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quarta-feira, 5 de março de 2014

As prioridades segundo a Ryan Air

Diálogo entre mulher extremamente grávida e senhora da Ryan Air:

- Desculpe, esta é a fila do embarque prioritário?
- Sim... Mas é só para titulares de bilhete prioritário.
- Ah...
- Deixe-me ver o seu bilhete, por favor.
- Eu estou grávida!
- Pois, mas tem um bilhete normal, vê? Os bilhetes prioritários dizem "Priority" em cima. Não é o seu caso.
- As grávidas não têm prioridade?
- Não. Os bilhetes prioritários são mais caros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Rodrigo e o carro


- Olá, Rodrigo! Tens uma Sininho?!
- Sim.
- Queres brincar com a Sininho?
- Sim.
- Sabes que a Sininho tem poderes mágicos?
- Sim.
- A Sininho voa.
- Carro.
- Como?
- O carro.
- Mas a Sininho não anda de carro.
- ...
- A Sininho voa, não anda de carro. E tem uns pozinhos mágicos para nós podermos voar também.
- ...
- Olha a Sininho a pôr uns pozinhos mágicos em mim. Plim, plim, plim! Agora estou a voar, vês? Olha eu a voar: Vrrrrrruuuuummm…
- Vrrrrrruuuuummm… (risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Vrrrrrruuuuummm… (ainda mais risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Carro.
- Isto não é um carro, Rodrigo, há outras coisas no mundo além de carros. Isto somos nós a voar. Queres voar com a Sininho?
- Não.
- Não queres?!
- Não. Vrrrrrruuuuummm… (risos)
- Vrrrrrruuuuummm…
- Carro.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Diálogo entre canadianas

- Ó vizinha, já viste que, se esta tipa não nos tivesse, se estatelava no chão?
- É um facto.
- Isso não te dá um certo gozo?
- Um certo gozo? Não, nenhum.
- A sério? A mim dá-me um gozo do caraças.
- O quê? Saber que a tipa se estatelava no chão?!
- Sim, mas sobretudo que precisa do nosso apoio.
- Ah, nesse sentido! É muito gratificante, sim.
- Gratificante?!
- Sim, o facto de podermos dar apoio.
- Ora essa! E a nós, quem nos apoia?
- Nós não precisamos de apoio.
- Não?! Eu acho é que nos contentamos com pouco. Esta tipa atira-nos assim de qualquer maneira para o chão ou contra a parede... Chego a ficar horas de cabeça para baixo.
- Certo. Mas não precisas propriamente de apoio. Nós somos o apoio.
- Exactamente. Nós é que somos o apoio! E, no entanto, ninguém nos dá valor.
- Claro que dá. Toda a gente nos dá valor!
- Não dá, não. Se nos dessem o devido valor, não nos atiravam assim para o chão ou contra a parede.
- Talvez...
- Ouve o que eu te digo: Se andássemos por aí a pregar rasteiras aos doentes, as pessoas respeitavam-nos mais.
- Não respeitavam, nada. Íamos era logo presas!
- Não íamos, não. Repara que as nossas rasteiras são tão rápidas e eficazes que ninguém ia dar por ela.
- Claro que iam.
- Não iam, não. As canadianas são como os mercados financeiros.
- O que são mercados financeiros?
- Não sei, mas parece que estão sempre a pregar rasteiras às pessoas e também ninguém se apercebe disso. Precisamente porque dão assim rasteiras muito rápidas e eficazes.
- Mas quando forem descobertos, vão presos.
- O quê? Os mercados financeiros?! Não vão, não.
- Por que não?
- Porque as pessoas têm muito respeitinho pelos mercados financeiros.
- Que raio?! Então, mas se eles passam a vida a pregar-lhes rasteiras...
- Pois, mas as pessoas são assim. Gostam de ser maltratadas. Já viste alguém a atirar mercados financeiros para o chão?
- Acho que não.
- Pois é... Mas nós passamos a vida aí largadas... Ninguém nos respeita, essa é que é essa.
- Tens razão, vizinha, devíamos fazer qualquer coisa para inverter essa situação.
- Olha, eu, por mim, atirava já esta tipa ao chão.
- Então, e depois?
- E depois, quando ela se levantar, atiramo-la outra vez. Vais ver que, num instantinho, somos nós a mandar nisto tudo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Diálogo com Enfermeira de Branco II - Fome

- Boa tarde, dá-me licença? Queria mudar aqui o soro, pode ser?
- Sim, obrigada. Entretanto já posso comer?
- Ainda não comeu nada?
- Não.
- A que horas foi a operação?
- Não sei.
- Não sabe?!
- Não. Estava a dormir, mas deve dizer na ficha.
- Mas não sabe mais ou menos quando foi?
- Não. Quer dizer, foi de manhã. Lá para as 9h30, talvez 10h.
- Mas já são 16 horas! Ainda não comeu nada hoje?
- Não.
- Nada de nada?
- Não.
- Devem-se ter esquecido, sabe?
- Esquecido?
- Pois, quando serviram o almoço já estava no quarto, não estava?
- Não sei... Posso então comer agora?
- Pois, o problema é que eu agora tenho o frigorífico vazio...
- Vazio?!
- Sim. Acha que consegue esperar até às 17h?
- Até às 17h?
- É quando eles trazem o lanche.
- O lanche?
- Sim. É mais uma horinha, está bem?
- ... Está bem.

