quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Amor e outono

Anda aos saltos no bosque. Corre atrás dos pombos. Vai sempre em frente. Eu fico a vê-lo ir. 
Ele corre e grita. Nunca olha para trás.
Afasta-se cada vez mais, é cada vez mais pequeno.
Já não corre atrás dos pombos. Corre só por correr. 


Chamo-o. Não reage. 
Chamo outra vez. Não reage. 
O meu filho corre sempre em frente e eu corro atrás dele.
A certa altura tropeça e cai. Fica no chão a chorar.
Eu pego nele ao colo. Ele pára de chorar. Quer ir para o chão outra vez. 
Desata novamente a correr. E eu fico a vê-lo ir. O meu filho sempre em frente. 
Aos gritos. Às gargalhadas. Aos tombos.
E eu cá atrás. A chamar por ele. A correr atrás dele. 
Amor e outono por todo o lado.
E sempre aquela esperança. De que não tropece. De que não caia. De que olhe para trás.

sábado, 23 de novembro de 2019

Tio Tuca

O Tuca morreu. Era o meu tio mais desatinado, meu vizinho de cima, meu padrinho alcoólico, um homem muito lúcido e ao mesmo tempo destravado. Tinha um tom de voz incomum: muito baixo, sem nuances. Um riso seco e implacável, sarcástico. Mexia as mãos quando falava. Mãos pequenas e subversivas, que se esfregavam uma na outra, que se agitavam no ar, que apontavam o dedo indicador. 
Durante grande parte da vida adulta viveu do whisky e do seu humor negro, das suas ideias frenéticas sobre o mundo e a condição humana.
Nos últimos anos não saía de casa. Primeiro não lhe apetecia, depois continuou a não lhe apetecer. Passava os dias a fumar. Há anos e anos que não bebia. Deixou-se disso de repente, de um dia para o outro.
Sempre que vínhamos a Portugal, íamos lá a casa. Eu e o maridão. Telefonávamos antes para saber se podíamos aparecer. A minha tia atendia, dizia-me que sim, venham. Ele ficava feliz de nos ver, cheio de vontade de conversar. “Sentem-se aí.” Acendia um cigarro, lançava uma pergunta, que podia ser sobre a nossa vida ou sobre o estado do mundo. Podia ser só: “Como estão?” 
Trazíamos-lhe chocolate belga. Ele dizia: “Oh, obrigado, não era preciso”, mas depois corrigia-se: “Era, era, era”. Nunca nos oferecia dos chocolates que trazíamos. Dizia que aqueles chocolates eram só para ele e que não nos dava nem um. E realmente não dava. Nem um.
Nesses encontros, durante umas horas, falávamos da vida e do mundo. O meu tio, sempre tão fechado em casa, tinha uma cabeça voadora, aberta ao mundo. Comentava coisas que via na televisão. Um debate, uma notícia, um anúncio. Tinha sempre uma observação peculiar a acrescentar. Fazia perguntas sobre a Bélgica, sobre as nossas viagens, sobre as minhas idas a escolas secundárias, sobre a Europa, sobre esta coisa de estarmos por aqui a existir. Entusiasmava-se com a conversa, falava de tudo e mais alguma coisa, as mãos pequenas e exaltadas. 
Ultimamente, quando nos despedíamos, trocávamos um olhar no corredor. Um olhar cheio de reconhecimento e admiração. O meu tio desejava-me uma boa viagem, eu dizia para ele cuidar de si. E depois trocávamos esse olhar, que era um olhar de despedida. Um olhar que dizia: esta poderá ser a última vez, este poderá ser o último olhar. Era isto que eu pensava e sei que era isto que o meu tio pensava e sei que ele sabia que eu também pensava.
Não posava para as fotos, não me telefonava nos anos, não me dava prendas de Natal. Nunca quis saber das minhas notas. Não era esse tio. Era um outro tio. Sentava-se comigo a conversar, fazia-me perguntas, ria-se de mim e ouvia-me de olhos e ouvidos muito abertos. Sempre atento aos pormenores. Só ele reparou na mãozinha do meu filho quando dormia ao meu colo. A mãozinha agarrada à minha blusa, a dizer-me: “Não me deixes”. Só ele reparou que o meu pai me passou a mão pelos ombros no dia do meu casamento. “Aquilo era um pai a despedir-se da filha”, dizia ele. “Que coisa tão bonita, aquela festinha nos ombros. Boa sorte, minha filha.”
Uma vez, perguntou-me com um certo fascínio nos olhos: quando começa a vida? Já pensaste nisso? Sim, pensei, pensamos todos, não é verdade? Não, mas aquele momento em que passamos a existir. Em que momento se faz faísca? E nisto estalou os dedos a exemplificar o fósforo que se acendia, a vida a começar. Era um mistério extraordinário, não era? Era, pois.
Durante a minha adolescência, mostrava-lhe os meus textos e ele emocionava-se. Uma vez, chorou tanto para cima do papel que eu lhe interrompi a leitura para lhe dizer que aquele texto não era triste. Ele continuou a ler e a chorar.
Passava a vida a provocar-me com os direitos das mulheres. Que a igualdade era uma parvoíce. Que eu não devia jogar futebol. Que nenhum homem queria uma mulher com pernas de futebolista. Que um homem devia abrir a porta a uma mulher, que um homem devia levar os sacos das compras. E eu muito irritada e confusa. A pensar que os direitos das mulheres não tinham nada a ver com portas nem com sacos de compras. A igualdade era a igualdade. O meu tio ria-se de mim. Que grande seca passarmos a ser iguais, termos os mesmos interesses, querermos as mesmas coisas. Vamos passar a vida à bulha. Uma mulher igual a mim não me ia dar pica nenhuma. O lugar da mulher era na cozinha e era um belo lugar, um lugar feliz. Que mal tinha a cozinha? Havia muito conhecimento numa receita. O dedo indicador apontado para mim: “Podes dar voltas e mais voltas, querida sobrinha, mas vais parar à cozinha.” Depois ria-se, inquieto, desafiador. 
Quando publiquei o meu segundo livro, perguntou-me se eu não tinha vontade de escrever um livro a sério, a dizer quem sou. Eu respondi que o Supergigante era um livro a sério e ele encolheu os ombros. Não era nada. Era um livro para miúdos. Leste? Não. Então lê. Não vou ler.
Que eu saiba nunca leu esse livro nem nenhum dos outros. 
Uma vez, depois de citar um escritor qualquer que falava sobre a duração da vida, o meu tio anuiu que realmente era uma estupidez as pessoas dizerem que a vida era curta. Que na nossa perceção do mundo, nada ia durar tanto tempo como a nossa própria vida. Absolutamente nada. E insistiu: Nada nada nada. Depois o meu tio riu-se e eu ri-me com ele. Era uma frase verdadeira e bonita. Nunca me esqueci dela e já a disse várias vezes: nada dura tanto tempo como a nossa própria vida.
Certa vez, na Bertrand do CascaisShoppingg, o meu tio decidiu oferecer-me os livros todos que eu quisesse. Eu escolhi três ou quatro. Talvez Laura Esquivel e Isabel Allende, mais “Os Cisnes Selvagens”, coisas assim. O meu tio disse: “Está bem. Primeiro lês essas pachachadas, depois lês este.” Eram “As Regras da Atração” do Bret Easton Ellis. “Não li, mas deve ser um deboche completo”. Eu li e confirmo: era um deboche completo.
Quando fiz 18 anos, o tio Tuca ofereceu-me um quadro feito por ele. Era o número 18 rodeado de frases. Assim:

