terça-feira, 28 de agosto de 2007

A velha e o cão

A velha batia-lhe com o jornal se o visse, por isso ele esperava que a dona fosse à cozinha. O cão apoiava-se então nas patas traseiras, levantava a mão da frente e coçava a nuca com enorme fúria. Por vezes, a velha apanhava-o em flagrante e enrolava o jornal com as mãos muito trémulas. Enquanto lhe batia, cuspia asneiras entre lábios já que não tinha dentes e dizia-lhe que era mau, que as carraças vinham da mão de Deus, que ele seria punido depois da morte no Inferno por ser um cão tão reles. Em certos dias não lhe dava de comer para o castigar ainda mais e o cão já nem gania de lamento.
Certa manhã, a velha deu com o cão ao lado do sofá, deitado quase de costas. "Queres mimo, queres! Cão imundo, em ti não te toco eu!", jurava a velha e depois praguejava em silêncio, o queixo balbuciando alguma verdade. De facto, o cão estava deitado em posição de festinhas, mas já estava morto havia dias e a velha tardou em aperceber-se disso. Até que, certa vez, reparando que o peito do cão não crescia nem encolhia, lá sentenciou: "Vais pró Inferno!". A velha sentou-se no sofá com a ajuda da bengala enterrada na carpete. Explicou ao cão que o criado de Lúcifer o viria buscar e resolveram esperá-lo juntos durante dias, a velha no sofá e o cão a seus pés, deitado quase de costas, a língua desenrolada no chão. A velha só então se apercebeu do comprimento exagerado daquela língua. Possivelmente, articulando-a bem, aquele cão conseguiria falar. Assim como assim já era tarde para isso pois os mortos não falavam perante o Diabo.
Finalmente alguém abriu a porta da rua. A velha ajeitou a almofada satisfeita, o criado que viesse levar o cão imundo. Mas em vez do mensageiro de Lúcifer, entravam afinal a filha e o genro, um ao lado do outro, gordos como balões. Já não os via há anos, a filha estava cada vez mais feia e ficava ainda mais horrível quando vociferava por causa das veias em relevo no pescoço. O que a filha dizia era incompreensível, a sua dicção era péssima, antes fora que lhe tivesse amarrado uma língua de cão à boca quando a ensinara a falar. A velha levantou-se e disse que não era boa hora para estarem ali, pois esperavam o criado de Lúcifer. Depois coçou a nuca em compasso de espera, mas nenhum dos dois arredava pé. O genro disse qualquer coisa incompreensível à filha, mas esta não respondia, parecia em estado de choque. É que a mãe, em vez de falar, ladrava e tinha carraças no corpo todo.
Cão que ladra não morde, dizia o genro de si para si. Era um pensamento deveras estúpido.

3 comentários:

hbandarra disse...

Muita giro! Beijo!

OrCa disse...

A brincar, a brincar, pintaste-nos um quadro de imenso desassossego. Uma "short story" à Stephen King, que tem esse mérito suplementar de não ser nada à Stephen coisa nenhuma, mas sim altamente pessoano. Perturbante até ao arrepio. Com a tua ironia de "sarcasmo afectuoso" sempre tão presente no que escreves. Verdade. Tens-me aqui de fã.

Beijos.

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado