O sentimento, visto de frente e a olho nu, tentava caminhar na direcção oposta ao resto da pessoa, pendurava-se no final dos dedos para tentar ancorar o corpo, mas os braços navegavam em direcção a Este. O sentimento era, por natureza, mais leve do que as borboletas e nada podia contra o peso do cérebro, do estômago e dos pés.
A pessoa caminhante sentia aquele sentimento pendurado nos dedos e, no entanto, seguia em frente.
Em direcção a Este.
De súbito, por lhe faltar a força e o corpo, o sentimento largou o dedo indicador e caiu por causa da força da gravidade. Felizmente, o resto da pessoa apercebeu-se da queda livre e apanhou o sentimento com a outra mão.
Ambos suspiraram de alívio. Entreolharam-se.
A pessoa cerrou o punho para não mais perder o sentimento.
Caminhava, ainda assim, na direcção oposta.
5 comentário(s):
Mesmo caminhando em sentido contrário o sentimento pertence à pessoa...beijos.
os sentimentos são malabaristas. efectivamente...
e por vezes convém contrariá-los... sem os reprimir.
beijos
O nosso Damásio mexeu com o teu subconsciente! Ou mais do que isso?
A forma que encontras ou que jorra de ti para passares a mensagem está sempre para além da vulgaridade.
Saudade ?
Lembro-me sempre de dizerem que não há palavra equivalente noutras línguas, ou pelo menos em algumas. Que tem raiz no mar português.
Há sentimentos assim, que nos querem deixar, mas nós não deixamos.
Ou...
Há sentimentos assim, andam de um lado para o outro.
Ou...
Por vezes sentimos o mesmo sentimento de maneira diferente.
Um abraço.
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