Há uns anos escrevi um texto que se chamava “As Casas Abandonadas”. A Sara Bandarra agarrou nele para o ilustrar.
Durante meses não sabíamos onde ir com este projeto. Seria um livro? Uma instalação? Uma casa? Durante meses trocámos imagens de casas abandonadas. A Sara enviava-me as fachadas de Ílhavo, eu enviava-lhe os buracos de Bruxelas. Janelas partidas, guindastes, paredes esburacadas.
As casas foram surgindo devagar. De repente, percebemos que este livro era uma imagem só. Um livro-acordeão feito de casas e palavras.
Na semana passada imprimimos 20 exemplares, que estão agora à venda na livraria Gigões e Anantes. Obrigada, Sara, por nunca teres abandonado este projeto.
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segunda-feira, 15 de abril de 2019
quinta-feira, 2 de julho de 2015
As casas abandonadas
A narradora deste texto caminha e passa por casas abandonadas.
Uma. Duas. Três. Quatro.
Casas que não são casas.
São cascas. São crostas.
Vestígios.
Ninguém mora ali.
Nem sequer um objeto.
Nem sequer um gato.
Nem sequer uma planta.
Têm janelas ocas. Paredes esgaravatadas.
São casas sem conteúdo.
Vazias. Desabitadas. Sozinhas.
Por vezes, vêm os guindastes.
Os guindastes e os homens de capacete.
Arrancam os telhados. Os vidros. As varandas.
De repente, uma lacuna.
Um buraco entre as casas.
Um pedaço de céu.
A narradora deste texto interrompe a marcha e o pensamento.
Observa a demolição das casas.
É um intervalo na sucessão dos dias. Um hiato. Um lapso.
Uma ferida aberta.
Uma. Duas. Três. Quatro.
Casas que não são casas.
São cascas. São crostas.
Vestígios.
Ninguém mora ali.
Nem sequer um objeto.
Nem sequer um gato.
Nem sequer uma planta.
Têm janelas ocas. Paredes esgaravatadas.
São casas sem conteúdo.
Vazias. Desabitadas. Sozinhas.
Por vezes, vêm os guindastes.
Os guindastes e os homens de capacete.
Arrancam os telhados. Os vidros. As varandas.
De repente, uma lacuna.
Um buraco entre as casas.
Um pedaço de céu.
A narradora deste texto interrompe a marcha e o pensamento.
Observa a demolição das casas.
É um intervalo na sucessão dos dias. Um hiato. Um lapso.
Uma ferida aberta.
terça-feira, 7 de maio de 2013
A casa (VIII)
No último dia, lavei o chão. Já não havia nada na casa.
Só eu, o balde e a sabrina. Se eu falasse, a minha voz faria eco, mas eu não falei.
Lavei só o chão. Depois fechei a porta.
Dentro do meu bolso, um porta-chaves sem chaves. Um porta-chaves que é uma casa fofinha.
Uma casa dentro do bolso.
Quando cheguei cá abaixo, olhei para ela. A casa olhava para mim de janela aberta.
Malandra!
Quem, eu?
Não, a casa!
De janela aberta.
Agora já não há nada a fazer.
Não tenho chaves. Não vai dar para fechar a janela.
Paciência.
Não foi por mal.
Foi, foi.
Não foi, não.
Foi esquecimento.
O esquecimento é um mal menor.
É, não é?
É.
Os nossos nomes na caixa do correio. Pas de publicité!
Depois virei as costas e fui-me dali. Com o Homem Ilimitado.
Ele sim, uma casa.
Bons alicerces.
Não há lobo mau que o derrube.
Só eu, o balde e a sabrina. Se eu falasse, a minha voz faria eco, mas eu não falei.
Lavei só o chão. Depois fechei a porta.
Dentro do meu bolso, um porta-chaves sem chaves. Um porta-chaves que é uma casa fofinha.
Uma casa dentro do bolso.
Quando cheguei cá abaixo, olhei para ela. A casa olhava para mim de janela aberta.
Malandra!
Quem, eu?
Não, a casa!
De janela aberta.
Agora já não há nada a fazer.
Não tenho chaves. Não vai dar para fechar a janela.
Paciência.
Não foi por mal.
Foi, foi.
Não foi, não.
Foi esquecimento.
O esquecimento é um mal menor.
É, não é?
É.
Os nossos nomes na caixa do correio. Pas de publicité!
Depois virei as costas e fui-me dali. Com o Homem Ilimitado.
