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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Poema à duração

Do Peter Handke li o Poema à Duração. Era um livro fino de capa branca, acho. Se bem me lembro, trazia na contracapa ou na página de rosto uma fotografia a preto e branco do autor. Era um homem com charme, achei eu na altura.
O que me levou a esse livro foi, em primeiro lugar, o título (e que belo título), depois a espessura (sempre li livros pequenos em alemão) e, por último, aquele homem que, além de trovador, era lindo.
Li e reli o Poema à Duração. Era longo e vinha carregado de sentido e de existência, achei eu naquela época. Tinha 22 ou 23 anos. Fiquei impressionada com o poema e também comigo própria, porque li o Poema à Duração em alemão numa edição alemã que comprei numa livraria alemã numa cidade alemã. Na altura achei que aquele encontro sentimental entre mim e aquele poema era o resultado de toda a minha vida, de toda a duração de todas as escolhas que me tinham levado à língua alemã e depois à Alemanha e depois àquela prateleira no fundo de uma livraria minúscula numa cidade alemã. O meu percurso até àquele encontro era longo e lírico como o poema do Peter Handke.



Anos mais tarde li outro livro do Peter Handke e não gostei muito. Acho que nem o acabei.
Agora, ao ler a notícia do Nobel, sinto que este encontro foi antes um desencontro. Ao contrário do que pensava, o Peter Handke nem sequer é alemão. E está longe de ser um homem bonito. 
Quanto a esse poema que tanto me impressionou, não me lembro sequer de um único verso. Sei que incluía substantivos abstratos e difíceis como este: duração.
Quanto tempo dura um poema?
Não sei.
Mas a literatura tem muito disto: palavras esquecidas que prosseguem algures, num outro tempo, numa outra duração.

sábado, 25 de maio de 2019

A Europa continua

Só nos últimos tempos:
Foi no Parlamento Europeu que se decidiu banir os plásticos de utilização única. Foi no Parlamento Europeu que se pôs fim ao roaming. Foi no Parlamento Europeu que se aprovou o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados. Foi no Parlamento Europeu que se avançou com a ratificação do Acordo de Paris.



A União Europeia existe e funciona. A Europa continua. E olhando para a nossa história recente, estamos muito melhor juntos do que separados.
Esta é a Europa que temos. Quem gosta, deve votar. Quem não gosta, também deve votar.
Amanhã lá estarei para fazer a minha cruz.

terça-feira, 16 de abril de 2019

As gárgulas de Notre Dame

A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas. Gosto delas como outros gostarão de santos, anjinhos e amuletos.
Os meus diabretes grotescos. A exibir ao mundo a natureza má.
Li uma adaptação do Corcunda de Notre Dame quando tinha 13 anos. O filme da Disney acabara de estrear.
Durante dias também eu era uma existência desfigurada e solitária. Vivia lá no alto da Notre Dame. E era eu quem tocava os sinos. Era eu quem vagueava pelas escadas da catedral. Os meus únicos amigos eram as gárgulas traquinas, que me segredavam coisas ao ouvido. Falavam-me de aventuras e de amor. Encorajavam-me a ver o mundo.
Segui o conselho desses pequenos demónios assim que pude. Fui a Paris pela primeira vez quando tinha 22 anos. Andava feliz e ampliada com a minha primeira máquina fotográfica. Era uma Kodak digital. Tinha um zoom bem bom.
Quando cheguei à Notre Dame, apontei a máquina às gárgulas e fiquei a vê-las. Os meus amigos malandros, diabinhos mais feios do meu coração.
A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas do Quasimodo. Hão de resistir ao fogo com os seus corações de pedra. Se calhar até se riem das chamas e ficam para ali a desviar a água lançada pelos bombeiros. É que as gárgulas, além de monstros travessos, também são desaguadouros. É esta a ironia do seu destino.
O tempo passa, a água corre, o fogo acaba. As gárgulas lá continuarão na sua vigília, no cocuruto da Notre Dame, a dizerem-nos que o mal existe, que o mal persiste e prossegue e avança.
Hoje vou sonhar com os meus monstros de pedra e medo. Com o seu sarcasmo lúcido e os olhos perversos.
Sempre à espreita e à espera da natureza má.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Tempestade de areia


Por vezes, nos dias maus, penso naquele último episódio da Tieta do Agreste. Naquela tempestade de areia absolutamente assombrosa que engole a cidade e as pessoas. Eu cá vi a telenovela, não li o livro. E lembro-me bem desse momento: um deserto inteiro a entrar pela minha vida dentro, a derrubar a minha infância. Um pedaço de nada a surgir do nada. E a verdade é que no final tudo acaba. O bom e o mau. O melhor e o pior. Fica só a areia e o vento. Nos dias maus, penso que o bom do aquecimento global é que isto vai acabar depressa. Numa tempestade de areia ou algo assim. Entrementes, enquanto por aqui andar, vou continuar a ouvir Caetano Veloso e a ler Daniel Galera. Espero ainda ir a tempo de pôr os pés num deserto e ler a Tieta do Agreste. Ler, acreditar, resistir. Por esta altura, a minha esperança mais esperançosa é que, um dia destes, algum artista brasileiro escreva um sambinha bem gostoso e democrático sobre o Bolsonaro. Sempre rima com aquela expressão: o barato sai caro. Eu quero dançar esse sambinha em homenagem ao nordeste brasileiro e a todas as terras a leste e a oeste em todas as regiões do mundo que vão ser engolidas, grão a grão, passo a passo, por esta impressionante tempestade de areia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O nosso lifestyle newly revamped

Atenção: este blogue estreia-se finalmente nas últimas tendências do lifestyle. Espero que gostem deste espaço newly revamped, que brilha no escuro.

