quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Uma rosa no PNL!


Pétalas e picos!🎉

Este nosso livro acaba de entrar no Plano Nacional de Leitura. Fica assim mais próximo das salas de aula, que é onde ele deve estar, parece-me. 

Sempre que volto a ele, também eu regresso às minhas salas de aula. Por um lado, volto ao primeiro ano da primária, quando aprendi a ler e a escrever e, por outro, volto às aulas de Linguística na Faculdade de Letras, quando desaprendi a ler e a escrever.

É talvez o meu texto mais teórico ou filosófico (embora não seja teórico nem propriamente filosófico). Fala de coisas, animais, plantas (e tudo o que existe ou já existiu ou poderá existir) e também fala das palavras que nomeiam as coisas, os animais e as plantas (e tudo o que existe ou já existiu ou poderá existir).

A certa altura fala também deste dilema das palavras, que não deixam de ser palavras porque nunca são verdadeiramente as coisas que nomeiam. Ou são?

Por exemplo, uma rosa.🌹

A palavra “rosa” é uma rosa? Podemos cheirar a palavra “rosa”? Podemos oferecê-la a alguém?

O livro é lindo, limpo e vivo graças à Madalena Matoso que, além de linda, limpa e viva, adora divagar. 

Esta nossa divagação sobre letras, imagens e gramática tem tudo a ver com os primeiros passos na língua e na existência.

E porque a minha pátria é a minha língua e a minha língua é o meu alfabeto, surpreende-me que as primeiras edições estrangeiras previstas para este livro sejam logo em grego e em coreano (!!!), idiomas que têm um alfabeto completamente diferente do nosso.

Como será a palavra “rosa” em coreano ou em grego? Alguém sabe?

Ei! Já estou a divagar outra vez. Perdoem-me.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

More amor por favor


 

Na montra da papelaria do bairro: “more amor por favor”.

Entro. Compro vários postais, compro uma última prenda e compro também uma recarga para a minha caneta. Escrevi pouco com a minha caneta este ano. Por um lado, não tinha tempo. Por outro, não tinha tinta.

De quando em quando a sensação de que isto já deu o que tinha a dar. 

Isto: a literatura, o ser humano, o planeta.

Cinco livros na mesa de cabeceira. Um deles ainda não comecei a ler, outro vai a meio, outro a dois terços, outro a três quartos, outro quase no fim; e nenhum deles me entusiasma por aí além. Ainda assim, leio. Para quê?

Vi a Annie Ernaux em março. Ela de microfone na mão, aos 82 anos, a dar-me respostas. “A literatura é ter uma frase para nós próprios, que possamos ler em silêncio.” Acrescenta: “E essa frase ajuda-nos a viver”.

Viemos ontem para Portugal. Eu, a minha caneta, o homem da minha vida, os nossos três filhos e as malas cheias de roupa e chocolates e um livro qualquer para ler nos intervalos. 

2023 quase no fim. Último capítulo.

Comecei a fazer bolos. Bolo de iogurte, bolo de chocolate, bolo mármore. O milagre da levedura, uma ideia a aumentar de volume. 

E de novo a sensação de que afinal sempre vamos dar a volta a isto. Cessar-fogo, eleições, energias renováveis.

Apercebi-me este ano de que os meus pais são fortes pra caneco. Sorte a minha, andar assim no mundo, rodeada de força. Os meus pais são a minha frase.

Os meus filhos deram um pulo. Já ninguém usa fralda nem chucha. Já ninguém faz sestas. Todos tão diferentes. Os meus queridos três porquinhos. 

Vi o Djavan em junho. O Caetano em setembro. A Madonna em outubro. A Mayra Andrade em dezembro.

Esta frase da Sheila Heti. “Only when a woman is no longer attractive to men, can she be left alone for enough moments to actually think.”

Este sambinha do Caetano: “Sem samba não dá.”

Pus finalmente o dispositivo intrauterino. Não quero mais filhos. Chiça. A ginecologista para mim. “Posso dizer-lhe uma coisa?” Pode, pode, claro. “O seu útero é muito bonito.” Eu e a médica na amena cavaqueira, duas mulheres, duas pessoas.

Uma reflexão da Djaimilia Pereira de Almeida: Pode uma escritora negra falar sobre outros assuntos que não o racismo? “Se eu falar sobre outras coisas, sobre a vista da minha janela ou uma futilidade qualquer que me apareça à frente… Posso fazer isso? Será que há espaço para isso, sendo eu uma mulher negra?”

O privilégio da escritora branca: escrever sobre futilidades, não escrever sobre raça, não escrever sobre privilégio, não pensar nisso sequer.

Ganhar consciência disso. A importância da ideia, da levedura.

Uma pessoa faz a diferença. Annie Ernaux, Caetano, Djaimilia, Mayra Andrade. Uma pessoa, uma voz, uma montra, uma frase.

Para quê? Para isto.

Boas entradas, amigos! Para o ano há eleições. 

More amor por favor.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

6 anos!