Ele sim, uma casa.
Bons alicerces.
Não há lobo mau que o derrube.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
A casa (VII)
Nunca tinha estado tanto tempo longe de casa, por isso, quando abriu a porta, surpreendeu-a o odor intenso da noite imposta, o som real e aturado do tempo nas paredes e nos tecidos da sala, como se a ausência fosse um corpo que ocupasse o seu próprio espaço, alimentando-se de si própria, do pó do parapeito, das madeiras mais-que-perfeitas. Correu os cortinados e o corpo do tempo ergueu-se das coisas, prolongou-se exponencial pela casa. Abriu as janelas da sala, as três janelas da sala. O corpo do tempo era feito de pequeníssimas partículas que emitiam luz como estrelas minúsculas. Essas estrelas morriam no primeiro contacto com o chão ou com o tecto ou com as mãos que estendíamos para elas. O corpo do tempo era frágil. Abriu as portas e as janelas dos quartos. Os seus passos eram estranhos à casa, pesavam sobre ela como relógios de cuco. As paredes espreguiçavam-se, contrariadas. Regressava às coisas com as mãos. Aos braços de napa do sofá, ao ferro forjado do porta-revistas, às rugas da tapeçaria, às arestas da casa dos livros, aos armários ocos da cozinha, à imagem reflectida no espelho, ao colo profundo do quarto, às mãos frias do azulejo. Tocava nos objectos com a ponta dos dedos, dedilhando-os, como se deles saíssem música. Nunca tinha estado tanto tempo longe da casa. Tão longe do tempo e de casa.
Sentou-se na cadeira de baloiço.
E baloiçou-se. Vagarosa. Absorta.
À espera que a casa voltasse.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
A casa (VI)
O Belgavista faz 2 anos amanhã.
E eu resolvi mudar o papel de parede.
Acordava de manhã e nem sempre a casa lhe parecia igual. O chão estava, por vezes, muito inclinado e as janelas um pouco mais estreitas. Para se certificar de que aquela era a sua casa, cheirava as paredes e reconhecia nelas as memórias de outras casas, de outras cómodas, de outros espelhos, candeeiros, cadeiras, livros.
Não era bom tocar nas paredes logo pela manhã, eram muito frias.
Ideia: Um dia haveria de comprar um papel de parede para o seu quarto.
Imaginou todas as formas, todos os desenhos.
Ideia: Ou então talvez bastasse pintar as paredes de várias cores.
As cores do arco-íris, as cores primárias, as cores do mar.
Depois desistiu de todas estas ideias, continuou a cheirar as paredes.
Tinha medo de subir o escadote e o tecto do seu quarto era muito alto.
Resolveu comprar um quadro. O filho de um quadro. Um pedaço de um quadro. Só não sabia qual. Não gostava especialmente de nenhum artista, mas sim de alguns quadros de determinados artistas.
Naquela sexta-feira, foi ao centro da cidade e, inesperadamente, apaixonou-se. Por um homem sem rosto, atrás de uma maçã, um filho de outro homem. Gostava, acima de tudo, do chapéu do tal homem atrás da maçã, tentava adivinhar o seu rosto. Comprou, naturalmente, uma reprodução daquele quadro.
Colocou-o na parede virada a Norte e contemplou-o durante várias horas.
Estava deveras apaixonada pelo homem atrás da maçã, por isso abraçava-o.
Depois começou a falar para as paredes.
E nunca mais saiu de casa.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A casa (V)
Para a casa, que faz hoje 1 ano e 3 dias.
As paredes eram tortas e tinham umbigos até ao final do corpo.
Entrava-se por um arco-íris e no parapeito da janela cresciam raízes de outras casas. Davam flores e frutos. Oxigénio. Vida.
Na cozinha andava pendurado um sonho de azulejos a espelhar um sol diferente. Aí se refogavam os dias, cheios de cores e formas, sem receitas.
Certo dia, quando decidiram construir o telhado, o homem ilimitado desenhou um algeroz serpenteado para os proteger das chuvas, das inundações. Do dilúvio.
Tudo isto a inspirava: o arco-íris, a janela, o algeroz. O homem ilimitado.
De resto, durante a noite, a casa enterrava-se devagar no chão como as raízes. E rangia os dentes.
Era orgânica. Gaudiana. Imperfeita.
Igual à vida.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
A casa (IV)
A nossa casa é um moinho:
roda sobre si própria como as crianças
e tem asas nas costas como os anjos.