No comboio para Lille, folheio em alta-velocidade a revista da Eurostar, o gigante ferroviário que atravessa em regime de exclusividade o canal da Mancha e liga Londres às principais cidades dos Países Baixos, da Bélgica e da França. A revista chama-se Metropolitan, assume-se como publicação de lifestyle e é distribuída gratuitamente nos comboios que transportam mensalmente cerca de 800 mil passageiros. Na capa, a declaração de intenções: Food Culture Design & glow-in-the-dark ice-cream. A receita de sempre: futilidade ao mais baixo nível mascarada de requinte e sofisticação.
Passo os olhos pelos artigos. No início divirto-me com as expressões complicadas cheias de cores e texturas: sow cool, white hot, blue steal, cold comfort. Depois passa-me o conforto e instala-se de súbito o desconsolo da insatisfação, a angústia nervosa do consumismo.
É este o efeito das revistas lifestyle. A sensação de que algures na urban jungle há uma vida paralela muito melhor do que esta, com preocupações e necessidades muito mais refinadas. Os artigos publicitários e artificiosos vêm disfarçados de reportagens sobre as fashion boutiques e as concept stores. Gritam-me aos sentidos, dão-me ordens. Party like a Parisian, dizem-me. Grab a quick bite, smell the roses, join the locals. Don't miss. Don't let. Get ready. Pull up a deckchair. Uma pessoa apanha o comboio e sente-se logo em falta com a sua própria vida, porque não trouxe a manta de piquenique e não sabe onde ficam as culinary trends nem a vibrant nightlife. Além do modo Imperativo, os autores narram as suas descobertas fúteis quase sempre na primeira pessoa do plural. We love. We are crazy about. We kick up our heels. Nós: aquela entidade coletiva a que todos queremos pertencer, mas que ninguém sabe ao certo quem é. A experiência é comum a um grupo e, por isso, impõe-se. E é esta entidade coletiva não identificada que nos diz onde fica o buzz-worthy restaurant, onde devemos tomar um whisky-infused cocktail e onde podemos comprar statement socks, cool-kid jewellery e hipster-friendly gifts. Produtos disfarçados de conceitos. Conceitos disfarçados de coisas. Até as pessoas não são bem pessoas. São gourmet aficionados. São uma arty crowd. É difícil perceber a fronteira entre os artigos e a publicidade. Uma das secções chama-se Promotion e outra chama-se Publi-reportage. A linguagem é dazzling e cosmopolitan. Está repleta de hotspots, pit stops, pop-ups, start-ups, top-shops. Necessidades novas, soluções para problemas que desconhecíamos. Tudo isto pulverizado de vibrações e sensações. Um fresh spin, uma festive feel, uma viral sensation, um laid-back family vibe, etc.
Avanço pela revista vibrando de irritação e desânimo.
Em Amesterdão há uma professora de ioga que junta nas suas aulas uma manada de alunos e uma grupeta de cabras. A professora, inicialmente apreensiva em relação a este método, rapidamente percebeu os benefícios que resultam de abraçarmos uma cabra. Fica assim lançado o convite para hit the hay.
E tudo é cheerful, newly revamped, cosmopolitan, inspiring, outstanding, breath-taking e unforgettable.
Assim vai a sociedade ocidental. Caminhando elegantemente em sapatos de salto alto e com óculos escuros da Miu Miu para o precipício da superficialidade. Tudo going gaga com a latest craze. Cada vez mais obcecados com tendências e experiências. Todos tão sedentos de humanidade e pureza, mas cada vez mais sozinhos e infelizes. Afastados da vida, da natureza, dos outros e até de nós próprios.
No meio desta superficialidade a dar ares industrial-chic, o que importa perceber, julgo eu, é que a malta com dinheiro e poder nos media quer precisamente isso. Que nós, a entidade coletiva não identificada, continuemos a alta-velocidade, sentadinhos de preferência na classe turística, a sonhar com uma vida artificial cheia de brilhos e salamaleques, e a investir todo o nosso dinheiro e energia em coisinhas e eventos cheios de formas e sem qualquer conteúdo. Chego a Lille a sentir-me enganada e vazia de ideias.
Mas nem tudo é mau. Spice up your life, malta! Acabo de ler nesta revista que as Spice Girls poderão vir a juntar-se novamente. Zig-a-zig-ah! Eu não sou hipster-friendly nem gourmet aficionada, mas também não sou imune aos artifícios das tendências.


terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade a subir a rua

A liberdade a subir a rua. Com as suas ancas visionárias, os pés intensos. A mascar pastilha. À escuta. A dobrar a esquina. Sem pressa. Sem frio. Talvez com fome. A liberdade de mochila às costas. De auscultadores nos ouvidos. Com aquele seu ar afogueado de pessoa enlouquecida. A ouvir música. A devorar medos e angústias. A pensar em queijo parmesão. Em manjericão. A liberdade a passar em frente às lojas. Em frente aos bancos e aos pedintes. Em frente às putas. A liberdade parada em frente a uma vitrine. Estática e inteira. Como um manequim. Como uma pessoa de verdade. A liberdade a ver-se ao espelho. A hesitar num pensamento. A tropeçar no passeio. Num sentimento de culpa. A liberdade à espera. A espreitar o horizonte com os seus olhos em chamas. A liberdade a entrar no autocarro. A enviar mensagens no WhatsApp. A ouvir um podcast. A rir sozinha. Às dez da manhã. Ao meio dia. A toda a hora. Permanentemente. A liberdade sempre. Em qualquer caso. Em qualquer lado. A qualquer custo. A liberdade flamejante. Obstinada. Omnisciente. Frágil. Cheia de soltura e de graça. A andar pela vida como se fosse a verdade. Permanente. Constante. Sozinha. Total. Livre.

terça-feira, 21 de março de 2017

Crianças com soldadinho

Está vento no mundo e também em Bruxelas. Uma fúria invisível a soprar a existência. Está tudo tão emaranhado. Não dá para ler nem escrever. Eu cá pareço uma planta enfiada na terra e não é nada mau ser uma planta enfiada na terra. As plantas estão tão bonitas agora. Olha para elas. Neste momento não vejo nenhuma planta, porque estou precisamente debaixo da terra. À espera do metro. Hoje é dia 21 de março.
Dei o meu primeiro beijo no dia 21 de março, por acaso. É mesmo verdade. Tenho jeito para datas. Sempre tive jeito para datas. Uma vez plantei uma árvore no dia 21 de março, Dia Mundial das Florestas.
O metro chega abespinhado. Gosto deste adjetivo: abespinhado.
Entro numa carruagem que vem cheia de crianças. Falam muito alto. Não percebo o que dizem, mas rio-me na mesma. Toda a gente se ri, menos a professora, coitada. A professora é macambúzia a dar com um pau. Dá ordens o tempo todo. Senta-te. Vira-te. Agarra-te. De vez em quando exalta-se. Grita: Michel, calme-toi!
As portas abrem-se. No dia 21 de março, Dia Universal do Teatro.
Um soldado entra. Vem muito bem armado e apessoado, a farda verde e castanha, uma boina no toutiço. As crianças param de falar e olham para ele, até mesmo o tal Michel, que agora só tem olhos para o militar. Na perspetiva das crianças, o soldado é enorme. Parece um penedo visto de baixo. As crianças sorriem para o soldado gigante e o soldado sorri para elas. Um momento de silêncio para a professora, que agora também sorri e agita a cabeça para endireitar o cabelo. Uma criança pergunta: O que tem dentro desse bolso? O soldado balbucia qualquer coisa, mas eu não percebo o que diz. Talvez diga: Neste bolso trago munições para a minha metralhadora. Uma criança pergunta: E naquele bolso? Não percebo a resposta, mas imagino: Neste aqui trago umas granadas. Uma das meninas toca no soldado com a ponta dos dedos. A professora diz: Deixa o senhor em paz. A menina sorri, o soldado sorri. Uma criança pergunta: E isso aí pendurado no cinto? É outra arma? O soldado explica: É um bastão. A professora acrescenta: Como o dos polícias de verdade. Uma criança pergunta: O senhor não é um polícia de verdade? O soldado diz: Não. Sou um soldado. Uma criança pergunta: Quem é que vale mais: um polícia ou um soldado? O soldado ri-se. Uma criança tenta adivinhar: É um polícia! E outra diz: É um soldado! Os adultos ficam atentos, porque também querem saber a resposta. Mas o soldado não responde e a professora também não, porque também não devem saber a resposta. As crianças fazem mais perguntas. O que é essa coisa esquisita em cima da arma? O soldado mexe na coisa esquisita. Diz: É um apoio para o ombro, para ser mais confortável. Uma criança pergunta: Para ser mais fácil transportar? Ele diz: Para ser mais fácil disparar. Uma criança finge disparar com o dedo indicador. Pum!
De repente uma travagem brusca. As pessoas abanam, mas não caem. As crianças gritam, como se estivessem na montanha-russa. Os adultos riem-se muito, à exceção do militar. Está muito concentrado na sua missão ao serviço do exército. No dia 21 de março de 2017, véspera do aniversário dos atentados em Bruxelas.
A professora diz: Meninos, temos de sair aqui. Os meninos dizem bem alto: Ooooooooooooh! A professora diz: Digam adeus ao soldado. Os meninos dizem adeus ao soldado. Eu também digo adeus ao soldado.
As crianças saem da carruagem e fazem uma fila indiana. Vão duas a duas, de mão dada. Estão muito concentradas e bem comportadas. Parecem soldadinhos de chumbo.
Hoje é dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia. E não há nada de poético nisto. Acho eu.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O que é que o cu tem a ver com as calças?

