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segunda-feira, 30 de julho de 2018

A última sílaba

Não percebo grande coisa de francês, mas aprecio o idioma. Sou sobretudo sensível aos seus malabarismos fonéticos. De todas as delícias da língua francesa, o que mais me atrai é mesmo o acento tónico. Cai quase sempre na última sílaba, a marcar o compasso.
Bonjour. Rendez-vous. Merci beaucoup.
É bonito.
As palavras terminam no auge da sua existência, altas e sonoras, cheias de expectativa e juventude.
Liberté. Égalité. Fraternité.
Em português também existem as chamadas palavras agudas, mas a nossa língua é mais dada a palavras graves.
É pena. As palavras graves não têm tanta graça. São mais discretas e resignadas. O acento cai-lhes na penúltima sílaba. Não encorajam o sonho nem o sorriso. Sobem e descem logo a seguir. São palavras decepcionantes.
Em francês, passa-se o oposto. As palavras têm um final feliz. Saem para o mundo com grande exuberância e positivismo, de rabinho empinado. Estou aqui a pensar que talvez por isso a língua francesa esteja tão associada ao romance e à sensualidade. Bougies. Bijoux. Bisous.
Fico com vontade de utilizar mais palavras agudas no meu discurso em português. A bem da minha felicidade e autoconfiança.
Por exemplo: canapé tornedó frenesi. Ou então: cafuné quiçá aqui. Chuchu rodapé querubim.
Chega de palavras graves na minha vida. As agudas têm um efeito positivo no meu bem-estar.
Bambu duplex Bogotá. Aliás canguru javali.
Uh là là. Um dó li tá. Estou a adorar este parlapiê.
Jacaré paletó croché. Sofá chulé assim.
E agora as minhas preferidas: sururu dominó abacaxi.




sexta-feira, 4 de março de 2016

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segunda-feira, 19 de maio de 2014

O senhor Antónimo

Ninguém sabe de onde vem o senhor Antónimo. Se lhe perguntam, não responde. Se insistem, começa a guinchar. O senhor Antónimo não presta contas a ninguém. Não trabalha, não paga impostos, não recebe, não gasta. Não é eficiente, nem pontual, nem responsável. O senhor Antónimo não sabe ver as horas nem olhar para um mapa. Se calhar, anda sempre perdido. Além disso, tem uma estranha forma de caminhar. Quando avança com o pé direito, inclina-se para esquerda. Quando avança com o esquerdo, inclina-se para a direita. De vez em quando, tropeça e bate com a cabeça, escorrega em qualquer coisa, cai no meio do chão. Como está escuro, anda sempre aos tombos. É que o senhor Antónimo dorme durante o dia e só sai de casa à noite. Vai vivendo disto e daquilo, come o que os outros deitam para o lixo. O senhor Antónimo nunca foi ao jardim zoológico. Nunca comeu um gelado. Nunca comprou o jornal. É um homem muito velho, mas parece um menino pequenino. Se lhe dizem "Bom dia", deita a língua de fora. Se lhe dizem: "Faz isto", ele faz outra coisa qualquer. Se lhe dão um abraço, ele dá pontapés. Se lhe dão de comer, ele cospe. Se lhe oferecem qualquer coisa, ele recusa. O senhor Antónimo não quer ficar a dever nada a ninguém. Não tem um clube de futebol nem joga no Euromilhões, porque não acredita na sorte nem na Virgem Maria. O senhor Antónimo não gosta de pessoas nem de bichos nem de plantas nem de pedras nem de santos. Não bebe café com leite, não come torradas, não boceja nem se espreguiça. O senhor Antónimo está sempre do contra. Como se não bastasse, veste sempre a roupa do avesso e depois ri-se, porque as etiquetas lhe fazem cócegas no queixo. O senhor Antónimo não sabe ler nem escrever, está-se borrifando para o mundo. Quando o puxam de um lado, vai para o outro. Se o tratam bem, reage mal. Se lhe pedem um favor, diz uma asneira. Nunca toma banho. Nunca sorri. Nunca pisca os olhos. A única coisa que o senhor Antónimo gosta de fazer é correr atrás dos ratos e falar sozinho numa língua esquisita que ninguém entende. Se a rua vai para cima, ele vira para baixo. Se a seta aponta para a direita, ele vai para a esquerda. O senhor Antónimo não vai propriamente a lado nenhum. Anda por aí à deriva. Não sabe de onde vem nem para onde vai. É esgrouviado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Da Sinonímia

A Sinonímia era uma menina alegre, o que não quer dizer que fosse feliz ou afortunada. Na verdade, tivera uma infância triste, e não propriamente uma infância dura ou fúnebre. A Sinonímia sorria muito porque era nervosa, o que não quer dizer que fosse agitada ou enérgica. Por causa disso ou apesar disso, a Sinonímia comia muito, o que não queria dizer que dilacerasse a comida ou desfrutasse dela. A Sinonímia era feia, o que não quer dizer que fosse repugnante, era só feia. Usava um par de óculos monumental e não sumptuoso ou magnífico. A Sinonímia não era boa aluna, o que não quer dizer que fosse má. Era uma menina muito preguiçosa, o que não significa que fosse lenta ou frouxa, pelo contrário: era veloz e activa. A Sinonímia aprendeu a tocar piano, o que não quer dizer que compreendesse alguma coisa de música. A Sinonímia não fazia propriamente amigos, o que não quer dizer que a Sinonímia não fosse uma pessoa amigável. No entanto, era uma pessoa apoucada, o que não significa que fosse estúpida. Falava muito, o que não quer dizer que conversasse. Tendia a ser uma pessoa compreensiva, o que não quer dizer que fosse inteligente. A Sinonímia era, como todas as outras pessoas, única.
O que não quer dizer que fosse excepcional ou incomparável. Pelo contrário.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

oração subordinada final

trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Frase sem sinais de pontuação

Para a Marta.

Chegou a um sítio qualquer como aliás sempre chegava por estar sempre a ir ou a vir de outros sítios que não aquele onde morava e ao sentar-se pensou que gostaria de ficar sentada por um tempo suficiente quase próximo do eterno para que fosse possível descansar as pernas e os braços e os ombros e a cabeça e o tronco e nesse preciso momento levantou-se e pensou que o facto de andar de um lado para o outro sem nunca voltar era contra natura já que tinha um sonho dentro de si no qual era uma árvore afunilada como o pinheiro manso de todos os natais que alguém plantara numa só terra de onde não era possível sair por as raízes serem profundíssimas e então pensou como era bom estar num sítio bom com bom tempo e todo aquele tempo quase próximo do eterno e lembrou-se de repente daquele lugar bom onde alguém lhe dava água para que os seus braços crescessem e as suas folhas não morressem e disse a si própria que as suas raízes tinham ficado nesse sítio onde era sempre possível voltar e por isso chamou àquela mão que lhe dava água amizade e apelidou a sua sede de saudade e decidiu partir não para outro sítio que não aquele onde morava mas sim para o lugar onde nascera o pinheiro manso de todos os seus natais

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Erros de pontuação

O professor de português, que era uma pessoa ponderada, profunda, progressista, pró-activa, mandou: "Escrevam uma composição sobre as várias fases da vida!" e os alunos escreveram. Nessa noite, o professor sentou-se contente à secretária para corrigir os trabalhos. Um dos rapazes, que era mau aluno, mau escritor, mal amado, malcriado, mau humor e mau-olhado, escreveu um texto com vários erros de pontuação. O professor abanava a cabeça enquanto lia. Pensou: "Este rapaz não respira enquanto escreve" e releu o texto para o corrigir:

"Há três fases da vida: a infância a adolescência e a vida adulta, a diferença entre elas prende-se com a forma como a felicidade é encarada, senão vejamos: as crianças dizem que estão felizes quando estão felizes e que estão tristes quando estão tristes para que os outros saibam como se sentem, os adolescentes dizem que estão tristes mesmo quando estão felizes porque acham que estão sempre tristes e os adultos dizem que estão felizes quando estão tristes e que estão tristes quando estão desesperados porque acham que controlam o que sentem e não querem que os outros o saibam, assim a fase mais feliz da vida é a infância porque as crianças sabem o que querem."

