sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O gordo da passadeira

No outro dia choveu, e bem. 
Lá vínhamos nós a rastejar pela vida, eu e o meu barrigão. Calçávamos umas sandálias de cortiça que escorregavam na água.
A certa altura atravessámos a passadeira. O meu barrigão à frente e eu atrás.


“Eu sou Eu Sei”, Madalena Matoso

De repente, a meio da passadeira, entre uma poça de água e outra, para nosso grande espanto e indignação, levámos com uma buzinadela nas trombas. Eu, o meu barrigão e as sandálias de cortiça até andámos de lado.
Dentro do carro buzinador estava um homem branco e gordo, sessenta e tal anos, as duas mãos ao volante.
Parámos ali mesmo, no meio da passadeira. Tirámos o capuz do impermeável, apontámos para a barriga. Para que não restassem dúvidas.
O homem gordo sacudiu os ombros e a cabeça naquele jeito impaciente dos homens brancos, que sabem tudo sobre a condição humana e não estão para choradinhos. 
Pelo amor da Santa, a grávida que saia da frente. A grávida e os outros todos também, dizia o homem gordo de si para si, as mãos sapudas ao volante. 
Anda tudo com as mulheres ao colo hoje em dia, já repararam? E com os paneleiros e os ciganos e os pretos e os imigrantes e os velhos e sei lá mais o quê. Estou pelos cabelos com essa gentinha.
Ali estava ele, o homem branco todo-poderoso, protegido da chuva e da lentidão pela sua caixa de metal com quatro rodas. Cheio de urgência e virilidade. Tão desiludido com a vida. Tão cansado das minorias e das suas queixinhas menores. Gente feia e zangada. Sempre a apontar o dedo. Parecem umas crianças. “Ó mãe, olha ele!” 
O homem gordo dá uma buzinadela geral às pessoas chatas. Saiam todos da frente. 
Ali estava ele, o homem branco - gordo por opção e não por fecundação - a olhar com desprezo para os fracos de espírito e de corpo.
É curioso e meio esquisito. Durante a juventude, o homem gordo até era de esquerda. Lutou e acreditou na igualdade e na democracia. Mas entretanto a vida passou-lhe por cima e o homem gordo esqueceu-se desse sonho. Já não pode ouvir falar em coitadinhos. Nem em reivindicações e lamentos.
Que mal fez ao mundo este homem branco, que até paga os impostos e é bom pai de família? Lá porque nunca foi oprimido nem vítima de abusos. Lá porque nunca foi excluído nem discriminado. Lá porque os homens brancos antes dele andaram por aí no bem-bom durante séculos a excluir e a oprimir cada um. 
A culpa agora é deste homem barrigudo por acaso? Só por ser homem, branco e gordo? Vão discriminá-lo por causa do seu género, da sua orientação sexual e da cor da sua pele? Tenham paciência. Já ninguém faz isso. 
A grávida que se puxe à calma. Já ninguém é misógino, minha senhora, e a minha mãe teve cinco filhos e não fazia queixinhas. Deixem-se lá de protestos e dessa mania das injustiças. Saiam da frente.
E, por favor, parem de dizer que o homem branco é um privilegiado, porque eu cá não tenho privilégios nenhuns. Na verdade devo ser o único não privilegiado. Reparem que não existe um Dia Internacional do Homem Branco nem ONG para defender os meus interesses de homem branco nem ajudas especiais ou quotas para os homens brancos. 
Tenham dó do branco barrigudo. A vida não está nada fácil para ele: espera-se tanto do homem branco e tão pouco dos outros todos.
Eu e o meu barrigão temos muita vontade de fazer um manguito prolongado ao homem gordo, mas neste momento não há pilinha que nos valha, porque também não é bem uma piça que queremos mostrar ao senhor. O que gostávamos de gesticular ao homem gordo era precisamente o contrário de uma pichota. Era um gigante par de ovários ou de mamas. Uma vagina obscena para mandar abaixo esta visão do mundo tão masculina e sobranceira e simplória ao mesmo tempo. Infelizmente, esse gesto de fêmea enraivecida nem sequer existe. O poder da pichota continua a ser supremo, até mesmo na comunicação gestual.
Ó homenzinho branco, meu patego a dar com pau. Ainda não percebeste nada. Este mundo foi feito à tua imagem, mas já não é teu. Este mundo agora é de todos. E esta estrada também não te pertence. Esta estrada é de quem andar nela. É dos velhos e dos seus cãezinhos, é das grávidas e dos deficientes e dos outros todos. 
Não fiques assim, com esse arzinho amuado e contrariado. Há muita coisa que tu não entendes. Na verdade, a maior parte das experiências humanas estão-te vedadas. Nunca saberás o que é ser um preto no meio dos brancos, nunca saberás o que é ser um imigrante ilegal, nunca saberás o que é ser uma grávida de gémeos a duas semanas do parto. Por isso, puxa-te tu à calma, homenzinho gordo. Um pouco mais de empatia e humildade, por favor. 
Não buzines nas passadeiras. Não continues a oprimir os mais fracos. Sobretudo, não venhas com conclusões e generalizações sobre vidas que desconheces. Tu já não mandas nisto tudo. 
Devias levar com um par de ovários nos olhos, mas toma lá um abracinho. Sei bem que a sociedade espera isso de mim e de todas as mulherzinhas: empatia e candura; e não agressividade e rebeldia.
Enfim. Eu e o meu barrigão respiramos fundo e avançamos pela vida, ligeiramente desequilibrados por causa das sandálias e da nossa indignação. Estafermo do homem gordo e de todos os que me fizeram razias nas passadeiras e me ultrapassaram nas filas e não me deram lugar no elétrico nem no autocarro. É que não foram assim tão poucos. Foram bastantes. Homens, mulheres, velhos e novos. Mundo cruel, este, que não cuida dos que precisam.
Tenham dó da mulher grávida, pá. A vida não está fácil para ela: vai passar os próximos tempos a lavar pichotas.
Uma buzinadela geral para vocês todos, que ficam desse lado a rir e a fazer o que vos apetece.
Uma buzinadela e um maguito também, sim?