"O nosso reino" deixou de estar recomendado para adolescentes porque inclui palavras como "puta", "racha", "foder", "pila" e "cu".

Ocorre-me perguntar: O que é que o cu tem a ver com as calças?

O Plano Nacional de Leitura, "que tem como objetivo central elevar os níveis de literacia dos portugueses", decidiu que não se deve estimular a capacidade de leitura e escrita dos adolescentes com palavrões.

Receio que o resultado desta decisão seja precisamente esse: estimular os adolescentes devassos rumo a esse grande deboche que é a leitura.

Receio também que o Plano Nacional de Leitura esteja perfeitamente ciente deste efeito perverso.
Ora, isto permite-me concluir que o Plano Nacional de Leitura é um grande depravado.

Eu, pelo menos, já estou para aqui bastante estimulada.


Durante as últimas 24 horas estava convencida de que não tinha o livro cá em casa, mas agora olhei ali para a estante e afinal tenho, caralho!

O meu pipi arde de entusiasmo.

Vai ser a puta da leitura.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Losing on a Tuesday

Estou a ver a CNN há horas, mas não estou a ouvir nada. Tirei-lhe o som.
A CNN está para ali muda e calada.
Estou a assistir às eleições americanas ao som de Adam Green, americano de ginja.
Há pouco aconteceu uma coisa engraçada aqui nesta sala: o Trump estava ali a votar algures em Manhattan e o Adam Green cantou assim:


Losing on a Tuesday filled with purposeful disasters
Tell her I'm losing on a Tuesday afternoon



Pareceu-me premonitório.
De resto é uma bela canção.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Os papagaios miúdos

Hoje passei pelos papagaios.
Estavam aninhados numa árvore a papaguear.
Eu vivo no terceiro andar de um prédio de esquina e eles vivem no segundo andar de uma árvore, que fica mesmo no meio da rotunda.
São papagaios miúdos, de cauda comprida.
Na verdade, não são bem papagaios. São periquitos-de-colar.
Hoje tirei-lhes uma fotografia.


Estavam a arrumar o ninho numa grande algazarra.
Um ia buscar pauzinhos e os outros gritavam com ele.
Esse pau, não, dizia um. Aquele ali é mais flexível.
Era um grande chinfrim no meio da rotunda, no meio da estrada, no meio da cidade.
Mas as pessoas não se zangam com os periquitos que parecem papagaios.
Riem-se para eles.
São tão exóticos. Tão pequeninos. Tão coloridos.
Uma pessoa pergunta: Não terão frio?
Alguém responde: Se vieram cá parar, é porque gostam de estar aqui.
Se calhar devíamos olhar para os imigrantes como olhamos para os periquitos.
Com alguma curiosidade. Com um pouco de ternura. E um certo espanto.
Talvez então parássemos de papaguear discursos provincianos com tiques nacionalistas.
Arre!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A providência divina

Entro na boca do metro. Sinto-lhe o sopro pestilento.
Vejo o chão aos quadradinhos, umas botas de senhora, duas pernas nuas, saltos altos, sapatilhas velhas.

De súbito, um livro.

Está pousado no chão, mas não propriamente tombado. Aterrou em cima das patas, como os gatos. O lombo apontado para o teto. As patas sólidas e resolutas.
Não caiu do céu. Não sucumbiu. Este livro está de pé.
Penso: Aqui há gato.
Talvez seja uma obra de arte. Uma provocação. Ou então uma bomba.
Para estourar com a rotina.
É um livro com caráter. Uma presença mística.
Está ali porque quer.
Abrando o passo, mas não chego a parar. Passo os olhos pela lombada: 

God's creative power.

Penso: Eis um livro miraculoso.
Com ambições celestiais.
Decido passar por cima do pequeno deus. O meu pé todo-poderoso, a sobrevoar o poder criativo, a desafiar a divindade. Pouso o pé do outro lado e rio-me da minha proeza.
A vida continua. Sem prodígios. Sem espanto.
Desço as escadas. 
Eu no esófago do metro, a pensar no livro misterioso. 
Talvez trouxesse um pequeno génio lá dentro. Um santo milagreiro. Um homem bom.
Jesus. Ou então Maomé. Um desses.
Penso: Quero aquele livro só para mim.
Um pequeno génio só para mim. Um pouco de Deus. Um pouco de Alá.
Volto para trás.
Corro pelas escadas acima, o poder criativo a acelerar as pernas.
No chão vejo apenas as pernas das pessoas que passam. Sapatos, botas.
O livro sumiu. Ascendeu ao céu. Desceu ao inferno. Entrou no metro. 
Ou então alguém o levou.
Seja como for, aquele livro não é meu.
Nunca foi meu.
Jamais será meu.

Assim era a Sua vontade.
A Sua escolha.