Uma das frases dizia (e diz): “Os dezoito anos são tão bonitos como os setenta e quatro e contudo os dezoito anos são mais bonitos”. 
O meu tio Tuca não chegou aos setenta e quatro. Chegou aos setenta e um. Mas nada durou tanto tempo como a vida do meu tio Tuca. Absolutamente nada. Nada nada nada.
O tio Tuca morreu pelas 5h da manhã. Eram 6h da manhã em Bruxelas. Os meus três filhos acordavam ao mesmo tempo e eu acordava com eles. O maridão na cozinha a tirar cafés. Um dos meus filhos a ler um livro, outro ao meu colo, outro na cadeirinha. 
Tantas saudades vou ter do meu tio Tuca. Que homem tão desassossegado, tão ele próprio. Era tanto do que sou e quero ser, e tanto do que não sou nem quero ser. 
Olho para os meus filhos e penso: Quando acaba a vida? Em que momento se apaga o fósforo e passamos a não existir? 
No quadro que o meu tio fez para mim há uma frase que diz assim: “Para falar com franqueza os rios estão sempre a nascer”.
Nunca uma sobrinha gostou tanto de um tio. E nunca um tio gostou tanto de uma sobrinha.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Assim ou Assado no Deus Me Livro

Olha que coisa mais cara ou coroa, pão ou broa.