Come bastante. Esparguete à bolonhesa, bacalhau com grão, almôndegas da avó. Ri-se sozinho. Nem sempre explica por que razão se está a rir.

Faz planos para o futuro. Se hoje é segunda, amanhã é terça e depois é quarta. Quer saber em que dia vamos para Portugal. Digo-lhe, por exemplo: “Faltam 40 dias.” Ele diz: “Isso é muito tempo.” 


Conto-lhe tudo o que vai acontecer ao longo dos 40 dias. Primeiro vamos ao cabeleireiro, depois são as férias de outono, depois é o teu aniversário, depois montamos o pinheiro de Natal e depois vamos para Portugal. Ele decora: cabeleireiro, férias, aniversário, pinheiro, Portugal. 


Desenha que eu sei lá. Folhas e mais folhas. Carros, sapatos, pistas, mapas, monstros, super heróis e também este menino dentro de um coração no meio da chuva. 



Diz muitas vezes: “Vou pensar”. Ou então: “Estou a pensar”. E também: “Não faz mal.”

No outro dia, ao entrar no elevador, perguntou-me: “Eu sou fofinho?” Sim, sim, és muito fofinho, disse-lhe eu. Subimos no elevador, felizes com a sua fofura.


Fala muito alto. Peço-lhe que fale mais baixo. Ele diz: “Não consigo.” Pergunta-me se quero brincar com ele. Digo-lhe muitas vezes que não posso. Vou dar banho ao mano, digo-lhe eu, ou vou fazer a sopa, ou ainda estou a trabalhar. 


Por vezes lá me sento. “Vamos jogar ao jogo da glória!”, diz ele. Bora lá, então. Ele lança os dados e explica as regras, antecipa os movimentos. Diz: “Se calhas aqui, desces. Se calhas aqui, sobes.” Vai comentando o jogo. “Mamã, tiveste muita sorte.” Ou então: “Não tiveste sorte.” Quer ser ele a ganhar mas não gosta que eu perca. “Vamos ganhar os dois.” 


Gosta de ir à escola. Tem uma grupeta de amigos, todos rapazes. Nasceram em Bruxelas, mas são todos estrangeiros. O pai de um deles é sírio, a mãe de um deles é alemã. Falam todos francês. 


Gosta de ser o irmão mais velho. Muitas vezes é ele que põe fim às brigas dos irmãos. “Olha o meu umbigo”, diz ele. Os irmãos param de chorar, começam a rir. 


No outro dia, a caminho do cabeleireiro, disse-me que não queria o cabelo muito curto. Que gostava da franja mais comprida. Explicamos o seu pedido à cabeleireira. Ficou satisfeito com o resultado.


Há umas semanas sonhou que toda a gente andava na rua de cuecas. Cada vez que fala neste sonho, farta-se de rir. Diz coisas assim: Eu vou comer 10 vezes este arroz. Eu gosto tanto de ti para sempre. Eu quero secar o cabelo todos os dias.


Faz aviões de papel. Salta à corda. Constipa-se. Arrota. Pede desculpa. Ainda não perdeu nenhum dente. Ainda me pede colo. Adormece sozinho. Distrai-se facilmente. Diz coisas que o fazem rir: pum do rabo, sanita velha, mamã cocó. 


Adora pepino. Adora o Pikachu. Adora carros: carros de corrida, carros antigos, carros elétricos, telecomandados. Está a aprender a ler e a escrever. Tem uns olhos grandes, lindos, cintilantes. 


É dos mais novos da turma, é o mais velho dos irmãos. Faz hoje 6 anos. Já soprou uma vela ontem, já soprou essa mesma vela de manhã. Vai soprar outra vela na escola e depois em casa outra vez e depois há de soprar na sua festa, no próximo sábado. 


Isto é celebrar até cansar. 


Uma salva de palmas. Uma salva de palmas. Uma salva de palmas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Mary John vai à escola!

Nunca é demais rever a matéria dada.

O meu terceiro livro, que fala precisamente de amores não correspondidos, nem sempre foi acarinhado e compreendido. 

É coisa que nos acontece a todos nós na vida real e também à jovem Mary John na sua história de ficção. O romance inclui asneiras, insultos, anedotas porcas e também palavras como “minete”, “passaroca” e “bardamerda”. 

Talvez por isso Mary John não tenha entrado logo-logo para o Plano Nacional de Leitura. Demorou uns anos, creio, mas depois lá deu o salto e chegou às escolas e às bibliotecas, isto é, aos seus leitores.

Ora, para meu espanto e deleite, dou agora de caras com um excerto de Mary John no manual escolar do 9.o ano de Português da Porto Editora. O excerto não contém asneiras nem anedotas porcas, claro, porque, a bem dizer, a Mary John fala de coisas bem sérias, não se enganem. Fala, por exemplo, do destino. 











    No exercício 3 relativo ao excerto selecionado, pede-se aos alunos que reflitam e escrevam sobre o sentido da vida, sobre a necessidade (ou não) de definirmos um plano para o futuro.