Não me benzi. Não me queixei.
Pensei: Eis a decisão do Criador.
A providência divina.

sábado, 28 de maio de 2016

Tu t'imagines

Vejo duas raparigas ao longe. Vêm a cochichar divertidas. Com a boca e com as mãos.
Estão vestidas de preto da cabeça aos pés. Vestidos largos e uns lenços muito bem apertados à volta da cabeça. Os rostos bonitos, perfeitamente emoldurados. Nem um cabelo à vista.
Tenho um certo fascínio por estes lenços. Pela arte de os atar à volta da cabeça. As dobras muito bem dobradas. Dois alfinetes nas têmporas.
Estou cada vez mais perto das raparigas. Elas caminham de lá para cá e eu de cá para lá. Os olhos grandes e vivos. Um pedaço de frase: Tu t'imagines. Risinhos.
Param no meio da rua e tiram uma selfie.
As duas raparigas paradas no tempo e no espaço. Abraçadas uma à outra, as cabeças muito próximas. O telemóvel em cima e elas em baixo. Apertam os lábios carnudos, a simular um beijo uma na outra.
Passo por elas. Olhos grandes e vivos.
Só então reparo que trazem os lábios pintados. Um vermelho inflamado. Radiante. 
Tu t'imagines? 
Eu cá imagino. 
Há qualquer coisa arrebatadora no contraste.
Por um lado, a sobriedade. Por outro, a irreverência.
Por um lado, a pureza. Por outro, a luxúria.
Por um lado, o recato. Por outro, a sensualidade.
O cumprimento e a transgressão.
O preto e o vermelho.
A submissão e a independência.
Não haja dúvida: uma rapariga de lenço aprumado na cabeça está muito mais sujeita à fantasia. 
Ao devaneio.
À depravação.

terça-feira, 15 de março de 2016

TEDx Brussels 2016

Ontem fui ao TEDx Brussels 2016. O tema era profundo e futurista. Assim: Deeper Future. Por que não? Ando com sede de ideias e pessoas pra frentex.
Sentei-me na terceira fila e tirei umas notas, comi uns chocolates. Não se esteve mal.
17 oradores, 1500 pessoas, 20 e tal nacionalidades.
Falou-se, claro está, do futuro. O futuro da alimentação, o futuro da segurança, da privacidade, o futuro da igualdade, da medicina, do sistema bancário. O futuro da arquitetura e das cidades. O futuro da cerveja e do amor.
Alguns conceitos novos: receitas climáticas, computadores alimentares, cidades inteligentes, masturdating, citizen lobbying, medicina participativa, casamentos a solo, roupa digital, economia para o bem comum.
Uma das oradoras pôs-se de cabeça para baixo. Em posição vertical invertida. Estava de saltos altos cor de rosa apontados para o teto. Disse: Pensem noutra perspetiva.
Algumas frases: Temos de modificar o ambiente e não as plantas. Temos de democratizar o clima para democratizarmos a alimentação. Temos de amplificar a voz dos doentes. Não há privacidade sem segurança. Precisamos de mais Europa. A diversidade é essencial para a inovação. As empresas privadas têm de cuidar do bem comum. Não precisamos dos homens para nada. Não podemos perder a fé na democracia. Quando as instituições políticas caem, há grandes transformações. Vimos isso com a Jugoslávia. As instituições europeias estão em crise. Um telefone protege muito mais do que uma mala de viagem. Imaginem cidades capazes de falar. Os semáforos vão desaparecer. Quanto mais a sociedade investe na profissionalização, menos beneficia das nossas capacidades. Estamos presos nas nossas profissões, nos nossos sistemas de ensino. Somos espectadores e não atores. Somos consumidores e não cidadãos. A participação cívica é um valor intrínseco. Não basta votar e assinar petições.  Vamos atingir o pico da cultura narcisista. Selfie é o produto do narcisismo. Algumas pessoas morrem a tirar selfies. Narciso também morreu porque se apaixonou por si próprio. If you outsource falling in love, you outsource the essence of love. Without the fall, there is no love. Quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro. As cervejarias artesanais estão de volta. Beer with more meaning, more taste, more fun. É possível fazer cerveja a partir de pão feito a partir de cerveja. Os bancos procuram o lucro à custa da sociedade. O dinheiro é um meio e não um fim. A atividade económica tem de servir o bem comum.
Fiquei a saber que uma chave mestre abre todos os elevadores e portões em Nova Iorque. Que os talibãs são muito ativos na sneackernet. Que mais de 4 mil milhões de pessoas não têm acesso à Internet. Que um dia vamos poder imprimir a nossa roupa em casa.
Fiquei a conhecer a Marble Machine. Fiquei com vontade de ler a obra do filósofo croata que tinha umas ideias larocas. Quero conhecer melhor o islandês que faz música a partir de sons de Bruxelas. Por exemplo, sirenes, elevadores, comboios, sinos.
Umas perguntas no ar: Qual é o nosso contributo? Quantas vezes já fizemos a diferença?
O que é a cidade ideal?
As escolas devem estar orientadas para o lucro? Os hospitais devem estar orientados para o lucro? E os bancos? Por que razão estão orientados para o lucro?
O que será o amor no futuro?
No final fiquei baralhada das ideias e andei aos saltinhos por Molenbeek, o bairro mais terrorista e aterrorizado de toda a Europa. Vi crianças a rir, mulheres a conversar. Vi fruta fresca nas mercearias de esquina, laranjas, toranjas, maçãs. Vi o sol a bater nas janelas. Vi pessoas de cá para lá. Vi vários homens carecas no cabeleireiro e isso deu-me vontade de rir. Não tive medo nenhum. Estava numa de participar na cidade. De fazer a diferença. Em total masturdating.
Até tirei uma selfie.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A minha cruz