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A minha mãe aos 70

A minha mãe faz hoje 70 anos. Não tem rugas nem botox. É uma mulher natural.
Toda a gente acha que é 20 anos mais nova. Eu cá tenho a certeza que a minha mãe é 20 anos mais nova.
Quase nunca está doente. Raramente se cala. Quase nunca se cansa. Quase sempre estrebucha, refila, parte a loiça toda e depois parte-se a rir. Não gosta de cozinhar nem de passar a ferro. Diz muitas vezes que se esquece da idade que tem. Eu também me esqueço da idade da minha mãe.
A minha mãe, aos 70, tem energia e paixão para dar e vender. Dança sempre que pode. Estica o seu próprio cabelo, arranja as próprias unhas. Não é de lamúrias nem de queixumes.
Nunca recusa um chocolate. Nunca recusa um copinho. Dantes bebia whisky. Agora só bebe vinho. E talvez conhaque. E também ginjinha. E cerveja, claro. Come queijo da serra, alheiras de caça, Magnum de amêndoas. Fumou durante décadas. Passou horas ao sol.
Numas coisas somos muito parecidas. Noutras somos o total oposto.
A minha mãe, aos 70, é muito mais nova do que muita gente nova que por aí anda. Parabéns, mãezinha! És uma inspiração.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Coitada da Ana Pessoa

Coitada da Ana Pessoa. Está para ali assim, vagarosa e inchada. Tão duplamente grávida. Já nem consegue respirar até ao fundo de si própria. Não consegue andar até ao fundo da rua. Mete muito dó.
Até a Ana Pessoa tem pena de si própria. Só lhe apetece escrever um texto a começar assim: “Coitada da Ana Pessoa”. Felizmente tem alguma noção de si e dos outros, por isso não vai escrever esse texto.
Faz hoje 37 anos, mas podiam ser muito mais. Está pesarosa e pesadona. Um feliz aniversário, Ana Pessoa. É o que eu te desejo.
Antes a vida era mais ligeirinha, não era? Liam-se umas páginas de um livro e havia uma certa beleza nas horas. Depois o corpo virava-se para o lado e adormecia.
A Ana Pessoa lembra-se dessa vida e tem saudades de si própria, da pessoa original. Da pessoa sozinha que, a bem dizer, já era bastante. Mas ultimamente, coitada, a Ana Pessoa confunde-se. Já não sabe bem onde começa a sua pele nem onde acaba a sua existência. 
É uma pessoa ao cubo. Tem três cabeças, três corações. O ego triplicado, cheio de varizes e estrias, o umbigo virado do avesso. 
Coitada da Ana Pessoa. 
Nunca sentiu tanto com tanta intensidade. Nunca ocupou tanto espaço. Nunca pesou tantos quilos. 
E isso, na verdade, talvez queira dizer que a Ana Pessoa nunca existiu com tanta força, com tanta pujança. Nunca a sua existência foi tão pronunciada. Toda ela é uma abundância que só visto. Uma presença inegável. E portanto, ouçam: não tenham pena dessa tal Ana Pessoa. Anda por aí fértil e generosa a largar óvulos em dose dupla. 
É bem feito. Ovulasse menos. Com recato e moderação, que é o que se espera de uma mulher.
Quem diria, Ana Pessoa. 
Logo tu, que durante tanto tempo acreditaste que a maternidade não era para ti ou que tu não eras para a maternidade porque o universo te dizia precisamente isso, que tu e a maternidade não eram feitas uma para a outra, e portanto andavas tão ocupada a fazer outras coisas na vida, como, por exemplo, a ser tu própria ou, pelo menos, a tentar ser e estar neste mundo, como toda a gente.
Agora, olha, vais ter a casa cheia de homens, que até te lixas toda. 
Um marido e três rapazes. 
É obra, Ana Pessoa. Coitadinha da tua existência. Vais passar as passinhas do Algarve, deixa-me que te diga.
É da maneira que começas a falar baixinho e a existir um pouco menos. Só te fica bem, Ana Pessoa. Pode ser que fiques mais pequena, mais frouxa, mais razoável.
E durante essa tua subtração a caminho do desaparecimento, pode ser que algo bom aconteça. Pode ser que te caiam umas respostas em cima da tola quando o teu ego escorregar pelo ralo da banheira. Pode ser que compreendas, por exemplo e por fim, que as mães são culpadas de tudo.
Que não há volta a dar. 
E pode até ser que nessa existência minguante passes a escrever alguma coisa de jeito, Ana Pessoa.
Imagina. Isso é que era bom! Uma prosa sem ego. Sem merdas. Sem estrias. Era mesmo muito bom. Tu não achas, Ana Pessoa?
Eu acho. 
Doem-me muito as pernas. 
Dói-me esta existência triplicada. 
Mas cá estamos todos, eu e eles, para dar a volta a isto. 
Quero o meu umbigo de volta. 
A minha pessoa.
O meu ego original.

