia, que é milagrosamente a mesma.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1 de Abril

No dia 1 de Abril o narrador convenceu o autor a escrever.
Se ainda não se espantou, espante-se.
Repito: o narrador convenceu o autor a escrever.
Jamais se vira uma coisa assim. Era um evento verdadeiramente extraordinário, porque, como todos sabemos, tudo isto se costuma passar ao contrário: é o autor que convence o narrador. É sempre o primeiro que guia o segundo numa autêntica hierarquia de vontades, pois mesmo na arte da inspiração e da escrita há protocolos, disciplinas e hierarquias e tudo o que de artístico tem tão pouco.
Esta era, portanto, a ordem natural das coisas, mas ultimamente, por as actividades do autor não darem espaço nem oxigénio nem dióxido de carbono à autoria devido a prioridades do momento que nada tinham que ver com arte, o autor perdera, por assim dizer, a vontade, o fio à meada, a inspiração, o que quer que esteja no início da coisa artística, daí que não se esforçasse por convencer o narrador de nada, se não apenas que se calasse e metesse a cabeça entre as orelhas. E dito isto, o narrador, por vingança ou tédio ou simples maldade - que também a há no coração dos narradores - ia cantando dentro da sua cabeça, a qual ficava, por sua vez, dentro da cabeça do autor, a tal canção do Sérgio Godinho, que o autor, por azar, não apreciava (o pronome relativo refere-se aqui à canção e não ao Sérgio Godinho, apreciado por toda a gente e mais alguma).
E justamente no dia 1 de Abril deu-se o caso extraordinário ou até o milagre de Nossa Senhora de o narrador, aborrecido como estava com a inércia do autor, ter tomado a iniciativa de escrever, ou melhor, de fazer o outro escrever por ele. O autor, para mal dos seus pecados, levantou-se contrariado da cama, ainda a noite madrugava, e sentou-se no sofá da sala de estar, por sinal muito fria dado que se esquecera da janela aberta durante todas aquelas horas nocturnas, e escreveu.
Intervalo para descrição: No colo uma almofada e sobre a almofada um bloco. Na mão direita a caneta e na cabeça o narrador ditando o texto devagar. O narrador afastava os cabelos atrapalhados do autor lá do alto do cocoruto todo-poderoso certificando-se de que a redacção saía correcta e escorreita do ponto de vista ortográfico, sintáctico e verbal.
No final da história, satisfeitíssimo, o narrador ordenou ao autor que publicasse aquela redacção no seu lugar. Mas infelizmente, ao ouvir o nome proibido do lugar, o autor acordou sobressaltado daquele feitiço e rasgou o texto decididamente. Depois coçou a cabeça com muita força e o narrador caiu redondo por ali baixo, tendo sido sua sorte a de ter ficado pendurado na ponta de um cabelo espigado que o agarrou pelos colarinhos durante a queda.
O autor foi então ao seu lugar ou não propriamente: sentou-se na margem de cá a observar a margem de lá contemplativamente. Imaginou que Ulisses, depois de regressado a Ítaca, se fizesse ao mar vezes sem conta só para repetir o regresso, a terra à vista, o mar interrompido.
O autor todo-poderoso, de repente inspirado, regressado, artístico, escreveu uma história que nada tinha que ver com a história inicial, a do narrador. Ria-se enquanto escrevia. No final achou que a sua obra era boa.
Tão boa que não parecia sua.
(E não era. Isto porque o narrador continuava a ditar a mesma história, escondido atrás dos cabelos. No entanto, chegado ao final da mesma, deixou que o autor a publicasse, julgando-a sua.)
O narrador procedera desta forma condenável não por altruísmo, não por vingança nem tédio nem nada.
Só por ser dia 1 de Abril. Mais nada.
Um narrador brincalhão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O senhor do chapéu II

