terça-feira, 16 de outubro de 2007

O poço

É certo que fomos de mão dada ao fundo do poço e vimos as trevas (ou talvez tenhamos antes cegado e nesse caso não vimos nada, o que vai dar ao mesmo, porque no fundo do poço o cenário é negro e a vida também). Um dia também nós, os mensageiros dos deuses, fomos negros, levámos outros a enterrar no poço e descemos com eles até a um certo degrau em que a tocha morria num suspiro. Peço-te: não esqueças as tuas origens, volta comigo àquele poço, anda sentar-te naquele degrau. Fomos e viemos carregando corpos de outros às costas. Pergunto: o que seria da vida e da morte sem nós, os caminheiros? Orgulha-te de quem és, meu amor, ninguém é superior a isto, nem mesmo os deuses (eles não sabem o que é a vida nem a morte). Lembro-me do deus das trevas, que nos deu a provar o néctar do fim do mundo. Lembras-te? A mão de Hades à beira dos nossos lábios e nós a morrer um pouco mais do que antes. Repara que essa espécie de morte nos deu outra espécie de luz. Confesso: fico grata à morte por isso. Lembra-te que saímos sempre do poço à força destes braços, eu e tu empoleirados nas costas dos que ficavam no fundo, os embriagados de morte. Somos um pouco mais vivos do que os vivos graças a estes braços, a este poço, a esta morte. Lembra-te dos que nasceram no poço e nunca saíram de lá por não conhecerem o segredo da vida, os filhos dos mortos que corriam atrás de nós pelas escadas. Tinham tanta sede de vida que nos comeriam, se alguma vez nos tocassem. Por tudo isto te digo que somos nós os homens verdadeiramente felizes. Estou grata à vida por poder saborear o teu beijo, mas os vivos não apreciam a beleza das coisas, são como os filhos em berços de ouro, incapazes de dar valor ao próprio ouro. (É trágico ser-se vivo.) Escuta a melodia do nosso andar, pé ante pé, somos tão serenos e sabedores. O lugar da paz está aqui, entre um mundo e o outro, tenho a certeza. Por isso te digo: "Senta-te comigo neste degrau!", a meio do poço. Erguemos a cabeça e faz-se luz, baixamo-la e é noite escura, olhamos em frente e somos apenas. Admite: Somos felizes. No final, depois de tudo isto, quando não houver lugar para a vida nem para a morte, verás como nós, os mortos-vivos, subiremos este poço, pé ante pé, serenos e sabedores como dantes. Será uma outra espécie de morte. Uma outra espécie de vida.

2 comentários:

NoKas disse...

... e depois pé ante pé lá se vai descobrir coisas novas.

OrCa disse...

Metáfora densa, minha amiga... Vivos-mortos em terra de mortos-vivos, haja moribundez que nos redima!

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Beijos.