Ilustração de Bernardo P. Carvalho para “O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca”



terça-feira, 6 de agosto de 2019

Rui Gonçalves

O Rui Gonçalves morreu.
Era um homem muito alto e muito magro. Vivia sozinho num apartamento em Oeiras. Não tinha filhos nem cães nem gatos.
Era amigo dos meus pais e também meu amigo. Ligeiramente louco. Profundamente preconceituoso. Homofóbico. Racista. 
Andava sempre armado. De manhã à noite. Dormia com a pistola debaixo da almofada. Mas não era um homem violento. Era até doce na sua loucura varrida.
Fazia paraquedismo. Não comia queijo. Contava histórias incríveis do Ultramar, mas só as que davam para rir no fim. Nós ríamos sempre no fim.
Durante a minha infância trazia-me prendas a toda a hora. Coisas pequenas e banais, que ele apresentava com grande pompa. Fazia introduções enormes a esses pequenos tesouros. Podiam ser berlindes. Lápis de cor. Borrachas. Pouco importava. Tinham uma história. Eram valiosos. 
Sempre que me dava um desses tesouros, o Rui fazia questão de esclarecer que aquela prenda era uma exceção. Que não ia estar sempre a trazer-me prendas quando nos viesse visitar. Ora essa, comentavam os adultos, claro que não. Os miúdos depois habituam-se, já se sabe. Mas a verdade é que o Rui me trouxe sempre prendas. Sempre sempre sempre.
Uma vez, eu e a minha vizinha Aurora estávamos sentadas no chão da sala a rir às gargalhadas. Não me lembro por que razão nos ríamos, mas sei que nos ríamos muito. O Rui observava-nos em silêncio, com aquela alegria triste dos adultos que perderam a infância. A certa altura virou-se para a minha mãe e disse: “Se há coisa que estas miúdas vão poder dizer é que tiveram uma infância feliz”. E depois virou-se para mim e para a Aurora - que ele tratava por “Orora com O grande” - apontou o dedo e disse: “Nunca se esqueçam que tiveram uma infância feliz”. Eu e a Aurora parámos de rir. Um pedaço da nossa infância talvez tenha chegado ao fim naquele momento. E foi uma infância feliz realmente, graças também ao Rui Gonçalves, que me trazia prendas sempre que ia lá a casa e fazia umas entradas muito cómicas nas minhas festas de aniversário: primeiro chegava a voz dele e depois talvez um braço ou uma perna e só depois ele inteiro.
Conheci-lhe algumas namoradas e também uma esposa, com quem casou duas vezes. Se bem me lembro, ele dizia “esposa”. Não dizia “mulher”. Eu adorava esta história dos noivos que se casaram duas vezes.
O Rui nunca gostou de nenhum dos meus namorados. Tratava-os com frieza e desdém. A semanas de me casar, foi até bastante indelicado com o meu futuro “esposo”. Inquisidor, severo, desagradável. Na altura levei a mal, mas agora levo a bem.
É que o Rui Gonçalves gostava à brava de mim. Nunca tive dúvidas disso. E não há muita gente de quem se possa dizer isto assim, sem reservas: que gostam à brava de nós.
Durante a minha adolescência, dizia-me coisas espantosas. Por exemplo, que eu devia sentir gratidão por ser uma pessoa normal e saudável, que a normalidade e a saúde eram preciosas, que o melhor que me podia acontecer na vida era ter uma relação como os meus pais tinham, uma relação para toda a vida, com intimidade e amor e sexo e família como ele nunca tivera. Também me dizia: “Promete-me que não te vais casar com um preto” e eu ficava sempre muito envergonhada e indignada com aquele pedido. Não podia prometer tal coisa. Como não? Claro que não. Ele desafiava-me: “Eras capaz de casar com um preto?” Claro que era. Que disparate. O Rui muito desgostoso. A insistir: “Por favor, não te cases com um preto.” E eu com a certeza adolescente de que me ia casar com um preto lindo de morrer, porque o destino é mesmo assim: mete sempre a pata na poça.
Volta e meia, perguntava-me pela “Orora com O grande”. Eu respondia sempre a mesma coisa: que nos tínhamos afastado, que eu não sabia nada dela. E o Rui ficava sempre assim, com aquela alegria triste das pessoas sem infância, a pensar na vida.
Durante uma fase da adolescência interessei-me pela implantação da República. Não sei por que raio, mas queria escrever qualquer coisa sobre essa época. Até já tinha um protagonista: um rapaz que fumava beatas do chão e ganhava uns tostões a trabalhar como ardina.
O Rui entusiasmou-se muito com a ideia. Durante meses trouxe-me fotocópias de livros que ele encontrava nas bibliotecas: imagens de ardinas, páginas sobre a revolução de 5 de outubro, apontamentos sobre o Partido Republicano Português. Infelizmente, nunca escrevi nada sobre a implantação da República, mas lembro-me muitas vezes do rapaz ardina. Era uma boa personagem. Talvez venha a existir um dia. Talvez se venha a chamar Rui.
No meu aniversário, o Rui telefonava-me e dizia-me apenas isto: “Saúde saúde saúde”. Eu dizia obrigada e perguntava-lhe se estava bem. O Rui nunca me respondia. Repetia “Saúde saúde saúde” e eu ria-me. Gozava à farta com aquela frase: “Saúde saúde saúde”. Se ele estivesse em casa, talvez me dissesse que estava a olhar para as fotografias que tinha na parede, que eu estava em várias dessas fotografias e que só me desejava “Saúde saúde saúde”.
Nos últimos anos desfez-se de tudo. Vendeu o apartamento, ofereceu o conteúdo da casa a este e àquele. Depois zangou-se com toda a gente. Depois adoeceu. E depois morreu um pouco mais sozinho do que antes, parece-me.
Neste último ano, enviou-me algumas cartas e recortes de jornais, incluindo artigos sobre os meus livros que ele encontrava aqui e ali. Agrafava uma
folha em branco à capa da publicação e explicava tintim por tintim onde e quando encontrara o artigo. Sublinhava algumas palavras a vermelho. Da casa do Rui herdei uma saladeira de porcelana que era dos pais dele. Uso-a muitas vezes. Tem um bom tamanho para saladas de fruta.
Nunca me vou esquecer do mantra “Saúde saúde saúde”. 
Nunca me vou esquecer que tive uma infância feliz. 
Nunca me vou esquecer do meu amigo Rui, esse homem improvável, louco e racista que andava sempre armado.
Parecia uma personagem de ficção, mas era um homem de verdade.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Mary John - round 2