    Feliz e expectante em relação ao futuro, peguei na minha canetinha e fiz também o exercício 3.

    Chegar com este livro aos manuais escolares, às aulas de Português, a este exercício de reflexão é, para mim, chegar a um lugar desconhecido. É não perceber bem em que sítio estou. Por isso entro devagar e um pouco a medo. 

    No fundo, chegar aos manuais escolares é um pouco como chegar à idade adulta. Uma pessoa abre a boca, fala de boca cheia, e os outros, para nossa surpresa, não só nos ouvem como nos levam a sério. 

    Crescer é de facto uma coisa muito intimidante. Não estava preparada para isto.

    segunda-feira, 28 de agosto de 2023

    Os músculos cá dentro


    Pensávamos que era só um, afinal eram dois. Duas bolsas, duas placentas, dois bebés. Um haveria de ser menina, disse eu para os meus botões e para as minhas placentas e os meus cordões, mas disse mal, claro. Era um rapaz mais um rapaz que se vinham juntar ao outro rapaz que já cá andava.

    Brotaram há quatro anos. Um pesava dois quilos e o outro três. São agora do mesmo tamanho. 

    Gostam os dois de ovo cozido, de bolacha Maria, de esparguete à bolonhesa. Um diz: “Sou muito rápido”, o outro: “Eu ando devagar”. Um corre atrás da bola, o outro senta-se no chão. Um é mais doces, o outro é mais salgados. Nenhum deles gosta de pepino. Têm os dois medo de cães. Têm os dois medo do escuro. Um gosta de crocodilos, o outro gosta de bateria. Um está sempre a desenhar o sol, o outro aponta para a lua. Repetem tudo o que dizemos. Parecem uns papagaios. “Cuidado, que está quente.” “Cuidado, que está quente.” “Cuidado, que está quente.”

    Correm os dois para o meu colo. Dizem: “Sou pequenino”, mas depois corrigem: “Eu sou grande”. E depois: “Eu sou pequenino e sou grande”, o que até é verdade. Crescer é tramado.

    São bastante diferentes mas toda a gente os confunde. “Tu és este ou és aquele?”, perguntam as pessoas interessadas. Um sorri timidamente, o outro grunhe ou berra ou diz simplesmente: “Vai-te embora”. As pessoas, coitadas, vão-se embora, mas nenhum responde à pergunta. Adoram ser um mistério ou não querem saber desse mistério, ainda não percebi bem.

    Quando os vou buscar à escola, estão quase sempre juntos. Andam de mão dada, correm atrás um do outro, brincam aos pais e às mães. 

    Um anda sempre sujo. Ténis imundos, unhas pretas. O gelado escorre-lhe pelo pescoço, pelos braços e ele quer lá saber, não se queixa. É cá dos meus. Enfia as mãos na comida, esborracha o arroz, o feijão, o tomate, adora plasticina, areia e terra molhada, salta para dentro das poças.

    O outro anda sempre direitinho. Sacode os sapatos para se ver livre da areia, pede toalhetes para limpar as mãos e a boca, chora quando se molha, olha-se ao espelho, quer estar penteado. 

    Assim que entram em casa, querem brincar com os legos. Um junta duas peças. Diz: “É uma mota”. O outro diz: “Não é uma mota.” Sim, é. Não, não é. Sim, não. Sim, não. Acaba-se a amizade. Tabefes, empurrões, arranhadelas. É preciso separá-los. Ralho com os dois, obrigo-os a pedirem desculpa. Pedem desculpa um ao outro, mas continuam a odiar-se em silêncio. Há sempre um que se fica a rir. “Pára de olhar”, diz um, mas o outro não pára. “És cocó”, diz este. E voltam a andar à bulha.

    Quando saímos de casa há sempre um a chorar. Alguém bateu em alguém, aqueles imperativos do costume: “Não batas”, “Não empurres”, “Não digas”.

    Levo os dois a passear no bosque. Um vai à frente, o outro atrás. Brincam os dois com pedras, paus, folhas. Chamam um pelo outro. Encontraram uma lesma ou um cocó ou um caracol. Um quer ir por aqui, o outro por ali, um pede água, o outro chocolate.

    De vez em quando anoto as frases que eles dizem. Por exemplo: “A lua não tem olhos”. Ou esta aqui: “Eu tenho músculos cá dentro.”

    Não correm da mesma maneira, não choram da mesma maneira, não brincam da mesma maneira. Mas querem os dois iogurte de baunilha, querem os dois andar no baloiço, falam os dois de sonhos maus. 

    Toda a gente lhes troca os nomes, toda a gente os trata como uma união. Não há um sem o outro. Um é a parte do todo. Mas cada um existe à sua maneira.

    Que sigam felizes e bruscos por este bosque adentro, tão diferentes e tão parecidos, tão pequeninos e tão grandes, sempre atrás um do outro, com os seus pés, os seus nomes, os seus medos e também com os seus mistérios e os seus sonhos e os seus desejos.