Na televisão só passavam programas sobre gastronomia e culinária. O capítulo do livro que estava a ler falava sobre a matança do porco. Livro injusto. O lanche acabou por chegar às 17h30. Duas fatias de pão, duas fatias de queijo, um café e um pudim de baunilha. Engoli tudo de uma vez. Mais tarde, o homem ilimitado trouxe-me bolachas e eu devorei-as de madrugada. Eram boas, acho.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Diálogo com Enfermeira de Branco I - Sede


- Boa tarde, como se sente?
- Bem, obrigada.
- Venho medir-lhe a tensão, está bem?
- Claro... Entretanto, acha que já posso beber água?
- Está com sede?
- Estou.
- Mas ainda não lhe deram nada para beber?
- Não.
- A sério? Deve estar com muita sede, então!
- Sim, estou.
- A operação já foi há muitas horas, não foi?
- Foi.
- Pois, mas agora ainda não pode beber nada, está bem?
- Ai não?!
- Não.
- Ah, pensei que...
- Mais uma horinha, está bem?

A Enfermeira de Branco sai de cena. Rogo-lhe pragas dentro da cabeça.

Passado uma horinha entra em cena novamente. Traz-me uma garrafa de litro e meio selada e um copo. Pousa-os na mesinha ao meu lado e diz-me com o dedinho indicador apontado para o tecto: Não beba muito.
Deito-lhe a língua de fora dentro da cabeça.

Sai de cena outra vez. Eu e a garrafa de litro e meio entreolhamo-nos timidamente.
De seguida apercebo-me de que não vou conseguir abrir a garrafa com nenhuma das mãos: uma está muito ocupada com o soro fisiológico e a outra anda um bocado atrofiada por causa das análises de sangue. Nesse momento ocorreu-me chamar a enfermeira, mas depois cresceram-me tantas coisas na boca, que agarrei a garrafa pelo pescoço e abri-a com os dentes. Matei a sede convulsivamente com um meio-sorriso nos lábios. E depois chamei a Enfermeira de Branco, que me apresentou à Arrastadeira.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Este blogue passa a vida a mudar de look.

1.º leitor – Este blogue passa a vida a mudar de look.
2.º leitor – Pois. É escrito por uma mulher...
1.º leitor – Como é que sabes?
2.º leitor – As mulheres passam a vida a mudar de look!
1.º leitor – Os homens não mudam de look?!
2.º leitor – Mudam, claro. Mas é diferente.
1.º leitor – É diferente?
2.º leitor – Sim. Os homens mudam de look com o tempo. Porque ficam carecas e gordos.
1.º leitor – E as mulheres não mudam de look com o tempo?
2.º leitor – Mudam, claro. Mas, além disso, também mudam de look quando lhes apetece. Dá-lhes pr'aí!
1.º leitor – As mulheres mudam quando lhes apetece?
2.º leitor – Sim.
1.º leitor – Mas isso é fantástico! As mulheres têm super poderes?
2.º leitor – Não. As mulheres têm problemas de identidade.
1.º leitor – As mulheres mudam de look porque têm problemas de identidade?
2.º leitor – Sim.
1.º leitor – E os homens? Não têm problemas de identidade?
2.º leitor – Têm, claro, mas disfarçam mais. Daí não mudarem de look só porque lhes apetece!
1.º leitor – As mulheres mudam de look para exibir os seus problemas de identidade?
2.º leitor – Sim.
1.º leitor – As mulheres gostam de exibir os seus problemas de identidade?
2.º leitor – Sim. Para atraírem os homens!
1.º leitor – Os homens sentem-se atraídos por problemas de identidade?
2.º leitor – Não.
1.º leitor – Então qual é a lógica?
2.º leitor – Nenhuma…
1.º leitor – Isso parece-me tudo muito complicado.
2.º leitor – As mulheres são muito complicadas.
1.º leitor – Porquê?
2. º leitor – Porque têm problemas de identidade.
1.º leitor – Bolas, coitados dos homens…
2.º leitor – Podes crer.
1.º leitor – Este blogue tem problemas de identidade?
2.º leitor – Claro. É escrito por uma mulher...
1.º leitor – Coitadinho do blogue!
2.º leitor – Coitadinhos mas é de nós!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Diálogo com colega insatisfeito

- Bonjour! Estou a ligar a propósito do documento X.
- Diga.
- Tem aí o documento consigo?
- Como?!
- Se tem o documento consigo…
- [hesitante] Não estou a perceber…
- … Pergunto-lhe se tem o documento consigo, porque tenho aqui uma pergunta específica sobre…
- Se tenho o documento comigo?!
- Sim…
- [riso sarcástico] Desculpe, você está a perguntar-me se eu tenho o documento à minha frente?!
- Sim…
- [riso sarcástico] É evidente que não, minha senhora! Eu tenho outras coisas para fazer, sabe?
- Claro, compreendo… Pode então abrir o documento, por favor?
- Um momento. [quinze segundos depois] Diga.
- Ora bem, este documento tem uma versão anterior e…
- Mas está a falar de quê?
- Deste documento que...
- Qual parte do documento?!
- Na página 5, no ponto 2...
- Sim e então?
- A parte Y foi eliminada numa versão anterior...
- Não estou a ver erro nenhum!
- Sim, mas a parte Y foi eliminada numa versão anterior e…
- Qual versão anterior?
- No documento Z, a versão anterior…
- E então?
- Ora bem, esta parte foi eliminada e agora...
- Não estou a perceber nada do que está a dizer.
- Esta parte aparece novamente e eu só queria mesmo saber se se trata de…
- Bem, não sei. Tenho de comparar as versões. Depois telefono. Au revoir.