2.a edição já disponível. Uma Mary John mais vivaça, mais azul, num papel mais coiso e tal!
Eu ainda não vi, mas acredito.

https://www.planetatangerina.com/pt/livros/mary-john


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Isabel Minhós Martins

O Expresso elegeu as 50 pessoas que mais marcaram a vida dos portugueses em 2019. Ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, António Damásio e Dulce Maria Cardoso, está (e muito bem!) a escritora e editora Isabel Minhós Martins, autora da esmagadora maioria dos livros do Planeta Tangerina: álbuns ilustrados de topo e livros de não ficção que nos levam a pensar sobre todos estes fenómenos do mundo e da vida. O tempo, as estações, as árvores, as aves. A escola, o cérebro, o sono. O mar, o amor, o cabelo. Os quintais, os generais, os exploradores.
As palavras são de Gonçalo M Tavares e não podiam ser mais merecidas. Parabéns, Isa! É um privilégio trabalhar com você, viu?


sábado, 29 de junho de 2019

O PNL é um bom lugar!

Ui! Que coisa tão boa ver o “Aqui é um bom lugar” no catálogo do Plano Nacional de Leitura.

Quer dizer que o livro continuará a fazer o seu caminho e a encontrar leitores através das escolas, das bibliotecas, dos professores e dos mediadores.

Leitura aconselhada a leitores fluentes dos 12 aos 18 anos, embora os demais leitores também sejam bem-vindos.

É possível pesquisar o catálogo online por idade, nível de leitura, tema, etc.
http://pnl2027.gov.pt/np4/catalogopnl1semestre2019.html


sexta-feira, 21 de junho de 2019

É a adolescência, senhoras e senhores!