Pronto. Já fui votar. 
Livrei-me dessa cruz.
Saiu-me torta, por acaso. Deu-me um tremidinho na última perna e o risco atravessou o quadrado num solavanco.
Ups!
Ficou uma cruz esquisita.
A culpa não foi da caneta. Foi da minha mão direita. 
Grande pateta!
Deu-lhe uma hesitação qualquer, acho. Uma falta de vigor, talvez. 
Depois dobrei o papel em quatro. 
Vinquei as dobras com as unhas, também elas tortas.
Lá se foi mais um sufrágio universal.
Secreto.
Algo sofrido.
A tiritar de frio.
De entusiasmo.
Ou então de medo.
Não sei.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um snack literário

Imagina isto: uma máquina de cuspir histórias.
Nem pequena nem grande.
Está encostada a uma esquina como certas mulheres a certas horas e parece um marco do correio, mas não é um marco de correio.
É uma máquina de cuspir histórias.
Uma pessoa carrega num botão e a máquina cospe um recibo lírico, uma história muito curta.
Seria uma máquina de snacks literários.
Um ou dois minutos ficcionais.
Cinco minutos, no máximo.
Quanto demora a literatura?
Muito.
Pouco.
Nada.
Certas histórias são assim.
Fugazes. Inesperadas. Crocantes.
Imitam a vida. Por vezes, mudam-na.
É, não é?
É.
Mas olha: esta história não é um snack literário.
Ai não?
Não.
Esta história é real.
Há para aí umas máquinas delirantes. A cuspir literatura.
É mesmo verdade.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Estado de alerta


Nove da manhã em Bruxelas. Ameaça séria e iminente. Tenho os olhos pesados. A Elena Ferrante tira-me o sono.

E agora? Saio de casa ou não saio de casa?

Troca de mensagens com amigos e colegas. Uns vão trabalhar. Outros ficam em casa. Outros trabalham a partir de casa.

A formação de formadores foi cancelada. Ainda bem. Não me apetecia nada.

O meu calendário diz-me que hoje é o meu dia de tirar sangue. Like.

Lá fora estão dois graus centígrados. Sirenes da polícia ao longe e ao perto.

Comi pão duro. A culpa é minha. Ficou fora do saco a noite inteira.

Atrás das casas, um pequeno sol à espreita.

É um bom dia para tirar sangue. Escolho cores neutras para não dar nas vistas. Estou disfarçada de pessoa normal.

Saio de casa. Pouca gente na rua.

Algumas pessoas nos cafés. Duas moças fumam à porta de um escritório. Riem-se. Um homem passa com um carrinho de bebé. Afinal são dois bebés. Estão contentes. Batem palminhas.

Sinto frio nas mãos. Esqueci-me das luvas.

E agora? Sigo caminho ou volto para trás?

Um homem entra num carro e topa-me. Eu topo-o. Um rapaz de capuz passa por mim, eu passo por ele. Aqueço as mãos uma na outra, sigo caminho.

No café de esquina, algumas pessoas estão coladas aos vidros. A ver as vistas. Um senhor de idade lava o chão de um prédio. Pára de lavar o chão para me ver passar. Um camião de portas escancaradas. Caixotes de comida, parece.

A escola secundária está fechada. Melhor assim. No bar esquisito da rue du Viaduc os mesmos homens com ar de marinheiros tristes.

Sinal vermelho para os peões. Eu espero. Uma rapariga do lado de lá também espera. Lançamos olhares feios uma à outra. As pessoas rodam a cabeça para acompanhar certos sons e movimentos. Por exemplo, um elétrico que passa. Um carro da polícia. Um cão a ladrar. Uma bicicleta.

Os guindastes estão paradotes. Hoje não há obras.

Um homem vem na minha direção a cambalear. Parece-me indiano. Aproxima-se de mim. Está bêbedo. Pergunta-me baixinho se tenho lume. A pergunta dá-me vontade de rir.

As árvores estão bonitas. Folhas amarelas.

Venho a ouvir Sunny Road e estou precisamente numa sunny road. Completamente vazia. A rua.
Eu também estou vazia.
O sol pousa devagar nas janelas. Gelo e sol nas janelas. Tiro uma fotografia ao cenário.

Em frente ao Parlamento Europeu estão quatro militares armados ao pingarelho. Muito quietos e concentrados. Um deles ergue-me as sobrancelhas. Parece-me satisfeito com a vida.