Nela moemos o trigo do nosso pão.
Somos moleiros em queda livre:
fomos e viemos com o vento
como os pássaros que migram.
É o voo que dá fôlego à nossa casa.
Ou seja, é de vento que se faz o nosso pão.
roda sobre si própria como as crianças
e tem asas nas costas como os anjos.
Nela moemos o trigo do nosso pão.
Somos moleiros em queda livre:
fomos e viemos com o vento
como os pássaros que migram.
É o voo que dá fôlego à nossa casa.
Ou seja, é de vento que se faz o nosso pão.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
A casa (III)
A mulher do 2.º direito estava a aspirar a casa. Agachou-se um pouco para enfiar o tubo debaixo da cama, mas o bocal começou a puxar o atacador de um sapato escondido atrás da colcha. A mulher urrou impaciente, deixou cair os ombros, desligou o aspirador com um pontapé e o enrolador automático sorveu a ficha à velocidade com o que o filho mais novo engolia o esparguete. A mulher abriu a janela do quarto, pegou no aspirador à bruta e atirou-o pela janela fora, levando-o primeiro ao alto da cabeça qual king kong de dentes cerrados.
Depois coleccionou outros aparelhos domésticos e atirou-os também pela janela: o ferro de engomar, o microondas, a batedeira, a televisão, a aparelhagem, as colunas de som, o leitor de DVD, o computador portátil, a impressora a lazer do filho mais velho, o telefone sem fios (a propósito de fios, esquecemo-nos de mencionar que a mulher perdera algum tempo a desenrolar cuidadosamente os fios da televisão e da aparelhagem para poder separá-las do armário).
No final a mulher avançou para as cadeiras, os quadros, os cristais decorativos, o banco de camurça, a enorme escultura em madeira de um preto raquítico. Quando a polícia chegou a mulher estava a rasgar lençóis, mas apercebera-se a tempo do carro a estacionar lá fora e correra escadas abaixo, saindo pela porta das traseiras.
Correu durante horas, parou para comer qualquer coisa numa tasca e continuou a correr. De repente estava no Cabo da Roca, desequilibrou-se na ponta da terra, agarrou-se à rocha e desceu pelo desfiladeiro sem medo. Como a terra acabava, a mulher do 2.º direito atirou-se ao mar e nadou disciplinada, braço ante braço, até que um pescador a pescou por engano e a levou para uma ilha, onde atracou de seguida um cargueiro que a levou a bordo até aos Estados Unidos.
Chegados à terra prometida, a mulher continuou a correr, pedia perdão, informações, boleia, dinheiro. Chegou a São Francisco, tirou uma fotografia à ponte vermelha por ser igual à de Lisboa, apanhou um ferry boat para Alcatraz e aí conheceu o neto de um ex-prisioneiro que sabia de cor as histórias do avô e as contou uma a uma durante mil e uma noites em águas pacíficas. Almoçaram juntos em Tóquio e despediram-se para sempre cheios de protocolo em Quioto. A mulher percorreu o Japão a correr e foi feita refém na Coreia do Sul por um terrorista da Coreia do Norte. Devido à inexistência de um intérprete com a combinação linguística coreano-português, a mulher do 2.º direito foi libertada e atada a um lugar executivo do voo que ligava a Coreia do Sul à cidade Londres, onde foi recebida pela família em directo para a televisão. No dia seguinte, chegou a casa acompanhada pelos filhos e encontrou todos os aparelhos no sítio: a televisão, a aparelhagem, o leitor de DVD, o telefone. Calou-se de espanto e fechou-se na cozinha. Talvez o marido tivesse estado todo aquele tempo a arranjar os aparelhos, talvez tivesse comprado tudo de novo com as poucas poupanças, mas a mulher preferia pensar que, na verdade, aquele ataque de nervos nem tinha acontecido, que ela tinha voltado atrás no tempo durante aquela volta ao mundo, que era dona de um poder poderosíssimo. Riu-se sozinha enquanto lavava a loiça e começou a fazer planos para várias viagens à volta do mundo que a levassem até aos seus 20 anos. Num segundo, arrependeu-se de toda a vida. Atirou os pratos ao chão enquanto prometia a si mesma: "Não serei a mulher do 2.º direito" e deitou mãos à obra. Saiu pela porta das traseiras e desta vez foi de carro até ao Cabo da Roca para poupar energias.