Já está disponível na RTP Play o último episódio do Todas as Palavras: https://www.rtp.pt/play/p4253/e412917/todas-as-palavras

A não perder: entrevista bem boa aos magníficos Inês Barahona e Miguel Fragata a propósito deste Ciclone que é a adolescência.

“Aqui é um bom lugar” aparece mesmo no final do episódio.


Diz Inês Fonseca Santos sobre este diário gráfico:

“É a adolescência, senhoras e senhores, em todo o seu esplendor. Ou seja, é a coragem da descoberta e do desafio”.

Like!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Hay Festival Europa28: Visões para o futuro

Não sei como acabei nesta lista, mas lá estou eu!

O Hay Festival convidou 28 mulheres, uma de cada Estado-Membro da UE, para discutir e imaginar o futuro da Europa.

Somos 28 escritoras, jornalistas, ativistas, cineastas, cientistas, ensaístas, professoras e artistas que se reunirão no Hay Festival Europa28 no próximo ano na Croácia.

Entretanto será brevemente publicada uma antologia em inglês e croata com os contos e ensaios que nós - as autoras - escrevemos sobre a Europa.

Em tempos difíceis para a Europa e o mundo, é realmente uma boa ideia explorar novas visões para o futuro.

Pergunta: por que razão este festival inclui apenas mulheres?

Não sei bem.

Talvez as mulheres mereçam ter mais oportunidades para falarem das suas ideias sobre o futuro da Europa. Talvez a Europa precise de uma abordagem mais feminina. Talvez as mulheres sejam o futuro.

Que honra fazer parte deste festival!

Tudo sobre o Hay Festival Europa28: https://www.hayfestival.com/europa28/home

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Insultos com espargos

A propósito de nada, ocorre-me dizer que a Mary John está cheia de insultos.
Às vezes, num ajuste de contas, é preciso perder as estribeiras. Uma carta presta-se mesmo a isso.

Vai bugiar. Vai morrer longe. Vai dar uma curva.

Um livro também pode faltar ao respeito, ou não?

Os insultos da Mary John foram das coisas que mais prazer me deram escrever e das coisas que mais dores de cabeça deram na tradução para espanhol e na adaptação ao português do Brasil.



Num excerto da edição mexicana que apanhei no Facebook da editora, a Mary John diz assim: Vete al infierno.
Na edição brasileira: Vai pro inferno.
Na edição portuguesa: Vai pentear macacos.

Outros insultos que habitam estas três versões da Mary John:
Vai comer palha. Desampara-me a loja.
Sácate a volar. Esfúmate.
Vai ver se eu tô na esquina. Não encha o saco.

Prémio “Melhor Insulto com Legume da Época”: Vete a freír espárragos.

Adoro insultos. Adoro espargos. Adoro escrever. Adoro línguas.

Aproveito para elogiar a tradutora mexicana Paula Abramo que frita tão bem estes espargos linguísticos.

Agora vou à minha vidinha. Acho que vocês também deviam ir.
Por acaso acabei de comprar um molho de espargos no mercado.

Ide ver se chove.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O Parágrafo é um bom lugar

Esta foca é qualquer coisa!

“Aqui é um bom lugar” em destaque no Parágrafo.

Entrevista de Sara Figueiredo Costa.
Eu falei do texto. A Joana Estrela falou dos desenhos.
Bela conversa sobre o livro, sobre fragmentos e cadernos, sobre a adolescência, a infância e a memória.

Todo o Parágrafo: https://paragrafopontofinal.wordpress.com/2019/05/31/paragrafo-42/
Estou aqui a bater palminhas. Sou uma foca feliz.

sábado, 25 de maio de 2019

A Europa continua

Só nos últimos tempos:
Foi no Parlamento Europeu que se decidiu banir os plásticos de utilização única. Foi no Parlamento Europeu que se pôs fim ao roaming. Foi no Parlamento Europeu que se aprovou o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados. Foi no Parlamento Europeu que se avançou com a ratificação do Acordo de Paris.



A União Europeia existe e funciona. A Europa continua. E olhando para a nossa história recente, estamos muito melhor juntos do que separados.
Esta é a Europa que temos. Quem gosta, deve votar. Quem não gosta, também deve votar.
Amanhã lá estarei para fazer a minha cruz.

sábado, 18 de maio de 2019

“Aqui é um bom lugar” na Revista Blimunda

Que nice! “Aqui é um bom lugar” pousou na Revista Blimunda da Fundação José Saramago.

Crítica de Andreia Brites.

“Como se lê este livro? Fragmentário, com pouca progressão narrativa, avança no tempo, na cronologia e consequentemente na biografia da narradora, Teresa Tristeza (para rimar). Teresa escreve e ilustra, às vezes a si própria, às vezes quem a rodeia, e ainda o espaço. Será este um modelo de diário de uma adolescente no século XXI, quando os adolescentes deixaram de escrever diários? Tem ou não este objeto (aceitando o pacto ficcional) as condições para ser catalogado ou considerado um diário?