O professor concluiu: "Este rapaz põe vírgulas quando deve pôr pontos e não põe nada quando deve pôr vírgulas!". Levantou-se e foi à casa de banho. Por uma estranha associação de ideias, o professor lembrou-se do ponto de interrogação e fez várias perguntas aos seus botões. Depois desenhou mentalmente um ponto e vírgula e respirou fundo. Sentou-se à secretária, corrigiu o texto do mau aluno a vermelho e escreveu no final: "Atenção aos sinais de pontuação".
De seguida o professor fechou a caneta e ficou a olhar para ela alguns segundos. Pensou: "Abre um parêntesis" e, de repente, sem pré-aviso, começou a chorar convulsivamente como nunca chorara antes. O seu descontrolo era tal que chorou até adormecer de exaustão.
Acordou de madrugada com a cabeça em cima do mesmo texto, tinha os olhos inchados e a boca seca. Leu a frase a vermelho: "Atenção aos sinais de pontuação" e releu-a várias vezes. O professor não percebia o que lhe tinha acontecido e quis fingir que nada se tinha passado. Pensou: "Ponto final, parágrafo" e gritou enraivecido: "Fecha parêntesis, fecha parêntesis!". Dir-se-ia que o professor não conseguia controlar o que sentia.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Discurso recursivo

Era um monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada amarela tinha quatro janelas de tamanhos diferentes das quais uma estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava sentada num sofá tricotando um longo novelo que a filha lhe oferecera a qual tinha pena da mãe cujo marido morrera há pouco tempo o qual era viticultor e bom bebedor o que não era mau nos dias de festa mas que não era bom para a saúde pela qual a mulher rezara todas as noites que eram sempre frias no alto do monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada azul tinha uma longa varanda onde se espreguiçava um gato que começou a lamber as patas que lambiam depois o rosto o qual era bonito e meigo à excepção dos olhos selvagens que eram cinzentos como o céu daquela tarde que descia devagar sobre aquele monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada vermelha tinha uma porta vermelha por cima da qual havia um telhado de barro por baixo do qual estava um ninho redondo dentro do qual dormiam as andorinhas mais jovens que tinham chegado há uns dias com as andorinhas-mãe que voavam agora à altura da janela amarela que estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava de pé acenando para as andorinhas que eram tão belas que a faziam esquecer a morte e agradecer a Deus o qual estava no céu acenando para o monte que tinha socalcos e que vendo toda a sua obra a considerou muito boa.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A frase

Não consigo pensar no que sinto, ponto final. Ela sabia a frase de cor e ia dizê-la assim que chegasse, à pressa, à pedrada, aos gritos. Bastar-lhe-ia dizer a primeira palavra para as outras saírem de seguida, em fila indiana, uma após a outra. Se ele não viesse a correr para a porta, já não a apanhava pois ela teria desaparecido por uma porta travessa. A frase era tão curta que não precisava de respirar a meio e talvez ainda tivesse fôlego para um beijo, se ele a agarrasse. Repetiu as palavras de si para si, era uma excelente frase para resumir o inexplicável: Não consigo pensar no que sinto.
Depois divagou um pouco. Era uma bela imagem aquela (se ele a agarrasse), ele a roubar-lhe um beijo, ela ainda em fuga. No fundo tudo seria mais simples, se a vida fosse uma banda desenhada. Pendurava-se as frases em qualquer lado com molas de madeira e o resto eram quadrados de imagens, sem pressa nem contradições: ela a dizer, ele a ouvir, ela a fugir, ele a puxar, ele a beijar, ela a deixar. Seriam as imagens perfeitas de eles próprios.
No cimo da rua aparecia então a casa e ela subia decidida, os passos largos e a cabeça erguida, tinha seis palavras coladas ao céu-da-boca e saboreou-as uma última vez antes de entrar. Ele esperava-a afinal cá fora e ela quase tropeçou nas pernas ao vê-lo. Nesse momento desconcentrou-se, esqueceu-se, desculpou-se e engoliu as palavras com a última leva de saliva. Os olhos dele puxavam os olhos dela, quatro olhos escancarados, extasiados, encadeados. Não disseram nada e os olhos dele começaram de repente a afastar-se, passaram brevemente pela testa dela e subiram em direcção ao céu. Ela olhou para onde ele olhava e o que viu espantou-a.
No alto da sua cabeça surgia um balão enorme que trazia escrito: Agarra-me. Depois olharam os dois para a rua e viram mil e um balões brancos alinhados no passeio. Diziam: Não consigo pensar no que sinto. Ficaram a ver os balões subir durante muito tempo, não disseram nada. No final, quando os balões desapareceram no céu, olharam-se novamente, os olhos de um dentro dos olhos do outro. No meio deles brotaram então mil e um balões vermelhos, tinham a forma de coração e pulsavam sozinhos. Ele agarrou-a com uma mão e com a outra os balões. Subiram lentamente até às nuvens. Eram a imagem perfeita de eles próprios, não pensavam no que sentiam.