Depois coleccionou outros aparelhos domésticos e atirou-os também pela janela: o ferro de engomar, o microondas, a batedeira, a televisão, a aparelhagem, as colunas de som, o leitor de DVD, o computador portátil, a impressora a lazer do filho mais velho, o telefone sem fios (a propósito de fios, esquecemo-nos de mencionar que a mulher perdera algum tempo a desenrolar cuidadosamente os fios da televisão e da aparelhagem para poder separá-las do armário).
No final a mulher avançou para as cadeiras, os quadros, os cristais decorativos, o banco de camurça, a enorme escultura em madeira de um preto raquítico. Quando a polícia chegou a mulher estava a rasgar lençóis, mas apercebera-se a tempo do carro a estacionar lá fora e correra escadas abaixo, saindo pela porta das traseiras.
Correu durante horas, parou para comer qualquer coisa numa tasca e continuou a correr. De repente estava no Cabo da Roca, desequilibrou-se na ponta da terra, agarrou-se à rocha e desceu pelo desfiladeiro sem medo. Como a terra acabava, a mulher do 2.º direito atirou-se ao mar e nadou disciplinada, braço ante braço, até que um pescador a pescou por engano e a levou para uma ilha, onde atracou de seguida um cargueiro que a levou a bordo até aos Estados Unidos.
Chegados à terra prometida, a mulher continuou a correr, pedia perdão, informações, boleia, dinheiro. Chegou a São Francisco, tirou uma fotografia à ponte vermelha por ser igual à de Lisboa, apanhou um ferry boat para Alcatraz e aí conheceu o neto de um ex-prisioneiro que sabia de cor as histórias do avô e as contou uma a uma durante mil e uma noites em águas pacíficas. Almoçaram juntos em Tóquio e despediram-se para sempre cheios de protocolo em Quioto. A mulher percorreu o Japão a correr e foi feita refém na Coreia do Sul por um terrorista da Coreia do Norte. Devido à inexistência de um intérprete com a combinação linguística coreano-português, a mulher do 2.º direito foi libertada e atada a um lugar executivo do voo que ligava a Coreia do Sul à cidade Londres, onde foi recebida pela família em directo para a televisão. No dia seguinte, chegou a casa acompanhada pelos filhos e encontrou todos os aparelhos no sítio: a televisão, a aparelhagem, o leitor de DVD, o telefone. Calou-se de espanto e fechou-se na cozinha. Talvez o marido tivesse estado todo aquele tempo a arranjar os aparelhos, talvez tivesse comprado tudo de novo com as poucas poupanças, mas a mulher preferia pensar que, na verdade, aquele ataque de nervos nem tinha acontecido, que ela tinha voltado atrás no tempo durante aquela volta ao mundo, que era dona de um poder poderosíssimo. Riu-se sozinha enquanto lavava a loiça e começou a fazer planos para várias viagens à volta do mundo que a levassem até aos seus 20 anos. Num segundo, arrependeu-se de toda a vida. Atirou os pratos ao chão enquanto prometia a si mesma: "Não serei a mulher do 2.º direito" e deitou mãos à obra. Saiu pela porta das traseiras e desta vez foi de carro até ao Cabo da Roca para poupar energias.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
A casa (II)
No Sábado, o senhor do fundo da rua desceu a rua, foi almoçar fora e quando voltou, não sabia onde morava. Era um senhor muito jovem, filho único, divorciado, trabalhador por conta de outrem. Dir-se-ia que a sua intuição era boa pois não estava longe do seu prédio e a sua intenção era ainda melhor porque começou a bater à porta dos vizinhos sem pudor nem receio. Mas infelizmente, naquele bairro ninguém se metia na vida alheia porque, verdade seja dita, ninguém queria saber de ninguém e nenhum vizinho sabia ao certo onde morava o senhor do fundo da rua.
O acontecimento era verdadeiramente estranho, porque o senhor lembrava-se de tudo o resto. Começou a exercitar a memória e sabia quase tudo: o preço do café no café da rua, o horário de funcionamento, o sabor a ferrugem da água da torneira, até o nome da empregada e da filha da empregada. Chamavam-se as duas Joanas e a Joana-mãe ria-se muito alto. Quando lhe contou o sucedido, a Joana-mãe ria-se às gargalhadas, batia com as mãos nas pernas, dobrava-se ao meio com uma flexibilidade impossível. "Beba lá um café que já se lembra", mas o senhor não se lembrou.