Teresa desabafa, comenta, parafraseia e reproduz ditos da mãe, muitos, e outros que ouve por aí. Logo no início do caderno esboça um conjunto de planos a cumprir até ao final do ano letivo, desejavelmente o último da escola secundária. Parece que, pela associação livre de ideias e estímulos que a levam ao texto, Teresa diz pouco. Ao contrário. Apenas o faz por um caminho obtuso, mordaz, irónico, carregado de perspicácia e humor. É aliás nesse tom escrutinador de si própria que se reconhece a voz de Ana Pessoa. 

Depois da torrente narrativa da carta de Mary John a Júlio Pirata, provavelmente o melhor livro juvenil português da década, a escritora tinha entre mãos a dura tarefa de manter a identidade, a qualidade literária, a frescura e originalidade. Conseguiu. Aqui há também o mérito da ilustração, da paginação e do próprio design que tornam todas as partes compósitas deste livro num corpo uno: o diário de Teresa Tristeza. 



Joana Estrela capta a ironia com que a protagonista se representa pelo texto e logo lhe confere espaços de conforto no sofá, ecrãs que lhe devolvem o reflexo e a nós nos oferecem um retrato. Mais, acrescenta-se-lhe uma voz da imagem, já que a adolescente escreve e desenha. A leitura deste diário segue à letra o sentido de diário gráfico. 

O puzzle não está completo, e o que existe basta para acompanhar o 12.o ano de Teresa, saber quem é a sua melhor amiga, descortinar ciúmes, atentar em insatisfações em relação ao seu corpo, comprovar tensões e afetos familiares, acompanhar novas descobertas e intuir, já no dealbar do ano letivo, que talvez paire um encantamento. A certeza da mudança também não fica por dizer.”

A Revista Blimunda #83/84 de abril/maio de 2019 está acessível aqui: 



quarta-feira, 15 de maio de 2019

nenhum nenhures algures ninguém

aqui aí adiante além
ali acolá atrás aquém
quase quem aquele alguém
nenhum nenhures algures ninguém
todo tarde tanto quanto
tudo aquilo abaixo quando
quão já qualquer então
tal qual essoutro não
ontem onde outro tão
ora fora agora embora
antes ambos isso outrora
sempre frente entre dentro
como cada nunca nada
logo hoje longe cujo
pouco algum muito fundo
acima ainda cedo assim
certo perto sim jamais
mesmo menos mais demais

sábado, 11 de maio de 2019

Aqui estou


Aponta em frente. Diz: “Aqui”.
Aponta para cima. Para baixo. Para o lado. “Aqui.”
Aponta com o dedo indicador.
Mão esquerda, mão direita, tanto faz.
Aqui.
Aqui, o pombo, o cão, o céu.
Aqui, campainha, árvore, quadro.
Aqui, teto, porta, pai.
Aqui, noite, colher, bolacha.
Aqui, colo. Aqui, mais. Aqui, água.
Aqui, silêncio, chuva, nada.
Aqui.
Primeira palavra. Primeiro tudo.
Mundo inteiro.
Aqui estou.

Mary John nas sugestões de leitura do PNL

O Plano Nacional de Leitura está a recomendar a "Mary John" como leitura do mês de Maio.

"Melancólico, certeiro na composição de cada personagem, rigorosamente atual na captação dos contextos verbais e não verbais, Mary John é uma obra-prima que pode exemplarmente representar o que significa a catalogação de literatura juvenil."

Aqui todo o texto:
http://pnl2027.gov.pt/np4/maryjohn.html



Uma “obra-prima” em tons de azul, sim?

A Mary John está esgotadinha há vários meses, mas a nova edição deve estar aí a rebentar.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

Mãe é mãe

(O dia da mãe é quando uma filha quiser.)



Não é não. Já é já. Mãe é mãe.
A minha mãe de manhã. À tarde. À noite. 
A minha mãe na praia. Na cozinha. No shopping.
A minha mãe a cortar tomate. A comer chocolate.
A beber ginjinha. A dançar um sambinha. 
A minha mãe contente. Na boa vai ela. A abrir a janela. 
A fechar o forno. A secar o cabelo. 
A minha mãe no sofá. A falar ao telefone.
Cheia de sono. Cheia de ideias. Cheia de fome.
A minha mãe a fazer coisas. Colares, brincos, pulseiras. Sacos, mantas, quadros.
A minha mãe na feira do artesanato. A lamber um gelado. A cantarolar um fado.
A minha mãe de óculos escuros. A dar mergulhos.
A minha mãe a rir. A dormir. A jogar sueca. A jogar dominó.
A minha mãe no forrobodó.
A baralhar as datas. A baralhar as cartas. 
A viver a vida. A rir disto tudo. 
A minha mãe rápida. Frenética. Atarefada.
A minha mãe sempre. 
Feliz. Triste. Zangada. Concentrada. Como for. Como vier. 
A minha mãe. A minha terra. A minha mão.


