Mostrar mensagens com a etiqueta Sobre os lugares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sobre os lugares. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de março de 2015

Eu e tu na floresta

Eu e tu na floresta.
Há muito tempo.
Tínhamos pernas e braços.
Os nossos pés pisavam raízes, escorregavam no musgo.
Às vezes, eu caminhava à tua frente. Outras vezes, caminhava atrás de ti.
Trazíamos paus de bambu na mão. Passávamos por baixo de troncos caídos. 
Passávamos por cima de troncos caídos. 
Tocávamos nas árvores e no chão, mergulhávamos os dedos na água. 
Um veado olhou para mim, eu olhei para ele.
Eu e tu no cimo da montanha. 
Uma floresta em cima de outra floresta.
Montanhas por cima de montanhas, árvores por cima de outras árvores. 
Tu deste um grito. Eu não.
Da minha boca saíam pequenas nuvens que se juntavam às outras nuvens.
Os nossos pés sobre folhas e pinhas. Eu e tu a magoar o silêncio. As pedras diziam: Shiu, mas nós não sabíamos calar os pés.
A certa altura atravessámos uma ponte suspensa e ficámos a ouvir o rio.
Eu e tu suspensos.
Os nossos pés na floresta. 
As árvores muito compridas, de tronco torcido. Raízes por cima de árvores caídas e ocas, por cima de outras raízes, por cima de pedras. 
Raízes como mãos. 
Árvores que carregavam outras árvores aos ombros, ramos enlaçados noutros ramos.
De repente fiquei sozinha. Eu e as pequenas nuvens que saíam da minha boca. 
A floresta mexia-se nas minhas costas, as árvores rastejavam atrás de mim. Como crocodilos.
Um ramo tocou na minha nuca. Um ramo que não existia antes.
Eu chamei por ti, mas tu não ouviste.
A floresta engolia as palavras e também as pequenas nuvens que saíam da minha boca, os meus passos, os teus passos.
A floresta como um monstro.
As minhas mãos muito velhas e ásperas. Como raízes.
Eu e tu a ganhar raízes.
E éramos verdes como o musgo, frios como as rochas, longos como cedros.
Eu e tu na floresta. 
Os mais antigos de todos.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Os dias em Nagasaki

Certos dias, nada evolui, nada se transforma. 
As noites são longas e a chuva perdura. O futuro é certo. A vida desacelera.
Uma pessoa espera pelo elétrico, outra pessoa escova o cabelo em frente ao espelho, outra bebe um café ao balcão.
E a vida, afinal, não é curta. É extremamente longa. Nunca mais acaba. 
Em certos dias, somos imortais.
O dia de amanhã será um dia igual a hoje, que é igual a ontem.
Há um certo conforto na previsibilidade dos dias. 
Tudo é imutável.
Noutros dias, a vida acontece. Nada é igual. Tudo muda. Onde não havia coisa alguma passa a existir tudo e o contrário também. Onde existia tudo, passa a haver coisa nenhuma.
Passear por Nagasaki tem esse efeito sobre os dias.
Nada é igual, nada é imutável.
Num dia, o carteiro passa a correr na rua, a distribuir cartas a toda a velocidade, e amanhã talvez não seja assim. Os corvos sobrevoam o parque, mas amanhã não se sabe. É uma incógnita. As crianças atravessam a rua com as educadoras, uma rapariga compra um bolo numa pastelaria, um homem ri-se sozinho no elétrico, duas adolescentes descem a rua a comer batatas fritas, e amanhã talvez não seja assim.
Certos dias não são iguais nem previsíveis. 
Em Nagasaki deve ser assim. 
Tudo é diferente 70 anos depois.
O desconforto da incerteza, a dúvida constante.
Talvez por isso o carteiro corra de casa em casa e as educadoras sorriam tanto.
Não temos controlo sobre quase nada. Não sabemos nada sobre quase tudo. E a vida, afinal, não é longa. É extremamente curta.
Tudo muda, tudo evolui.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Rapariga em Osaka