A Joana-filha era já uma adolescente em idade avançada ou pelo menos portava-se como tal. Ria-se baixinho e andava devagar como as mulheres verdadeiramente adultas. Estendeu um caderno da escola ao senhor do fundo da rua e uma caneta muito trincada com uma tampa disforme devido à violência dos dentes contra o plástico. Disse: "Escreva um número de telefone que saiba de cor e depois ligue daqui a perguntar onde fica a sua casa". O senhor não pensou logo no carácter absurdo daquele telefonema. Pelo contrário, pareceu-lhe uma ideia de tal forma genial, que se concentrou na tarefa e desatou a escrever algarismos de forma convulsiva: o número de conta, o número da segurança social, o código postal, o número de bilhete de identidade, o código secreto do cartão multibanco, o PIN do telemóvel, a data de nascimento do filho e, de repente, um número de telefone. Mostrou o papel orgulhoso e a Joana-mãe ligou entusiasmada. Passou o telefone ao senhor do fundo da rua mas ficou do seu lado, ouvindo a conversa.
A ex-mulher atendeu e o senhor apercebeu-se de que a sua voz não tinha mudado em anos, era uma voz em estado puro, sempre tão impenetrável, impermeável, imperdoável. Teve vergonha da sua própria voz por isso não falou logo, mas a Joana-mãe bateu-lhe com força nas costas e ele tossiu as palavras. Disse com a voz dorida: "Não sei para onde ir!". As Joanas entreolharam-se incrédulas, não era uma boa maneira de começar o discurso. O senhor do fundo da rua apercebeu-se a tempo do seu ridículo e desligou o telefone. Ficaram em silêncio.
Não tinham passado 10 minutos. Certamente 5 e, com alguma probabilidade 7, mas não tinham passado 10 minutos. O senhor descia a pé e a ex-mulher subia de carro, encontraram-se a meio da rua. A ex-mulher saltou do carro num segundo como uma rã que abandona um nenúfar. Olharam-se estupefactos, há anos que não se falavam. Tinham-se encontrado 3 vezes por causa de assuntos familiares (ela dizia asneiras entre dentes, ele trincava a língua, os dois davam pontapés nas mesas, acenavam cordialmente à distância). Agora ali estavam, frente a frente, sem pretextos familiares nem o filho único, o único elo entre os dois. Ela disse: "Eu também não" e, sem darem por isso, beijaram-se. Queriam esconder-se e enfiaram-se um no outro, era uma reacção mais ou menos normal. O senhor do fundo da rua lembrou-se de repente da sua morada. Repetiu-a de si para si enquanto subiam a rua e sentiu-se aliviado quando a chave rodou na porta. Entraram em casa e não saíram durante muito tempo, embora este dado seja questionável, pois naquele bairro ninguém queria saber de ninguém e consequentemente não se sabe ao certo a que horas desceram à rua.
O acontecimento era verdadeiramente estranho, porque o senhor lembrava-se de tudo o resto. Começou a exercitar a memória e sabia quase tudo: o preço do café no café da rua, o horário de funcionamento, o sabor a ferrugem da água da torneira, até o nome da empregada e da filha da empregada. Chamavam-se as duas Joanas e a Joana-mãe ria-se muito alto. Quando lhe contou o sucedido, a Joana-mãe ria-se às gargalhadas, batia com as mãos nas pernas, dobrava-se ao meio com uma flexibilidade impossível. "Beba lá um café que já se lembra", mas o senhor não se lembrou.
A Joana-filha era já uma adolescente em idade avançada ou pelo menos portava-se como tal. Ria-se baixinho e andava devagar como as mulheres verdadeiramente adultas. Estendeu um caderno da escola ao senhor do fundo da rua e uma caneta muito trincada com uma tampa disforme devido à violência dos dentes contra o plástico. Disse: "Escreva um número de telefone que saiba de cor e depois ligue daqui a perguntar onde fica a sua casa". O senhor não pensou logo no carácter absurdo daquele telefonema. Pelo contrário, pareceu-lhe uma ideia de tal forma genial, que se concentrou na tarefa e desatou a escrever algarismos de forma convulsiva: o número de conta, o número da segurança social, o código postal, o número de bilhete de identidade, o código secreto do cartão multibanco, o PIN do telemóvel, a data de nascimento do filho e, de repente, um número de telefone. Mostrou o papel orgulhoso e a Joana-mãe ligou entusiasmada. Passou o telefone ao senhor do fundo da rua mas ficou do seu lado, ouvindo a conversa.