Eu e o narrador voltámos ao parque no sábado. Eram onze horas da manhã e o sol fraquejava por causa das nuvens feias que povoavam o céu. O frio não nos desviou do nosso objectivo: o senhor do chapéu.
Não tardámos a encontrá-lo.
Hoje estava sentado num banco de jardim. A cauda do fraque descia pelo banco até ao chão e a cartola descansava na bengala, que estava, por sua vez, apoiada nas costas do banco. Um quadro engraçado de se ver. O senhor tinha as costas muito direitas e lia uma banda desenhada com o respeito de quem lê o novo testamento: os braços elevados e uma concentração muito séria. Quando passámos em frente ao banco, pudemos ver a capa do livro: Objectif Lune.
Sentámo-nos mais longe, a uns cinquenta metros, num banco de jardim que tinha vista para o seu. Ali ficámos muito tempo e, a certa altura, deixámos mesmo de escrever as nossas preciosas notas por já nos doerem todos os ossos das mãos. Estava frio, imenso frio. A esta altura já as nuvens do céu eram agora iguais às que saíam da boca. O senhor do chapéu continuava sem chapéu, concentrado na leitura.
Uma rapariga corajosa passa. Além das previsíveis calças de ganga e das botas de salto raso, traz um gorro enfiado na cabeça, luvas grossas, casaco almofadado, cachecol e uma trela colorida, a que vem preso um cão. O cão é branco, tem imenso pêlo, não parece ter frio.
Passam agora em frente ao senhor do chapéu que levanta os olhos do seu objectivo lunático para contemplar a dona e o domesticado.
A moça é bonita, é certo, quer para um mágico, quer para um cientista, mas o que nos surpreende, o que verdadeiramente nos ataca o peito como coisa jamais vista é o facto de o homem se ter levantado repentinamente para agarrar no cão e o enfiar pela goela abaixo da cartola. Isto aconteceu num só segundo, não mais. O cão nem teve tempo para ganir, subitamente já não estava. Com o choque, a rapariga nem gritou, dir-se-ia que tinha assistido ao desaparecimento do cão quase serenamente, não fosse ter começado a correr desenfreada pelo parque, com uns guinchos na voz que mais pareciam o latir de um cão.
Eu e o narrador decidimos agir imediatamente. Cinquenta metros depois estávamos em frente ao senhor do chapéu.
- Desculpe, você acabou de roubar um cão!
- Sim, o Milu! – e mostrou-nos uma imagem do Milu ao lado do Tintim.
- Você não pode roubar cães!
- Ai não?! Peço imensa desculpa.
- Onde está o cão?
- Na cartola, não se preocupem. Algum de vocês já foi à lua?
- Não, nunca fomos. E você?
- Também não, mas gostava. Sabem onde posso encontrar o professor Girassol?
- Não, não sabemos.
- E o Tintim?
- Também não. Desculpe, mas vai ter de devolver o cão. Onde está ele?
- Na cartola, já vos disse.
- Tem de devolvê-lo imediatamente. Não pode andar aí a roubar cães às pessoas. Além de que esse cão não é o Milu. É parecido com o Milu, mas não é o Milu.
- Ai não?!
- Não. Esses cães chamam-se Fox Terrier de pêlo duro.
- Pêlo duro é apelido?
- Não. É a raça. Fox Terrier de pêlo duro é a raça. O tipo de cão, percebe?
- Ah, ok. Não haverá outros de pêlo mole?
- Sim, claro.
- Então queria antes um desses. Ter pêlo duro é desagradável para quem dá festinhas, não acha?
- Acho!
- Sabe onde posso encontrar um cão de pêlo mole?
- Sim, sei. Eu levo-o ali a um canil para você escolher o cão que quiser.
- Obrigadíssimo. Vou então tirar o Milu da cartola.
O senhor meteu a mão no chapéu brilhante, mas, em vez de um Fox Terrier, tirou de lá outro animal, nomeadamente um coelho. No primeiro momento nenhum dos três disse nada, ficámos apenas a olhar para o roedor desconhecido. O senhor parecia muito desiludido, abanava a cabeça repetidamente. A única coisa que o cão e aquele coelho tinham em comum era a cor.
- Peço-vos imensa desculpa. De vez em quando acontece-me isto: as coisas que entram na cartola transformam-se em coelhos.
- A sério?! Então porquê?
- Não sei. Deve ser um erro no software.
- No software?
- Sim, no software.
- No software da cartola?
- Sim.
- Você é mágico?
- Não.
- Ah, então a nossa hipótese preferida comprova-se! Essa cartola é uma máquina do tempo.
- Sim, é verdade!
- Você vem do passado?
- Não, venho do futuro.
- Do futuro?!
- Sim, do futuro.
- Assim vestido?!
- Sim.
- Você é cientista?
- Não.
- Então é o quê?!
- Sou informático.
Em silêncio, eu e o narrador acompanhámos o senhor ao canil. Depois viemos para casa. Estávamos deveras tristes por a nossa personagem ser, afinal, um informático.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O senhor de chapéu I

O senhor que passeia no parque traz um chapéu na cabeça. Ao longe, e apesar de ser preto, brilha. O chapéu, não o senhor.
(O senhor não é preto, é branco.)
O chapéu, que é preto, brilha sempre. Com ou sem sol. Brilha.
Hoje, por exemplo, não está sol. Há nuvens escuras no céu, quase chove, e no entanto o chapéu deste senhor brilha. Ao longe e ao perto.
Além de preto, é alto, magro, bem parecido, tem umas asas curtas. Perdão, abas: o chapéu tem abas curtas.
Trata-se evidentemente de uma cartola. Insisto: o senhor que passeia no parque traz uma cartola na cabeça. Isto provoca em nós (em mim e no narrador) tal estranheza que gostaríamos de o seguir. Infelizmente nenhum dos dois tem tempo e ficamos só a observar.
O senhor anda muito devagar. De vez em quando pára, fica a olhar as árvores e as pessoas, tira um relógio do bolso, consulta as horas.
Para ajudar no lento compassar do passo, traz uma bengala, embora não se apoie nela. Em vez disso, empurra-a para a frente com força, poisa-a assertivamente no chão - os movimentos são largos e perigosos. De vez em quando gira a bengala no ar.
O senhor que passeia no parque vem vestido de fraque. O peito é inchado e a cauda comprida: parece um melro. O senhor que passeia no parque parece um melro. De facto.
Tem também um lenço de seda ao pescoço.
(Um homem de se lhe tirar o chapéu.)
Quero saber de onde vem este homem, para onde vai, qual a sua profissão, intenção, confusão. O narrador diz-me: Louco não é. Realmente, não é. Actor também não.*
Portanto, das duas, uma: o senhor que passeia no parque ou é mágico, ou é cientista. E nunca os dois ao mesmo tempo.
Se for mágico, tira coelhinhos brancos da cartola.
Se for cientista, descobriu a máquina do tempo e anda a passear no futuro.
Qualquer uma das hipóteses nos parece plausível, por isso, colocamos as duas.
Eu e o narrador voltamos para casa. Para investigar o caso.

*O narrador desta história não é omnisciente, mas reserva-se o direito de saber certas coisas. Uma delas é esta: o senhor que se passeia no parque não é louco nem actor.