Uma rapariga caminha na minha direção.
Olha em frente, no vazio.
Entre mim e a rapariga há uma recta que é cada vez mais pequena.
Eu e a rapariga caminhamos na direção uma da outra.
A rapariga tem cabelos negros e uma franja rectilínea mesmo em cima dos olhos.
Os olhos também são rectilíneos.
Na franja da rapariga vem pendurado um gancho roxo, que também é uma recta.
É um gancho inútil, que não prende o cabelo a lado nenhum.
Vem só pendurado na franja, como um alfinete, como uma coisa qualquer.
A rapariga traz um desequilíbrio no rosto.
Não. Não é o rosto.
São as pernas.
A rapariga caminha de pernas tortas.
Enfia os pés para dentro.
Dobra ligeiramente os joelhos.
As pernas da rapariga parecem desajeitadas, mas não são.
A rapariga traz meias brancas pelo tornozelo e saltos altos que lhe estão demasiado grandes.
Quando a rapariga levanta o pé, o salto levanta voo e cai atabalhoado no chão.
O pé regressa ao sapato imediatamente.
A rapariga parece uma menina com os saltos altos da mãe, mas não é uma menina com os saltos altos da mãe.
É uma rapariga de saltos demasiado grandes e pés enfiados para dentro.
Caminha desajeitada por opção.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Uma lista de coisas

Ir de viagem. Contar os dias. Fazer uma lista. Não esquecer o guia. Nem sapatilhas. Pijama, passaporte. Kindle, caderno, guia. Máquina fotográfica, máquina do tempo. Ligar a este e àquele. Regar as plantas. Deixar as chaves. Falar com a porteira. Falar com os colegas. Ir ao banco. Ir à farmácia. Ir a casa. Reservar carro. Reservar hotel. Comprar bilhetes. Imprimir bilhetes. Confirmar horários. Enviar mails. Ler isto. Ler aquilo. Tripadvisor. Blogues. Lonely Planet. Tomar um copo. Almoçar com amigos. Lavar a roupa. Lavar a loiça. Lavar as ideias. Ver o mapa. Ver o plano. Fazer a mala. Escolher a mochila. Encher o saco. Fazer a cabeça. Desligar o frigorífico. Desligar o aquecimento. Desligar o mundo. Fechar a casa. Fechar a matraca. Ser uma lista. Uma enorme lista de coisas. Um bicho, uma casa. Um castelo de coisas em movimento. Aeroporto. Baggage drop off, segurança. Terminal A. Ver a porta de embarque, a hora de embarque. Esperar. Enfileirar. Embarcar. Sou uma lista de coisas. Uma enorme lista de coisas. Ir. Ver. Ser. Voltar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os lugares imaginários

Diz que o Alberto Manguel passou grande parte da vida a colecionar lugares imaginários.
Até escreveu um livro a fingir sobre isso. E não é um homem inventado, é um homem a sério. Vive num convento fantasiado algures em França, num grande regabofe utópico com milhares de livros inimagináveis.
Vi-o uma vez em Bruxelas, cidade fictícia de nuvens falsas, e gostei de o ouvir. Até comprei um livro irreal do senhor. Infelizmente, não cheguei a lê-lo. Distraí-me.
Às vezes acontece-me.

Passo os dias em lugares imaginários. No monte dos vendavais. Na minha varanda idealizada. A beber um café ilusionista em casa do Sherlock.
Quando saio da minha cabeça inventiva, fico logo com sono, com frio e com fome, porque as coisas a sério cansam-me. Os diplomatas que aparentam diplomacia cansam-me e os deputados tagarelas também e as cimeiras criativas, os líderes liderados e os lobistas avatares, o ilusionismo fiscal, o fecundo futebol, a NSA, o Facebook, os likes, as selfies, as negociações quiméricas, os dados pessoais, as infrações, a fraude, os incumprimentos, as violações, as guerras concebidas, o fabuloso Big Brother, todo este admirável mundo a sério que é tão a fingir, tão inconcebível, tão efabulado, que qualquer dia damos mesmo um grande passo de humanidade ficcional e vamos parar a Marte.

Já estou cheia de sono e frio e fome.
Antes viver no meu Kindle surpresa a engendrar outra coisa qualquer.

