sexta-feira, 28 de março de 2008

No metro

Tem barriga em forma de ovo e sente com a mão o peso do fruto. Quase sorri. Os outros passageiros olham-na atentos, assustados com o fruto desconhecido.
A mulher grávida é, aos olhos dos passageiros, um bicho de duas cabeças.
O homem atrás do ventre vem a dormir. Corpo dobrado sobre si mesmo e barriga inchada, a mão esquerda muito aberta dedilhando a placenta.
Entre o fruto e o mundo, uma parede de sangue.
Entre mulher e mãe, o ovo. Entre mãe e filho, um cordão.
E nós, entre estações, à espera que os outros nasçam.
O metro abre-se como um ovo e nós, os de cá, a saltar para o mundo.
Entre o princípio e o fim, tudo o resto.
E nós, os da vida, no meio.

10 comentários:

uxa disse...

Um conto com a forma de um ovo no centro do universo.
E nós, os da leitura, mais uma vez deliciados ...

Magui disse...

Bonito, muito bonito!

NoKas disse...

Somos também ovinhos... Bolinhas nos metros e trams de BXL... Mas às vezes eu queria não nascer e ficar no quente do ventre da minha cama....

herético disse...

circular o ovo... e a vida!

excelente.

anamoris disse...

Eu amei estar grávida, foi a experiência mais avassaldora da minha vida. Deve ser confortável estar dentro daquele ovinho, pena o pessoal depois não se lembrar a não ser no subconsciente
Beijos

anamoris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara disse...

Primeiro o ovo ou a galinha? O que fica para além do princípio e do fim? Sabemos do ovo, da galinha, do pricípio, do meio e do fim. Aprendemos a viver dentro deste ovo. Queremos ser felizes dentro deste ovo. É bom construirmos um ovo bonito.

Sarabanda

Celulite disse...

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OrCa disse...

Olha p'rò tom melancólico... Fiquei-me a meio caminho entre o ovo e o poema, não parei na estação e não cheguei a sair da composição. Algo assim um 2001 em pouco espaço. Outra «costela» da PessoAna. Não tem freio, ela. Vocês hão-de ver...

方大同Khalil disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.