O “Assim ou Assado” aterrou frito ou grelhado no Deus Me Livro. Crítica de Júlia Martins:

(...)  “Assim ou Assado” (Planeta Tangerina, 2019) é um delicioso poema de alternativas. Um magnífico pretexto para ler a pares ou sozinho, para ler ou ver, para começar pelo princípio ou pelo fim, para conversar ou ficar, simplesmente, a pensar. As palavras de Ana Pessoa, ilustradas por Yara Kono, levam-nos ao mundo da filosofia, reflectindo sobre conceitos, discutindo as questões deterministas e do livre-arbítrio. Serão as nossas escolhas completamente livres? Ou não passarão estas de meras ilusões? (...)

O que acham vocês?
Eu acho muito nice ou baril, catita ou gentil.

domingo, 10 de novembro de 2019

Um domingo doce ou salgado

Que lindo! Um domingo muito frio que se fez muito quente na livraria La petite portugaise. Houve conversa, histórias e ateliê para os mais novos. 
Obrigada, Susi Pratt, Regina Barbosa e Ana Paula Faias Ambrosio, pela organização e animação. 
Obrigada, Henrique Rodrigues, pela boa onda e pelo bate-papo. 
E obrigada a todos os que vieram! Com companhia é sempre melhor.




sábado, 9 de novembro de 2019

Assim ou assado na livraria La petite portugaise

Amanhã às 15h, eu e o escritor brasileiro Henrique Rodrigues estaremos assim ou assado na livraria La Petite Portugaise (Ch. de Wavre 214B).
Bate-papo doce ou salgado sobre literatura infantil para leitores grandes e pequenos. Vinde vinde!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Assim ou assado

Terra ou ar, sorte ou azar!
Cá vai disto: um novo livro ou um livro novo, assim ou assado, doce ou salgado.
Eu escrevi mole ou duro, a Yara ilustrou claro ou escuro. E o resultado é este álbum mais ou menos, para leitores grandes ou pequenos.


Espero que o encontrem aqui ou ali. Eu cá nem estou em mim! É que a Yara, essa mulher muito cinema ou teatro, vale por três ou quatro. Graças a ela, este livro é muito oito ou oitenta, sal ou pimenta.
Obrigada a toda a equipa do Planeta Tangerina, essa casa muito sim ou não, laranja ou limão, e em especial à editora e amiga Isabel Minhós Martins, pessoa toda floresta ou deserto, que avistou este livro longe ou perto.
Cá vai ele. Tarde ou cedo, amargo ou azedo. Agora ou nunca, resposta ou pergunta!
https://www.planetatangerina.com/pt/loja/livros/assim-ou-assado

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Amadora BD é um bom lugar!

Yikes! O Festival Amadora BD é um bom lugar. O júri decidiu neste fim de semana que a Joana Estrela é o “melhor ilustrador português” (melhor ilustradora portuguesa?).

A Joana é um granda gajo...


Foto do brother Henrique Pessoa

Todos os nomeados e vencedores: http://amadorabd.com/amabd2019/index.php/concursos

sábado, 26 de outubro de 2019

“Aqui é um bom lugar” no Festival Amadora BD

Feliz até dizer chega!



A Joana Estrela está nomeada para “Melhor ilustrador português de livro infantil” com o “Aqui é um bom lugar”. E que bem acompanhada ela está (Bernardo P. Carvalho, Pedro Burgos, Mariana Rio e Yara Kono). O prémio é atribuído pelo Festival Amadora BD que está a decorrer até 3 de novembro. Lista de todos os nomeados para todos os prémios do Amadora BD: http://amadorabd.com/amabd2019/index.php/concursos

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

“Eu Sou Eu Sei” no Brasil

Eu cof, eu choc. Eu cá, eu lá!
O “Eu Sou Eu Sei” acaba de chegar ao Brasiiiil! Fico mesmo toda tic e tac com esta notícia.
Eu ai, eu ui. Eu splash, eu plim!