Hoje queimei a língua. Distraí-me.
Estava na Catedral com o Vargas Llosa e escorreguei nas palavras.
Parece uma dor inventada, mas não é. É uma dor a sério.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pastelaria de esquina

Naquele domingo a rapariga entrou na pastelaria de esquina. Não tinha por hábito passar por ali, muito menos ao domingo, e agora que a ocasião surgia, não hesitava. Pela maneira como observa os candeeiros interiores, somos obrigados a admitir que talvez aquela rapariga nunca tenha entrado naquela pastelaria.
Nós, sim, já conhecemos o sítio e sabemos que é raro a mesa da janela estar vaga. E logo agora que a rapariga entra, a mesa oferece-se às suas pernas e estas sentam-se aí mesmo, de frente para o cruzamento feio de carros e gente.
O rosto da rapariga denuncia-a: é nova e sensível. Não é mulher suficiente para se sentar nas montras dos cafés, por isso observamo-la. O desconforto das mãos enquanto espera por qualquer coisa que as ocupe confirma isso mesmo.
Um empregado aproxima-se. Não é simpático nem antipático. A rapariga ainda não sabe o que quer, mas pede apressadamente qualquer coisa, como se verdadeiramente a quisesse. Não era fã de nenhuma das suas escolhas, mas ansiava por que chegassem à mesa. Não chegam logo.
O empregado pousa-lhe na mesa um compal de pêra e uma tosta mista. Enquanto bebe e come, a rapariga toma uma série de decisões: pedirá um café de seguida, levará pastéis de nata, irá ao cinema mais tarde, por volta das oito, para não voltar tarde para casa. Só agora olha para a janela.
A vista não é bonita: na verdade é só um enorme corredor de asfalto repleto de carros. No passeio, surgem e desaparecem pessoas de todos os tamanhos e feitios. Um eléctrico guincha na curva. Algumas bicicletas deslizam satisfeitas e, de vez em quando, carrinhos com bebés lá dentro.
Um pedaço de cidade igual a outros.
Do outro lado da rua há um supermercado aberto. Entram e saem pessoas de caras tortas e cabelos amarrotados. Uma loja de flores está de rosto virado para o sol. Tem tantas flores que a rapariga não consegue ver quem lá trabalha. A rapariga decide comprar um vaso naquela loja. Ou talvez uma planta. Talvez bolbos de tulipas. Isso.
Olha para dentro, ou seja, para a pastelaria. Pede um café e recosta-se na cadeira desconfortável. Um casal observa atentamente a vitrina dos pastéis, parece indeciso. Uma menina muito bem sentada ao colo da mãe acena-lhe atrevida. A rapariga acena de volta. A mãe não se apercebe de nada, fala animadamente com uma outra mulher, atrapalhando os dedos num pastel de feijão. Três rapazes e duas raparigas apertam-se à volta de uma só mesa, comentam uma coisa qualquer divertida. Duas senhoras mais velhas querem pagar a conta e demoram-se a interpretar as moedas. O empregado espeta as duas mãos na cintura e fala para trás do balcão, onde uma moça risonha enfia um pano dentro de um copo. Um casal barrigudo entra na pastelaria e cumprimenta a mãe da menina atrevida. A menina atrevida salta para o chão, dá uma palmada na barriga do homem. Riem-se todos.
As paredes da pastelaria são exageradas: têm uma fonte ao centro e umas janelas alentejanas sem nexo. O empregado devia cortar o cabelo e as pessoas deviam falar mais baixo. A sala perde luz à medida que se entra. Mais um pouco e a escuridão estaria à vista.
A rapariga inicial, de chávena de café na mão, apercebe-se de tudo isto.
Depois olha outra vez para a janela. Para o pedaço feio da cidade.
Decide ficar mais um pouco.
Nem sempre a beleza faz falta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

No jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar

Um certo homem, de nome Manuel Matias Batalha Pereira, senta-se diariamente no jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar. Não os apanha, não os assusta, não lhes dá comida, nem guarida, nem nada de nada, fica por ali sentado a vê-los voar. O senhor Manuel Matias não tem família, como é evidente, nem amigos, nem assuntos para tratar, se não de quando em quando na segurança social ou nas finanças. No outro dia tinha passado, por exemplo, várias horas na Loja do Cidadão dos Restauradores, mas fora essas excepções, que até lhe davam novas cores à vida, o senhor Manuel Matias não tinha nada que fazer, senão aquilo: ver voar os pardais. Não os pombos nem as rolas nem as gaivotas, que eram pássaros gordos, altos, adultos, aborrecidos.
Só os pardais.
O senhor Manuel Matias gosta dos pardais por isto: têm um voo imprevisível, incorrigível, caótico, infantil. Ora pousam aqui, ora voam para ali. Sobem para o banco, saltam para o chão, bicam a calçada, viram as costas, voam baixinho, pousam na relva, enfiam-se no canteiro, desaparecem nas árvores. Isto entretém o senhor Manuel Matias. De vez em quando ri-se de certos voos descontrolados, troça dos pardais, chama-lhes nomes.
Traz um saco de plástico que pousa sempre do seu lado direito. A certa altura tira dele uma banana, sempre uma banana, dizem que faz bem à cabeça. Come-a sem grande jeito (alguns pedaços da banana ficam pelos beiços, um pendurado no queixo, outro na ponta esquerda da boca e outro ainda no lábio superior). O senhor Manuel Matias desaprendeu a comer. O senhor Manuel Matias desaprendeu muita coisa.
Do outro lado do Campo Mártires da Pátria está uma senhora a dar comida aos pombos. Não sabemos o seu nome, mas conhecêmo-la de vista. Observa atentamente os olhos do senhor Manuel Matias, é um olhar meigo. O dela e o dele.
A senhora que dá comida aos pombos compadece-se do senhor Manuel Matias, roga pragas à família por o terem abandonado, pensa que são maus filhos, maus netos, maus primos, maus tudo e mais alguma coisa. Abana a cabeça enquanto pensa tudo isto, arranca os pedaços de pão com muita fúria, gosta genuinamente do senhor Manuel Matias.
A senhora que dá comida aos pombos é bem intencionada quando pensa estas palavras feias, mas ignora muita coisa, imensa coisa (não tem culpa disso, claro). Uma delas é que o senhor Manuel Matias, com o seu olhar meigo, é uma besta. Outra é que batia na mulher e ia às putas. Outra ainda é que os netos nem o conhecem por dele terem medo os filhos. Isto é a história real do senhor Manuel Matias mas nem todos são omniscientes como o narrador.
E de facto, não podemos levar a mal o amor que a senhora dos pombos tem pelo senhor Manuel Matias. Este homem tem realmente um olhar meigo e é sensível. Repare-se que ele vem ao jardim para ver os pardais a voar, ri-se deliciado para eles. Isto aperta o coração da senhora, como é natural.
Visto daqui, até nós nos comovemos. Não que perdoemos o senhor Manuel Matias. Não que tenhamos esquecido os seus pecados. Mas ao longe, efectivamente, a velhice comove.
E todos os homens são bons, quando chegam a velhos. Tornam-se imprevisíveis, incorrigíveis, caóticos, infantis. Como os pardais. E desaprendem muita coisa. Imensa coisa.
Todas as coisas.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