Não há nada como ter uma metralhadora na mão.

O sol fica por cá o dia todo.
É um sol esperançado. Europeu.
Antiterrorista.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A quingentésima

Olha, esta é a mensagem número 500 deste blogue. Vi agora.
Feliz maneira de regressar ao Belgavista. Com a quingentésima mensagem.
Estamos no avião a descer para Bruxelas.
Quando atravessamos as nuvens, o avião estremece e o coração também. É sempre assim.
Chegar a Bruxelas é um tremor no ar.
Felizmente o avião pousa devagarinho. Nada mau.
A noite chove na rua e também na cabeça.
Seguro-me ao corrimão para não escorregar.
As minhas pernas descem e a minha saia sobe. O vento é malandreco.
Chego a casa. Um embrulho aprimorado na caixa do correio. O que é isto?
Ah, é um livro bonito.
Que livro bonito?
O dicionário do menino Andersen.
Uma capa rugosa. Um desenho depurado. De passar os dedos por cima e também a língua.
Pimbas.
Uma lambidela salivada no Gonçalo M Tavares e na Madalena Matoso.
Uma definição do menino Andersen:
MOSQUITO: animal que está mal sintonizado.
Nada mais certeiro para acabar com a noite.
Acordo com as sirenes e tomo banho. Lavo-me por cima e por baixo. Barro manteiga nas torradas, bebo café com leite, leio uma fatia da revista LER. Tudo ao som das sirenes. Ti-nó-ni.
Saio de casa.
O sol lá em cima não chega cá abaixo: lá no alto é de dia; cá em baixo é de noite.
A meio da rua as sirenes calam-se. Talvez por causa dos meus auscultadores. Não sei.
Uma perguntinha com a ajuda do público. O que explode mais rápido: um autocarro ou uma carruagem do metro? Escolho o autocarro.
Ficamos parados no trânsito. Espero de pé como os outros.
Militares na rotunda das instituições europeias. Com uma arma ao colo e uma mochila às costas.
Digo Bonjour quando entro no edifício. Ah, que espanto. Ainda não tinha falado franciú.
Há sirenes em Bruxelas.
Chuva. Trânsito.
E terroristas.


Não tinha saudades disto.
Mas até tinha saudades disto.
Estou mal sintonizada.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Referendo, Peripécia e Catarse

Os gregos disseram Não.
Não se sabe bem a que disseram Não.
À Europa?
Não.
À austeridade?
Também não.
No entanto, o Não transmite uma mensagem que é, de certa forma, positiva. É, não é?
Talvez.
O Não é um símbolo.
Há aqui uma certa dramatização da negação, uma representação, um teatro da escolha.
A escolha de quê?
Não sabemos.
Apesar disso, acho bem que os gregos tenham dito Não. É preciso não ter medo do desconhecido.
Se me dessem a escolher, também diria Não. A quê?
A isto. A esta Europa.
À austeridade.
Infelizmente, os dirigentes gregos vieram a Bruxelas sem um plano.
Porquê?
Ninguém sabe.
Só eles saberão.
Li há pouco-poucochinho que o Tsipras trouxe uns apontamentos escritos num bloco de hotel.
Quem é afinal o protagonista deste impasse?
A propósito do medo e do teatro, fui revisitar a Poética de Aristóteles, o texto milenar que veio definir os géneros literários.
Diz-nos Aristóteles que a tragédia grega - género superior da arte poética - é uma imitação das ações e da vida, e não uma imitação dos homens. Ou seja, vive dos acontecimentos; não das personagens. Ainda assim, as personagens têm de ser nobres. Só é possível sentirmos compaixão por pessoas boas, de conduta exemplar.
Se a atualidade na Grécia e na Europa fosse um texto poético, o referendo grego - ou a imitação do referendo - seria o acontecimento; os gregos - dirigentes e cidadãos - seriam as personagens. A bem desta tragédia, partiremos do princípio de que tanto os gregos como os troianos são personagens nobres, de conduta exemplar.
Os demais europeus são, pois, espectadores entusiasmados e também figurantes. Alguns entre eles são, claro está, protagonistas, igualmente nobres e exemplares.
Brevemente ficaremos a saber se esta peça sofre uma reviravolta.
É que a tragédia grega só se concretiza com uma peripécia capaz de transformar os acontecimentos no seu oposto.
No caso, talvez o Não dos gregos se tranforme num Sim. A quê?
Não sabemos.
Talvez à Europa.
Talvez à austeridade.
A verdadeira tragédia ocorre com o reconhecimento da peripécia ou reviravolta, ou seja, quando a personagem passa da ignorância para o conhecimento.
Neste momento, somos todos ignorantes.
No final, quando percebermos o resultado de tudo isto, se estivermos perante uma verdadeira tragédia grega - género superior da arte poética - os gregos cairão em desgraça pelas suas próprias mãos e os europeus darão provas de compaixão e temor. Só este sofrimento, esta empatia, este medo, nos levará à catarse. Ou seja, à purificação da alma através do delírio. Ao domínio das paixões. À clarificação do intelecto.
Desta tragédia talvez a Europa saia mais forte. Mais pura. Mais esclarecida.
Ou isso, ou ficará tudo na mesma. Isto é, na linha do declínio, com tendência a piorar.
É possível. É até provável.
Nesse caso, todo este texto seria um péssimo exemplo de arte dramática. Sem peripécia, não há catarse.
Seja como for, parece-me que a Europa precisa de mais poesia. De mais lirismo.
E de menos técnica.
Eu digo Sim aos gregos.
À peripécia.
E à catarse.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Daniel Ricardo