    Com todos estes músculos que temos “cá dentro”.

    terça-feira, 8 de agosto de 2023

    41

    Na escola dos miúdos sou sempre a mamã de não sei quem. Os emails das professoras começam assim: “Chère maman de …” 

    Para os vizinhos e para o farmacêutico, a cabeleireira, o oculista, etc., sou Madame para aqui e para ali. Aos poucos vou deixando de ter um nome.


    Os meus filhos correm para mim quando os vou buscar à escola. Gritam: “Mamã, mamã, mamã”. É possível que também eles não conheçam o meu nome próprio, o que é bastante freak e chocante e absolutamente normal. 


    Estou feita uma mãezinha. Nunca pensei. 


    Levo os meus filhos ao parque, à gelataria, ao dentista. Ralho com eles na passadeira. Queimo o braço a escorrer esparguete. Como os restos do jantar. Aprecio os raros minutos de silêncio. Faço notas mentais que não cumpro: marcar otorrino, comprar meias, cortar as unhas.


    Volta e meia dormem a noite toda. Nas manhãs seguintes, amo-os um pouco mais. Depois um deles dá uma cabeçada noutro e lá se vai o amor pelo ralo. Incondicional, o tanas. 


    Zango-me com o agressor. Repito certas frases. “Não batas no mano”. A melhor frase é dita aos gritos: “Pára de gritar.” Muito bem, Ana Pessoa.


    Por vezes, o mais velho diz-me: “Tu és a mais bonita das mamãs”. Grande peta. Sou tipo a mais feia. Escovo o cabelo: continuo despenteada. Prendo o cabelo: continuo despenteada. Olho-me ao espelho. Vem-me à cabeça o título de um dos meus livros. “O que é isto?”


    Uma prima disse-me que os meus filhos parecem três patinhos sempre atrás da mamã. É capaz. Nos dias bons acho que dou conta do recado. Nos dias maus tudo me enerva. 


    Por vezes, o mais velho também me diz: “Estás sempre zangada”. Dou por mim ainda mais zangada a dizer-lhe: “Isso não é verdade!” Mas claramente é. Quá, quá, quá.


    Tento distrair-me da vida doméstica. Leio um bocadinho. Escrevo um bocadinho. Rezo um bocadinho. 


    Isto de rezar é mentira. Não rezo, mas já rezei embora nunca tenha tido um terço. Às vezes imagino essa vida paralela em que eu teria um terço e rezaria dez Avé Marias de seguida. Há versos bonitos nessa oração. “Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre”.


    Voltei a jogar sudoku. Saquei uma app. Abri conta no TikTok. Vi aquela série portuguesa de que toda a gente fala. Gostei muito de uns episódios, detestei outros. Enfim. Esforço-me por continuar a ser profundamente medíocre. Nesses intervalos volto a ter um nome.


    O homem da minha vida não é o papa Francisco nem Jesus de Nazaré. É um primata, herege, engenheiro, comum mortal e também ele profeta e justiceiro, com vocação para a retórica, a carpintaria e o milagre. A voz dele. As frases, os gestos, a barba, as pernas. A maneira como brinca com os rapazes. A maneira como entra no mar. “Agora e na hora da nossa morte”.


    Um dia destes, passou na Vagos FM um hit dos anos 90. Aquele assim: “Ó mãe, aquele moço bateu-me.” Eu vinha ao volante e os três patinhos atrás. 



    Aumentei o volume: “Deu-me um pontapé no cu.” Os miúdos barafustaram porque um deles queria outra música, o outro não queria música e o terceiro queria silêncio absoluto, ninguém podia cantar nem falar nem rir nem ouvir nem pensar. Mandei-os calar. Um pontapé no cu, era o que eles mereciam.  As crianças são egoístas, mesquinhas, cruéis. Iguaizinhas aos adultos. Cantei bem alto: “E tu não dizes nada. Mas que raio de mãe és tu?” 


    Depois ri-me sozinha porque ainda há pouco era eu que dava - e levava - pontapés no cu e agora sou a mãe que não diz nada. 


    Depois parei de rir porque isso afinal não tinha piada nenhuma. Ainda há pouco eu tinha uma voz e agora não digo nada. Ainda há pouco eu tinha um nome e agora sou mãe de não sei quem. Ainda há pouco eu rezava e agora não acredito. 


    Ultimamente tenho reparado que me falha de vez o quando o otimismo, aquela confiança no outro e no futuro. Não é fácil carregar com o mundo às costas. Daí este fascínio pelo terço.


    Mas depois uma pessoa olha, por exemplo, para a Ria Formosa e só pode comungar com as dunas, as lagoas, as matas e todos os peixes e moluscos e aves raras e não raras. Com o tempo perdi a fé no divino, mas abracei os seres vivos e não vivos e profundamente terrestres. 


    Ou seja, sou ateia mas não descrente. 


    De resto, olhem. Num dia temos 14 e no dia seguinte 41. 

    terça-feira, 1 de agosto de 2023

    segunda-feira, 10 de julho de 2023

    Uma rosa a nascer

    “Este gelado parece uma rosa a nascer”, disse ele. 

