terça-feira, 24 de julho de 2007

Discurso recursivo

Era um monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada amarela tinha quatro janelas de tamanhos diferentes das quais uma estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava sentada num sofá tricotando um longo novelo que a filha lhe oferecera a qual tinha pena da mãe cujo marido morrera há pouco tempo o qual era viticultor e bom bebedor o que não era mau nos dias de festa mas que não era bom para a saúde pela qual a mulher rezara todas as noites que eram sempre frias no alto do monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada azul tinha uma longa varanda onde se espreguiçava um gato que começou a lamber as patas que lambiam depois o rosto o qual era bonito e meigo à excepção dos olhos selvagens que eram cinzentos como o céu daquela tarde que descia devagar sobre aquele monte que tinha socalcos onde havia vinhas atrás das quais se erguia uma casa cuja fachada vermelha tinha uma porta vermelha por cima da qual havia um telhado de barro por baixo do qual estava um ninho redondo dentro do qual dormiam as andorinhas mais jovens que tinham chegado há uns dias com as andorinhas-mãe que voavam agora à altura da janela amarela que estava aberta para fora deixando ver a mulher que tinha dentro a qual estava de pé acenando para as andorinhas que eram tão belas que a faziam esquecer a morte e agradecer a Deus o qual estava no céu acenando para o monte que tinha socalcos e que vendo toda a sua obra a considerou muito boa.

7 comentários:

hbandarra disse...

Brutal! Quero viver nesse lugar, o qual conquistou o meu coração.

Pitucha disse...

hannnn....(isto fui eu a respirar!).
E olha, para não variar, lindo!
(Acho que vou comprar um dicionário de sinónimos).
;-)
Beijos

Claudette Guevara disse...

Estás quase como o Saramago, mas neste caso eu fico mais sofrega!
:D

pessoana disse...

Fico contente por ter conquistado o coração do Bandarra (o qual já tinha conquistado N vezes por razões menos artísticas) e o fôlego da Pitucha (que hoje tem uns tons cinza e não é do tabaco). Quanto ao Saramago (cujo nome não se pode dizer alto devido à sua estranha proposta relativa ao "Estado Ibérico", o qual não existe nem existirá por acordo de ambas as partes, graças a Deus, o qual há-de estar contente com a sua obra), devo dizer que fico em estado histérico com o elogio, Guevara, porque gosto muito dele (do que ele escreve e não do que ele diz, que é como quem diz: do artista e não do homem).

Anónimo disse...

aahhh, estou aliviada..
depois do meu trabalho profundamente doloroso sobre "a vírgula e as orações subordinadas adjectivas relativas com antecedente restritivas e explicativas" (que raio de tema de facto..), nunca mais tive força mental para descobrir a beleza que as relativas escondem.. até ler o teu post! muito muito bom!! reconciliaste-me com o mundo dos "ques" =))
jinhos graaaandes *sara*

cata disse...

Qual Saramago o próximo Nobel ou Nóbel da Literatura é teu parabéns lindo maravilhoso replecto de imagens quem sabe sabe
Beijinhos grandes

NoKas disse...

Aqui está um rodopio.... e virou.... e virou novamente.... mais uma voltinha.... Quando eu chegar temos que ir ao Midi, à feira....andar nos carrocéis desta vidaaaaa....

Este Monte faz-me lembrar a terra mai-linda-do-mundo: O Alentejo.

Bjocas solarengas

(em honra à nossa amiga búlgara: o cão faz ão ão)

:p