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Mary John “Altamente Recomendável” no Brasil

Vou fazer o pino! 
Notícia altamente do Brasil:
A Mary John recebeu o selo "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na categoria "Literatura em Língua Portuguesa". 
Todos os anos a FNLIJ seleciona dez livros em várias categorias (criança, jovem, poesia, etc.) com o objetivo de orientar as secretarias de educação, as escolas e as bibliotecas na aquisição de novos livros.
Em tempos sombrios no Brasil e no mundo, fico feliz que este livro tão livre e descascado chegue a mais e mais leitores. Que legal!
A edição brasileira é da SESI-SP.
“A rainha do norte” da Joana Estrela e o “Cá Dentro” das brutalíssimas Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa e Madalena Matoso, também editados pela SESI-SP, receberam igualmente este selo.
Tau!

Bota selo nisso. Eu curto selos!


segunda-feira, 29 de abril de 2019

Festão monumental!

Foi tão tão tão monumental! No sábado a festinha monumental foi um mega festão numa galeria linda com um planeta lindo. Obrigada a todas as pessoas que fizeram deste dia um bom lugar!









terça-feira, 16 de abril de 2019

As gárgulas de Notre Dame

A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas. Gosto delas como outros gostarão de santos, anjinhos e amuletos.
Os meus diabretes grotescos. A exibir ao mundo a natureza má.
Li uma adaptação do Corcunda de Notre Dame quando tinha 13 anos. O filme da Disney acabara de estrear.
Durante dias também eu era uma existência desfigurada e solitária. Vivia lá no alto da Notre Dame. E era eu quem tocava os sinos. Era eu quem vagueava pelas escadas da catedral. Os meus únicos amigos eram as gárgulas traquinas, que me segredavam coisas ao ouvido. Falavam-me de aventuras e de amor. Encorajavam-me a ver o mundo.
Segui o conselho desses pequenos demónios assim que pude. Fui a Paris pela primeira vez quando tinha 22 anos. Andava feliz e ampliada com a minha primeira máquina fotográfica. Era uma Kodak digital. Tinha um zoom bem bom.
Quando cheguei à Notre Dame, apontei a máquina às gárgulas e fiquei a vê-las. Os meus amigos malandros, diabinhos mais feios do meu coração.
A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas do Quasimodo. Hão de resistir ao fogo com os seus corações de pedra. Se calhar até se riem das chamas e ficam para ali a desviar a água lançada pelos bombeiros. É que as gárgulas, além de monstros travessos, também são desaguadouros. É esta a ironia do seu destino.
O tempo passa, a água corre, o fogo acaba. As gárgulas lá continuarão na sua vigília, no cocuruto da Notre Dame, a dizerem-nos que o mal existe, que o mal persiste e prossegue e avança.
Hoje vou sonhar com os meus monstros de pedra e medo. Com o seu sarcasmo lúcido e os olhos perversos.
Sempre à espreita e à espera da natureza má.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

As casas abandonadas

Há uns anos escrevi um texto que se chamava “As Casas Abandonadas”. A Sara Bandarra agarrou nele para o ilustrar.
Durante meses não sabíamos onde ir com este projeto. Seria um livro? Uma instalação? Uma casa? Durante meses trocámos imagens de casas abandonadas. A Sara enviava-me as fachadas de Ílhavo, eu enviava-lhe os buracos de Bruxelas. Janelas partidas, guindastes, paredes esburacadas.
As casas foram surgindo devagar. De repente, percebemos que este livro era uma imagem só. Um livro-acordeão feito de casas e palavras.
Na semana passada imprimimos 20 exemplares, que estão agora à venda na livraria Gigões e Anantes. Obrigada, Sara, por nunca teres abandonado este projeto.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

A revolução em Pontevedra!