    De seguida, feliz com a sua frase, deu mais umas lambidelas no seu gelado feito rosa, até que desistiu dele e passou-o para a minha mão. “Não quero mais”, disse ele. 

    Eu fiquei a observar o gelado a derreter muito rápido, o meu filho a crescer muito rápido. Às tantas lembrei-me daquele poema do António José Forte que começa assim. “Um dia uma rosa nasceu na tromba de um elefante”. 

    Depois pensei, por exemplo, na rosa absolutamente branca que captei no outro dia, primeiro com o olhar e depois com a lente do telemóvel. Uma rosa tão perfeita que parecia mentira e talvez fosse realmente mentira aldrabice ficção.

    Depois pensei naqueles assuntos de sempre: que as coisas se transformam noutras coisas, que os filhos se transformam em poemas, que tudo cresce corre morre derrete, que mesmo assim as rosas continuam a nascer e são tão belas tristes banais e tão perfeitas que parecem mentira.

    Que se lixem as rosas os gelados os filhos e os poemas, pensei eu de repente cansada de qualquer coisa, zangada com a delicadeza das rosas e da poesia. 

    Depois olhei para o gelado cada vez mais mole. 

    E depois, enfim, comi-o.

    domingo, 9 de julho de 2023

    Por exemplo, uma rosa filosófica

    No outro dia foi a vez da Joana Rita Sousa escrever sobre o meu mais recente livro. Sigo-a nas redes porque lida com temas que me são muito queridos: a filosofia e a criatividade no que toca às crianças. 

    No seu blogue apresenta-se como filósofa e “perguntóloga” (adoro este título).

    Sobre “Por exemplo, uma rosa” diz, por exemplo:

    Há livros assim: que nos provocam o pensar e o perguntar, que nos acompanham em diálogos inesperados e aos quais regressamos para nos permitirmos a voltar a pensar, a voltar a perguntar. "Por exemplo, uma pergunta".”

    Ler a crítica/leitura aqui:

    https://joanarssousa.blogs.sapo.pt/por-exemplo-uma-rosa-916897

    Por exemplo, uma fome insaciável

    No texto generoso que escreveu no Parágrafo desta semana a propósito do meu livro mais recente, Sara Figueiredo Costa usa a expressão “fome insaciável”. 

    Acho que se aplica bem a este livro e também ao meu apetite em geral, ao meu temperamento, à minha sensibilidade, à minha relação com o mundo e com a escrita. Tenho sempre água na boca, o que é que querem?

    E é por isso que eu nunca vou ser magra.



    sábado, 17 de junho de 2023

    Mar Negro na Antena 1

    Há umas semanas eu e o Bernardo Carvalho passamos pela Antena 1 para conversar com o jornalista Rui Alves de Sousa. Podem ouvir a entrevista no mais recente episódio do programa “Pranchas e Balões”, disponível na RTP Play: 

    https://www.rtp.pt/play/p9994/e697992/pranchas-e-baloes



    sábado, 27 de maio de 2023

    Por exemplo, uma rosa

    Não se enganem. Um livro é como qualquer outro ser vivo: demora a germinar, a crescer, a existir. É certo que o Mar Negro e esta Rosa desabrocharam na mesma estação, mas vieram de lugares (e de estações!) bem diferentes.

    Este livro novo, que para mim já não é novo, foi crescendo devagarinho até que certo dia (há mais de um ano) floriu na minha cabeça. Como uma rosa.

    Primeiro, era só uma lista de palavras. 

    Chapéu, frigideira, guarda-sol, pica-pau, cenoura, alegria, vulcão.

    Que lista é esta?, perguntavam os animais e os objetos que lá iam parar, mas ninguém lhes respondia, nem mesmo eu, que continuei a fazer esta lista ao longo de meses (anos!). Mamute, macieira, raposa, trovão.

    Chamei essa lista “Tanta coisa” e durante muito tempo pensei que estaria a fazer exatamente isto: um compêndio de palavras, um mostruário de tudo o que existe ou já existiu, tudo o que poderia existir ou imaginamos que exista.

    Boca, escova, moinho, bicicleta, caranguejo, outono, cascata, calor, barulho. Talvez esta lista viesse a ser - quem sabe - um dicionário ilustrado ou um atlas universal. Mas durante meses (anos!) foi só mesmo uma lista com cada vez mais tralha. 

    Às tantas comecei a criar ligações entre as palavras. Separei-as por grupos. Havia, por exemplo, uma lista das coisas que giram e rodam e outra lista de coisas que abrem e fecham. E por aí fora.

    Aos poucos, de tanto pensar em coisas e palavras, apeteceu-me menos falar das coisas do que das palavras que designam as coisas. 

    A partir de que momento uma palavra é uma coisa? A partir de que momento uma coisa é uma palavra? Será que uma palavra se transforma de facto na coisa que designa?

    Por exemplo, uma rosa. 

    “Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”, escreveu Gertrude Stein no início do século passado. Poderá ser o verso mais inquietante de todos, pelo menos do ponto de vista dos estudos linguísticos.