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

[É por estas e por outras que as lambadas devem ser dadas em devida altura. Este senhor, se fosse pequenino, levava duas lambadas e piava fininho. Infelizmente já é demasiado crescido para isso e agora, para ir ao sítio, vai ter de levar um murro nos tomates todos os dias antes de sair de casa. Coitado do senhor. É desagradável.]

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Olha, este blogue morreu. - Parte II

...

Leitor 2 – Mas as pessoas podiam deixar de cá vir e pronto.
Leitor 1 – Pois podiam.
Leitor 2 – Aliás, nem percebo como é que continuam a vir, se não se passa nada aqui.
Leitor 1 – Pois, mas já sabes como são os leitores... Afeiçoam-se!
Leitor 2 – Ao blogue?
Leitor 1 – Não, ao sapo.
Leitor 2 – Os leitores afeiçoaram-se ao sapo?
Leitor 1 – Claro. Só ele é que mantém este blogue a mexer.
Leitor 2 – Bem, nesse caso, o sapo deve estar todo contente.
Leitor 1 – Pois deve. Toda a gente o mima.
Leitor 2 – Está mais gordo que eu sei lá.
Leitor 1 – Pois está.
Leitor 2 – A morte de uns é a fartura de outros.
Leitor 1 – Credo! Isso é algum ditado?
Leitor 2 – Não, acho que não.
Leitor 1 – Achas que o sapo está contente com a morte do blogue?
Leitor 2 – Então, não se vê logo?!
Leitor 1 – Opá! Tu queres ver que foi o sapo que matou o blogue?
Leitor 2 – Olha, se calhar foi.
Leitor 1 – Achas?!
Leitor 2 – Acho. Os sapos são do piorio.
Leitor 1 – Mas este sapo é um príncipe!
Leitor 2 – É?
Leitor 1 – É. Está lá escrito. É um príncipe encantado.
Leitor 2 – Então ainda pior. Os monarcas são completamente doidos.
Leitor 1 – Mas que motivo teria o príncipe encantado para matar o blogue?
Leitor 2 – Não sei. Se calhar queria a atenção dos leitores.
Leitor 1 – Ou se calhar estava deprimido.
Leitor 2 – Se calhar.
Leitor 1 – Ou então com fome.
Leitor 2 – Pois. Queres ver que o sapo comeu o blogue?
Leitor 1 – Olha, é bem possível.
Leitor 2 – Pois é...
Leitor 1 – ...
Leitor 2 – Cabrão do sapo.
Leitor 1 – Podes crer.
Leitor 2 – Então, e agora?
Leitor 1 – Agora o quê?
Leitor 2 – Temos de fazer alguma coisa!
Leitor 1 – Pois temos.
Leitor 2 – Mas o quê?
Leitor 1 – Olha, eu vou continuar a dar de comida ao sapo.
Leitor 2 – O quê?! Mas o sapo comeu o blogue.
Leitor 1 – Pois comeu. Estava com fome, coitadinho! Temos de alimentar o sapo.
Leitor 2 – Não! Nós devíamos era matar o sapo!
Leitor 1 – Matar o sapo?! Porquê?!
Leitor 2 – Porque comeu o blogue.
Leitor 1 – Bolas, também não é preciso matar o sapo por causa disso.
Leitor 2 – Achas que não?
Leitor 1 – Claro que não! Coitadinho do sapo.
Leitor 2 – Então, e não tens pena do blogue?
Leitor 1 – Eu não! Que raio de blogue se deixa comer por um sapo?!
Leitor 2 – Sim, tens razão.
Leitor 1 – Era, no mínimo, um blogue fraquinho.
Leitor 2 – Pois era.
Leitor 1 – E, além disso, não dava de comer ao sapo.
Leitor 2 – Pois não.
Leitor 1 – ...
Leitor 2 – Cabrão do blogue.
Leitor 1 – Podes crer.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Olha, este blogue morreu. - Parte I