A ex-mulher atendeu e o senhor apercebeu-se de que a sua voz não tinha mudado em anos, era uma voz em estado puro, sempre tão impenetrável, impermeável, imperdoável. Teve vergonha da sua própria voz por isso não falou logo, mas a Joana-mãe bateu-lhe com força nas costas e ele tossiu as palavras. Disse com a voz dorida: "Não sei para onde ir!". As Joanas entreolharam-se incrédulas, não era uma boa maneira de começar o discurso. O senhor do fundo da rua apercebeu-se a tempo do seu ridículo e desligou o telefone. Ficaram em silêncio.
Não tinham passado 10 minutos. Certamente 5 e, com alguma probabilidade 7, mas não tinham passado 10 minutos. O senhor descia a pé e a ex-mulher subia de carro, encontraram-se a meio da rua. A ex-mulher saltou do carro num segundo como uma rã que abandona um nenúfar. Olharam-se estupefactos, há anos que não se falavam. Tinham-se encontrado 3 vezes por causa de assuntos familiares (ela dizia asneiras entre dentes, ele trincava a língua, os dois davam pontapés nas mesas, acenavam cordialmente à distância). Agora ali estavam, frente a frente, sem pretextos familiares nem o filho único, o único elo entre os dois. Ela disse: "Eu também não" e, sem darem por isso, beijaram-se. Queriam esconder-se e enfiaram-se um no outro, era uma reacção mais ou menos normal. O senhor do fundo da rua lembrou-se de repente da sua morada. Repetiu-a de si para si enquanto subiam a rua e sentiu-se aliviado quando a chave rodou na porta. Entraram em casa e não saíram durante muito tempo, embora este dado seja questionável, pois naquele bairro ninguém queria saber de ninguém e consequentemente não se sabe ao certo a que horas desceram à rua.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
A casa (I)
Tinha pânico de se esquecer das chaves de casa, por isso a senhora do rés-do-chão verificava três vezes se as trazia no bolso antes de sair. Às vezes, não confiando no tacto, tirava-as do casaco para ver com os próprios olhos se o porta-chaves de três guizos trazia as chaves consigo. Tinha o hábito de trancar a porta mesmo quando só ia à padaria do lado. Antes de sair do prédio, apesar dos guizos cantarem a cada passo, metia a mão no bolso e cumprimentava as chaves mais uma vez.
Portanto, naquele Domingo, qual não foi o seu espanto quando, no regresso a casa, tirou do bolso um porta-chaves demasiado leve. O cantar dos três guizos parecia mais pobre, como se alguns membros da banda não estivessem presentes. A senhora examinou o objecto com as mãos e verificou o impossível: o porta-chaves estava vazio, não havia uma única chave pendurada nos três guizos. O mistério era de tal forma misterioso que a senhora nem o questionou. Olhou para o chão, meteu a mão em todos os bolsos, espreitou debaixo do tapete e nada, as chaves tinham realmente desaparecido. Era um Domingo demasiado agradável para os vizinhos estarem em casa e, por ser uma pessoa informada, a senhora achou que os bombeiros não atenderiam o telefone por causa dos incêndios de Verão.
Portanto, naquele Domingo, qual não foi o seu espanto quando, no regresso a casa, tirou do bolso um porta-chaves demasiado leve. O cantar dos três guizos parecia mais pobre, como se alguns membros da banda não estivessem presentes. A senhora examinou o objecto com as mãos e verificou o impossível: o porta-chaves estava vazio, não havia uma única chave pendurada nos três guizos. O mistério era de tal forma misterioso que a senhora nem o questionou. Olhou para o chão, meteu a mão em todos os bolsos, espreitou debaixo do tapete e nada, as chaves tinham realmente desaparecido. Era um Domingo demasiado agradável para os vizinhos estarem em casa e, por ser uma pessoa informada, a senhora achou que os bombeiros não atenderiam o telefone por causa dos incêndios de Verão.
Sem pensar duas vezes, a senhora fez-se à estrada. Era a primeira vez que andava pela rua sem um destino concreto e o coração batia nervoso atrás da pele. Depois, ao dobrar a primeira esquina, o coração entusiasmou-se com tanta rua por explorar, por isso encheu-se de sangue e deu ordens ao corpo. A senhora riu-se satisfeita, estava contente por alguém lhe indicar o caminho. Dentro do bolso, os três guizos marcavam o compasso com o seu cantar. Ao longe, mais pareciam risos de meninos depois de fazerem uma asneira.
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