    Sem dar por isso, fui abandonando a minha coleção de palavras e fiquei só a pensar sobre elas. 

    Não há como evitar o nosso destino, que é o mesmo que dizer: não podemos fugir ao nosso sentido, ao nosso significado. E eu não sou colecionista nem acumuladora. Sou escritora, tradutora, linguista, linguaruda. Adoro fonemas e palavras e até os espaços entre as palavras.

    Depois da pandemia, dei por mim a regressar aos calhamaços de linguística. Morfologia, fonologia, etimologia, sintaxe, semântica, as possibilidades infindáveis da linguagem. Por causa destas minhas indagações, retomei também certas obras dos surrealistas, essas almas subversivas que puseram em causa os pressupostos da gramática. Assim surgiu este meu novo texto, que não é um dicionário nem um mostruário nem um prontuário nem nada que se pareça.

    “Por exemplo, uma rosa”, além de ser uma homenagem ao tal verso enigmático da Gertrude Stein e à sua autora, é acima de tudo uma reflexão muito pessoal sobre isto de estarmos num mundo cheio de palavras, coisas e imagens. O que fazer com as letras, com os nomes, com as palavras?

    Quando terminei de escrever o primeiro esboço, num final de tarde em abril do ano passado, percebi que tinha em mãos, não um cachimbo, mas um texto de introdução à linguística (what?) que explicava também a génese da minha relação com o mundo e com a escrita. 

    No email que enviei à editora Isabel Minhós Martins perguntava-lhe “Isto é um livro?”. No meu íntimo desejava que ela me respondesse: “Sim, é um livro”. No meu íntimo desejava também que o texto viesse a ser ilustrado pela Madalena Matoso, a mais linguista e subversiva de todas as ilustradoras.

    Os meus desejos tornaram-se realidade e trago agora este livro ao peito, como um amuleto. Muito do que sou está lá dentro. Tratem-no com carinho, please.

    https://www.planetatangerina.com/pt-pt/loja/por-exemplo-uma-rosa/

    segunda-feira, 15 de maio de 2023

    O lugar de origem



    De vez em quando os meus filhos mais pequenos dizem-me que querem voltar para a minha barriga. Um deles vai mesmo ao ponto de enfiar a cabeça por baixo da minha blusa. Diz: “Eu quero entrar” e ali fica, cabeça enfiada na mãe.

    A culpa há de ser minha, que estou sempre a falar-lhes desta sua terra natal. Conto-lhes que um estava à direita e o outro à esquerda, um virado para cima e o outro para baixo, que um andava sempre aos pontapés e o outro quase não se mexia. Eles conhecem bem a história e repetem-na vezes sem conta. “Quando eu era pequenino, eu estava na barriga da mamã” e depois riem-se, felizes com o seu lugar de origem. O mais velho também se interessa pelo assunto. Quer saber que tamanho tinha dentro da minha barriga. Se era assim, assim ou assim.

    No outro dia li esta frase da Susana Moreira Marques: “Talvez todas as viagens - no país ou fora do país - sejam feitas para termos a certeza de onde vimos.” É importante lembrarmo-nos do ponto de partida. Independentemente do destino, independentemente da travessia.

    Eu venho da minha mãe. 

    Sou muito parecida com ela e muito diferente também. A minha mãe ri-se muito alto (eu também), não adora cozinhar (eu também não) e vive bem sem literatura (já eu, morreria). Sempre me falou com franqueza, nunca me tratou com paninhos quentes (eu sou bem mais mole com os meus filhos). Dizia-me, por exemplo, que a maternidade era uma coisa terrível. Que os filhos davam cabo das mães e dos pais, que a vida deixava de nos pertencer, que o corpo se transformava para sempre. Poderá ter sido a única mulher que me falou a verdade sobre esta coisa de parir um ser humano. 

    Como filha, sempre me angustiou ouvir estes desabafos. Como mãe, alivia-me bastante. Agora que estou deste lado, sinto-me ligada à minha mãe mais do que nunca. Nem o cordão umbilical nos terá ligado tanto uma à outra. Na verdade sinto-me ligada a absolutamente todas as mães - as de agora, as de antes e as que venham a ser -, como se os meus gestos fizessem parte de uma coreografia universal, como se eu falasse e atuasse em coro. Eu, a minha mãe, todas as mães no mundo inteiro, a embalar bebés em perfeita sintonia, a dar-lhes banho e raspanetes, a atirá-los ao ar, o musical das mães que correm atrás dos filhos. 

    Somos todas feitas da mesma massa, da mesma dor. De alguma maneira seremos todos filhos de uma mesma mãe, seremos todas mães (e pais) dos mesmos filhos.

    Esta visão do coletivo também se afinou com a maternidade. A ideia de que, salvo trágicas exceções que infelizmente não serão assim tão poucas, a maioria dos seres humanos teve, tem, terá sempre, uma mãe mais ou menos competente que lhe dá de comer, que lhe canta canções de embalar, que, de uma forma mais ou menos intensa, mais ou menos condicional, ama os seus filhos.