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Poema à duração

Do Peter Handke li o Poema à Duração. Era um livro fino de capa branca, acho. Se bem me lembro, trazia na contracapa ou na página de rosto uma fotografia a preto e branco do autor. Era um homem com charme, achei eu na altura.
O que me levou a esse livro foi, em primeiro lugar, o título (e que belo título), depois a espessura (sempre li livros pequenos em alemão) e, por último, aquele homem que, além de trovador, era lindo.
Li e reli o Poema à Duração. Era longo e vinha carregado de sentido e de existência, achei eu naquela época. Tinha 22 ou 23 anos. Fiquei impressionada com o poema e também comigo própria, porque li o Poema à Duração em alemão numa edição alemã que comprei numa livraria alemã numa cidade alemã. Na altura achei que aquele encontro sentimental entre mim e aquele poema era o resultado de toda a minha vida, de toda a duração de todas as escolhas que me tinham levado à língua alemã e depois à Alemanha e depois àquela prateleira no fundo de uma livraria minúscula numa cidade alemã. O meu percurso até àquele encontro era longo e lírico como o poema do Peter Handke.



Anos mais tarde li outro livro do Peter Handke e não gostei muito. Acho que nem o acabei.
Agora, ao ler a notícia do Nobel, sinto que este encontro foi antes um desencontro. Ao contrário do que pensava, o Peter Handke nem sequer é alemão. E está longe de ser um homem bonito. 
Quanto a esse poema que tanto me impressionou, não me lembro sequer de um único verso. Sei que incluía substantivos abstratos e difíceis como este: duração.
Quanto tempo dura um poema?
Não sei.
Mas a literatura tem muito disto: palavras esquecidas que prosseguem algures, num outro tempo, numa outra duração.

sábado, 28 de setembro de 2019

Trinta e um dias

Os meus bebés cheiram mal. Tenho de lhes dar banho. Coitados.
Fazem hoje um mês de idade. Trinta e um dias a habitar o mundo.
Eu poderia dizer: Passou tudo muito rápido. Mas também poderia dizer o contrário: Passou tudo muito devagar. 
Os dias são tão curtos. As noites são tão longas.


Cinco toalhas de banho penduradas na porta.


Estou a sangrar há um mês. Trinta e um dias a verter sangue, tecido e muco. 
A barriga toda agrafada. A pele amarrotada e dormente. 
Tenho um recém-nascido grande e um recém-nascido pequenino. 
Às vezes ando com os dois ao colo, um em cada braço. Quando estou com os dois ao colo, tenho comichão no nariz. 
É muito difícil ter comichão no nariz quando não dá para coçar o nariz.
Eis um método eficaz de tortura: cócegas no nariz. Imagino um instrumento bizarro para afagar levemente o narigão de políticos e banqueiros corruptos. Eu, se soubesse alguma informação importante, algum segredo de Estado, chibava-me logo toda. Felizmente não sei nada. Ou então esqueci-me. 
Agora esqueço-me de tudo.
No outro dia esqueci-me da consulta com a osteopata. Esqueci-me também de outras coisas, mas já não sei de quê. 
Às vezes não me lembro como se chamam os meus filhos. Outras vezes confundo-os. Acho que este é aquele e aquele é aqueloutro.
Ontem deixei queimar um estrugido de brócolos. Hoje queimei os dedos no esterilizador.
Tenho um torcicolo. Tenho prisão de ventre. Tenho uma lista de coisas para fazer. Não faço nada.
Durmo pouco. Uma hora, duas horas, três horas. 
Trinta e um dias sem dormir nada de jeito.
Estou cheia de borbulhas nas pernas. Uma alergia a não sei o quê. Coço-me a toda a hora.
Neste momento tenho um bebé ao colo e outro aos meus pés, na cadeirinha de baloiço. Eles dormem e eu escrevo. Assim é que está certo.
As pessoas dizem-me: “Dorme quando eles dormem”.
Que estupidez.
As pessoas dizem com cada coisa. 
O meu filho mais velho ouve mal. O mais pequeno foi internado. O outro caiu da cadeirinha de baloiço.
A maternidade não dá sono. Dá cagufa. Dá comichão no nariz. Mas sono, realmente, não dá.
Por vezes sinto-me sozinha. Outras vezes quero estar ainda mais só.
Estou constipada. 
Dói-me o nariz de tanto me assoar. Dói-me a garganta. Dói-me a cabeça. Doem-me os braços.
Um dos gémeos dorme duas horas seguidas. O outro vai dormitando aqui e ali. Um fica bem no berço, o outro não. Primeiro come um, depois come outro. Às vezes choram ao mesmo tempo. 
Naqueles livros sobre gémeos, os especialistas dizem-me que não devo fazer comparações.
Que estupidez. 
Os especialistas dizem com cada coisa. 
Os gémeos existem em conjunto. Eu olho para um, olho para outro e descubro as diferenças: um tem o nariz mais empinado. Um tem mais borbulhas. Um é maior que o outro.
Eu vou conhecendo estas criaturas através da comparação. Eu vou conhecendo a vida e o mundo através da comparação.
Esta democracia já foi mais democrática. A justiça também já foi mais justa. Em Bruxelas está mais frio do que em Lisboa. Há dias tão escuros como a noite.
Sempre gostei dos graus de comparação dos adjetivos. 
Grau comparativo de igualdade: este filho é tão querido como o outro. 
Grau superlativo absoluto sintético: os meus filhos são lindíssimos.
Eu passo a vida a comparar e a superlativar.
Sou, entre outras coisas, mãe de três meninos que, um dia, hão de ser rapazes e depois homens a sério. 
O mais velho há de ser sempre o mais velho. Algum deles há de ser o mais alto. Espero que todos eles sejam tão extraordinários como o pai. E que nenhum deles seja tão lamechas como a mãe. 
Eu olho para o passado, olho para o presente e descubro as diferenças: somos agora melhores, maiores e muitos mais.
Somos cinco. Antes éramos três. Antes disso éramos dois. No início éramos um. E antes disso, enfim, não éramos nada. Grau superlativo relativo de superioridade: os meus filhos são os mais maiores melhores filhos de todos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

