sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O escritor e a cidade

O escritor estava no quarto a escrever. Sentava-se à escrivaninha e rabiscava num caderno liso. O escritor todo-poderoso escrevia sobre a cidade, sempre sobre a cidade, aquela cidade, a sua. O texto que andava a escrever desde ontem chamava-se justamente Cidade.
O escritor fez uma pausa na escrita. Para ir à casa de banho e lavar as mãos. De vez em quando fazia isto para refrescar não as mãos, mas as ideias. Quando regressou ao seu lugar, olhou pela janela. Para espreitar a cidade. Aquela cidade. Pensou: "Na quietude de coisa já vivida".
Nesse momento, mal o pensamento ocorrera, o escritor irritou-se, fartou-se, desesperou-se. Não da escrita, não do quarto, não da janela, não das mãos, não do pensamento, mas da cidade. Daquela cidade. Da sua cidade.
O escritor todo-poderoso não fez mais nada: agarrou na cidade pelos cabelos, amachucou-a e deitou-a para o cesto dos papéis. Depois, aliviado, regressou à escrita. Ao tal texto que se chamava Cidade.

4 comentários:

NoKas disse...

E quando cai a noite na cida.... Então? Quando cair a noite, vai cair sobre o cesto ou sobre as notas do escritor?

Sara disse...

É às vezes é preciso amachucar que é para se poder endireitar. É preciso deitar fora o que não está bem, e ficar com o que realmente é necessário.
Boa cidade!

uxa disse...

Está bem, mas espero que o escritor não se esqueça de aproveitar os papéis amachucados para acender uma lareira, ou de os pôr para reciclar.
Para que o desperdício não seja total. E as frases sejam reaproveitadas.

Periférico disse...

Um escritor urbano!;-)

Beijos