    A senhora da farmácia dá-me conselhos sobre probióticos e eu imagino a sua mãe, pergunto-me se ainda estará viva, se lhe dava beijinhos (ou estalos) por tudo e por nada, se a deixava sair à noite, se a apoiava ou criticava ou humilhava. 

    Pergunto-me o mesmo sobre as mães de todos os que apanham o 7 e sobre as mães dos condutores do elétrico, as mães dos sem-abrigo em frente ao Carrefour, as das miúdas tagarelas que passam por mim, as dos calmeirões que jogam futebol no parque, as do casal bonito na bicicleta, e as de todos os outros. 

    As mães dos reclusos na prisão de Saint-Gilles, as dos soldados ucranianos, dos refugiados em barcos de borracha, dos turistas em Lisboa, dos oligarcas russos. Leio as notícias e imagino o Costa a chuchar no dedo, a rainha Camila a fazer uma birra, o Joe Biden a gatinhar nos corredores. Sabemos de onde vimos e também para onde vamos.

    Hoje é dia da mãe na Bélgica e na maior parte do mundo, parece-me. Os meus filhos correm de um lado para o outro pela casa e eu ralho com eles, escondo a fita métrica antes que se magoem, faço um almoço que não me corre lá muito bem.

    Saímos de casa depois de comer. Eles à frente, eu e o pai atrás. Vamos ao parque. Eles andam às voltinhas de bicicleta, eu e o pai conversamos. Quando passam por nós, fazemos um barulhinho de meta. Tim tim tim tim, dizemos em uníssono. Um deles vem sempre atrás, mais devagar. Os outros dois passam a grande velocidade. Um dos rápidos estatela-se no chão, magoa-se na boca. Choro e colo, seguidos de mais choro e mais colo. Em dado momento distrai-se do seu sofrimento. Duas borboletas passam por nós. Entrelaçam-se uma na outra, numa dança baixinha, possivelmente macho e fêmea, o bailado intemporal da vida.

    Enquanto estamos no parque aparecem várias mães com os seus filhos. Algumas estão sozinhas. Uma mãe com um bebé de colo, uma mãe e um carrinho, uma mãe com duas filhas, uma mãe e um menino muito ativo. Também aparecem casais, sempre homem e mulher. E ainda pessoas com os seus cães.

    Há uns dias uma ilustradora sugeriu no Instagram que as mães passassem o dia das mães juntas, sem os filhos. Pareceu-me uma boa ideia para mim e para todas aquelas mães. 

    Os meus filhos jogam à bola com o pai e eu escrevo este textinho. Eles pedem-me água, batatas, bolachas, e eu fantasio com essa festa das mães sem os filhos. Uma festa para beber e dançar, mães do presente, do passado e do futuro a sambarem em cima das mesas, a rirem-se da prole. Às gargalhadas. 

    Isso, sim. Apetece-me.

    O mais velho oferece-me um desenho de flores e depois oferece-me flores de verdade, um ramo de rosas que comprou no supermercado com o pai. Duas das rosas já vêm partidas. Diz-me: “Hoje é o dia das mamãs e esse dia é bonito e tu és bonita.” Eu parto-me a rir. Ele diz, muito sério: “Eu não estou a brincar”. Os mais novos destroem mais duas rosas. Sobram meia dúzia. Um dos minorcas faz-me um bolo de areia, canta-me os parabéns. O outro vem para o meu colo, diz-me: “Eu sou um bebé”. Eu e o pai hesitamos com o fim de dia. Poderíamos jantar fora, mas talvez seja melhor voltarmos para casa. O meu marido faz uma massa perfeita com beringela e espargos. Amor da minha vida. Ele, eu e eles. A vida de repente muito fácil, feliz, deliciosa, bonita. E nada terrível.


    Na tal festa das mamãs sem os filhos, eu e a minha mãe apareceríamos vestidas de igual (por insistência da minha mãe, talvez de macacão azul elétrico). Passaríamos a festa a dançar. Nos intervalos, beberíamos bastante e falaríamos muito mal dos nossos filhos. E olhem que eu não estou a brincar.

    quarta-feira, 10 de maio de 2023

    Mar negro: o que se diz

    O que se diz do “Mar negro”:


    “Mas, acima de tudo, o que exala de "Mar Negro", é uma enorme naturalidade, a sensação de que o que lemos não é ficção, mas sim o registo de acontecimentos reais transpostos para o papel. De forma resumida, um retrato de vidas como elas realmente são.“


    F Cleto e Pina no Jornal de Notícias


    https://www.jn.pt/artes/amp/vidas-como-elas-realmente-sao-16177021.html


    “Como é consabido da escrita de Pessoa, o factor “o que os adultos pensam” não é de todo presente, e Mar Negro explora o diálogo directo entre os jovens. Havendo espaço para os adultos intervirem, é bem menos do que em Desvio, e poderíamos até analisá-lo como relativamente livre, descontraído, mas é quase irrelevante.”