“Aqui é um bom lugar” no Deus Me Livro

A crítica de Pedro Miguel Silva ao “Aqui é um bom lugar” começa assim:

“Fruto da parceria de Ana Pessoa (texto) e Joana Estrela (ilustrações), “Aqui é um bom lugar” (Planeta Tangerina, 2019) é um diário gráfico fora do comum, que aos pensamentos reservados à confidência do papel junta, também, fotos e recortes, desenhos entre o esboço e o pormenor, onde a escrita é também um gesto de ilustração, num livro com uma paginação irrepreensível cabendo ao azul e ao preto o domínio absoluto sobre a neutralidade do branco.”



E acaba assim:

Um livro “para ler, reler e folhear vezes sem conta”.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Três letras

Outra coisa: nas palavras cruzadas há sempre palavras com apenas três letras.

Um sinónimo de “família” com três letras. Um sinónimo de “insignificância”. 
Um sinónimo de “benéfico”. 
Um sinónimo de “recitar”. 
Uma “grande porção”. 
Uma “fileira”. 
A primeira de todas as mulheres. 

Tudo palavras com apenas três letras. 
Aqui vão elas por ordem de chegada: lar, avo, bom, ler, ror, ala, Eva.


Fico aqui a pensar que podemos dizer muitas coisas com apenas três letras. Tantas coisas.

Uma. Dez. Cem. Mil.
Mar. Céu. Sol. Lua.
Olá. Até. Sai. Rua.
Vai. Asa. Voo. Cai.
Noz. Mel. Chá. Uva.
Ovo. Oco. Eco. Ego.
Ana. Ivo. Rui. Ema.
Ele. Ela. Nós. Sós. 
Tio. Tia. Avô. Avó.
Meu. Teu. Tão. Tal.
Eis. Que. Bom. Mau.
Ufa. Ora. Bué. Uau.
Paz. Pau. Etc. Xau.

Textinho escrito à toa, na boa vai ela (três palavras com três letras).

sábado, 7 de setembro de 2019

Palavras cruzadas

Cortaram-me a barriga ao meio. Depois cortaram um cordão umbilical e depois outro.
Quarto de hospital. Um silêncio branco à minha volta.
Estou deitada numa maca. 
Já fiz dois sudokus e duas sopas de letras. Também fiz dois bebés. Estão num berço ao meu lado. 
Todas as coisas quietas e desinfetadas.
Passo os olhos pelas palavras cruzadas, também elas quietas e desinfetadas.
Nunca gostei de palavras cruzadas. A ideia de preencher quadrados com letras não me entusiasma. Mas hoje (ontem? anteontem? na semana passada?), não sei porquê, apeteceu-me. Talvez tenha sido a trovoada que caiu sobre a cidade. Talvez tenha sido a maternidade triplicada que caiu sobre mim.
As palavras salvam-me. Os substantivos, as preposições, os advérbios. A semântica, a fonética, a sinonímia. 
Interesso-me por vocábulos da mesma maneira com que me interesso por pessoas. Quero saber de onde vêm, o que pensam, para onde vão. 
Os meus filhos acabaram de chegar e eu faço palavras cruzadas. As minhas primeiríssimas palavras cruzadas, e não as segundas ou as terceiras. 
Salto de quadrado em quadrado e, de repente, plim: chego ao fim. O quadro todo preenchido com letras.
Senti um orgulho tão infantil, que tirei uma fotografia (esta fotografia).




