Nem sempre o homem de nome V. Moreira fazia coisas esdrúxulas como naquele dia. Mas certas manhãs havia em que uma ideia incomum caía sobre a sua cabeça tão misteriosamente como o pó sobre as mobílias. E naquele dia assim fora:
Às dez horas da manhã desse tal dia V. Moreira estava na Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António a preencher uma declaração para alterar a morada da sua residência permanente. Isto porque o homem de nome V. Moreira se tinha reformado há uns meses e, ganhando consciência de que estava permanentemente de férias, decidira trocar a sua casa de Setúbal pela sua casa no Algarve. Enquanto o senhor Moreira preenchia a declaração, espreitámos por cima do seu ombro e foi nessa altura que aprendemos o último nome deste homem, mas não o primeiro, por falta de oportunidade para uma segunda espreitadela. Estamos, no entanto, convictos de que a primeira letra do seu primeiro nome era V.
A declaração pedia ao homem de nome V. Moreira que indicasse o seu endereço antigo e o senhor Moreira obedeceu. Escreveu Avenida Soeiro Pereira Gomes e antes mesmo de escrever o número, o andar e o código postal, o homem parou de escrever e demorou-se a olhar para o papel. Isto preocupou-nos por motivos óbvios: talvez o homem de nome V. Moreira tivesse esquecido a sua morada em Setúbal ou talvez tivesse saudades dela. Estas hipóteses comprovaram-se, no entanto, erradas, porque o senhor Moreira pensava, não na sua morada, não na sua cidade, mas no próprio Soeiro Pereira Gomes.
É que o homem de nome V. Moreira tinha morado 20 anos na Avenida Soeiro Pereira Gomes, em Setúbal, e há 20 anos que prometia a si mesmo ler um livro daquele escritor. Era, no mínimo, um exercício sensato, dado que conviviam tão intimamente. E, no entanto, finalizadas duas décadas, não só o senhor Moreira não tinha lido um único livro do Soeiro Pereira Gomes, como nunca tinha comprado sequer um exemplar. Na verdade – apercebia-se o homem agora – desconhecia por completo a capa e a contracapa de qualquer um dos livros, nunca lhes tinha sentido o cheiro nem o peso.
Este pensamento transtornava-o. E o homem de nome V. Moreira teve então a ideia incomum de regressar a Setúbal imediatamente. No seu entender, não podia mudar oficialmente de residência enquanto não lesse um livro de Soeiro Pereira Gomes. Sentia-se em falta consigo próprio, com a sua rua, com o escritor.
O homem de nome V. Moreira saiu da Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António, mas nós, infelizmente, perdemo-lo de vista logo na primeira esquina, tal era a sua pressa de chegar a casa.
Anos mais tarde, encontrámos o senhor Moreira vagueando pelo Parque do Bonfim. Pelo seu meio-sorriso esclarecido percebemos que tinha lido os Esteiros, bem como todos os outros livros de Soeiro Pereira Gomes. Nunca tinha chegado a mudar de morada e raramente ia até Vila Real de Santo António.
Estava-se bem em Setúbal.
quinta-feira, 16 de Abril de 2009
A ideia incomum de V. Moreira
Publicada por
pessoana
às
18:29
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8 comentário(s):
Um prazer ler-te!
Bem, que susto me pregaste! Por momentos, pensei mesmo que o V. Moreira mais conhecido tivesse mesmo a mudar a sua morada para o Algarve. É que o subsídio de transporte do PE aumenta se se viajar a partir de mais longe.
Mas digamos que, se o fizesse, não era o primeiro.
Soeiro Pereira Gomes ajudou a mudar muitas mentalidades naquela época.
Gostava de saber por que te lembraste dele agora.
Terá sido conscientemente?
Claro que sim. És nova, mas suficientemente culta para estabeleceres o paralelo.
Li-o como leitura obrigatória no liceu.
Talvez volte a lê-lo agora, já que o lembraste.
Em jeito de troca, aconselho-te o último livro que li "O carteiro de Pablo Neruda" não me lembro do nome do autor. (Tem alguns parágrafos um pouquinho escabrosos, mas no conjunto é um livro apetitoso).
bem a propósito.
o Soeiro Pereira Pereira Gomes faz 100 anos...
... mas o V. Moreira é bem mais "velho"!
admirável ironia. a tua..
Gostei desta tua história.
Um abraço.
Será que o outro V. Moreira está bem consigo próprio? Será que não leu Soeiro Pereira Gomes? Ou será que leu tanto tanto que vai ser difícil ir para... para... para aí?
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