terça-feira, 30 de setembro de 2014

Dia Internacional dos Tradutores

Parece-me muito bem que haja um dia internacional dos tradutores
Hoje bato palmas aos tradutores, porque, coitados, também merecem. A verdade é que ninguém aplaude a tradução de um discurso ou de um texto dramático ou de um poema. Se a peça é boa, felicita-se o encenador. Se o discurso cativa, elogia-se o autor. Uma boa tradução, aliás, passa despercebida.
Os tradutores passam despercebidos.
Quanto mais sei sobre outros idiomas, menos sei sobre a minha língua materna. O multilinguismo confunde-me. Quando aprendo uma língua nova, desaprendo outra. Quanto mais escrevo em português, mais dificuldade tenho em traduzir. Escrever é traduzir. Interpretar é traduzir o outro. 
Eu cá sou linguista e linguaruda, não tenho muitas papas na língua. Além disso, gosto de línguas-de-gato e de línguas-da-sogra, sou lambona.
Num mundo tão interligado e linguareiro como este, os conhecimentos linguísticos são cada vez mais importantes. E desenganem-se os que dizem que toda a gente fala inglês. Não é verdade.
Em 2012, segundo um inquérito do Eurobarómetro (que curiosamente só existe em inglês, francês e alemão), 46% dos europeus não conseguiam manter uma conversa numa língua estrangeira. E os portugueses que se abismem: 61% dos inquiridos não falavam nenhuma língua estrangeira. Estamos ao lado do Reino Unido. How very interesting indeed.
Traduzir nunca foi tão urgente. É preciso perceber o discurso do comissário europeu, a piada de um empresário japonês, os cartazes dos estudantes em Hong Kong. Não há tempo para linguiças nem linguados. A mensagem é mais importante do que a língua (como?), por isso qualquer gato traduz com as patas traseiras.
Agora até as máquinas traduzem. Ainda bem. É só carregar no botão. Maravilha! Eu cá não tenho nada contra. O Google Translate veio responder a uma necessidade de comunicação instantânea e os tradutores, precisamente, não são máquinas. Mesmo que apressem o passo, chegam sempre depois do texto (bruxo!). O mundo não pode esperar.
Hoje em dia, a tradução é feita, de preferência, às três pancadas e numa língua de trapos. Não há tempo para mais. Nem sequer para redigir, quanto mais para traduzir. A informação é rápida e fugaz. Agarrem-na, que ela foge.
Os tradutores, coitados, ficam na sombra de tudo isto. São conhecedores da língua e, na era do linguajar global, isso não interessa para nada. O conhecimento não tem nada a ver com informação. Se não sabes, pergunta ao Google.
Temos todos cabeças de galinha e falamos cada vez pior.
Não sei para onde vamos a correr (e a teclar) desta maneira.
Já se sabe que, no princípio, era o verbo. No fim, não sei.
A propósito disto, convém lembrar que foi São Jerónimo que traduziu a Bíblia para Latim. O Dia Internacional dos Tradutores celebra-se no dia da sua morte.
Ora, sem os tradutores, não havia verbo para ninguém.
Essa é a verdade.

4 comentários:

Bonamassa disse...

LOST IN TRANSLATION BLUES

Miuxa disse...

Os tradutores, estou convencida disso, são seres que têm prazer em mergulhar em línguas, nos cofres-fortes das palavras como o Tio Patinhas mergulha com prazer em moedas.
Já reparei no meu meio profissional que a maioria está com preocupação em que os outros sejam concisos nos seus mails, ou nas suas intervenções. Já com eles próprios, já é outra história. O comportamento mais habitual é não prestar muita atenção ao discurso dos outros. O tradutor, pelo contrário, delicia-se com a diversidade e riqueza das palavras. E com os traços culturais que se vivem nelas.

Planeta Tangerina disse...

Gosto!

ALF disse...

Texto a afixar no corridor do Lex 10...