Leitor 1 – Olha, este blogue morreu.
Leitor 2 – O quê? Não me digas isso.
Leitor 1 – Ai, digo, digo.
Leitor 2 – A sério? Mas eu não dei por nada.
Leitor 1 – Não deste por nada?!
Leitor 2 - Não, não dei por nada. Achava que ele até estava com boa cara.
Leitor 1 – Como assim, com boa cara?!
Leitor 2 – Opá, com boa cara! Na última vez que o vi continuava com uma corzita saudável e até dizia umas coisinhas.
Leitor 1 – Até dizia umas coisinhas?! Há dois meses e um dia que este blogue não diz absolutamente nada.
Leitor 2 – A sério?! Não reparei…
Leitor 1 – Como é possível ver um blogue e não reparar que o tipo está morto?!
Leitor 2 – Opá, nesse dia estava cheio de pressa. Passei por ele, vi-o assim com os olhos muito abertos e parti do princípio de que estava vivo e de boa saúde. Mas afinal estava morto, coitado.
Leitor 1 - Pois estava.
Leitor 2 - Os peixes, quando morrem, também ficam assim, com os olhos escancarados.
Leitor 1 – E cheiram mal como tudo.
Leitor 2 - Quem? Os peixes?
Leitor 1 - Não, os blogues.
Leitor 2 - A sério? Mas o blogue não me cheirou mal.
Leitor 1 - Se calhar, não te aproximaste muito.
Leitor 2 – Pois não. Por acaso, até reparei que ele estava assim murxito, mas achei que podia estar só deprimido.
Leitor 1 – Pois podia.
Leitor 2 – Então, se calhar até estava.
Leitor 1 – Se calhar.
Leitor 2 – Nesse caso, pode não estar morto.
Leitor 1 - Pois, pode não estar morto. Mas também não está vivo.
Leitor 2 - Mas repara que o sapo aqui em baixo ainda mexe.
Leitor 1 – Mas isso é porque as pessoas lhe dão de comer.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – Claro! Tu não dás de comer ao sapo?!
Leitor 2 – Eu não. Nem sabia que se podia dar de comer ao sapo.
Leitor 1 – Podes, claro. Vais lá com o rato, clicas e depois há assim uns mosquitos a voar que o sapo come.
Leitor 2 – E ele come mesmo?!
Leitor 1 – Come, pois. Lança uma língua super rápida.
Leitor 2 – A sério?!
Leitor 1 – A sério.
Leitor 2 – Que giro! Nunca tinha reparado. Então, os leitores vêm cá dar de comer ao sapo?
Leitor 1 – Vêm, claro. Não se faz mais nada neste blogue há dois meses e um dia.

(continua)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Então como estão os seus filhos?

- Olá, olá! Há quanto tempo! Então como estão os seus filhos?
- Desculpe, deve estar a confundir-me com alguém.
- Não, não estou! É mesmo consigo.
- Ai sim?
- Sim, sim, claro! Então como estão os seus filhos?
- Os meus filhos?!
- Sim, como estão eles? Enormes já, não?
- Não, minha senhora. Eu não tenho filhos.
- Ai, não me diga!
- Não, não tenho.
- Uma rapariga tão nova, tão cheia de força...
- Pois, pois! Mas não tenho.
- Ó, que pena! Então e se tivesse?
- Se tivesse?!
- Sim, se tivesse! Como estariam os seus filhos?
- Ó minha senhora, mas eu já lhe disse que não tenho filhos.
- Está bem. Mas e se tivesse?
- Se tivesse?!
- Sim, se tivesse filhos.
- Olhe, tinha-os!
- E como estariam os seus filhos então?
- Sei lá. Olhe, estariam bem, acho.
- Aaaaah, estariam bem! Ainda bem!
- Ainda bem?!
- Ainda bem que estão bem!
- Mas, minha senhora, isto era só uma mera hipótese. Se eles existissem!
- Sim, eu sei! Mas você acha que eles estão bem! Ainda bem que você acha isso.
- Mas porquê "ainda bem"?
- Porque sim, preocupo-me muito com os seus filhos.
- Mas eu já lhe disse que não tenho filhos.
- Está bem, já percebi. Mas podia ter.
- Podia, sim, mas não tenho.
- Mas se tivesse, eles estariam bem. É o que interessa.
- Ó minha senhora, isso não interessa nada. Se eu não tenho filhos, não interessa nada.
- Mas é como se os tivesse.
- Como se os tivesse?!
- Sim, claro. Se quer bem aos seus filhos, é como se os tivesse.
- Não, não é. Como poderia ser?! Eu nunca os conheci! Como poderia ser mãe deles? Não tenho filhos, percebe? Meta isso na cabeça.
- Sim, meto, claro! Mas não se irrite. Você é jovem. Ainda está muito a tempo.
- Muito a tempo?! Muito a tempo de quê?! De ter filhos?!
- Sim, claro. Ainda está a tempo.
- Mas, ó minha senhora, quem é que lhe disse que eu quero ter filhos?
- Ora essa, a menina ainda agora disse que queria!
- O quê?! Eu não disse nada disso.
- Você disse: "Estariam bem". Se tivesse filhos, "estariam bem"! E claro que estariam! Porque você trataria deles, seria uma mãe para eles. É óbvio que a menina quer ter filhos.
- Ó minha senhora, você nem me conhece! Nunca me viu na vida! Como é que pode estar a dizer isso?
- Menina, mãe é mãe. Se você quer bem aos seus filhos, é mãe. Mesmo que eles não existam.
- Desculpe, minha senhora, mas isso não faz grande sentido.
- Faz, sim. Todo o sentido… Olhe, vou ter de sair aqui nesta paragem, infelizmente.
- Ok! Passe bem, minha senhora.
- Você também. Adorei falar consigo!
- Ainda bem!
- Dê cumprimentos meus aos seus filhos.
- Olhe, gostava muito, mas não posso! É que eles não existem.
- Então invente-os! Se eles não existem, têm de ser inventados! Não acha?
- Não, não acho.
- Claro que acha, ora então! Dê-lhes cumprimentos meus, está bem?
- Já lhe disse que não posso.
- Também não precisa de ser já, querida. Dê-lhes depois.
- Depois?!
- Sim, depois.
- Depois, quando?
- Quando eles nascerem.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O lugar real