É verdade que fiz batota: perguntei coisas ao Google, consultei o dicionário de sinónimos. Mas nunca na vida tinha preenchido o quadro todo com letras. E estas palavras existem. Deram-me a mão. Fizeram-me companhia. No sentido literal e no sentido figurado.
A parteira pesava os gémeos e eu projetava palavras na horizontal e na vertical. Imaginava pradarias tropicais, aves de rapina, conchas fusiformes.
O pediatra explicava-me como desinfetar o umbigo dos gémeos e eu perguntava-me se um umbigo também podia ser fusiforme. Eu pensava em coisas como: Que bonita é a palavra “fusiforme”. Que bonitos são os favos de mel. Quantas letras tem a palavra “honra”?
Eu olhava para os meus filhos recém-chegados, com os seus dois dias de idade, os seus dois dedos de testa, e matutava em sinónimos de “derivar”, “ligar”, “ladrar”. O obstetra fazia previsões sobre a contração do meu útero e eu perguntava-me que palavra a começar por “z” poderia ser sinónimo de “idiota”.
A vida acontecia dentro e fora de mim e eu pegava nos meus filhos ao colo, fazia palavras cruzadas e escrevia sobre tudo isso.
É sempre assim. 
Na minha vida tudo se cruza e liga e mistura: as palavras, as pessoas, a semântica. A maternidade, a trovoada, a divagação.
A minha alma é fusiforme. Parece um búzio, uma orelha, um umbigo. 
A minha alma é um remoinho de poeira. Uma espiral de vento que engole todas as letras, todos os quadrados. A vida toda.
Há palavras lindas. Há dias fusiformes. Há uma primeira vez para tudo.
E esta poderá ser a primeira lição de vida para estes pequenos seres humanos. 
Há sempre maneira de dar a volta a isto. Façam palavras cruzadas, filhotes. Façam birras. Façam figuras. Façam figas. Façam qualquer coisa.
Só não fiquem para aí a queixar-se do destino. A chatear cada um.
Façam-se à vida, pequenos seres. Não sejam zotes (sinónimo de “idiota” a começar por “z”).

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Ele e ele. Este e aquele. Um e outro.

Aí vêm eles. Os gémeos. Os dois.
Ele e ele. Este e aquele. Um e outro.
Dizem-me: é a maternidade ao quadrado, é o amor em dose dupla, é o júbilo duplicado.
Eu penso: será a angústia vezes dois, o dobro das dificuldades, a multiplicação do cansaço. 
São as duas faces da mesma moeda, as duas versões da história.
Dupont et Dupond. Tico e Teco. Ego e alterego.
Sempre as mesmas perguntas: se são verdadeiros ou falsos, se são meninos ou meninas, se a gravidez foi espontânea, se há gémeos na família, se tenho mais filhos, se tenho ajuda.
Abstraio-me. Penso noutra coisa. Penso em duas coisas. Penso em tudo e no seu contrário.
Dois pesos. Duas medidas.
No fundo estava-se mesmo a ver. Os sinais estiveram sempre lá. 
A dualidade, o duplo sentido.