Fui e voltei de Pontevedra. Entre ir e voltar, perdi um voo, passei uma noite em Madrid e cheguei ao Salón com um dia de atraso. Acelerei o passo, corri, transpirei. Não havia tempo a perder. 
Tudo começou e acabou à volta de uma mesa, numa amena cavaqueira com escritores, ilustradores, professores e leitores, ao sabor de empanadas e tartas de la abuela. No Salón do Livro Infantil e Xuvenil trocaram-se muitas palavras e emoções. 
Coisas que me vêm à memória: na conferência de José António Gomes cantou-se a Grândola Vila-Morena. No recital de poesia, o poeta brasileiro Henrique Rodrigues leu um poema lindo sobre a maternidade. No debate sobre revolução e escrita, o poeta galego Carlos Negro falou da inutilidade da poesia. Na sua conferência, Volnei Canonica, mediador de leitura no Brasil, falou da leitura como elemento transformador das sociedades.
No meu encontro com “A Sega”, um clube de leitura feminista, falámos de orientação sexual, sedução e menstruação a propósito da Mary John. 
Dei uma oficina de escrita criativa a um grupo de doze mulheres. Porquê só mulheres? Não sei. Talvez a revolução esteja finalmente nas mãos femininas.
Volto de Pontevedra com muita vontade de ler, escrever e revolucionar. 
Debaixo do braço trago, entre outras coisas, duas novelas xuvenis de Eva Mejuto e Rosa Aneiros e dois livros de poesia de Carlos Negro e Henrique Rodrigues. E no coração levo as conversas animadas com a Dora Batalim SottoMayor, a Ana Biscaia e o Henrique Rodrigues.
Obrigada, Eva Mejuto! Pelo convite, pelo entusiasmo, pelas boleias e por essa energia tão xuvenil. (Adoro este adjetivo assim, com o “x” galego. ¡Que chulo!)
Foi tão bom. Quero voltar!

Ao lado dos escritores galegos Rosa Aneiros e Carlos Negro a falar de literatura e revolução

quinta-feira, 28 de março de 2019

XX Salón do Livro Infantil e Xuvenil de Pontevedra

Estou a caminho da Galiza para fazer a REVOLUÇÃO. 
Por esta altura já está a decorrer o XX Salón do Livro Infantil e Xuvenil de Pontevedra, que tem como convidado de honra, não um país, mas uma língua: a portuguesa. 
"Revolução" é o tema desta edição do festival. 



Nos próximos dias andarei num revolucionário com poetas, romancistas, ilustradores, bibliotecários, professores, contadores de histórias, estudantes e leitores da Galiza, de Portugal, do Brasil e de Angola. 
Juntos daremos o golpe da literatura!

O programa completo do Salón está disponível aqui: http://www.salondolibro.gal/edicion2019/wp-content/uploads/2019/03/Programa_salon_2019-1.pdf

segunda-feira, 25 de março de 2019

O Público é um bom lugar!

“Aqui é um bom lugar” já anda por aí nas livrarias, à espera dos primeiros leitores. Falei no outro dia com a Sílvia Borges Silva (Lusa) sobre este livro e também sobre a adolescência, os diários e este misterioso regresso a casa que é, para mim, a escrita. Aqui fica o resultado desta conversa, numa edição do Público.


https://www.publico.pt/2019/03/25/p3/noticia/ana-pessoa-joana-estrela-editam-diario-grafico-aqui-bom-lugar-1866539


domingo, 24 de março de 2019

Mary Jo e o Papa Lector

No México, o blogger Papá Lector dá 5⭐️ à Mary Jo e recomenda a sua leitura às raparigas, aos rapazes e também aos pais. Crítica aqui: http://www.papalector.com/2019/03/resena-mary-jo-ana-pessoa.html?m=1
¡Muchas gracias, Papá Lector!

Foto do Papá Lector

terça-feira, 19 de março de 2019

O meu pai

O meu pai foi sempre o Pai Natal. Eu sabia que o meu pai era o Pai Natal. Eu acreditava no Pai Natal precisamente porque o Pai Natal era o meu pai. Ho ho ho!
O meu pai ri-se bastante. Da vida. Das pessoas. Das piadas secas. 
Às vezes fica a rir-se sozinho. 
O meu pai come uma laranja todas as manhãs. Lê o Expresso todas as semanas. Ouve jazz a toda a hora. 
Tem um certo fascínio por atrocidades e tragédias. Reis ingleses passados da cabeça, naufrágios marítimos. Compra livros. Lê. Conta os pormenores.
O meu pai não usa risco ao meio nem risco ao lado. Penteia o cabelo para trás. Usa barba desde sempre. Antes era quase preta, agora é quase branca. 
Uma vez cortou a barba no Algarve. A minha mãe quase teve um fanico. Lembro-me disso. E lembro-me de ter achado que o meu pai parecia uma pessoa diferente sem barba. Foi estranho.
O meu pai nasceu em Angola, viveu no Porto, cresceu na Parede.
Estava a fazer a tropa quando se deu o 25 de abril. Nessa altura não usava barba. 
É sempre o meu pai que me vai buscar ao aeroporto. Quando me vê, tira-me uma fotografia. Quer levar ele a mala.
Envia-me mensagens quando o Benfica joga. Envia-me fotografias da praia e da minha mãe. Compra-me revistas. Guarda-me artigos que talvez me interessem.
Faz as vontadinhas todas à minha mãe. Faz as vontadinhas todas aos filhos e também aos netos.
Quase nunca comenta os meus livros. Deste último achou que um dos textos era sobre ele. É capaz.
O meu pai é fixe. Eu gosto dele e ele gosta de mim.

Fim.
Ilustração da Joana Estrela para o “Aqui é um bom lugar”