- Leva-me àquele outro lugar.
[A frase é um pedido e não uma ordem.]
- Qual outro lugar?
- Àquele outro lugar, anterior a este.
- Anterior a este?!
- Sim, anterior a este.
- Como assim?
- Àquele lugar que não este.
[Dá-se um silêncio curto, arrependido, disfarçado.]
- Um lugar longe daqui?
- Longínquo.
- Mais a Sul?
- Não.
- Mais a Norte?
- Não.
- Então?
- Mais antigo, mais para dentro.
- Um espaço no tempo?
- Sim, um espaço no tempo.
[Abre-se entre os dois uma polegada de tempo e uma formiga passa. No chão há um cigarro meio posto.]
- Queres ir para o passado?!
- Não, não. Quero ir para àquele outro lugar.
- Que lugar?
- O lugar real.
- Esse lugar existe?
- Existe.
- É físico? Material?
- Sim, claro.
- E onde fica?
- Não sei. No tempo.
- Não há lugares no tempo.
- Não?!
- Não. Só há lugares no espaço.
- Então fica no espaço.
- Em qual espaço?
- Num espaço anterior a este.
- Não há espaços anteriores. Uma coisa é o espaço, outra coisa é o tempo. Os lugares ficam quietos no espaço.
- Então leva-me lá.
- Aonde?
- A esse lugar.
- Tens de me dizer onde fica.
- Fica no espaço.
- E onde especificamente? Preciso de coordenadas.
- Fica para trás, sempre para trás.
- Atrás de quê?
- De tudo.
[Os dois regressam a lugares atrás de tudo: não sabem nada, não querem nada, respiram.]
- E se não existir?
- Se não existir?!
- Sim, se esse lugar não existir.
[Os olhos dela encontram o vácuo. São vagos, vadios, vazios.]
- Podemos não encontrar esse lugar.
- Podemos?!
- Podemos.
- Nesse caso, não sei.
- Não sabes o quê?
- Não sei de mim.
- Não sabes de ti?!
- Não, não sei... Nem de ti.
- Não sabes de mim?!
- Não.
- Nesse caso, estamos perdidos.
[Partem juntos. À procura deles próprios.]

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Biologia revisitada

- Ó mãe, o pai é biológico?
- Como?!
- O pai é biológico?
- Se o pai é biológico?!
- Sim, se é biológico.
- Em que sentido, filho?
- No sentido biológico. Se é biológico.
- Sim, é.
- Ah...
- Então porquê, filho?
- Por nada. É que a Ritinha lá da escola diz que o pai dela não é biológico.
- Pois. Às vezes é assim.
- E vinha com rótulo?
- Com rótulo?!
- Sim, com rótulo!
- O quê, filho?
- O pai!
- Com rótulo?!
- Sim, a dizer que é biológico!
- ... Não, não vinha.
- Então como sabias que era biológico?
- Olha, sabia!
- Provaste-o antes de comprar?
- Mais ou menos, sim.
- Ó mãe, e eu sou biológico?
- Sim, és.
- Sou cem-por-cento natural?
- Sim, és.
- Sem corantes nem conservantes?
- Exacto.
- E sou comestível?
- Não, filho, que disparate.
- Os produtos biológicos não são para comer?
- Alguns são, outros não.
- Ah. Então eu sou para quê?
- És para estudar. Vá, vai fazer os trabalhos de casa.
- Ó mãe, tu também és biológica?
- Claro.
- Então no fim não sobra nada, pois não?
- Não sobra nada?!
- Pois!
- Como assim, filho?
- Somos uma família biodegradável!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Diálogo entre dois mortos

Para uma neta que perdeu o avô.

Morreram em épocas diferentes. Um está morto há muito tempo. Outro acaba de chegar. Encontram-se a meio caminho. O mais experiente na morte quer lembrar-se da vida, mas não consegue. Por isso, pergunta:

- Agora que morreu de vez, responda-me ao seguinte: "A vida é mesmo curta?"
- Não, não é curta.
- Não?!
- Não, é longa.
- Longa?
- Muitíssimo longa.
- Quão longa?
- Longa de perder de vista.
- Assim como o mar?
- Não. Como a terra, talvez.
- A vida é como a terra?
- Sim. É que o mar, ao longe, é sempre igual. A terra não. Tem altos e baixos, vegetação e casas, pessoas, pastagens, comboios, aviões, centrais eléctricas, barragens, é uma grande confusão.
- A vida é uma confusão?
- É.
- A morte não.
- Não?!
- Não. É só assim.
- Ainda bem.
- Ainda bem?!
- Sim.
- Às vezes sinto-me farto de estar morto. Canso-me. Até fico doente. Mas depois passa.
- Pois, é capaz. No mar também é assim. Nem sempre as ondas são mansas e uma pessoa adoece. Mas depois passa.
- Nesse caso, se calhar eles têm razão quando dizem que a morte é uma passagem. Talvez tenhamos passado da terra para o mar.
- Sim, é uma boa imagem.
- Gosto de mar.
- Eu também!
- Então bem-vindo a bordo.
- Obrigado! Sempre quis ser marinheiro.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Botão do volume