Um brinquedo cá de casa

A verdade é que tenho uma alma gémea: um homem duplicado que vale por dois.
A minha avó materna teve gémeos falsos.
Um dos meus amigos mais próximos tem um irmão gémeo.
Gosto de dormir em beliches. Em camas duplas, em twin beds. 
Acho uma certa piada a casas geminadas. E a duplexes.
Tenho duas amigas que trato por “gémea”. Ambas se chamam Joana.
A maternidade, para mim, sempre foi dose dupla. Dois abortos, duas gravidezes ectópicas, duas gravidezes de jeito.
Guerra e paz. Crime e castigo.
O signo do homem duplicado: gémeos.
O meu ascendente: gémeos.
O meu chocolate: Twix.
E sempre gostei de duetos. Sempre gostei de parelhas, de casalinhos, de dicotomias.
Frente e verso. Ponto e vírgula.
O que mais me marcou na literatura alemã foi a noção de Doppelgänger, o duplo presente ou então ausente. O homem que vendeu a alma, o homem que vendeu a sombra, o homem que matou o seu duplo.
Durante anos tentei escrever sobre um autor que andava à procura do narrador e também sobre um homem que perdia o seu reflexo, mas não cheguei a lado nenhum.
Sujeito e predicado. Pessoa e seu heterónimo.
Portanto, olhem, estava-se mesmo a ver. Um mais um, igual a dois.
Noite e dia. Yin e yang.
E depois não é só isso. 
Tenho dois olhos. Dois ovários. Duas narinas. Duas mamas. Eu própria sou uma dupla maravilha.
Venham eles. Os gémeos. Ambos os dois. Tu e eu. Tuta e meia.
Venham como vierem. Verdadeiros ou falsos. Para cima ou para baixo. Muito parecidos. Completamente diferentes.
Água e sal. Coiso e tal. Tanto faz.
Hão de ter duas bochechas. Duas orelhas. Dois pés. 
Hão de ser inseparáveis. Insuportáveis. Dois amores. Dois estupores. 
Duas pessoas.
Ele e ele. Eu e eles. Nós e eles.
Os dois da vida airada.
As duas metades que faltavam.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O gordo da passadeira

No outro dia choveu, e bem. 
Lá vínhamos nós a rastejar pela vida, eu e o meu barrigão. Calçávamos umas sandálias de cortiça que escorregavam na água.
A certa altura atravessámos a passadeira. O meu barrigão à frente e eu atrás.