No quiosque

Saiu de casa para comprar um postal. Disse: "Vou comprar um postal" e foi. Abriu a porta, saiu, fechou-a, pôs-se a caminho.
Do quiosque. Dos jornais. Da rua.
Qualquer coisa o fascina no quiosque. Várias coisas. Todas as coisas. Não, afinal são só três.
A primeira é a porta. Um pedaço de madeira e vidro, muito leve, muito branco. Quando se abre ou fecha, toca um sino. Ou dois. Não dá bem para perceber. O som é parecido com os badalos que se ouvem no monte: com os chocalhos das vacas, das ovelhas, das cabras (e não com os sinos das igrejas).
A segunda (que não é coisa, mas sim pessoa) é a senhora. Aquela senhora. A do quiosque. Olha para a porta sempre que o sino toca. Para ver quem entra, quem sai, quem fica. Está sempre à caixa. Uma senhora amável. Que se pode amar. Que se ama. O homem que quer comprar um postal desconfia que os cabelos da senhora do quiosque da rua cheiram a tinta de impressão, que o seu rosto é de papel ou esferovite e não de carne e osso. Frágil. Tem óculos quadrados e neles se espelham todas as letras de todos os jornais.
A terceira coisa que o fascina é o próprio papel. Os sentidos segundo o papel. O cheiro do papel, a textura, os dedos, a voz, o peso. Papel mate, papel couchê, papel bouffant, papel de jornal, a arte de ser papel. Por agora, esquece-se desta paixão pelo papel. Tem outra: quer comprar um postal.
Foi até ao fundo do quiosque. Onde está a secção de postais. São muitos. Imensos. Demasiados. Uns dizem coisas, outros só uma palavra, outros nada de nada. Há postais de tudo. Aniversário, casamento, nascimento, baptizado, Natal, Páscoa. Postais para dizer que se ama. Para desejar as melhoras. Para pedir desculpa. O homem inquieta-se, confunde-se. Fica duas horas a ver postais. Uma decisão difícil. No final, escolheu um postal que não dizia nada: na frente tem uma azinheira no meio de um prado. No verso nada.
O homem que queria um postal já tinha o postal. Estava contente. Foi pagar. A senhora de papel recebe-o ao balcão. Diz:
- Escolheu um postal bonito.
- Gosta?
- Gosto.
- Estava ali um bocado indeciso, sabe?
- Sei, pois! Ficou duas horas a ver postais!
- Verdade?!
- Verdade. É tudo?
- Não. Queria também um selo, por favor.
- Correio nacional?
- Sim.
- Normal?
- Não. Correio azul, por favor.
- Para chegar mais rápido, estou a ver.
- Sim, o mais rápido possível.
O homem pagou. Guardou o selo na carteira, fechou a carteira, devolveu-a ao bolso. Já estava a preparar-se para sair, quando reparou no seguinte: ao lado da caixa registadora havia um pequeno mostrador com cartões de visita. Do quiosque. Era um cartão muito simples em fundo branco. O homem tirou um.
Assim já tinha o endereço. Com código postal e tudo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Voltar

O viajante e o viajado encontraram-se na estação. O viajante disse que ia dar a volta ao mundo e, na volta, esperava voltar a encontrar o viajado. O viajado disse que quem dava voltas, não voltava. Um dia, também ele fora dar uma volta e, na volta, ao passar pelo ponto de partida, pensou que era um ponto de passagem. Por isso, voltou para trás e agora, ao olhar para trás, sabia que dera demasiadas voltas para saber voltar. Um pensava que voltava, o outro não sabia como voltar. Quando partiram, disseram "Boa viagem". Um deu a volta ao comboio, o outro deu demasiadas voltas à cabeça. Ambos se perderam no caminho.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Déjà vu

No comboio vem um estrangeiro a ler um livro. Tem um ar estranho o estrangeiro, daí saber-se que é estrangeiro, de outra maneira só se o ouvíssemos falar e, como no comboio vem tudo calado, seria impossível sabê-lo senão através do seu ar estranho. O livro que o estrangeiro vem a ler chama-se "O estrangeiro", há algo estranho nisto. Ao lado vem uma rapariga de iPod ao colo, vê-se que é daqui, traz a cor desta terra nos olhos, ligeiramente verdes, quase chuvosos. Tem uma tez branca, igual à dos outros, e um nariz aquilino que, por sua vez, aponta tranquilo para a janela. E nela há a imagem repetida, a rapariga de iPod ao colo. Dir-se-ia que neste banco se sentam pessoas duplicadas. Doppelgänger.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Vizinhos

Encontram-se nas escadas. Um desce, o outro sobe, ambos param. Um é mais alto que o outro, está dois degraus acima. Sorriem. Diz um "Chove que se farta" e outro "Pois", pensam os dois "Azar". Pergunta um "Há quanto tempo está fora?" e o outro hesita. O primeiro pensa "Não se ofenda" e o segundo "Não me lembro". Diz o segundo "Há uns 6 meses" e o primeiro exclama "Aaaaaaaaaaaa". Pensa um "Não tenha pena" e o outro "Coitado". Um ameaça subir, o outro interrompe-o. "E custa-lhe estar fora?" e o segundo encolhe os ombros. Pensa o primeiro "Muitíssimo" e o segundo "Nada de nada". Diz este "Um bocadinho" e o outro acena com a cabeça. Lamentam em coro "Então com este tempo!" e riem da coincidência das vozes. Um sobe, o outro desce. O primeiro pensa "Maldita chuva" e sai do prédio. O outro entra em casa, não pensa nada. Senta-se devagar em silêncio e ouve a chuva. Diz para si "Peixe fora de água".