O vizinho de baixo não consegue dormir por causa do vizinho de cima. Sai da cama, calça as pantufas, sai de casa, sobe as escadas. Toca a porta. Espera.
- Boa noite, vizinho. Olhe, desculpe, mas será que podia baixar a música?
- Baixar a música?!
- Sim.
- Como assim, baixar a música?!
- Olhe, baixando, não sei. Imagino que indo ao botão do volume e girando-o.
- Mas é a Maria Callas que está a cantar. Não se pode baixar a Maria Callas.
- Pois, mas é que já são dez e meia.
- São dez e meia?
- Sim, dez e meia.
- E então?
- E então queria dormir.
- Queria dormir às dez e meia?
- Sim.
- Comigo?!
- Não, consigo não.
- Então por que me veio bater à porta?
- Porque não consigo dormir.
- E que tenho eu a ver com isso?
- Tudo! Não consigo dormir por causa da sua música.
- Por causa da minha música?
- Sim, é que já são dez e meia.
- Não gosta da Maria Callas?
- Sim. Quer dizer, não é a minha cantora preferida.
- Não?!
- Não.
- Então quem é a sua cantora preferida?
- Bom, eu realmente não vim aqui para discutir música consigo.
- Não?!
- Não, é evidente que não.
- Mas é importante discutirmos música, se a minha música é um problema para si. Entre, entre.
- Não, não, não. Queria mesmo só que baixasse a música. Ou que a desligasse, talvez.
- A Maria Callas?
- Sim. A Maria Callas.
- Mas você julga que é quem?
- Sou o vizinho de baixo. E não consigo dormir com a Maria Callas.
- Não?!
- Não.
- Bom, que posso eu fazer? Quer uma coisa menos clássica, é isso? Mais jazz? Mais pop? Mais rock? Tenho aí de tudo, é só dizer, vizinho.
- Não. Eu realmente só preciso de silêncio.
- De silêncio?!
- Silêncio.
- Para dormir?!
- Sim.
- Às dez e meia?!
- Sim.
- E acha que vai conseguir?
- Normalmente consigo.
- Interessante.
- Talvez... Ficava então extremamente agradecido, se pudesse girar o tal botão.
- Olhe, eu, por exemplo, gosto de dormir ao som de Roberta Flack. Já experimentou?
- Não, não experimentei. Como lhe disse, gosto de dormir em silêncio.
- E quando estou triste ou irritado como o senhor, ouço Aimee Mann. Conhece?
- Sim, conheço.
- Ai sim?!
- Sim.
- E gosta?
- Mais ou menos, sim.
- E gosto de acordar ao som de Aretha Franklin. Já experimentou?
- Não, não experimentei. E realmente não estou interessado, sabe?
- Não gosta da Aretha Franklin?
- Bom, não é que não goste. Mas também não morro de amores.
- Não morre de amores?!
- Não.
- Olhe, desculpe, mas eu realmente não consigo falar com pessoas que não morram de amores pela Aretha Franklin. Com licença.
E fecha a porta. Desliga a Maria Callas de repente e o vizinho de baixo suspira.
Regressa a casa. Enquanto abre a porta, abana a cabeça. Mete-se na cama. Nisto entra-lhe pela casa dentro Aimee Mann.
One. Um. O algarismo. Cardinal.
Uma música tão triste, que o vizinho de baixo não teve forças para voltar a sair da cama.
Adormeceram os dois de exaustão.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A pergunta

Sentaram-se numa esplanada, embora apenas um esboço de sol espreitasse atrás das nuvens. Pediram chás (um quente, outro gelado) e falaram de qualquer coisa sem interesse, pelo menos à luz da expressão dos olhos.
Ele bebia o chá gelado e fez subitamente uma pergunta. Era uma pergunta de natureza quase militar, seguia uma estratégia ofensiva própria de soldados em marcha. Arrependeu-se mal a frase saltara da boca.
Deu-se felizmente um milagre e o vento soprou nesse instante levando as palavras ao colo. Ela bebia o chá quente e achou o vento injusto. Retorquiu: “Como?”, mas ele não repetiu a pergunta.
Ela sabia bem que era uma pergunta, não obstante o voo imprevisto das palavras (a música da voz revela sempre a forma). Pedinchou: “Não ouvi, desculpa!”.
“Deixa, não foi nada!”.
Do outro lado da mesa, ela bebeu do seu chá como quem tem sede e queimou a língua. Magoou-se um pouco mais porque a mordeu estupidamente, tentando controlar a dor. Mais um trago de chá e ela ferveria, daí que tenha decidido insistir: “Fizeste uma pergunta!” e ele desdisse. Ordenou: “Repete!” e naquele momento repetiu-se apenas um olhar sem sol por causa das nuvens que traziam nos olhos.
Ele quebrava agora o gelo do Ice Tea, enfiava pequenos cubos na boca e partia-os com os dentes, era um barulho ensurdecedor para aquele silêncio. Declarou entre dentes: “Já não quero fazer essa pergunta!” e ela quis saber: “Porquê?”.
Não havia chá nos copos, por isso pediram uma água das pedras e uma cola light. Era um bom pretexto para uma pausa. Ela foi à casa de banho, ele pôs-se a fumar. No regresso ela exigiu: “Repete a pergunta!” e ele abanou a cabeça. Insistiu. Desesperou.
“Então faz uma pergunta qualquer!”.
Era um pedido deveras estranho e ele não se lembrou de nenhuma pergunta inteligente nem oportuna. Desistiu de pensar.
“Queres partir gelo?”.
Se quisessem mover-se talvez se partissem aos bocados: estavam ambos congelados.
Mas descongelaram logo a seguir.
Ficaram vários minutos a partir cubos de gelo: a boca quase roxa por causa do frio e os dentes poderosos como quebra-nozes. Ela disse: “Tenho sensibilidade dentária!” e riram-se.
Era um dia bom. Graças à pergunta.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Aprender a contar

