sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dança africana

A negra bate com o pé no chão e nasce poeira dos seus pés descalços, nasce vida e ar (na verdade nascemos todos juntos por baixo dos pés da negra, muito pequenos, insignificantes, desnecessários). Batem batuques e já não sabemos quem chegou primeiro, se o pé da negra ou os batuques porque estão em perfeita sintonia. É enorme esta negra mas é como se não fosse, pois a sua leveza é própria dos que habitam as nuvens. Fazemos-lhe uma vénia, daí ela parecer maior ainda. Bate com o pé no chão e o outro pé bate de seguida, muito irmãos, e o corpo vibra com as ondas invisíveis dos batuques. A negra abana avolumada as ancas aveludadas, bem-aventuradas e sai-lhe música do ventre. É a própria terra que canta através dela e o que parecia um caos é agora ordem, por o seu corpo ser a origem de todas as coisas. A negra tem um tambor por dentro e quando bate o pé no chão, temos a certeza de que esse é o primeiro batuque do mundo, o primeiro som, a palavra de ordem. Lembramo-nos: "No princípio era o Verbo" e vemos nesta negra o corpo e a alma do início. Queremos comunicar. Por isso levantamo-nos e batemos com o pé no chão. A negra leva-nos pela mão e estamos em perfeita sintonia. Pensamos: "Um pouco mais de inocência para sermos autênticos" e tentamos esquecer-nos de nós próprios. A certa altura conseguimos e abrimos os braços para o mundo. Somos apenas poeira por baixo dos pés da negra.

2 comentários:

NoKas disse...

Somos: Poussières d'Etoiles!

:)

Mas ao ritmo morno africano.

Sara Bandarra disse...

Belo conto que encontro aqui hoje. Andava com vontade de ler algo assim, como só tu sabes escrever. Cliquei em música, na nuvem de etiquetas e encontrei!