O que eu quero dizer é que o Daniel Ricardo morreu.
Estou em choque.
Sempre que apanho uma Visão, consulto a Ficha Técnica para verificar que o Daniel Ricardo continua a ser o editor executivo e que nada muda.
O que eu quero dizer é que perdemos um bom professor.
Aprendi com o Daniel Ricardo a escrever assim. Lá para o início do século, no Cenjor, Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas.
O Daniel Ricardo dizia: "Quando tiverem dúvidas sobre como escrever uma notícia, comecem assim: O que eu quero dizer é que, e a seguir, quando acabarem a primeira frase, tirem isso. Não faz falta nenhuma".
Eu faço este exercício semanalmente e depois tiro a expressão O que eu quero dizer é que.
Vou fazer igual com este texto. Resultado:
O Daniel Ricardo morreu. Perdemos um bom professor.
Acho que o Daniel Ricardo teria preferido a palavra morrer a falecer, mas não tenho a certeza.
O Daniel Ricardo falava e escrevia com precisão. Sem floreados. Sem bengalas. Sem incoerências.
Dizer não é o mesmo que afirmar nem declarar nem anunciar. Isto declarava o Daniel Ricardo debaixo de um casaco que não estava propriamente vestido, estava pousado nas costas, prestes a deslizar para o chão. O casaco do Daniel Ricardo raramente deslizava para o chão. Havia na sua postura um equilíbrio bastante exato.
Concordar não é o mesmo que anuir ou assentir. Subscrever não significa aprovar. Solicitar não significa pedir nem exigir nem rogar. Cuidadinho com os verbos.
Os sinónimos não são sinónimos. Os antónimos não são antónimos.
Tínhamos conversas animadas nos intervalos das aulas. Animadas no sentido de animadas. E não no sentido de entusiasmadas ou enérgicas ou esperançadas.
Também é preciso ter cuidado com os adjetivos.
Era um bom professor. O que não significa que fosse bondoso ou benévolo.
Talvez nunca lhe tenha dito (e não anunciado) isto. Que ele era bom professor e que eu gostava das aulas dele. É que gostava mesmo.
Há pouco tempo, comprei um manual do Daniel Ricardo, Ainda bem que me pergunta. Nunca pensei que não iria ter a oportunidade de lhe pedir (e não solicitar) um autógrafo.
O que eu quero dizer é que tenho pena de não ter aprendido mais com ele.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Saco roto

No outro dia andei a arrumar sacos. Fiquei horas nisto. Enfiei sacos dentro de sacos, alinhei asas de cordão, asas de algodão, asas torcidas. Separei os sacos de plástico dos de papel, separei os maiores dos mais pequenos. Pelo meio escorreguei nuns quantos sacos de plástico espalhados pelo chão e encontrei sacos verdadeiramente impressionantes porque tinham alças de tecido ou cintilavam no escuro ou eram resistentes, com reforço no fundo ou nas pegas.
Sacos de ráfia, sacos isotérmicos, sacos que são sacolas, sacões, saquetas, com pala autocolante ou cordões ajustáveis.
Alguns não têm asas nem alças. Só dão para levar ao colo, não se percebe. Ainda assim, são bonitos e recicláveis, impõem um certo respeito.
Descobri vários sacos para garrafas e sacos para presentes, sacos para livros, sacos para fatos, sacos-mochila.
Tenho centenas de sacos e não sei de onde vieram. Nem sequer sou de usar sacos.
Ando sempre com um saco de pano na mala que dá para transportar quase tudo, incluindo as minhas ilusões e reclamações, que são compactas e dobráveis em quatro. Até sei recusar sacos em várias línguas. Por exemplo:
Je n'ai pas besoin de sac.
Ik heb geen tasje nodig.
Keine Tüte bitte.
I don't need a bag.
Estou de saco cheio.
O meu esforço contra o consumo de sacos caiu em saco roto. Nunca pensei.
O que fazer com centenas de sacos que vão viver mais tempo do que eu? Voar com eles? Sufocar com eles?
Não vou deitá-los no lixo. Não vou oferecê-los a ninguém.
Qualquer coisa tem de mudar. É urgente.
Talvez a fiscalidade verde ajude. Quem sabe…
De resto, na Bélgica, continuamos a comprar sacos específicos para o lixo e para reciclar papel e embalagens. Para ficarem bem arrumados e separados por cor.
Não entendo.
Não aprovo.
Mas calo o bico.
E ponho a viola no saco.