Por ocasião da 100.ª história neste blogue.

- Mãe, não consigo dormir!
- Tens de contar carneirinhos, filho!
- Só sei contar até 10!
- Então conta até 10!
- Já contei até 10 e não adormeci!
- Conta outra vez! Se contares 10 vezes até 10, já sabes contar até 100.
- Até 100? Porquê?
- Porque 10 vezes 10 é igual a 100.
- Mas eu ainda não aprendi a fazer contas de multiplicar.
- Não faz mal! Se contares 10 vezes até 10, estás a contar até 100.
- Quer dizer que já sei contar até 100?
- Sim!
- Então já não preciso de ir à escola.
- Precisas, sim! Para aprenderes a contar até 1000.
- Até 1000?! Então quando é que os números acabam?
- Nunca!

O miúdo foi para a cama. Não conseguia dormir.
A perspectiva de contar carneirinhos para sempre angustiava-o.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Diálogo existencial

- Estou fechada para férias.
- Como? As pessoas não podem fechar para férias.
- Pois, mas eu não sou uma pessoa!
- Então és o quê?
- Sou uma personagem.
- Uma personagem?
- Sim, uma personagem!
- E eu também sou uma personagem?
- Não, tu és uma pessoa.
- Isso faz de nós incompatíveis?
- Claro!
- Mas isso é uma tragédia.
- Sim, e eu sou a protagonista.
- Da minha tragédia?
- Não, da minha!
- Serás fruto da minha imaginação?
- Sim!
- E eu, que sou?
- Fruto da minha!
- Então somos o fruto um do outro!
- Sim! Daí a tragédia!

Nota aos leitores:
Estou fechada para férias (a pessoa e não a personagem). Até ao meu regresso!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Olhos nos olhos [versão masculina]

Dois homens olham-se olhos nos olhos. Um é mais persistente do que o outro, olha sempre nos olhos do segundo e este intimida-se de vez em quando: os olhos, já muito tensos, descem como dois sóis em final de tarde, mas logo regressam à luta.
(Se um homem olha insistentemente para outro, este devolve-lhe um olhar ainda mais intenso. Os seres humanos do sexo masculino podem ficar nisto longos minutos por não saberem ladrar.)
Um deles, o mais incomodado, impacienta-se e enche-se de coragem.
– Desculpe, está a olhar para mim porquê?
– Eu logo vi que se passava aqui qualquer coisa.
– Ai sim? Então o que se passa?
– Passa-se que você é que está fixado em mim!
– Não, está muitíssimo enganado! Eu sentei-me neste lugar e você é que começou nessa insistência.
– Então devo ser eu que tenho uma fixação em si! – e riu-se descarado, ainda com os olhos contra os olhos do outro. Escancarados.
O mais incomodado alarmou-se, endireitou-se muito no seu assento. Um suor frio crescia-lhe na pele e o outro apercebia-se disso. O outro apercebia-se de tudo isso, pois os seus olhos passeavam-se agora pelos pormenores do rosto em frente: primeiro a testa, depois a barba rija até às têmporas, o queixo carismático, ansioso, apetecível. Um calafrio atacou-lhe as costas e o homem incomodado esperneou a coluna.
– Tenha calma! – disse dócil o homem insistente e os olhos regressavam aos olhos do outro, os dele muito azuis e os outros quase negros, uns diluindo-se nos outros até nascer da união das cores um azul ameno, nocturno, consensual.
(O homem incomodado estava deveras incomodado, o coração palpitava como um sapo no pescoço e agora uma das pálpebras tremia ansiosa como um peixe fora de água.)
O outro repetia a frase dócil e aquele ouvia-a, acalmava-se um pouco, desejava que a frase se repetisse. O azul gerado pela união dos quatro olhos era agora um pouco mais líquido, havia qualquer coisa de translúcido naquele azul quase aquático.
– O que quer você de mim? – perguntou quase tímido e o outro devolveu-lhe um sorriso torto, no canto da boca, secreto como o fundo do mar.
– O que é que você acha que eu quero? – e o outro respondeu: "Não sei". O mesmo sorriso na boca do outro.
– Eu também não!
Fora um resto de viagem longo devido ao silêncio dos lábios e aos gritos dos olhos. O homem incomodado relaxara, adormecera os olhos no azul daquele olhar. Queria ir na corrente daquele rio e quase se deixou levar. Disse o homem insistente:
– Saio na próxima paragem! – e o homem incomodado teve pena. Quase perguntou: "E agora, quando o vejo?", mas apercebeu-se a tempo do seu ridículo. O outro desejou um: "Até à vista!" e o homem incomodado, triste com a partida, perguntou mais alto, como quem fala para um comboio em andamento:
– Mas por que me olha assim?
O outro olhava-o ainda, o rosto muito assimétrico por causa do sorriso no canto do rosto. Concluiu:
– Cada um vê o que quer. – e levantou-se.
O azul ameno separou-se então em duas cores: agora eram dois olhos azuis e dois quase negros, afastados para sempre. O homem insistente desdobrou então uma bengala e apontou-a para o chão. E ostensivamente, qual sabedor Tirésias, exibiu com orgulho a sua cegueira sábia.
O homem incomodado ficou a vê-lo caminhar para o lado de lá, muito devagar e hesitante, atrás da bengala que lhe ditava o caminho. Depois, quase acidentalmente, viu o seu próprio reflexo no vidro e olhou-se olhos nos olhos. A cor daquele olhar não era azul, mas antes negra como as trevas. Repetiu de si para si: "Cada um vê o que quer!" e deixou de se reconhecer no vidro devido à escuridão do olhar. Depois esqueceu-se de sair na sua paragem. No fundo esquecera-se de si próprio.
Sonhou toda a noite com o mar. Era um azul realmente inesquecível.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Diálogo vítreo

