sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Então como estão os seus filhos?

- Olá, olá! Há quanto tempo! Então como estão os seus filhos?
- Desculpe, deve estar a confundir-me com alguém.
- Não, não estou! É mesmo consigo.
- Ai sim?
- Sim, sim, claro! Então como estão os seus filhos?
- Os meus filhos?!
- Sim, como estão eles? Enormes já, não?
- Não, minha senhora. Eu não tenho filhos.
- Ai, não me diga!
- Não, não tenho.
- Uma rapariga tão nova, tão cheia de força...
- Pois, pois! Mas não tenho.
- Ó, que pena! Então e se tivesse?
- Se tivesse?!
- Sim, se tivesse! Como estariam os seus filhos?
- Ó minha senhora, mas eu já lhe disse que não tenho filhos.
- Está bem. Mas e se tivesse?
- Se tivesse?!
- Sim, se tivesse filhos.
- Olhe, tinha-os!
- E como estariam os seus filhos então?
- Sei lá. Olhe, estariam bem, acho.
- Aaaaah, estariam bem! Ainda bem!
- Ainda bem?!
- Ainda bem que estão bem!
- Mas, minha senhora, isto era só uma mera hipótese. Se eles existissem!
- Sim, eu sei! Mas você acha que eles estão bem! Ainda bem que você acha isso.
- Mas porquê "ainda bem"?
- Porque sim, preocupo-me muito com os seus filhos.
- Mas eu já lhe disse que não tenho filhos.
- Está bem, já percebi. Mas podia ter.
- Podia, sim, mas não tenho.
- Mas se tivesse, eles estariam bem. É o que interessa.
- Ó minha senhora, isso não interessa nada. Se eu não tenho filhos, não interessa nada.
- Mas é como se os tivesse.
- Como se os tivesse?!
- Sim, claro. Se quer bem aos seus filhos, é como se os tivesse.
- Não, não é. Como poderia ser?! Eu nunca os conheci! Como poderia ser mãe deles? Não tenho filhos, percebe? Meta isso na cabeça.
- Sim, meto, claro! Mas não se irrite. Você é jovem. Ainda está muito a tempo.
- Muito a tempo?! Muito a tempo de quê?! De ter filhos?!
- Sim, claro. Ainda está a tempo.
- Mas, ó minha senhora, quem é que lhe disse que eu quero ter filhos?
- Ora essa, a menina ainda agora disse que queria!
- O quê?! Eu não disse nada disso.
- Você disse: "Estariam bem". Se tivesse filhos, "estariam bem"! E claro que estariam! Porque você trataria deles, seria uma mãe para eles. É óbvio que a menina quer ter filhos.
- Ó minha senhora, você nem me conhece! Nunca me viu na vida! Como é que pode estar a dizer isso?
- Menina, mãe é mãe. Se você quer bem aos seus filhos, é mãe. Mesmo que eles não existam.
- Desculpe, minha senhora, mas isso não faz grande sentido.
- Faz, sim. Todo o sentido… Olhe, vou ter de sair aqui nesta paragem, infelizmente.
- Ok! Passe bem, minha senhora.
- Você também. Adorei falar consigo!
- Ainda bem!
- Dê cumprimentos meus aos seus filhos.
- Olhe, gostava muito, mas não posso! É que eles não existem.
- Então invente-os! Se eles não existem, têm de ser inventados! Não acha?
- Não, não acho.
- Claro que acha, ora então! Dê-lhes cumprimentos meus, está bem?
- Já lhe disse que não posso.
- Também não precisa de ser já, querida. Dê-lhes depois.
- Depois?!
- Sim, depois.
- Depois, quando?
- Quando eles nascerem.

3 comentários:

Sara disse...

Gosto muito desta história!
É uma forma tão interessante de dizer, como Eduardo Sá, que os filhos existem antes de existirem.(se encontrar a frase dele ainda a transcrevo para aqui)
Ou como a minha mãe ouviu, que os filhos preparam-se nas gerações anteriores.
Gostei muito ponto

heretico disse...

conto de embalar... doce e terno.

NoKas disse...

E já agora? Como estão os seus?