    Pedro Moura no seu blogue Ler BD


    http://lerbd.blogspot.com/2023/04/mar-negro-ana-pessoa-e-bernardo.html?m=1


    "Depois de ler este Mar Negro, há que admitir uma coisa: Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho parecem estar a jogar um campeonato à parte na banda desenhada nacional. Escrevem e desenham histórias de uma forma que ninguém escreve ou desenha, e parecem direcionar-se para um público diferente do público habitual de banda desenhada. E isso terá todas as desvantagens, para alguns, mas também tem todas as vantagens para outros."


    Hugo Pinto no seu blogue Vinheta 2020


    https://vinheta2020.blogspot.com/2023/04/analise-mar-negro.html?m=1


    “Uma importante estória sobre a construção de identidade e as segundas escolhas no amor, com Carvalho a dar asas à imaginação na composição das páginas.” 


    Nuno Pereira de Sousa no site Bandas Desenhadas


    https://bandasdesenhadas.com/2023/04/20/melhores-ler-01/


    “Uma estória muito bem contada, com uma componente gráfica que não deixará ninguém indiferente. Argumento e ilustrações entrelaçadas da melhor forma possível!” 


    Susana Figueiredo no site Bandas Desenhadas


    https://bandasdesenhadas.com/2023/04/20/melhores-ler-01/


    “Eles regressaram! Ana Pessoa e Bernardo Carvalho voltam à novela gráfica com MAR NEGRO (Planeta Tangerina), e confirmam-se como desbravadores de caminhos nesta linguagem. O resultado é muito coeso e fluído, o que já era marca no livro anterior DESVIO. Com diálogos curtos em conversas ping pong que dão muito groove à leitura e uma planificação gráfica arrojada que “primeiro estranha-se e depois entranha-se” o livro deixou-me rendido ao estilo que estes dois estão a inventar. A liberdade está a passar por aqui.”


    António Jorge Gonçalves


    “Quanto à história, sabendo-a feita de texto e imagem de um modo indestrinçável, é visível a marca de Ana Pessoa, não tanto nas temáticas, mas sobretudo na sensibilidade com que consegue colocar-se no lugar das suas personagens. Aqui não há linguagens forçadas, nem aquelas imitações infelizmente tão comuns do que supomos ser a “forma de falar dos jovens”, mas há uma capacidade de situar a narração a partir de uma vivência interior que se aborda com respeito, complexidade e vontade de imaginar um certo mundo. 


    Sara Figueiredo Costa no Parágrafo de 28/4/2023


    https://pontofinal-macau.com/2023/04/28/leitores-em-construcao/

    terça-feira, 9 de maio de 2023

    Dia da Europa

    9 de maio, Dia da Europa🇪🇺

    Já disse isto antes, mas volto a dizer. Sou europeia até à pontinha dos meus cabelos espigados. Nasci em Portugal, estudei literatura alemã, fui bolseira do programa Comenius, trabalhei no Luxemburgo, morei na Alemanha, vivo há que tempos em Bruxelas, trabalho numa instituição da UE, leio em várias línguas europeias. Além disso, pago impostos, separo o lixo, tiro a senha, ando de transportes públicos. Penso, falo, voto. Também isto é Europa. A ideia de que há um coletivo, de que somos parte do todo, de que cada pessoa faz a diferença, de que ninguém está acima de ninguém, de que todos temos direitos, deveres, oportunidades, de que não estamos melhor sozinhos. 

    A União Europeia é o lugar onde todos e todas podem ser quem são. Onde as crianças vão à escola, onde as mulheres se podem vestir como quiserem e podem amar homens ou mulheres ou ambos ou nenhum dos dois e trabalhar, viajar, casar-se, divorciar-se. Onde as pessoas podem mudar de sexo, de religião, de opinião. Onde todos e todas podem tomar a iniciativa, assinar uma petição, participar numa greve, fazer uma reclamação, eleger e ser eleitos.

    Onde todos e todas temos direitos como titulares de dados, como pais de filhos, como filhos de pais, como trabalhadores, pacientes, artistas, cientistas, consumidores, passageiros, turistas, contribuintes e até como arguidos. Onde se luta pelo ambiente e pela sustentabilidade. Onde a discriminação, o racismo e a xenofobia são crime. Onde os mais vulneráveis são protegidos: os mais velhos, os mais novos, as pessoas com deficiência.

    A União Europeia pode não ser assim tão unida nem tão livre como eu acabo de a pintar, mas também já foi bem menos unida e bem menos livre. A ver pela amostra do resto do mundo, a União Europeia é a que está mais próxima dessa realidade. 

    É verdade que não tem tratado nada bem os refugiados nem os imigrantes. É verdade que não se portou bem com os países do Sul. É verdade que não cumpre as suas próprias regras e metas. Verdade, verdadinha.

    Mas é um lugar onde representantes de interesses diferentes, de ideologias opostas, se sentam à volta de uma mesa e conseguem chegar a compromissos. E isso, nestes tempos em que tudo parece estar em causa, não é coisa pouca.