Duas pessoas estão lado a lado numa igreja. Não se conhecem. Um senhor e uma senhora: ele com gabardina de trabalhador independente, ela com coluna vertebral igual à das beatas. Olham para cima procurando a luz que desce do céu (não porque estejam a rezar mas porque contemplam os vitrais de uma janela). A senhora fala primeiro.

- Desculpe, está a rezar?
- Não, estou só a olhar.
- Então posso falar consigo!
- Por acaso, não. Falar interrompe o olhar, sabe?
- Ah, que bela frase. É da Bíblia?
- Não, acho que é minha, mas não tenho a certeza.
- Se calhar é mesmo da Bíblia.
- Se calhar.
(Silêncio.)
- O senhor gosta destes vitrais.
- Sim, gosto.
- Eu também. Parece que Deus desce do céu pela janela, não é assim?
- Não, não desce.
- Não desce?
- Não, Ele está no meio de nós.
- É verdade! O menino é padre?
- Não, sou arquitecto.
- Mas conhece bem a Bíblia.
- Não, nunca a li.
- Então vem muito à missa.
- Não, nunca vou à missa.
- Mas isso é pecado.
- Se calhar. Mas eu não sou crente, sabe?
- Não é crente? Então o que está a fazer nesta igreja?
- A ver os vitrais!
- Mas só vai à igreja quem quer rezar.
- Ora essa! Não posso ir à igreja só ver os vitrais?
- Não!
- Bom, a senhora também não está a rezar.
- Mas vou começar agora! Vou rezar por si, para que veja a luz.
- E se eu não vir a luz?
- Foi porque Deus desistiu de si.
- Desistiu de mim? Mas isso é pecado!
(Silêncio. Agora é ele que fala primeiro.)
- Vou-me embora.
- Faz muito bem. E só volte se for para rezar.
- Está bem! Entretanto vou ali acender uma vela por si.
- Mas você não acredita!
- Em Deus não, mas tenho muita fé em si!
- E por que quer acender uma vela por mim?
- Para que você veja a luz.
- Mas eu já vi a luz, você é que não!
- Para mim, foi você que não viu. É tudo uma questão de fé!

(Despediram-se respeitosos. O senhor acendeu uma vela pela senhora e a senhora rezou pelo senhor. No final olharam um para o outro e depois para os vitrais da janela. Saíam da igreja um pouco mais iluminados do que antes. Graças aos vitrais.)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Generation gap

- Ai, que lindo! Que idade tem esta doçura?
- Fez agora 5 meses!
- Que fofinho! Tem uns olhos tão grandes!
- Sim, é verdade! São iguais aos do pai!
- Ai, que giro! Posso dar uma festinha?
- Pode, claro! Ele gosta!
- Ai sim? E não morde?
- Ai, que disparate!
- Que disparate, não! Já vi bichos mais pequenos a morder!
- Ó minha senhora, isto não é um cão, é uma criança!
- Ai sim?! Aaaahh, é que parece mesmo um cão!
- Um cão?! Mas desde quando é que as crianças são parecidas com cães?!
- Pois, realmente é estranho! O pai não será lobisomem?
- Olhe, não sei! Desculpe: tenho de sair nesta paragem.
- Está bem, não é preciso ladrar!
- Ladrar?! A senhora deve ser louca!
(A mulher vira as costas e sai do metro, empurrando o carrinho à sua frente. A primeira senhora vira-se para outra senhora qualquer.)
- Com um bebé nas mãos e nem sabe se o pai é lobisomem.
- Ai sim? Que horror!
- E ainda me chamou de louca!
- Credo! Grande cadela!
- Pode crer! Estamos mesmo num mundo cão!
- É verdade!
(Abanam as duas a cabeça.)