sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A planta

O Senhor Adelino casou aos 30. Tinha uma casa, dois filhos, dois automóveis, um cão, um gato, um periquito. Divorciou-se aos 50. A ex-mulher ficou com os filhos, o gato e o periquito. Venderam-se a casa e os automóveis. O Senhor Adelino ficou com o cão. Depois de tudo isto reformou-se. Era novo. O cão morreu no ano seguinte. Abatido.
O Senhor Adelino resolveu então comprar uma planta. Parecia-lhe uma forma de vida fantástica: o silêncio profundo, o segredo alquímico da fotossíntese, a natureza completa no toque fibroso das folhas, a simplicidade da vida. Anunciou para as paredes: Vou comprar uma planta.
A florista da rua tinha orquídeas na montra. O Senhor Adelino considerava-as exuberantes. Uma questão de gosto. Não queria flores, queria uma planta. Verde. Só verde.
Entrou na loja. A florista tinha cara de flor: o rosto muito redondo, o cabelo aos caracóis, volumosos como pétalas. O Senhor Adelino disse: Queria uma planta. Verde. Só verde. A florista olhou-o em silêncio, de cabeça um pouco pendurada para a frente, igual às flores.
No fundo da loja havia uma planta verde, de caule longo e folhas largas, cheias de saúde. O Senhor Adelino apontou. Levo aquela.
A florista baptizou-a com um qualquer nome latino, trouxe-a para o balcão. Tratava-se de uma palmeira de interior. Origem mexicana. O Senhor Adelino achou aquele exotismo interessante.
A florista deu conselhos.
Era uma planta cheia de vitalidade. Muita água. Muita luz. O caule crescia tanto que era preciso mudar de vaso daqui a algumas semanas. Também falou da qualidade da terra. Da quantidade de luz e de sombra. Dos cuidados a ter no Inverno. Dos cuidados a ter no Verão.
O Senhor Adelino decidiu não levar a planta verde. Desculpou-se: Sou incompetente. A florista calou-se. Repetiu: Sou incompetente. A florista pendurou um pouco mais a cabeça. Acrescentou: Para cuidar da vida. Da vida dos outros. Para cuidar da vida em geral.
Voltou para casa. Muita água. Muita luz, muita sombra. O Senhor Adelino bebeu um litro de água e plantou-se no sofá. Se criasse raízes, talvez os seus braços crescessem e nascessem outras mãos, outros braços. Assim talvez as coisas se tornassem mais alcançáveis. O tecto, por exemplo. As nuvens. A vida.
O Senhor Adelino resolveu então comprar um escadote.
Na cozinha havia um espaço entre o frigorífico e o armário. Arrumaria aí o escadote. O Senhor Adelino sentia-se menos incompetente. Anunciou para as paredes: Vou comprar um escadote.
Já dava para chegar ao tecto.

8 comentários:

Periférico disse...

Só espero que o senhor Adelino, não tenha alcançado as nuvens, por ter perdido a vida, ao trepar o escadote enquanto tentava chegar ao tecto... Às tantas também desistiu de comprar o escadote!;-)

Beijos e bom fim-de-semana

Magui disse...

A vida tem coincidências interessantes. Também ontem ofereci uma planta a uma pessoa que se sente solitária. A planta precisa de ser revitalizada e essa pessoa de sentir que há vida para além de si mesma, mas ela recusou a oferta com um ar de repugnância. No entanto já subiu alguns degraus na escada da vida ontem mesmo. Ainda bem que não guardou o escadote entre o frigorífico e a parede.

O que só se farta de gostar disse...

Um dos teus mais belos textos!
Gostei imenso!

OrCa disse...

O senhor Adelino é um homwem de consciência. Tanta até à inconsciência. Quando descobrir que o escadote o deixa ultrapassar o tecto da cozinha, das duas, uma: ou ganha o céu, ou fica com uma profunda sensação de desperdício. Isso talvez lhe seja fatal, pois o céu pode cobrar-se com um traumatismo craniano e o desperdício irá, decerto, deprimi-lo. Cruel dilema, mas a vida é cheia de opções.
Ai dele, entretanto, se optar por se guindar ao alto do escadote e se puser de cócoras, com medo de bater no tecto!

:-)

Beijos.

uxa disse...

Também eu já tive tendências para escadotes. Alguém me fez acreditar que podia cuidar de flores.

Bjnhs

NoKas disse...

As plantas que ofereci aos Adelinos que conheci na vida morreram... se calhar é verdade... à pessoas que deviam era receber escadotes! :p Vou pensar nesta alternativa para a próxima!

licrife disse...

Ha plantas e plantinhas, estas ultimas teem de ser bem regadas todos os dias e faz bem conversar com elas senão elas murcham e ficamos plantados no sofa.Beijocas

Plica disse...

Muito giro!
Talvez um dos teus melhores!!!
Beijinhos!