“Eu sou Eu Sei”, Madalena Matoso

De repente, a meio da passadeira, entre uma poça de água e outra, para nosso grande espanto e indignação, levámos com uma buzinadela nas trombas. Eu, o meu barrigão e as sandálias de cortiça até andámos de lado.
Dentro do carro buzinador estava um homem branco e gordo, sessenta e tal anos, as duas mãos ao volante.
Parámos ali mesmo, no meio da passadeira. Tirámos o capuz do impermeável, apontámos para a barriga. Para que não restassem dúvidas.
O homem gordo sacudiu os ombros e a cabeça naquele jeito impaciente dos homens brancos, que sabem tudo sobre a condição humana e não estão para choradinhos. 
Pelo amor da Santa, a grávida que saia da frente. A grávida e os outros todos também, dizia o homem gordo de si para si, as mãos sapudas ao volante. 
Anda tudo com as mulheres ao colo hoje em dia, já repararam? E com os paneleiros e os ciganos e os pretos e os imigrantes e os velhos e sei lá mais o quê. Estou pelos cabelos com essa gentinha.
Ali estava ele, o homem branco todo-poderoso, protegido da chuva e da lentidão pela sua caixa de metal com quatro rodas. Cheio de urgência e virilidade. Tão desiludido com a vida. Tão cansado das minorias e das suas queixinhas menores. Gente feia e zangada. Sempre a apontar o dedo. Parecem umas crianças. “Ó mãe, olha ele!” 
O homem gordo dá uma buzinadela geral às pessoas chatas. Saiam todos da frente. 
Ali estava ele, o homem branco - gordo por opção e não por fecundação - a olhar com desprezo para os fracos de espírito e de corpo.
É curioso e meio esquisito. Durante a juventude, o homem gordo até era de esquerda. Lutou e acreditou na igualdade e na democracia. Mas entretanto a vida passou-lhe por cima e o homem gordo esqueceu-se desse sonho. Já não pode ouvir falar em coitadinhos. Nem em reivindicações e lamentos.
Que mal fez ao mundo este homem branco, que até paga os impostos e é bom pai de família? Lá porque nunca foi oprimido nem vítima de abusos. Lá porque nunca foi excluído nem discriminado. Lá porque os homens brancos antes dele andaram por aí no bem-bom durante séculos a excluir e a oprimir cada um. 
A culpa agora é deste homem barrigudo por acaso? Só por ser homem, branco e gordo? Vão discriminá-lo por causa do seu género, da sua orientação sexual e da cor da sua pele? Tenham paciência. Já ninguém faz isso. 
A grávida que se puxe à calma. Já ninguém é misógino, minha senhora, e a minha mãe teve cinco filhos e não fazia queixinhas. Deixem-se lá de protestos e dessa mania das injustiças. Saiam da frente.
E, por favor, parem de dizer que o homem branco é um privilegiado, porque eu cá não tenho privilégios nenhuns. Na verdade devo ser o único não privilegiado. Reparem que não existe um Dia Internacional do Homem Branco nem ONG para defender os meus interesses de homem branco nem ajudas especiais ou quotas para os homens brancos. 
Tenham dó do branco barrigudo. A vida não está nada fácil para ele: espera-se tanto do homem branco e tão pouco dos outros todos.
Eu e o meu barrigão temos muita vontade de fazer um manguito prolongado ao homem gordo, mas neste momento não há pilinha que nos valha, porque também não é bem uma piça que queremos mostrar ao senhor. O que gostávamos de gesticular ao homem gordo era precisamente o contrário de uma pichota. Era um gigante par de ovários ou de mamas. Uma vagina obscena para mandar abaixo esta visão do mundo tão masculina e sobranceira e simplória ao mesmo tempo. Infelizmente, esse gesto de fêmea enraivecida nem sequer existe. O poder da pichota continua a ser supremo, até mesmo na comunicação gestual.
Ó homenzinho branco, meu patego a dar com pau. Ainda não percebeste nada. Este mundo foi feito à tua imagem, mas já não é teu. Este mundo agora é de todos. E esta estrada também não te pertence. Esta estrada é de quem andar nela. É dos velhos e dos seus cãezinhos, é das grávidas e dos deficientes e dos outros todos. 
Não fiques assim, com esse arzinho amuado e contrariado. Há muita coisa que tu não entendes. Na verdade, a maior parte das experiências humanas estão-te vedadas. Nunca saberás o que é ser um preto no meio dos brancos, nunca saberás o que é ser um imigrante ilegal, nunca saberás o que é ser uma grávida de gémeos a duas semanas do parto. Por isso, puxa-te tu à calma, homenzinho gordo. Um pouco mais de empatia e humildade, por favor. 
Não buzines nas passadeiras. Não continues a oprimir os mais fracos. Sobretudo, não venhas com conclusões e generalizações sobre vidas que desconheces. Tu já não mandas nisto tudo. 
Devias levar com um par de ovários nos olhos, mas toma lá um abracinho. Sei bem que a sociedade espera isso de mim e de todas as mulherzinhas: empatia e candura; e não agressividade e rebeldia.
Enfim. Eu e o meu barrigão respiramos fundo e avançamos pela vida, ligeiramente desequilibrados por causa das sandálias e da nossa indignação. Estafermo do homem gordo e de todos os que me fizeram razias nas passadeiras e me ultrapassaram nas filas e não me deram lugar no elétrico nem no autocarro. É que não foram assim tão poucos. Foram bastantes. Homens, mulheres, velhos e novos. Mundo cruel, este, que não cuida dos que precisam.
Tenham dó da mulher grávida, pá. A vida não está fácil para ela: vai passar os próximos tempos a lavar pichotas.
Uma buzinadela geral para vocês todos, que ficam desse lado a rir e a fazer o que vos apetece.
Uma buzinadela e um maguito também, sim?

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A minha mãe aos 70

A minha mãe faz hoje 70 anos. Não tem rugas nem botox. É uma mulher natural.
Toda a gente acha que é 20 anos mais nova. Eu cá tenho a certeza que a minha mãe é 20 anos mais nova.
Quase nunca está doente. Raramente se cala. Quase nunca se cansa. Quase sempre estrebucha, refila, parte a loiça toda e depois parte-se a rir. Não gosta de cozinhar nem de passar a ferro. Diz muitas vezes que se esquece da idade que tem. Eu também me esqueço da idade da minha mãe.
A minha mãe, aos 70, tem energia e paixão para dar e vender. Dança sempre que pode. Estica o seu próprio cabelo, arranja as próprias unhas. Não é de lamúrias nem de queixumes.
Nunca recusa um chocolate. Nunca recusa um copinho. Dantes bebia whisky. Agora só bebe vinho. E talvez conhaque. E também ginjinha. E cerveja, claro. Come queijo da serra, alheiras de caça, Magnum de amêndoas. Fumou durante décadas. Passou horas ao sol.
Numas coisas somos muito parecidas. Noutras somos o total oposto.
A minha mãe, aos 70, é muito mais nova do que muita gente nova que por aí anda. Parabéns, mãezinha! És uma inspiração.