sexta-feira, 27 de julho de 2007

O planeta azul

Nos dias bons sonhava com o corpo caminhando contra o vento (e não com o vento contra o corpo). Mas o planeta era sempre o mesmo, muito redondo e demasiado pequeno para as pernas sempre longas. Explicava ao médico: "Não é o planeta do Principezinho porque não tem crateras e é azul". A psicóloga queria saber sobre a paisagem e ela explicava ao pormenor as várias estrelas ao longe, os planetas do lado que eram afinal rostos de pessoas desconhecidas. Havia também um mar ao fundo diferente do mar da Terra por cair de cima para baixo, escorrendo por uma parede invisível. O psiquiatra perguntou-lhe se via o seu planeta quando estava acordada e ela riu-se divertida. Nos sonhos maus havia uma nuvem redonda que era maior do que o planeta. Nessas alturas, tentava fugir do nevoeiro mas o corpo ficava no mesmo sítio e era o planeta que rodava debaixo dos pés. A naturista falou-lhe dos efeitos de uma nutrição desequilibrada. Também sonhava que abria os braços e se atirava para o espaço mas, por mais que saltasse, voltava sempre a cair no seu planeta. Falou deste sonho num almoço de domingo e a mãe disse-lhe: "Se calhar estás com falta de espaço!". A filha concordou. Nesse domingo foi de comboio para Bruxelas só porque era o próximo comboio a partir. Ao chegar à estação central viu uma placa de rua a apontar para a direita. Leu "Grand Place" e achou apropriado ir vê-la. Entrou na praça por um dos vértices, respirou fundo e sentou-se no centro. Adormeceu sem querer passados alguns minutos. Sonhou outra vez com o corpo contra o vento e, ao acordar, viu um homem ao seu lado. Estava sentado numa cadeira e fumava cachimbo. Aos pés do homem estava uma tela e ao lado dessa tela havia mais telas. Ela levantou-se e pensou "Este vento é igual ao do meu sonho". Depois olhou para os quadros. A imagem do meio era a mais confusa, tinha estrelas, planetas, nuvens, água, vento e luas. No centro da tela viu o seu planeta e perguntou ao homem o nome do quadro. O homem disse: "Universo Paralelo" e ela sorriu. Contou-lhe do seu sonho repetido e o homem ouviu atentamente. No final ela perguntou: "Que quererá isto dizer?" e ele encolheu os ombros. "Não sei, mas é uma sorte teres um planeta só para ti". Ela concordou e voltou satisfeita para a estação.

4 comentários:

NoKas disse...

Sendo BXL um Triângulo das Bermudas, a resposta para todos os fenómenos tipo-X-Files estão por cá. Sem dúvida na Grand Place! :p Por BXL, TUDOOOO pode acontecer.

Bjocas

Rute Borges disse...

O nosso mundo, o nosso canto, o nosso caminho, falta espaço, sobra pernas...
Um beijo

Sandra Malandra disse...

Descobri hoje o teu blog e foi estranho. Não é que me tivesse esquecido que escrevias tão bem, mas apenas não lia nada teu há muito tempo e foi bom sentir que continuas com o mesmo talento e a mesma capacidade de brincar com as palavras.

Voltei há três dias a Portugal e tive de fazer arrumações nas estantes do quarto e descobri, por acaso, entre dois livros, dois textos teus: o "Malditas hormonas" (a grande revelação da tua escrita!) e "A herança" (esse acho que nunca o percebi, dado a minha aversão à ficção cíentifíca!).

A descoberta destes textos na estante parece ter sido o sinal de que algo mais estava para vir desse lado... Pûs um link no meu blog, para te angariar mais leitores porque vale mesmo a pena ler-te...

Beijos e continua a escrever assim.

cata disse...

É difícil escolher... mas este texto é dos meus favoritos do blogue!Talvez por me ter feito lembrar de um postal que me escreveste num aniversário, em que tu e o João me ofereceram um cachecol (como o do Principezinho, por causa do Principezinho)Guardo-os religiosamente o postal numa caixa, o cachecol numa gaveta e vocês - já sabem - estão anexados a mim!
Beijinhos grandes!