segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Karl Ove Knausgård

Acabei de ler o primeiro volume daquele norueguês. 
Aquele da autobiografia.
Nunca me lembro do nome do senhor. Mas lembro-me do rosto.
Sim, lembro-me.
Vem na capa. Até lhe tirei uma fotografia.
Assim.

Um rosto impetuoso e desobediente. Com toques de insano. 
Uma pessoa olha para aquele rosto e tem vertigens. 
Eu, pelo menos, tenho. 
É um rosto à beira do desequilíbrio. 
Se o visse na rua diria: "Aquele é o escritor norueguês que mete medo aos leitores mais robustos."
O escritor papão.
Parece um homem bonito, mas não é um homem bonito. Olhem bem para ele. É tenebroso. O rosto cheio de fissuras. 
O Karl Ove - sim, é esse o nome - tem cara de fiorde. Espanta e assombra.
Acabei de o ler na praia. Sentei-me na toalha e fiquei a olhar para o mundo. Era tudo tão aborrecido. O mar sempre igual, a areia aos bocados. Um rabo muito feio ali à frente. Credo. O mundo é tão desengraçado. 
Nem as bolas de Berlim me devolveram o ânimo. 
Entrei na água e fiquei a boiar nas ondas medíocres. 
A culpa era do sol e também daquele norueguês papão.
O Karl Ove escreve de forma lenta e corrosiva. Fala-nos do pai e do irmão, da mulher e da ex-mulher, faz uns desvios por Rembrandt, escreve sobre a neve e as nuvens, sobre o alcoolismo, a incontinência, a imundície. Sobre a "insuportável banalidade" da vida. 
Sim, é disso que eles nos fala. Sublinhei esta expressão no livro, traduzido com minúcia por João Reis. A "insuportável banalidade".
A certa altura vamos com o Karl Ove ao supermercado. Compramos produtos de limpeza. Estamos com ele a lavar a casa com luvas amarelas. A esfregar o corrimão das escadas. Perguntamo-nos: Para que interessa a marca do produto de limpeza? Para que serve esta descrição detalhada do processo?
Não sabemos, mas não paramos de ler. 
Karl Ove cozinha salmão com batatas e couve-flor e nós cozinhamos com ele.
O livro avança devagar como certas horas. Como certos males.
A sua prosa parece enfastiada ou apática, mas não é. É uma prosa sinuosa, aterradora, perturbada.
Eu fico a pensar no rosto deste escritor papão. E também fico a pensar na couve-flor.
Neste volume o Karl Ove comeu couve-flor umas três vezes. 
É o legume mais enfadonho que conheço. 
Fiquei a pensar nisto.
Não sei porquê.

6 comentários:

Bonamassa disse...

NORWEGIAN WOOD (Pop Music)

panelasemdepressao disse...

Olá Ana,
Hoje acabei de ler o teu "supergigante", à beira de uma piscina repleta de adultos, sob um sol alentejano impiedoso. Fiquei com vontade de saber mais de ti, por isso vim espreitar o blog.
E dou de "caras" com o Karl Ove! E com a tua "interpretação" deste fenómeno. Li compulsivamente os três primeiros livros do que parece ser uma autobiografia em seis volumes e anseio pelos restantes. Como referiu uma amiga, ele escreve sobre a morte ou detergentes com a mesma densidade... o que não é propriamente vulgar!

Já agora, o teu livro é da minha filha de dez anos, mas não resisti a ler. De resto, todos os livros da Planeta Tangerina das minhas filhas são primeiramente lidos por mim, quase em jeito de desculpa para aferir se são adequados para a idade e compreensão delas ��

Um abraço,
Guida
P.s. Agora tenho de comprar " O caderno vermelho..." para a Leonor e ler para ver se é adequado aos seus 10 anos ��

pessoana disse...

Cara Guida,
Obrigada pela visita. Fico contente que tenhas corrido com o Supergigante. Espero que gostes da Karateca! De resto, os livros do Planeta Tangerina e de todos os outros planetas não têm idade. Um bom livro é... um bom livro.
Boas leituras e bons mergulhos!

Ana

pessoana disse...

Bonamassa,
Sempre com a mão na massa, a dar-me música!

Anónimo disse...

Não sabia desse Norueguês. Mas assim de repente não concordo que se fale da vida como sendo banal vista de qualquer ângulo. Na minha idade já tive oportunidade de experimentar vários picos e depressões do biorritmo da vida, e todos os dias me surpreendo com alguma coisa.
Este fim de semana estive a banhos, num mar onde mergulhei para a surpresa de uma água fresca mas não fria, envolvente e revigorante. Acabei de ler Luís Sepúlveda e o seu 'O Velho que lia romances de Amor', que me foi aconselhado por uma desconhecida que ia ao meu lado no comboio de regresso do trabalho. Comecei de seguida o Germano Almeida 'Regresso ao Paraiso' e, vai-te catar, o trabalho doméstico, os detergentes, quando servem de pretexto para trabalho de equipa em família não são nada banais.
Beijinhos, a aguardar novidades, Miuxa
P.S.: Acho que o meu blogue foi pirateado, por isso escrevo-te como Anónimo

Miuxa disse...

Ah, é verdade : creme de couve-flor com um toque de tomate ou cenoura é uma sopa que eu adooooooro !
Bjnhs
P.S.- Afinal parece que o meu blogue não está com problemas de segurança :-)