quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Debaixo da terra

Descemos umas escadas e estamos numa estação de metro. Debaixo da terra.
À nossa frente vem um rapaz que é quase um homem. Ou melhor, um rapaz que quer ser homem e não sabe. Ou que não sabe ser homem, mas quer sê-lo. Ou o contrário: que sabe ser e não quer. De qualquer das formas, pelo compasso das pernas e a posição minguante, há qualquer coisa que o rapaz quer e não sabe. Ou que sabe e não quer.
É estudante. Tem uma mochila às costas, logo deve ser. Frequenta um instituto técnico ou coisa do género. Passa nas práticas e chumba nas teóricas. Filho único, arriscamos. De mãe trabalhadora e pai ausente (ou, pelo menos, pouco presente).
Não se pode ter tudo, claro, mas o rapaz não sabe disso. Não quer isso. Não aceita.
Uma luz ao fundo do túnel, um som tempestuoso de Juízo Final e o metro chega. É sempre assim, por isso ninguém se assusta. Está quase vazio o metro por causa da hora (é cedo).
O rapaz não entra.
Achamos isto estranho e ficamos de pé atrás, mas depois percebemos: passam nesta estação duas linhas de metro, uma que vai para Norte, outra que vai para Sudoeste. O rapaz vai para cima e não para baixo. Logo, não entra.
O rapaz encosta-se à parede. Flecte um joelho e calca a parede com o pé direito. Tira do bolso um telemóvel demorado, consulta-o. O aparelho emite uma luz esquisita, igual à dos objectos voadores não identificados. Do outro bolso saem uns fios negros atrapalhados que sobem pelo peito como plantas trepadeiras e desaparecem nos ouvidos: uns headphones de enfiar até aos tímpanos. (O rapaz gosta do que ouve, ou pelo menos parece: abana a cabeça em consonância.)
Continua especado a olhar para o telemóvel, vai carregando nas teclas todas, não sabemos o que faz.
Chega outro metro. Vai para Norte. O rapaz descola o pé da parede e entra na primeira carruagem. (Nós também.) O rapaz senta-se. (Nós não. Vamos bem de pé.)
O rapaz pousa a mochila no colo, abre-a, tira um jornal equivocado. Trata-se possivelmente de uma edição estudantil a contestar o sistema educativo. Consulta a publicação de trás para a frente, salta os artigos. Não lê, vê. Fecha o jornal, gira-o na mão e interessa-se pela contracapa: um anúncio qualquer de um concerto ou de uma festa.
Regressa ao telemóvel, à luz não identificada. De repente levanta-se, sai naquela estação.
Ficamos a vê-lo desaparecer na plataforma. E o metro continua. A vida também.
Era um rapaz subterrâneo, submerso, triste.
Deve ser estranho crescer assim: sem contemplação.

3 comentários:

Sara disse...

Debaixo da terra as histórias ficam assim. No metro há um vazio.
Acaba quando chega alguém para olhar de novo, quando vimos a luz do metro a aproximar-se, quando as portas se abrem para nele entrarmos, quando saímos para ir para onde queremos ou temos de ir.
Em cima da terra não, as histórias enchem-se de contemplação.

Gostei do teu texto!

uxa disse...

Todos os dias começo a manhã de metro.
Desde que leio os teus textos a viagem tornou-se mais interessante.
Estar debaixo da terra não abafa as histórias que se cruzam connosco.
Esta história foi certamente escrita com muito cuidado.

pessoana disse...

A Sara anda inspiradíssima! Devia começar a escrever. Ou então actualizar o blogue dela!:-)

Uxa, não sabia que andavas de metro. Gosto do metro em Lisboa. Aqui gosto menos.
Mas gosto na mesma.
Por ser subterrâneo!