terça-feira, 21 de agosto de 2007

Frustrações

Há duas coisas que detesto:
uma é ter um chocolate no bolso e descobrir que está derretido;
outra é que me passem à frente na fila como quem não quer a coisa.

A primeira frustração é de mim para mim:
recrimino os meus bolsos, revolto-me, engulo a água contracorrente que nasce na boca.

A segunda frustração é de mim com os outros:
somos tristes, estendemos a tigela para a sopa e comemo-la em silêncio, mais sozinhos do que queríamos.

O chocolate derretido no bolso dá-me vontade de bater com a mão na minha testa.

Quando me passam à frente, dá-me vontade de bater com a mão na testa dos outros.

Lembro-me agora que bato mais na minha testa do que na dos outros.

Hipótese:
talvez ponha chocolates no bolso com mais frequência do que perco o meu lugar na fila.

Tento contar com os dedos das mãos e apercebo-me:
nunca bati com a mão na testa de ninguém.
Nunca. E sinto-me frustrada com isso.

Bato na minha testa para aliviar a frustração, mas ela estala na cabeça e permanece.

Cresce-me água na boca.
Imensa água na boca.

Vou por aí bater na testa dos outros.
Como quem não quer a coisa.

3 comentários:

NoKas disse...

Ora acho que os outros até mereciam, né? Pelo menos um "opá, vai pó teu lugar mas é"!

Claudette Guevara disse...

trunfas!

OrCa disse...

Ouvia, há momentos, um som estranho, como que de alguém a bater palmas... Afinal, eras tu, à palmada! Chega-lhes!...