quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O texto e quem escrevia

Disse o texto a quem escrevia: "Não me escreverás!" e quem escrevia bateu no texto com força dizendo: "Cala-te!". Com o embate, o texto saltou da cabeça e foi aterrar na boca. Quem escrevia tossiu engasgado e levou as mãos aos lábios sentindo o peso do texto na língua. Disse: "Tu nem sequer existes!" e o texto mexeu-se inquieto por dentro. Quem escrevia estava muito parado, quase suspenso sobre a folha tão branca como os voos de infância e, ao soltarem-se, era quem escrevia que caía vagaroso e não a folha, de tal modo impenetrável que não se rasgaria com o gesto de uma mão nem de duas nem de mil. "Pára!", gritou quem escrevia e o texto estava agora na ponta da língua, à beira do abismo, queria falar mas tinha medo de morrer na folha. Calaram-se os dois. Saiu uma palavra dos lábios. O resto do texto tentou puxá-la para dentro da boca, mas ela seguiu corajosa para o mundo. Pousou nas maçãs do rosto e subiu muito réptil, letra a letra. Havia um buraco misterioso e a palavra estalou no ar em salto mortal desaparecendo no ouvido. Quem escrevia ouviu: "Serpente" e endireitou as costas como as serpentes se endireitam para o ataque. A imagem daquele corpo esguio hipnotizava quem escrevia: viu na folha branca o corpo maleável da cobra, a língua repetitiva como as marés, os olhos poderosos em forma de luas. Disse a serpente: "Não me escreverás!" e quem escrevia obedeceu. No sono quase acordado quis desculpar-se. Disse: "Há textos que ficam por dentro" e, ao engolir a saliva, engoliu o texto inteiro que trazia na ponta da língua. Só a serpente ficou no ouvido, as oito letras muito juntas e flexíveis dormindo contra o tímpano. Naquela noite a palavra maleável falou outras palavras e no ouvido nasceram outras letras. Quem escrevia acordou e escreveu o que a serpente lhe ditava.

Era, por assim dizer, a corrupção de quem escrevia, a perdição, a salvação.

O pecado original da escrita.

6 comentários:

Pitucha disse...

O pecado original da escrita! Tens razão. Adorei.
Beijos

NoKas disse...

Há textos teimosos! Bolas!

hbandarra disse...

Que pecado tão original! Gostei muito!

Carlota disse...

Gostei imenso!
Está muito, muito bom!

Sinapse disse...

Que bem escreves!

OrCa disse...

oh-oh... a serpente da sabedoria enroscada atrás da orelha (ou dentro dela), quem ma dera!

Depressa, depressa, o meu reino por uma maçã!